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Como se Apresenta o Universo da Prisão

No documento Prisão : (páginas 73-85)

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2„1„ COMO SE APRESENTA O UNIVERSO DA PRISÃO

Do surgimento da pena privativa de liberdade até os dias atuais, dois séculos jã transcorreram. Nesse período, ó institu to teve acolhida em quase todos os países. Não obstante, a priva ção de liberdade vem sendo fortemente questionada, em face dos graves problemas a seguir descritos.

0 professor Augusto Thompson, em sua significativa obra "A Questão Penitenciária" analisa o temâ com muita propriedade, abordando-o numa perspectiva social e apreendendo-o na sua reali d a d e . ^

A aplicabilidade generalizada da pena privativa de liber (2)

dade propiciou o aparecimento de grande numero de comunidades (3)

fechadas. Nestas comunidades passaram a conviver indivíduos de diferentes procedências, quer de família, de ambiente ou reli. gião, com idade, costumes e nível sócio-econômico-cultural os mais diversos, separados de forma abrupta da sociedade livre e desenvolvendo obrigatoriamente uma vida. própria.

Esta sociedade prisional propicia um ambiente fechado mui. to particular, com regime específico, resultante inicialmente da imposição decretada pela ordem judicial, quase sempre afastada de sua execução, onde certos indivíduos, de repente e de forma coercitiva, se vêm envolvidos.

0 sistema prisional não representa hoje apenas uma simples questão de grades e de muros, de celas e trancas, mas é visto co mo uma sociedade dentro de uma sociedade, onde foram radicalmen (4) te alterados numerosos comportamentos e atitudes da vida livre.

custodiaxnento e na manutenção da ordem interna dessa sociedade, que concentra um poder repressivo nas mãos de muito poucos, abrin do um infindável abismo entre os mandantes e os mandados, ura ver dâdeiro regime, totalitário em que os presos são submetidos panog ticamente a um controle extremo, através de constante vigilância, e minucioso regulamento, a uma estrutura severa e limitada, de privacidade impossível, em que a conduta e a intimidade de cada um ê observada pelos demais.

0 mundo da prisão ê antes de mais nada um mundo complexo. Não há objetivos comuns definidos, exceto o imediatismo de segre gar o. indivíduo da sociedade. 0 conflito do preso com os funcio­ nários da prisão <e com os demais presos ê uma constante. A vida social numa prisão ê sobremaneira difícil e quase impossível de vido a um ambiente de desconfiança total, esperteza e desonesti dade lã reinantes. É' um mundo do "eu", "mim" e "meu" antes do "nos so", "deies" e "dele".(5)

0 indivíduo, quando obrigado a deixar a vida livre e aden trar neste tipo de sociedade, submete-se a um processo de adapta ção que Donald Clemmer, em sua obra, "Prizonization in the Socio logy & Correction", denominou "prisonização", definindo-a como: "Adoçao em maior ou menòr grau do modo de pensar, dos costumes, dos hãbitos — da. cultura geral da penitenciária".^^

Como ocorre a prisonização, também denominada colonização, por Goffmann?

Responde Thompson, citando Donald Clemmer: "Toda pessoa quando submetida â prisão, de certa forma e com certa extensão se prisoniza, até inconscientemente vai assimilando o "modus vi^ vendi", os hãbitos, costumes e as imposiçoes ■carcerárias.."

Evidencia João Farias Junior: "Os p r e s o s r e c e b e m u m a e s p é cie de t r a n s f u s ã o de i n f l u x o s d e l e t é r i o s , q u e t e m o p o d e r de trans f orm á-lo s. p a r a p i o r . E m g e r a l v a i se d e s a d a p t a n d o d o s c o n d i c i o n a m e n t o s s o c i a i s e x t r a - m u r o s n a m e d i d a em q u e v a i se a d a p t a n d o aos c o n d i c i o n a m e n t o s s o c i a i s i n t r a - m u r o s " .

Sofre o primeiro impacto com a ruptura brusca de seu "sta tus" quando de sua pura e simples subordinação anônima a um gru po de pessoas prisioneiras, passa a trajar as mesmas roupas, a

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usar seu linguajar, adquire novos hábitos relativos aò comer, dormir, vestir, trabalhar, de obediência permanente, aprende a jogar, o.u nova maneira de fazê-lo, desconfia de todos, adquire comportamento sexual anormal, sente rancor de tudo e de todos.

