Os povos primitivos ignoravam quase que completamente as penas privativas de liberdade e as prisões. Utilizavam a pena de morte como uma medida suprema, pura e simples, e para os crimes reputa dos graves e atrozes, apenavam os culpados cora suplícios adicio nais, de efeitos amedrontadores. Tais penas também foram consa gradas em épocas e por legislações mais avançadas.
Inicialmente, a detenção aparece na historia como uma me dida simplesmente preventiva para, sõ mais tarde, tomar um cará ter repressivo e tornar-se um tipo de penalidade.
0 que determinou o nascimento e a transformação das pr^L sões?
Nas sociedades poiuco desenvolvidas a prisão preventiva não era necessária, pois a responsabilidade é ainda coletiva e não individual.-. .'Mio' .'.ê ~so...':ò. acusado que deve reparar o mal cometi do, mas, se ele faltar, o clã, de- que ele mesmo faz parte, arca com as conseqüências. A medida porém, que a sociedade vai se de senvolvendo, cresce a vida coletiva e se intensifica a responsa bilidade que se torna individual. Para evitar a fuga a prisão aparece, localizada nos palácios dos reis., nas dependências dos. templos, nas muralhas que cercavam as cidades.
Em Roma, é na fortaleza real que se encontrava a mais ve lha prisão; na Idade Media, no castelo senhorial e nas torres das muralhas que rodeavam as cidades; na Judeia, em fossas baixas; no antigo México, em gaiolas de madeiras onde eram amarrados os acu sados.
ções econômicas e sociais da época não permitiam a construção de estabelecimentos penais adequados, usavam~se os mais variados sijs temas de aprisionamento. Eram utilizados até buracos em forma, de fossas, onde o condenado era remetido para ser exposto e lhe apli carem suplícios. Lã., apodrecia na imundície, no meio de vermes.
Estas formas de prisões não constituíam penas propriamen te ditas, nem eram ligadas a crimes definidos.
Nesta investigação histórica e evolutiva das prisões veri fica-se que o Código de Manu apenas trata do assunto num de seus versículos: " Q u e a lei c o l o q u e t o d a s as p r i s õ e s s o b r e v i a p ú b l i ca, a f i m de q u e os c r i m i n o s o s a f l i t o s e i g n ó b e i s s e j a m e x p o s t o s
(31) aos o l h a r e s de t o do s".
Tal prisão é análoga ao pelourinho, pois o condenado é re tido para ser exposto e lhe ser aplicado uma série de suplícios, já que a detenção não constituía, em si, pena propriamente dita.
A Lei Mosaica não mencionava uma. única vez a pena.detenti va de prisão. Se O "Pentateuco" não previa a pena, de prisão, pos; teriormente as "Crônicas" e o"Livro de Jeremias", em muitas pajs sagens, falavam em prisões, fossas e entraves, como medidas pre ventivas em que os acusados aguardavam o julgamento.
É só no "Livro de Esdras" que-, pela primeira vez , o apri
sionamento é considerado pena. ' ■ .
Os germanos e os eslavos simplesmente ignoravam a pena de prisão.
Em Atenas era usada como pena especial. Sócrates fala em detenção perpétua e Platão, em seu plano de cidade perfeita, pro põe suprimir várias penas, substituindo-as pelo aprisionamento;.
31
Contudo, pouco foi usada, a não ser como meio de impedir a fuga dos acusados ou para forçar certos devedores a pagar suas dl vi. das, em que os juizes determinavam uma multa, e tinham o direito de acrescentar uma prisão de cinco dias, com entrave no.s pés, nas prisões públicas.
Em Roma a situação era semelhante. Raramente a prisão era aplicada, salvo aos escravos, soldados e atores.
Assim, a pená de prisão, como sanção autônoma e principal forma de punição, percorreu ainda um longo caminho antes de se fixar definitivamente.
1- A S P R I M E I R A S P R I S Õ E S E A S C A S A S D E F O R Ç A
Foi na sociedade cristã que a prisão tomou forma de san ção. De início, foi aplicada temporariamente e, após, como de tenção perpétua e solitária, em cela murada. "A prisão celular n a s c i d a no séc. V, tev,e... i n i c í a L m e . n t e ap 1 ica.ç.ão a p e n a s no.s ■ tn°£ t e i r o s . A i g r e j a n ã o p o d i a a p l i c a r p e n a s s e c u l a r e s , e s p e c i a l m e n te a p e n a de m o r t e , d a í e n c a r e c e r o v a l o r da s e g r e g a ç ã o q u e fa v o r e c i a a p e n i t e n c i a . 0 e n c a r c e r a m e n t o n a c e l a , d e n o m i n a d o " i n p a c e " , d e u o r i g e m a c h a m a d a p r i s ã o c e l u l a r , n o m e q u e há a t é b e m (32) p o u c o tempo e r a u s a d o n a l e g i s l a ç a o p e n a l " .
