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Como percorrer o caminho?

No documento Rogerio da Costa Neves (páginas 90-93)

Tendo apresentado, na seção anterior, aquilo que passou a ser a minha

forma de compreender e explicar como conheço o que sei

21, passei a buscar uma abordagem metodológica que possibilitasse compreender o

fenômeno da discussão de assuntos complexos por aqueles que o vivenciam em sua formação e no desempenho de seu trabalho ± professores e alunos; sem deixar de levar em consideração, em seus métodos de implementação e de geração de dados, os princípios postulados pelo paradigma da complexidade. Sob o enfoque desse paradigma emergente, será necessária uma mudança de referenciais teóricos; atitudes na forma de se pesquisar e de encarar o objeto sob estudo. Esta

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Adaptação da frase de Sandin-Esteban (apud Moraes e Valente, 2008:ϭϯͿ͗͞΀͘͘͘΁ĠƵŵĂĨŽƌŵĂĚĞĐŽŵƉƌĞĞŶĚĞƌ ĞĞdžƉůŝĐĂƌĐŽŵŽĐŽŶŚĞĐĞŵŽƐŽƋƵĞƐĂďĞŵŽƐ͘͘͟

metodologia deverá facilitar, propiciar a melhor compreensão do fenômeno que viso estudar e me auxiliar a responder a seguinte pergunta:

x Como se constituem os fenômenos da discussão de assuntos complexos na perspectiva de professores e alunos?

Ao longo do caminho que percorri do início desta pesquisa até seu relato, distanciei-me gradativamente das ideias preconizadas pelo paradigma simplificador, de natureza positivista, que até hoje nos faz acreditar que só se pode atribuir confiabilidade a um estudo se este puder ser transferido a outros contextos e seus resultados puderem ser generalizados em diferentes situações. Precisava, então, de uma abordagem metodológica que estivesse em consonância, em seus procedimentos e em sua linha filosófica, com este novo caminho escolhido por mim para vislumbrar meu contexto de pesquisa e o objeto que desejava estudar.

Em uma pesquisa de fundamentação positivista, procura-se encontrar uma realidade organizada, ordenada, uniforme em seus aspectos temporais e espaciais, fragmentada, onde sujeito e objeto de pesquisa ± entendidos aqui como a realidade da maneira como ela se apresenta ± estão nitidamente separados, guardando entre si relações lineares e diretas sem que seja levada em conta a complexidade das relações que os envolvem. Contudo, sob o olhar da complexidade, a realidade é tida como em constante mudança, dinâmica, multifacetada, sendo concomitantemente estável e instável. A realidade é incerta e de natureza complexa.

Em um caminho complexo, razão e emoção constituem dois lados complementares de um único tecido construído pelas relações objetivas e/ou subjetivas em que professores e alunos estão envolvidos em seu dia-a-dia escolar. A complexidade permite, assim, resgatar aspectos anteriormente evitados, ou mesmo omitidos, pela pesquisa: a inserção do sujeito cognoscente, as emoções dos participantes ao vivenciar o fenômeno, dentre outras.

O sujeito passa a trazer, consigo, para pesquisa, como eu trago para este relato, sua história de vida que, de uma forma ou de outra, influencia e interfere nas escolhas feitas ao longo do processo, na forma com que encaram o fenômeno, nas motivações que o levaram a fazer este tipo de pesquisa e na maneira com que observa a paisagem que se põe ao longo de seu caminho. Para Moraes e Valente (2008), essa paisagem:

[...] não é uma representação fiel do real, mas uma de suas possíveis interpretações, a partir de processos co-determinados ocorrentes nas relações sujeito/objeto. (p. 24)

Maturana e Varela (1997) defendem que toda objetividade é sempre uma objetividade entre parênteses, pois o observador/pesquisador está sempre incluído no sistema que descreve, o que o faz constituir a sua própria realidade e dela participar ativamente. Este pensamento encontra respaldo na Física Quântica, no princípio da Incerteza de Heinsenberg (1927), que postula que um observador perturba o fenômeno e é por sua vez perturbado em sua percepção do mesmo.