"A p r i s o n i z a ç ã o l e v a a d e s o r g a n i z a ç ã o da p e r s o n a l i d a d e , ã d e f o r m a ç ã o do c a r á t e r , à d e g r a d a ç ã o do c o m p o r t a m e n t o e ao a b a n d o

(9) no d o s p a d r õ e s de c o n d u t a da v i d a e x t r a - m u r o ".

Por igual, também o corpo de administração, tanto os car­ cereiros e guardas como psiquiatras, psicólogos e diretores do -estabelecimento sofrem o mesmo processo de assimilação e prisoni.

zação.

Em suma, os processos e efeitos, da prisonização atuam so bre os participes da relação penitenciária.

2.2. P R i m ç Õ E S PRISIONAIS

Muitos estudiosos do sistema prisional denominam as diver sas privações impostas ãs pessoas dos presos de- "Dores da Pri. são": privação de liberdade; privação de bens; privação de auto nomia; privação de segurança; privação de relações heterosse xuais.

PRIVAÇÃO DE LIBERDADE

A privação de liberdade é o pior dos sofrimentos que se pode impor ao ser humano. O rompimento compulsório com a família, principalmente com os filhos, com o recinto e a privacidade do lar, via de regra é o mais difícil de suportar.

É, uma dupla privação: 0 confinamento na instituição e o confinamento dentro da i n s t i t u i ç ã o . " A d e m a i s , estar preso im plica como diz Goffmann (1961:16) numa morte civil, perdendo o detento uma série de direitos que lhes são garantidos pelas leis do, país e ainda significa que perdeu.o direito de ser considera. do um membro confiável da. sociedade — ao cometer um crime foi

(

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)

rejeitado pela sociedade (Sykes, 1974:6667).

Mesmo após o cumprimento da pena e o retorno ã sociedade, o egresso tem algumas situações anteriores restabelecidas, ou tras porém são irrecuperáveis: como o tempo não empregado com a gestão de negócios, atividades técnicas e profissionais, seus aperfeiçoamentos, criação e educação dos filhos, privacidade fa miliar, etc.

PRIVAÇÃO DE BENS

Outra severa privação para os cativos é a retenção, por parte da administração das prisões, de todos os objetos pessoais

dos prisioneiros. No cubículo é permitido apenas portar o essen ciai à higiene pessoal. Impossível, também, guardar ou utilizar objetos particulares ou trajar roupas individuais, pois o uso de uniforme é obrigatório,.

A prisão dá ao detento o estritamento necessário: unifor me, sapatos e roupas de cama, todos iguais, impessoais e de qua lidade ordinária e, às vezes, repassados de outros presos. Como esclarece Goffmann: " U m a v e z q u e o i n t e r n a d o s e j a d e s p o j a d o de s e u s b e n s , o e s t a b e l e c i m e n t o p r e c i s a p r o v i d e n c i a r p e l o m e n o s al g u m a s s u b s t i t u i ç õ e s , m a s e s t a se a p r e s e n t a sob f o r m a p a d r o n i z a da, u n i f o r m e s no c a r á t e r e u n i f o r m e m e n t e d i s t r i b u í d a s . . . 0 f a t o de n ã o d a r c h a v e s a o s i n t e r n o s e as b u s c a s e- os c o n f i s c o p e r l õ d i c o s de p r o p r i e d a d e p e s s o a l a c u m u l a d a r e f o r ç a m a a u s ê n c i a de , „(13) b e n s .

Estes constantes conferes e os conf iscos periódicos dos bens de propriedade individual do preso marcam o início da perda dê sua identidade. É que geralmente as pessoas atribuem grandes sentimen tos aos objetos que possuem. Contudo, a mais significativa perda da posse não é a material e física, pois a perda do nome subst_i tuído por apelidos ou números constituem uma das maiores mutila ções que se pode impor ao ser cativo.

Goffmann ressalta que um conjunto de bens .--individuais tem uma relação muito grande com o eu. A pessoa geralmente espera ter certo controle da maneira de apresentar-se diante dos outros. Pa ra isso precisa de cosméticos, de roupas, instrumentos para usá- — los ou conserta-lo s , bem como de um lugar seguro para guardar es ses objetos e instrumentos. Em resumo: 0. indivíduo precisa de "um estojo de identidade" para controle de sua aparência pessoal. Tam

bêm precisa ter acesso a especialistas em apresentação — por exemplo, barbeiro e costureiro.