Segundo Mariano Ruiz Funes "A i g r e j a instaura- c o m a p r i são c a n ô n i c a o sistema' da s o l i d ã o è do s i l e n c i o . A s u a r e f o r m a t e m p r o f u n d a s r a í z e s e s p i r i t u a i s . A p r i s ã o e c l e s i á s t i c a é p a r a os c l é r i g o s e se i n s p i r a n o s p r i n c í p i o s da m o r a l c a t ó l i c a : o r e s g a t e do p e c a d o p e l a d o r , o r e m o r s o p e l a ma a ç ã o , o a r r e p e n d i m e n t o da a l m a m a n c h a d o p e l a c u l p a . T o d o s e s s e s f i n s de reinte. . ~ (33) g r a ç ã o m o r a l se a l c a n ç a c o m a s o l i d ã o , a m e d i t a ç ã o e a prece."
Com o aparecimento da pena de reclusão houve o enfraqueci mento progressivo da pena de morte. As penas mais graves foram as primeiras a ser atenuadas para depois desaparecerem. A medida que tais penas se retiram do campo da punibilidade, formas novas invadem os espaços livres. A pena privativa de liberdade durante muito tempo guardou um caráter misto e indeciso, muitas vezes, era aplicada acessoriamente, até se desembaraçar pouco a pouco e atingir sua forma definitiva. De prisão preventiva, passou pos; teriormenté para prisão, na forma depena privativa de liberdade.
Só no séc. XVIII é que foi reconhecida como pena definiti va em substituição ã pena de morte. Antes, a simples prisão não era considerada suficiente, acrescentando-se outras privações: carência alimentar, utilização de cintos, entraves, colar de fer ro e outros.
Finalmente, o Código Penal Francês de 1810 e sua revisão de, 1832»,, deixaram de lado todos os âemais^.supií;Gios^/aS:.raedá;daade' exasperação e os trabalhos forçados perderam seus objetivos.
Tornando-se a prisão um tipo de pena autônoma, as primei ras experiências registraram-se na Europa. " U m a d e l a s t a l v e z a que a s s u m e p r i o r i d a d e é a c a s a de f o r ç a de G a n d , q u e se c o n s e r v o u a t é n o s s o s d i a s se b e m q u e de s a>t i v a d a , 'Trem' u m v a l o r e r.i s i :e,, ademais,' é o c o m e ç o de u m a t r a d i ç ã o qu e l a n ç o u r a í z e s p r o f u n d a s
/ O A \ na o r g a n i z a ç ã o p e n i t e n c i á r i a b e l g a . F u n d o - a V i l a i n XIV, em 1775".
As casas de força apareceram no séc. X V I , eram destinadas a internar os mendigos, vagabundos, prostitutas e jovens entre gues a uma vida desonesta,:os quais estavam sujeitos a um regi me de trabalho obrigatório. Assinala Prins, "que as primeiras c£ sas desta classe se estabeleceram em Londres (1550), Nuremberg
33
( 1558), A m s t e r d a m (1595), para h o m e n s , (1597) p a r a m u l h e r e s .
Entre os anos 1609 e 1629, surgem prisões, também, em vã rias cidades da Alemanha.
É, mais precisamente nos séculos XVII e XVIII que surgem grande número de estabelecimentos de detenção para os condenados, com os mais distintos nomes, não obedecendo a nenhum princjE pio penitenciário, excluídas, ainda, todas as normas de higiene, pedagogia e moral.
Observa-se de Mariano Ruiz Funes, citando Prins: "Os de ti dos são a m o n t o a d o s c o n f u s a m e n t e n u m a p r o m i s c u i d a d e i n t o l e r á v e l , a c h a n d o - s e s u b m e t i d o s ao r e g i m e m a i s d u r o , s o f r e m p e n a s d i s c i p l i n a r e s c o r p o r a i s e são o b r i g a d o s a t r a b a l h o s p e n o s o s . Só r e c e b e m a l i m e n t a ç ã o m í n i m a (pão e á g u a ) . . . A f a l t a de ar, a l i m e n t o s e de c u i d a d o s h i g i ê n i c o s m a i s e l e m e n t a r e s é tâ l q u e ás f e b r e s i n f e c
c i o s a s se p r o p a g a m no i n t e r i o r d a s prisões,, d i z i m a m :os reclus.os e se t r a n s m i t e m p a r a f o r a , p r o d u z i n d o v e r d a d e i. ros d.anos ã p o p u l a
- , • „(37) çao l i v r e .
