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Como Jesus Reage à “Normose” de sua Época

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4 CAPÍTULO III – JESUS COMO EXEMPLO DE UMA INTELIGÊNCIA

4.3 QUEM FOI JESUS DE NAZARÉ?

4.3.2 Como Jesus Reage à “Normose” de sua Época

Vimos como os fariseus estavam preocupados com a “normose”. Era mais importante o sábado que a pessoa; a mulher adúltera deveria ser apedrejada, pois esta é a lei; o cego não deveria ser curado, pois seus pais eram pecadores; a mulher do fluxo de sangue não podia tocá-lo, pois era impura. O povo na época de Jesus fazia experiências da “normose” apesar de serem extremamente “religiosos”, voltados para seu Deus, para o qual cumpria todos os rituais. Entretanto, percebe-se que não estavam em sintonia com a lei do amor, ou seja, aquela lei profunda que a dimensão da experiência da inteligência espiritual fornece.

Para que entendamos melhor o conceito de normose, ele foi definido anteriormente pelos estudiosos Crema (2003, p. 191), Leloup (2003, p. 183) e Weil (2003, p. 23-9). Normose foi definida como o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por consenso em uma determinada sociedade que provoca sofrimento, doença e morte. É algo patogênico e letal. A normose seria uma normalidade doentia. Ela se distingue da normalidade saudável como, por exemplo, levantar-se cedo e caminhar todos os dias, e da normalidade neutra, que é almoçar todos os dias ao meio-dia. Em todos os tempos e em todas as épocas, a humanidade viveu esse mal, deixando que suas normas, seus conceitos e seus hábitos superassem sua ética respaldada no amor e na compaixão.

Para Weil (2003, p. 21-2), quando todas as pessoas estão de acordo a respeito de uma opinião ou a uma atitude e maneira de atuar, manifesta-se um consenso, que ditará uma norma. Quando a norma é adotada por muitos, cria-se um hábito. A maior parte de nossos costumes é resultado de normas que adotamos, mais ou menos conscientes, mediante a imitação de nossos pais e educadores. Essas normas deveriam ter a função de preservar nosso equilíbrio físico, emocional ou mental, bem como a harmonia e a qualidade de vida. Weil (2003, p. 22) afirma que há uma crença bastante enraizada segundo a qual tudo o que a maioria das pessoas sente, acredita ou faz deve ser considerado normal. Por conseguinte deve servir de guia para o comportamento geral, de roteiro para a educação. Nem todas as normas são benevolentes. Algumas são geradoras de sofrimento e de enfermidades, podendo conduzir à morte. Contudo, por serem dotadas de um

consenso social, as pessoas não se dão conta do seu caráter patogênico. Segundo Weil (2003, p. 23):

Certos fatos e algumas descobertas recentes sobre as origens de sofrimentos e doenças, na esfera individual ou social, como as guerras e a violência, bem como na esfera ambiental, como a destruição de ecossistemas, estão a contestar seriamente o conceito de normalidade sustentado por consenso social. Surge uma denúncia lúcida de que certas normas sociais, atuais ou anteriores, levam e levaram a sofrimentos físicos e morais indivíduos, grupos e a comunidade global.

Tudo indica que Jesus enfrentou uma sociedade normótica em sua época. O consenso social que existia em relação a algumas leis era uma verdadeira violação ao ser humano. Jesus com a sua inteligência espiritual se contrapôs à normose por que era mais ético que moral. A compaixão era a raiz de sua ética. Ele se posicionou contra a normose de seu tempo. Este exemplo de vida, a este posicionamento de Jesus nos reporta a ressaltar que a atitude dele seria de total inteligência de seu espírito.

Para Leloup (2003, p. 134), a primeira normose contra a qual Jesus começou a lutar foi contra o discurso que pensa que as satisfações materiais dos seres humanos podem resolver todos os seus problemas. O ser humano não vive apenas de pão. Trata-se de lhe dar o pão com esta qualidade de amizade e de humanidade. O ser humano não é apenas o homo economicus. A segunda normose contra a qual Jesus se coloca é a do poder. Jesus foi tentado por Satanás: “Eu lhe dou todas as nações e de todas elas você poderá fazer uma só, se você se inclinar diante de mim” (Lc, 4, 5). Então, Jesus responde: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto” (Lc 4, 8). Nessa passagem, vê-se a tentação do poder político, que é juntar todas as nações numa só; a uniformização, a redução de todas as diferenças dentro do mesmo molde; colocar todo mundo numa espécie de grande exército, com regras muito precisas. E assim, novamente, dizer o que é certo e o que é errado. E aquele que conseguir dirigir o mundo dessa maneira será o mestre do mundo. Para Leloup (2003, p. 135), Jesus renuncia ser um Messias político para dominar os seres humanos. Assim, ele se conduz como o sal. Ele renuncia ao poder econômico, e ao poder da magia. Jesus sai da normose ditada pela sociedade de sua época e busca preservar a liberdade humana.