Destarte, o preso com a perda dos bens de sua propriedade é despido também de sua aparência individual, o que, provoca uma desfiguração pessoal e causa um verdadeiro impacto a sua identi dade.

PRIVAÇÃO DE AUTONOMIA

No sistema prisional o estado de subordinação à direção do estabelecimento, aos guardas, aos regulamentos, ãs regras, aos horários, ãs ordens e contra ordens, conferes e revistas é total. Tal situação não enseja a mínima possibilidade de escolha ou opção por parte do preso. A obediência ao comando e ao corpo burocrático não permite ao interno manifestar sua opinião, exter nar sua vontade ou interesse. A conseqüência desta característi. ca de completo cerceamento é sem dúvida, de uma grande apatia ou frustração indizível.

0 automatismo coercitivo a que são submetidos todos os re clusos retira-lhes completamente a iniciativa e até os desejos mais reservados, a ponto de apresentarem-se hesitantes entre ■ o fazer e o não fazer, com o próprio senso de auto-determinação a_l terado, aguardando que outros tomem decisões por eles..

Esta situação vem em total prejuízo dos presos, pois en fraquece a personalidade, mormente, ao serem tolhidos de todo e qualquer poder de decisão. Conseqüentemente, cumprida a pena, re tornam ã vida livre completamente confusos e até alienados.

Tal característica é ainda sobremaneira, agravada pela per da absoluta do direito de intimidade, porque mesmo que o preso tenha direito ao cubículo, está sempre sujeito ãs revistas, tan

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to pela manhã, ã tarde e até durante a noite. Pode ser acordado a qualquer hora pelos guardas para procederem as conferências pesso ais em seus pertences, em suas roupas, em sua cama. En'fim, tudo é revistado. "A r e v i s t a c o r p o r a l é v i s t a s e m p r e , c o m o u m a v i o l a ç ã o , q u a l q u e r s e j a a d e l i c a d e z a . . . A r e v i s t a n ã o é e n e m p o d e r ser c o n s i d e ­ r a d a c o m o u m a s i m p l e s o p e r a ç ã o de c o n t r o l e : e l a a g r i d e , ao m e s m o t e m p o , o c o r p o r e a l , o c o r p o i m a g i n á r i o e o c o r p o s i m b ó l i c o . 0 ho (15) m e m r e v i s t a d o é u m h o m e m . p o s s u í d o . " T h o m p s o n n o s o f e r e c e a s e g u i n t e d e s c r i ç ã o : "Se c a m i n h a no p á t i o , da f a x i n a p a r a o s a n i t á r o , p o d e te r os p a s s o s i n t e r r o m p i d o s p o r u m a v o z s e ca: ’v o c ê aí, e s p e r e * . U m v i g i l a n t e r e s o l v e u sub m e t ê - l o a u m a r e v i s t a e x t r a ; l e v a n t a os b r a ç o s , a b r e as p e r n a s , d e i x a - s e a p a l p a r , m ã o s e s t r a n h a s i n v a d e m - 1 he os b o l s o s , d a l i r e t i r a n d o p a p é i s , m a ç o de c i g a r r o , f ó s f o r o s , c é d u l a s de d i n h e i r o e o q u e m a i s h o u v e r ; ãs v e z e s o m a ç o ê r a s g a d o p o r i n t e i r o , u m ' c i g a r ­ ro- é d e s m a n c h a d o , b i l h e t e s ou c a r t a s , c a s o h a j a , são. l i d o s c u i d a d o s a m e n t e . M i n u t o s d e p o i s , v i n d o do sanitário, p a r a o r e f e i t ó r i o p o d e se r n o v a m e n t e e s c o l h i d o , p o r o u t r o g u a r d a , p a r a o u t r a revi_s ta e a o p e r a ç ã o se r e p e t e , de f o r m a i d ê n t i c a . P o u c o i m p o r t a n ã o r egi s t r e , s u a h i s t ó r i a p r i s i o n a l u m a ú n i c a i n f r a ç ã o : a v i s t o r i a se rã f e i t a c o m a m e s m a s u s p i c á c i a , pois s u a c o n d i ç ã o de p r e s o g e r a f o r t e s r a z õ e s p a r a sèr j u l g a d o u m i n d i v í d u o a b s o l u t a m e n t e c a r e c e d o r . d e c o n f i a n ç a . ' P r e s o ê p r e s o 1 — d i t o c o r r e n t e e n t r e os f u n c i o n á r i o s — i g u a l a a t o d o s os i n t e r n o s c o m o o b j e t o s d e p r a v a d o s e p e r i g o s o s ."(16 )

Gomo assevera Julita Lemgruber: " E n f i m t o d a v i d a f o r ç a d a d e n t r o da p r i s ã o s o f r e u m a p r o f u n d a r e g i m e n t a ç ã o e n ã o h á c o m o a

interna rebelar-se contra a mesma ou contestar sua autorida de."(17)

PRIVAÇÃO DE SEGURANÇA.