As prisões eram geralmente subterrâneas, apresentavam-se insalubres, infectas e repelentes. Tais estabelecimentos,, verda deiras masmorras do desespero e da fome, se abarrotavam de conde nados,, criando situações tenebrosas e insuportáveis.:.
Os prisioneiros eram ali jogados e relegados ao mais com pieto abandono, sofrendo cruéis torturas.
2. JOHNHOWASP
Se, com Beccaria, em 1764, deu-se o início do período da hümanização da pena, foi com a figura do inglês, John Howard (1720-1796), que com o seu livro, State of Prisons in Ingland and
Wales (1777), se registrou na Inglaterra um movimento revolucio nãrio para humanizar as regras disciplinares da detenção penal e o regime prisional da época.
Howard dedicou praticamente toda sua vida a estudos. e pe.s quisas sobre as condições e melhoramentos carcerários. Em 1773 foi nomeado "Sheriff de Bedford11, quando teve a oportunidade de fazer contato direto com delinqüentes e visitar as prisões.
Em 1774 e 1779 apresentou, por duas vezes, â Câmara dos Comuns, seu projeto de reforma carcerária e por duas vezes não lo grou aprovação. Idealizava Howard, um sistema penitenciário ba seado em recolhimento celular, reforma moral pela religião, tra balho diário, com as necessárias condições higiênicas e alimenta res. C o n f o r m e n a r r a J o ã o F a r i a s J u n i o r : " E m 1 7 5 5 h o u v e u m ter r í v e l t e r r e m o t o e m L i s b o a c o m m i l h a r e s de v'íti m a s . C o n d o ído da de s g r a ç a de t a n t a gente., d i r ig i u - s e a B o r t u g â l . .0 navio, e m qu e v i a j a v a foi c a p t u r a d o p o r p i r a t a s f r a n c e s e s , s e n d o l e v a d o p r e s o s e m j u s t a c a u s a p a r a a F r a n ç a . P o s t o aí m i m a p r i s ã o s u b t e r r â n e a , f i c o u i s o l a d o d o s s e u s e do m u n d o , s e m e s p e r a n ç a s de r e c u p e r a r a l i b e r d a d e , s e m m e i o s de c o m u n i c a ç ã o c o m n i n g u é m , c o n v i v e n d o c o m b a n d i d o s da p i o r e s p é c i e , t r a t a d o c o m d e s p r e s o e t o r t u r a . S o f r e n do h u m i l h a ç õ e s e ins uf i c i en e i à' a 1 i m e n t ar , f ò i ac o m e t ido p o r u m a d o e n ç a q u e e r a c h a m a d a de " f e b r e das p r i s õ e s " , . E s s a f.ebrè d e c o r " r i a da f a l t a de a r e j a m e n t o e f o r m a ç ã o de m i a s m a e e m a n a ç õ e s -mefí t i c a s . D e p o i s de m u i t o s o f r i m e n t o c o n s e g u i u p r o v a r a su a i n o c e n (38) c i a e v o l t a r ã P á t r i a " .
De certa forma o- esforço de Howard não foi inútil. Com a ajuda do Duque de Richmond, foram construídos dois estabelecimen
tos penitenciários, nos moldes que preconizava, em 1775 e 1781, chamados "Penitenciary-House". Posteriormente, o governo inglês construiu mais outro, Mondham Norfolk.
Recorreu e foi vitorioso junto ao Parlamento, na abolição do pagamento de carceragem, libertando muitos indivíduos, cujas penas encontravam-se cumpridas, porém eram mantidos reclusos por não poderem pagar a taxa carcerária.
Em suas peregrinações pelo mundo visitou inúmeras prisões e condenados. Faleceu com 64 anos de idade, em 20 de março de 1790, em conseqüência de moléstia contraída nestas visitas.
3 = SISTEMA PANÓTICO
Com a morte de Howard, suas idéias lograram continuidade através do criminalista e filósofo inglês, Geremias Bentham (1748 e 1832), que apresentou um modelo de estabelecimento prisional de forma diferente,; conhecido como panótico.
O panótico era um tipo de prisão celular, caracterizada pela forma radial, em que uma só pessoa podia exercer em qual quer momento, de um posto de observação, a vigilância dos interio res das celas; "uma casa de penitência com uma vantagem essen. ciai: a faculdade de dar conta, com uma só visada a tudo que se
n „ (39) pas s a n e i a .