A pesquisa, feita sob um paradigma simplificador, tentará minimizar ao máximo as incertezas e considerará o inesperado, o imprevisto como algo negativo que deve ser evitado, eliminado ao longo do processo. Com esse intuito, mune-se de hipóteses, tenta reduzir variáveis, buscando sempre uma desejada linearidade de causa e efeito. Entretanto, por maiores que tenham sido os esforços para traçar e planejar os procedimentos e ações de pesquisa, será importante, dentro de um paradigma emergente, que esteja atento e aberto a possíveis alterações de trajeto, ao inesperado, às incertezas que possam ocorrer no decorrer de nossa pesquisa.

Morin e seus colaboradores, nas palavras de Moraes e Torre (2006:148), revelam que o método não é uma estrutura previamente definida, mas algo que se vai construindo do mesmo modo que um barco vai deixando o seu rastro à medida que avança, o que o faz estar, desta forma, aberto, todo o tempo, às emergências, às incertezas, aos possíveis desvios e às retomadas de caminho que se façam necessárias.

Tendo os princípios da complexidade em mente e o que foi exposto nesta seção, posso mais facilmente compreender a necessidade de uma metodologia de pesquisa que não tente isolar o objeto, já que desta forma destruiria sua realidade (Morin, 1977/2008). Em sua visão, Moraes e Valente (2008) defendem que, para compreender o objeto de pesquisa, é necessário:

[...] compreender as relações que o caracterizam; perceber as interdependências, a complementaridade dos processos, bem como as interferências que acontecem, mas lembrando sempre que, por mais que tenhamos um pensamento profundo e abrangente, nunca conseguiremos compreender o todo, pois dele somos também parte. (p.34)

Moraes e Torre (2006:148) afirmam que para Morin, pesquisar em Educação requer que o pesquisador assuma alguns princípios teóricos importantes, tais como:

a complexidade, a subjetividade, a incerteza, a causalidade circular, abandonando o maior dos pressupostos do paradigma simplificador, a causalidade linear onde a cada ação temos obrigatoriamente uma consequência que pode ser prevista de antemão.

Ao se fazer pesquisa, tendo como fundamentação teórica a complexidade, parte-se do pressuposto GH TXH D UHDOLGDGH p XPD ³XQLGDGH GH FRQWUiULRV´, uma realidade repleta de contradições (Prigogine, 1996), na qual uma relação dialógica entre diferentes participantes, interlocutores, permitirá a criação conjunta de significados (Moraes e Torre, 2006:151). Sujeito, observador e fenômeno observado participam ativamente na construção dos fenômenos - a discussão de ACs na perspectiva de professores e alunos. Esta particularidade decorre do fato de que nada é estático e que o tempo exerce um papel decisivo e irreversível na construção do fenômeno; fica impossibilitada, desta forma, sua repetição, uma vez que todos nele envolvidos serão de alguma maneira modificados pelo próprio processo.

Dentro de uma visão complexa, sou, como pesquisador, levado a observar a discussão de ACs, e, a mim mesmo, como inserido em um contexto maior, um contexto histórico, sociocultural e afetivo, abandonando uma ideia fragmentada de fenômeno e dando espaço a uma construção mais abrangente, na qual são levadas em consideração diferentes visões de um mesmo fenômeno, em todos os seus processos.

Apresento a seguir a abordagem metodológica adotada nesta pesquisa. Ela foi escolhida por responder, em grande parte, às prerrogativas aqui apresentadas como fundamentais de uma pesquisa cujo arcabouço teórico envolve a complexidade, a subjetividade, a incerteza, o erro e a auto-organização de sistemas complexos.

2.1. O caminho escolhido:

No documento Rogerio da Costa Neves (páginas 90-93)