A privação de segurança se faz sentir com grande in tens ida de no dia a dia do prisioneiro. Tanto a imprensa falada como, es. crita, relatam com freqüência assustadora, a grande violência/ brutalidade e ameaça que ocorrem nos meios prisionais, culminan do, muitas vezes, em rebeliões, motins, fugas e mortes.

Os motins e fugas e as conseqüentes mortes são, na ver dade, uma constante em nossas prisões, principalmente, nos presí dios e nas penitenciárias das grandes cidades do Rio de Janei. ro e São Paulo. "0 próprio Ministro da Justiça já admitiu a pre cariedade do sistema penitenciário no hoje deiuõcfáüico eixo Rio- -São Paulo-Minas. (...) 0 que ocorre nas prisões brasileiras? Num tempo de abertura política, cias apresentam provavelmente ; um grau de inquietação e violência pouco experimentado antes no país. (...) A temperatura nunca esteve tão alta quanto neste verão, nos p r es í dios bras i le ir o s . E, se o episódio no Manicômio Judiciário de São Paulo (ISTO É N9 317) foi até o momento o de mais fúnes_

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tas conseqüências com sete mortos, é no Paraná que se encon tra hoje a maior fonte de preocupações das autoridades peniten ciárias. Ali, o choque entre duas diferentes concepções de admi nistração penitenciária — a 1iberalizante e ortodoxa . — é res ponsá-vel pelo foco de tensão em que se transformou a pen i tenc iá.

,, ( T () ) n a de Piraquara. v '

Observa-se na reportagem publicada na revista Visão de 24/01/83, página 38 ã 48, sob o título, "Fuga para a Morte", que

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em abril de 1982, ocorreu horrível tragédia na Casa.de Detenção, de São Paulo, com tentativa de fuga e motim, resultando um saldo de dezenas de mortos e feridos. Há quase um ano e pouco, exata' mente dia 29 de dezembro de 198.1, com tentativa de fuga na peni tenciária de São Paulo , resultou quatro mortos e um refém grave mente ferido. Em data de 09/01/83, um domingo, seis detentos do Manicômio Judiciário, Franco da Rocha, São Paulo, iniciaram uma tentativa de fuga e alguns minutos depois estavam todos mortos, também, um dos reféns. O outro refém, que escapou com vida, ga rante que o companheiro foi morto pela própria polícia.

A TV brasileira, por uma de suas emissoras, mostrou num documentário dramático, que se estendeu por semanas, a cruel rea lidade do mundo prisional e suas ligações com o mundo do crime extra-muros (TV Globo — • Bandidos da Falange).

No intra-muros os cativos não possuem meios de defesa frênte aôs ataques, ámeâçás-de toda ordem, agressões- tanto físi cas como morais, estas, por meio de piadas, gracejos, deboches, além de abusos e atentados. "Na detenção não existe xadrez sem um líder reconhecido por todos. É o 'xerife', ou 'Juiz' do xa drez, cuja. autoridade se baseia no constrangimento físico dos o^u tros presos, ou numa folha corrida tão horripilante que se impõe de per si. Os 'xerifes' exigem a vassalagem dos demais com expe_ dientes que parecem um tanto exótico, mas que na prisão são acejL tos com naturalidade. No pavilhão nove da Casa de Detenção, por exemplo, qualquer recém chegado — no 9 são sempre presos prima rios — é obrigado a transportar nas costa, durante alguns dias,

o líder da cela ou seus protegidos, no relaxante momento em que * '

o u t r o , e s t a l a os d e d o s n a d i r e ç ã o de u m n o v a t o e diz: 't ã x i l ' Os ’t á x i s ' do p a v i l h ã o 9 n ã o c o s t u m a m r e c u s a r p a s s a g e i r o s . "

Thompson apresenta as várias maneiras pelas quais o domi nador explora o dominado: quer transformando-o em sua própria mu lher, quer tomando-lhes os bens (os as.saltos nos pátios são fre­ qüentes)- quer forçando-o a conduzir-lhe o estoque, (de sorte que tenha sempre à mão, para qualquer eventualidade e sem correr o risco de portá-lo pessoalmente) , quer obrigando-o de fazer a dijs tribuição da mercadoria proibida — cachaça, maconha, livrando- -se do perigo de ser encontrado na posse do contrabando, (os gran des traficantes jamais botam a mão no objeto do comércio, sendo literalmente impossível puni-los disciplinarmente, por uma ativi. dade que lhes rende grandes lucros) e assim por diante.