Segundo a descrição de Foucault: "0 panóptico de Bentham é a figura arquitetural desusa composição. 0 princípio ê conheci do: na periferia uma construção em anel; nõ centro uma torre; es_ ta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica ê dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas j ano
las, uma p a r a o i n t e r i o r c o r r e s p o n d e n d o às j a n e l a s da t o r r e , ou tra q u e dá p a r a o e x t e r i o r , p e r m i t e q u e a luz a t r a v e s s e a c e l a de l a d o a lad o, B a s t a e n t ã o c o l o c a r u m v i g i a n a t o r r e c e n t r a l , e em c a d a c e l a t r a n c a r u m l o u c o , u m d o e n t e , u m c o n d e n a d o , u m o p e r á rio, u m e s c o l a r . P e l o e f e i t o da c o n t r a l u z , p o d e - s e p e r c e b e r da t o r r e , r e c o r t a n d o - s e e x a t a m e n t e s o b r e a c l a r i d a d e , as p e q u e n a s sj^ l u e t a s c a t i v a s n a s c e l a s da p e r i f e r i a . T a n t a s j a n e l a s , t a n t o s pe^ q u e n o s t e a t r o s , e m q u e c a d a a t o r e s t á s o z i n h o , p e r f e i t a m e n t e iri d i v i d u a l i z a d o e c o n s t a n t e m e n t e v i s í v e l . 0 d i s p o s i t i v o p a n ó t i c o o r g a n i z a u n i d a d e s e s p a c i a i s q u e p e r m i t e m v e r s e m p a r a r e reconhe^ cer i m e d i a t a m e n t e . E m suma , o p r i n c í p i o da m a s m o r r a é i n v e r t i d o ; ou a n t e s de s u a s t r ê s f u n ç õ e s : — t r a n c a r , p r i v a r de luz e e s c o n d e r — só se c o n s e r v a a p r i m e i r a e s u p r i m e - s e as o u t r a s d u a s . A p l e n a luz e o l h a r de u m v i g i a c a p t a m m e l h o r q u e a s o m b r a , q u e fi n a l m e n t e p r o t e g i a . A v i s i b i l i d a d e é u m a a r m a d i l h a . "
Nesse sistema restava o prisioneiro trancado em sua cela, oxide era espionado de frente pelo vigia, as paredes laterais im pediam o contato com os seus companheiros. Era visto e observado anonimamente,sem cessar, porém nada podia ver. Não havia o perigo de evasão, de projeto de novos crimes, más influências, contá g.ios, roubos, violências, etc.
0 Panótico não significava somente uma nova arquitetura de um edifício, de celas individuais, voltadas para o centro do pavilhão, janelas com grades na parede externa, com uma torre de supervisão no centro, onde o guarda tinha fácil visão de todo o seu interior. Mas pretendia guardar os prisioneiros com maior se gurança e economia, sob ó efeito de uma reforma moral, de boa conduta e de educação.
liberdade do homem, que dela havia abusado, para prevenir novos crimes, desviar dele os deiaais indivíduos, pelo terror e pelo exemplo. A casa de correção devia propor a reforma dos costumes das pessoas reclusas, a fim de que seus regressos ã liberdade não constituíssem uma desgraça â sociedade nem aos encarcerados.
Adepto da corrente utilitarista da pena, dava muita impo.r tância ã prevenção do crime- Era contra os rigores da prisão, lu gar infecto e horrível, escola de todos os crimes e de todas as misérias, das quais dizia, poder visitar só tremendo. Pregava a ausência dos sofrimentos corporais nas prisões, o trabalho obri gatõrio, para evitar a ociosidade e desenvolver as aptidões do preso e uma vigilância rigorosa para evitar confabulações perni ciosas e indecorosas.
Observa Bentham: "Se o p o d e r executivo: e x p õ e a v i d a dos p r i s i o n e i r o s m e d i a n t e s e v e r i d a d e q u e o l e g i s l a d o r n ã o a u t o r i z a c o m e t e u m v e r d a d e i r o H o m i c í d i o . M a s se o l e g i s l a d o r a u t o r i z a e s t a s s e v e r i d a d e s , r e s u l t a q u e s e m c o n d e n a r u m h o m e m ã m o r t e , f á - l o s e m e m b a r g o , m o r r e r , nã-o1 p e l o suplíc io- d e : u m i n s t a n t e , s e n ã o p o r o u t r o , h o r r í v e l , q u e ãs v e z e s d u r a m m u i t o s a n o s " .