Conforme Mateos e Barreto (1999, p. 165), Jesus começa sua atividade pública mostrando sua incompatibilidade com o templo oficial. Naquela cidadela de

regime judaico, com um grupo político religioso dominante, os fariseus, que declararam sua qualidade de messias, propõe abertamente sua intenção e faz sua denúncia, mais com ação do que com palavras. Escolhe uma ocasião em que a cidade está cheia de peregrino; quer que sua atuação seja uma proclamação que atinja todos os cantos do país. Conforme Mateos e Barreto (1999, p. 165), simbolicamente, com a expulsão dos animais, Jesus anuncia seu propósito de libertar o povo da exploração disfarçada de culto, denuncia o domínio do dinheiro e acusa as autoridades religiosas de abusarem dos pobres com o comércio do sagrado. Nesse contexto, ele dá a conhecer ao povo o verdadeiro caráter da instituição religiosa, preparando-o a aceitar as mudanças que irá propor mais adiante. Jesus acusa os dirigentes de terem desvirtuado a missão histórica do templo em benefício de seus próprios interesses. A reação das autoridades é bem típica; em vez de abandonar sua injustiça, opõem-se a Jesus. Aqui Jesus, com muita coragem, confronta e estabelece sua disciplina, indo contra a normose estabelecida naquela época.

Jesus combateu profundamente a normose do seu tempo, quando permitiu aos discípulos que colhessem e comessem as espigas de milho no sábado, mesmo com toda a imposição dos fariseus (Mt 12, 1-8); com a cura da mulher siro-fenícia (Mc 7, 24-29); quando expulsa os mercadores do templo. Entendemos serem estas atitudes as de uma pessoa em plena sintonia com sua inteligência espiritual (Mc 11, 15-19). O encontro na casa do fariseu com a mulher pecadora que lhe ungiu os pés com suas próprias lágrimas (Lc 7, 36-50); a cura de uma mulher que tinha um fluxo de sangue há doze anos, considerada impura pelos fariseus (Lc 8, 43-48); quando Jesus censura os fariseus e os escribas, pelo motivo de não ter se lavado antes da refeição (Lc 11, 37-54); o encontro com Zaqueu, o cobrador de impostos, quando ele diz: “Zaqueu desce depressa porque hoje irei pousar em tua casa” (Lc 19, 2-10); o encontro com a mulher adúltera, em que os fariseus a trouxeram para que Jesus desse o seu veredito, em que ele fala a todos: “quem dentre vós estiver sem pecado que lhe atire a primeira pedra” (Lc 8, 2-11).

Para Crema (2003, p. 50) não existiu outro líder que com apenas doze colaboradores redefiniu toda a história de parte da humanidade. Jesus foi agente de cura do corpo físico, limpou a pele de leprosos e abriu os olhos de cegos. Jesus promoveu cura psíquica pela profunda e eficaz psicologia do perdão, pelas parábolas sábias que resistem aos séculos e ainda mantêm o frescor original.

Promoveu também noética, ao ensinar a terapia da benção e da oração. Crema (2003, p. 50) afirma que Jesus era agente de conexão com a essência da vida, colocando-nos em contato com aquele que, na sua intimidade, ele chamava de Paizinho. Tudo fazendo muitas vezes contrário da vontade daqueles que se diziam senhores da lei, do templo e da vida de sua época.

A exemplo do que vimos no segundo capítulo, segundo Zohar (2000, p. 260),

a pessoa que vive em sintonia com a inteligência espiritual: reafirma que é necessário procurar mais o porque e as conexões entre as coisas, trazer para a superfície as suposições que se faz sobre o sentido das coisas, tornando-se mais reflexivos, assumindo responsabilidades, sendo mais honestos e mais corajosos, tornando-se conscientes de onde se esta, quais são as motivações mais profundas. Identificando e eliminando obstáculos. Examinando as numerosas possibilidades, comprometendo-se com um caminho e permanecendo conscientes de que são muitos os caminhos.

Diante do exposto, entendemos melhor como Jesus parece ter vivido profundamente a sintonia com a inteligência espiritual, pois ele estabelece uma relação a si e ao mundo atitudes de equilíbrio, de abertura, de reconhecimento, respeito e valorização.

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