. " A d u z T h o m p s o n q u e a p a r t i c i p a ç ã o n u m a p u g n a , a i n d a q u e v i s a n d o r e p e l i r a b u s o s e x u a l , é c o n s i d e r a d a c o m o p r o v a de t ê m p e ra m u i t o v i o l e n t a e p e r i g o s a e s u j e i t a r a o i n t e r n o a t o d a s as con s e q ü ê n c i a s d i s t o : c e l a surda:, i s o l a m e n t o , p e r d a de f a x i n a , l o t a ção n o s p i o r e s s e t o r e s do e s t a b e l e c i m e n t o ou t r a n s f e r ê n c i a de p e n i t e n c i á r i a , d i f i c u l d a d e s (e m g e r a l , v e r d a d e i r a i m p o s s i b i 1 ida. de) de o b t e r l i v r a m e n t o c o n d i c i o n a l ou a p r o v e i t a r i n d u l t o c o l e t i l-o " (21) to.

Como vem sendo denunciada, tanto pelos pesquisadores e es tudiosos do sistema, prisional, como também, hodiernamente, pela imprensa falada e escrita, a tortura, a sevícia, o arbitramento e o desrespeito já datam de muitos anos,, inclusive culminando com a própria morte no interior das prisões, como por exemplo, do jornalista Vladimir Herzog, do operário Manoel Fiel Filho, presos, torturados e mortos nas dependências carcerárias.

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Ainda, recentemente, nossa imprensa noticiou largamente o motim e mortes ocorridos na Casa de Detenção de São Paulo, chama da de Casarão pelos presos, construída nos anos 50 para abrigar 2.500 pessoas e que foi inchando de tal forma que chegou a con finar um número exorbitante de até 7.500 indivíduos. Por oca sião de tal motim, ocorrido em data. de 29/03/82, lã se encontra, vam quase seis mil presos, entre primários e reincidentes, consi. derados irrecuperáveis, com penas somadas que atingiam a 100 e 150 anos. Os resultados foram dramáticos, 13 mortos, 25 presos feridos, três funcionários mortos e três feridos. Morreu um pre so apelidado de "Elke Maravilha11 e foi encontrado com a cabeça fora das grades da janela de sua cela, no pavilhão 5, corno, mor reu ninguém sabe, mas apresentava vestígios de um tiro na testa.

Além de toda esta tragédia, ainda há de se acrescentar â morte de um detento por enforcamento. Foi enforcado pela "Tere za" como é chamada pelos presos sua corda, e quase todos têm uma, feita de tiras de lençol entrelaçadas e às vezes untadas de ver niz ou cola. Com a "Tereza" os presos se comunicam de pavilhão a pavilhão, andar a andar, trocam mensagens em papel, passam pe quenas quantidades de maconha, cigarros e o que mais for possj[ vel. Com a "Tereza" eventualmente matam, embora prefiram ò;s file tes, feitos de qualquer pedaço de lata que possa ser afixada e afiada, tornada pontiaguda. Neste local,, os presos não dispensam estiletes e as "Terezas" para a sobrevivência, pois a violência faz parte da rotina do dia a dia.

A Casa de Detenção em São Paulo distribui os presos con forme certos critérios:

PAVILHÃO 9 - Recebe os réus primários em termos, pois já trazem uma bagagem de dúzias de inquéritos. São perigosos.

Ao todo abriga 3.000 detentos;

PAVILHÃO 8 - recebe os réus reincidentes, onde superlotam as ce las até com 20 homens, abrigando 2. 000 pessoas;

PAVILHÃO 7 - recebe os presos que trabalham na administração; PAVILHÃO 6 - funciona a cozinha e a dispensa;

PAVILHÃO 5 - recebe os detentos que são ameaçados e pedem prote ção;

PAVILHÃO 4 - funciona a enfermaria e as celas dos primários;

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