A obra principal de Bentham,"Teoria das Penas e das Recom pensas", foi lançada em 1813» Sua obra denominada "Memória", foi enviada à Assemblêia-Legislativa Francesa em 1791, objetivando a‘ reforma das leis criminais, que -apenas ordenou sua impressão, mas não se preocupou com o problema. Nesta obra, o autor menciona três sistemas de organização penitenciária:, a) prisão cloaca — que é um lugar de corrupção total, sem intervalos para a refle xão, que endurece o homem para vergonha; b) prisão da soledade absoluta — que preserva os reclusos do contágio moral e lhes per
mite a reflexão e o despertar do arrependimento. Este sistema ce lular puro a principio produz um efeito salutar, mas logo perde sua eficácia e conduz ao desespero, â loucura ou ã.insensibilida de. Do ponto de vista econômica ê muito oneroso; c) prisão de ce la múltipla — capaz de conter vários prisioneiros, escolhidos pela idade, caráter, grau de criminalidade e perversidade.
O panõtico foi aprovado na Inglaterra. Houve determinação do Parlamento que objetivava a consignação de verba necessária à aquisição de terra e sua construção, rnas nada foi feito. Contu do, a sua influência foi notória e as prisões radiais povoaram o mundo inteiro.
A primeira penitenciária panõtica foi construída nos Esta dos Unidos em 1800, na cidade de Richmond — Virgínia. Em 1826 foi construída a penitenciária Panõtica de Pittsburg — Pensilvâ nia e em 1919, a penitenciária de • Statev.ille, refletindo uma com blnação do estilo panótico e auburniado„
4> SISTEMA DE FILADÉLFIA
Em 1790, na cidade de Filadélfia, se inicia um novo regã. me de reclusão. Tal modalidade prisional chamada "Solitary confi. nement", encontrava-se empregnada de influência religiosa eatõli ca dos cárceres monásticos.
Esse sistema,- conhecido:como de Filadélf ia^ ’pensilvânico ou celular, impunha o isolamento absoluto e constante, sem traba lho ou visita, devendo ser estimulado unicamente pela leitura da Bíblia.
Como ressalta Foucault: " S o z i n h o e m sua c e l a o d e t e n t o es.- ta e n t r e g u e a si m e s m o ; no s i l e n c i o de s u a s p a i x õ e s e do m u n d o
39
que o c e r c a , e l e d e s c e ã s u a c o n s c i ê n c i a , i n t e r r o g a - a e s e n t e d e s p e r t a r e m si o s e n t i m e n t o m o r a l q u e n u n c a p e r e c e i n t e i r a m e n t e
- , , „ (43)
no c o r a ç a o do h o m e m .
No isolamento absoluto não ê o respeito pela lei ou re ceio da punição que vai reagir sobre o condenado, mas o próprio trabalho de sua consciência.
Conforme evidencia João Farias Junior, o sistema ' pênsil, vânico obedecia aos seguintes procedimentos fundamentais: "a) o c o n d e n a d o c h e g a v a na p r i s ã o , t o m a v a b a n h o , e r a e x a m i n a d o p e l o mé d i c o , a p ó s v e n d a d o s os s e u s o l h o s , v e s t i a m - l h e u n i f o r m e ; b) e n c a m i n h a d o ã p r e s e n ç a do d i r e t o r o n d e r e c e b i a as i n s t r u ç õ e s s o b r e a d i s c i p l i n a da p r i s ã o ; c) e m s e g u i d a e r a l e v a d o à c e l a , d e s v e n d a d o s os o l h o s , p e r m a n e c e n d o n a m a i s a b s o l u t a s o l i d ã o , d i a e noi t e , s e m ca m a , b a n c o o u a s s e n t o , c o m d i r e i t o ao e s t r i t a m e n t o n e c e s s ã r i o p a r a s u p o r t a r a v i d a . M u i t o s se s u i c i d a v a m . O u t r o s f i c a v a m l o u c o s ou adoeciam;, d.) o n o m e era, s u b s t i t u í d o p o r número,, o p o s t o no a l t o da p o r t a e no u n i f o r m e ; e) a c o m i d a e r a f o r n e c i d a ; u m a v e z p o r dia , só p e l a m a n h ã ; f) e r a p r o i b i d o v e r , o u v i r ou f a l a r c o m a l g u é m ; g) a o c i o s i d a d e e r a c o m p l e t a ; h) o e s t a b e l e c i m e n t o p e n i t e n c i á r i o de f o r m a r a d i a l , c o m m u r o s a l t o s e t o r r e s d e s t r i b u í d a s e m s e u c o n t o r n o , t i n h a r e g i m e c e l u l a r " ,
La Rochèfòücaüld'Liancourt escreveu um livro Cüriòsõ só bre os cárceres-de" Filadélfia, onde - r e l a t a " o h ornem c o n d ona d o
ao " s o l i t a r y con.f i n e m e n t'1 e n c o n t r a - s e n u m a e s p é c i e de c e l a , dé o i t o p é s p o r s e i s de l a r g u r a e n o v e de a l t u r a . Esta; c e l a s i t u a d a s e m p r e no p r i m e i r o ou s e g u n d o p a v i m e n t o d u m e d i f í c i o a b o b a d a d o e i s o l a d o do r e s t o da p r i s ã o , é a q u e c i d a p o r u m a e s t u f a , c o l o c a d a no c o r r e d o r . 0 p r i s i o n e i r o , e n c e r r a d o p o r d u a s p o r t a s c o m b a r r o
tes de f e r r o r e c e b e o b e n e f í c i o do c a l o r , s e m p o d e r u s a r o fog o , do q u a l n ã o lhe é p o s s í v e l se a p r o x i m a r . 0 s e u q u a r t o i l u m i n a d o p e l a luz do c o r r e d o r , é - o m a i s d i r e t a m e n t e p o r u m a j a n e l a a b e r t a n e l e . H a e m c a d a c e l a s e r v i ç o s de a s s e i o , c o m a d m i n i s t r a ç ã o de á g u a c o r r e n t e ã v o n t a d e . As p r e o c u p a ç õ e s h i g i ê n i c a s são c o m p l e tas. Às c e l a s c o m o o r e s t o da p r i s ã o s ão c a i a d a s d u a s v e z e s p o r ano. N e l a s , s e p a r a d o do s d e m a i s , e n t r e g u e â s o l i d ã o , ãs r e f l e x õ e s e aos p e s a r e s , n ã o t e m c o m u n i c a ç ã o c o m n i n g u é m ; só ve o c ar c e r e i r o , u m a v e z p o r dia, q u a n d o l e v a ao r e c l u s o u m a e s p é c i e de g r o s s e i r o " p u d d i n g " , f e i t o de f a r i n h a de m i l h o e m e l a d o . L a Roche f a u l c a u l d L i a u c o u r t e l o g i a e s t a m u d a n ç a de a l i m e n t a ç ã o , q u e r e n o v a i n t e i r a m e n t e o s a n g u e do p r i s i o n e i r o , d u l c i f i c a - o , t o r n a b r a n da a s u a a l m a e a d i s p õ e p a r a a s u a v i d a de q u e c o n d u z1 ao r e m o r „ (45) so .
Outra característica apresentava este tipo de confinamen to: A exibição do prisioneiro a estranhos como impressionante exemplo- q.ue contribuía para afastã-.lo:sv. do*- mau .caminho, "Gons^ijs; t i a tal e x i b i ç ã o e m a b r i r as p o r t a s da c e l a p a r a q u e o p o v o p_u d e s s e v e r o c o n d e n a d o no f u n d o de se u d o l o r o s o r e d u t o e ler t r a ç a d o e m c a r a c t e r e s g r o s s o s s o b r e a p o r t a do c a l a b o u ç o , o s e u no_
n (46) me, o s e u c r i m e e sua s e n t e n ç a ,
O sistema pensilvânico foi muito criticado, porque, alem de ser extremamente severo, impedia a ressocialização do condena do: Contra ele se insurgiram Ferri e Roeder, ponderando pela ne cessidade de vigorar um regime mais humano e dentro dos limites e objetivos da pena.
5 „ S I S T E M A DE AUBURN
niano, em New York,, exigindo, também, silêncio absoluto, mas um regime de comunidade durante o di.a e isolamente noturno.
Completa Foucaült, tal' regiirié " p r e s c r e v e a c e l a i n d i v i d u a l d u r a n t e a n o i t e , o t r a b a l h o e as r e f e i ç õ e s e m c o m u m , m a s sob a r e g r a do s i l e n c i o a b s o l u t o , os. d e t e n t o s só p o d e m f a l a r c o m os g u a r d a s , c o m a p e r m i s s ã o d e s t e s e e m v o z b a i x a . . . m a i s q u e man ter os c o n d e n a d o s a s e t e c h a v e s c o m o u m a f e r a e m s u a j a u l a , d è v e - s e a s s o c i a - l o aos outros., f a z e - l o s p a r t i c i p a r e m c o m u m de e x e r c i c i o s u t e i s , o b r i g á - l o s e m c o m u m a b o n s h á b i t o s , p r e v e n i n d o o c o n t á g i o m o r a l p o r u m a v i g i l â n c i a a t i v a e m a n t e n d o o r e c o l h i m e n to p e l a r e g r a do s i l ê n c i o . E s t a r e g r a h a b i t u a o d e t e n t o a. c o n s i d e r a r a le i c o m o u m p r e c e i t o s a g r a d o c u j a i n f r a ç ã o a c a r r e t a u m m a l justo, e l e g í t i m o . A s s i m , e s s e j o g o de i s o l a m e n t o , da r e u n i ã o s e m c o m u n i c a ç ã o e da lei g a r a n t i d a p o r u m c o n t r o l e i n i n t e r r u p t o , d e v e r e q u a l i f ica.r o c r i m i n o s o c o m o i n d i v í d u o s o c i a l : ele o t r e i na p a r a u m a a t i v i d a d e ; útil, e r e s i 3 n a d a , d e.v.o l.v/é-lhe h á b i t o s de
• "u • 1 * j j M (47) s o c i a b i l i d a d e . S e g u n d o J o ã o F a r i a s J u n i o r , e r a m p r i n c í p i o s f u n d a m e n t a i s d o s i s t e m a A u b u r n i a n o : "a) o c o n d e n a d o i n g r e s s a v a no e s t a b e l e c i m e n t o , t o m a v a b a n h o , r e c e b i a u n i f o r m e , e a p o s o c o r t e da b a r b a e do c a b e l o e r a c o n d u z i d o â c e l a , c o m i s o l a m e n t o d u r a n t e a noite; b) a c o r d a v a as 5 , 3 0 h o r a s , ao s o m d a a l v o r a d a ; c) o c o n d e n a d o l i m p a v a a c e l a e f a z i a s u a h i g i e n e ; d) a l i m e n t a v a - s e e ia p a r a as o f i c i n a s , o n d e t r a b a l h a v a at e t a r d e , p o d e n d o p e r m a n e c e r a té ãs 20:00 h o r a s , no m a i s a b s o l u t o s i l ê n c i o , so se o u v i a o b a r u l h o das f e r r a m e n t a s e dos m o v i m e n t o s dos c o n d e n a d o s ; e ) r e g i m e de to tal s i l e n c i o de d i a e d c n o i t e ; f) a p ó s o j a n t a r o e o n.d e na d o e r a. r e c o l h i d o ; g) as r e f e i ç õ e s e r a m f e i t a s no m a i s c o m p l e t o m u t i s m o , e m s a l õ e s c o m u n s ; h) a quebra, do s i l ê n c i o e r a m o t i v o de c a s t i g o
c o r p o r a l . 0 c h i c o t e e r a o i n s t r u m e n t o u s a d o p a r a q u e m r o m p i a c o m o m e s m o ; i) a os d o m i n g o s e f e r i a d o s o c o n d e n a d o p o d i a p a s s e a r e m l u g a r a p r o p r i a d o , c o m a o b r i g a ç ã o de se c o n s e r v a r incomtinicjá
-i H ( 4 8 )
v e r .
Enquanto que o sistema de Filadélfia objetivava a trans; formação do homem criminoso em bom e de alma pura através do ar rependimento, levado pela reflexão, o sistema de Auburn pretendia condicionar o apenado pelo trabalho, disciplina e mutismo. Ambos, porém, só faziam degenerar o homem.
Este sistema iniciou-se com a construção de uma penitencia ria em Auburn, onde originou seu nome. Sua regra desumana do si lêncio, ensejou o costume dos presos se comunicarem com as mãos, formando um alfabeto, prática conservada até hoje, nas prisões de segurança máxima, onde a disciplina é mais rígida. Ali, utilizam sinais através de batidas em paredes, canos de água ou esvazia mento da bacia dos sanitários, o que chamam de boca de boi.
0 sistema filadélfico predominou na Europa, principalmen te na Inglaterra, Alemanha e Bélgica, e o auburniano nos Estados Unidos. Foram largamente censurados, pois. impunham a proibição de visitas, a falta de lazer e de exercícios físicos, demonstran do uma total indiferença ao estudo e profissionalização do conde
, (49) -
nado.
6. SISTEMAS DE MONTESINOS
Um dos grandes críticos do sistema de Auburn foi, o Coronel Manoel Montesinos y Molina, precursor, na Espanha, de um tratamento pe nal humanitário. Concretizou suas idéias a partir de 1834, quan .do foi nomeado dirétor do presídio de San Agustín, em Valência,
onde mandou escrever no frontispício daquela prisão. "Aqui pene tra el hombre, el delito queda a la puerta. Esta frase significa que la vindicta publica se ejerce mediante la sentença conde natória, pero que desde que esta comienza a ejecutarse, el deli
. , , „ (50)
to se revierte el pasado.
O sistema espanhol de Montesinos enfatizava o sentido regenerador da pena. Criou uma forma de trabalho remunerado para o preso nãõ ser explorado, suprimiu os castigos corporais. Sua funcionabilidade era comparada a de um estabelecimento dé seguran ça mínima onde, surpreendemente, eram baixos os números de evasões.
7. SISTEMA PROGRESSIVO INGLÊS
Ainda no s é c . XIX, mais precisamente em 1846, desponta na Inglaterra um novo sistema de prisão, denominado progressivo, atribuído a um capitão da Marinha Real Inglesa, Alexander Maco nochie.
Tal capitão, na qualidade de diretor de um presídio, na Ilha de Norfolk, do condado de Narwich, na Austrália, iniciou um trabalho que modificou a vida dos presos vindos da Inglaterra, em condições desumanas, muitos morriam na viagem, vitimados por moléstias contraídas no ambiente infecto dos navios que os trams portavam. Os que conseguiam chegar ao presídio estavam tão. debi. litados que, às vezes, não suportavam o menor esforço e também
(51) morriam.
Os princípios desse sistema são assim definidos: "Apague mos a escravidão de entre os nossos castigos; apoiemo-nos mais na influência e menos na força; . erijamos mais estímulos e me.nos muralhas e poderemos curar, como hoje sabemos piorar. . . o trata mento deve ser preventivo, mais que curativo, olhar para o futu
.... , „(52) ro, n a o p a r a o p a s s a d o .
Maconochie introduziu uma grande inovação no sistema pe nitenciário, conhecido por "Mark System", ou seja, sistema de
vales. Segundo esse sistema, a duração da pena não era determina nada exclusivamente pela sentença condenatória, mas dependia da boa conduta do preso, de seu trabalho produzido e da gravidade do delito. 0 condenado recebia marcas ou vales quando seu compor tamento era positivo e os perdia quando não se comportava bem.
Esse sistema que nasceu na Austrália foi aplicado nas prisões da Inglaterra, por. isso ficou conhecido como sistema pro gressivo inglês. 0 tempo de duração da pena era cumprido em três períodos: a) período da prova -— com isolamento celular completo, do tipo pensilvânico; b) período com isolamento celular noturno e trabalho comum durante o dia, com rigoroso silêncio, do tipo auburniano; c) período da comunidade, com benefício da liberdade condicional.
8. SISTEMA PROGRESSIVO IRLANDÊS
Em 1853, o sistema de vales foi adotado na Irlanda, por Walter Crofton, que. acrescentou-lhe ma .is um novo período — pre paração ã vida livre, que consistia em transferir o recluso para as prisões intermediárias, com suave -regime de vigilância, sem uniforme, com permissão para conversar, saídas dentro de um cer to raio, trabalho externo, no campo, objetivando o preparo do con denado para o retorno ã vida, na sociedade.
0 sistema progressivo irlandês foi adotado no Código Pe nal Brasileiro, excluindo o uso de marcas ou vales. No primeiro período —- o prisioneiro fica sujeito ã observação, durante o má ximo de três meses; no segundo período — é submetido ao traba lho comum, mantido o isolamento noturno; no terceiro período -— o preso é encaminhado para um estabelecimento semi-aberto ou co lõnia agrícola e no quarto período — recebe a concessão da li berdade condicional.
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9. PRISÃO SEMI-ABERTA E ABERTA a) Prisão semi-aberta
0 sistema progressivo com o seu último período de liberda de condicional encontrou uma acolhida universal. Por outro lado, o emprego do instituto da suspensão condicional da pena, aplica da conforme a espécie do delito, circunstância, vida pregressa e antecedentes do condenado e da mesma forma, a substituição das penas curtas por outros tipos de penas, como prisão domiciliar, multa, etc., subtraíram das prisões um grande número de delin qüentes.
Em contrapartida, em todas as partes ,do mundo, de um modo 'geral, o resultado da execução da pena em prisões fechadas de se gurança máxima mostrou-se desesperador e o índice de reincidên cia alarmante, atingindo a taxa de 60% a 80%, (53), o que compro