3.1 EXCEÇÕES A REGRA GERAL: A EXISTÊNCIA DE CASOS
3.2.7 Compania de Aguas de Aconquija et Compagnie Générale des
No ano de 2000, as empresas Compania de Aguas de Aconquija e
Compagnie Générale des Eaux submeteram uma demanda perante o
Comitê ad hoc do ICSID no intuito de solucionar o litígio com a República Argentina.
As origens do litígio partiram de um contrato de concessão celebrado no ano de 1995 pela empresa francesa Compagnie Générale
des Eaux e sua filial argentina Compania de Aguas de Aconquija com a
província argentina de Tucumán.
328
WOUTERS, J.; SMET, L., 2001. p.30.
329
Do origjnal: “This judgment does of course not mean that, as a matter of Community law, the responsibility of the EU Member State in question would be replaced by responsibility of the sub-State entity proper: it only addresses the possibility to have the actual reparation made by the latter instead of by the Member State itself”. (WOUTERS, J.; SMET, L., 2001. p.30).
Assim, como exposto no documento das preliminares do caso,
“A República Argentina não era parte do Contrato de Concessão nem
das negociações que levaram à sua conclusão”. 330
Como estipulado no dispositivo 16(4) do Contrato de Concessão entre a empresa CGE e a província de Tucumán, o meio de resolução de litígios em relação à interpretação ou aplicação do contrato em questão estaria sob jurisdição exclusiva dos Tribunais Administrativos de Tucumán.331 No entanto, a empresa CGE reconheceu não acessar os
meios definidos pelo dispositivo 16(4) do Contrato, ao apresentar suas demandas diretamente ao ICSID.332
Logo, a base jurídica para a jurisdição arbitral no ICSID estabeleceu-se no Tratado Bilateral de Promoção e Proteção de Investimentos entre a República Francesa e a República Argentina do ano de 1991.333
Na petição inicial, dentre as diversas alegações da CGE, a empresa sustentou que as ações da Província de Tucumán são atribuídas à República Argentina nos ditames do direito internacional. Ainda, que estas ações constituem a infração das obrigações contraídas pela República Argentina segundo o TBI (Tratado Bilateral de Promoção e Proteção de Investimentos França-Argentina).334
A Argentina, por sua vez, argumentou que:
A demandada argumenta que a única disputa interposta pelos recorrentes surge, e está exclusivamente relacionada com um Contrato de Concessão, do qual a República Argentina não faz parte. [...] A demandada também nega que, para fins de competência, as ações da província possam ser atribuídas ao governo naciona.335
330
Do original: “La República Argentina no era parte del Contrato de Concesión ni de las negociaciones que llevaron a su celebración”. ICSID. Compañiá de Aguas del Aconquija S.A. and Vivendi Universal S.A. v. Argentine Republic, Sentença, 21 de novembro de 2000. Disponivel em: < http://www.italaw.com/sites/default/files/case-documents/ita0207.pdf>. Acesso em: 10 de janeiro de 2015. p.1. 331 ICSID, 2000, p. 2. 332 ICSID, 2000, p. 3. 333 ICSID, 2000, p. 1. 334 ICSID, 2000, p. 2-3. 335
Do original: ”La demandada argumenta que la única controversia presentada por las demandantes surge de,y se relaciona exclusivamente con, un Contrato de Concesión al cual la República Argentina no es parte.República
No entanto, conforme o Comitê do ICSID constatou aparentemente quanto ao analisado, todas as ações sobre as quais as empresas demandantes apoiam suas justificativas de atribuição de responsabilidade à Argentina, estão relacionadas ao cumprimento ou incumprimento do Contrato de Concessão.336
Assim sendo, como afirmado pelo Comitê na sentença:
Segundo o direito internacional, e para os fins da jurisdição deste Tribunal, é uma regra bem estabelecida que as ações de uma subdivisão política de um Estado Federal, como é a Província de Tucumán, no Estado Federal da Argentina, são atribuíveis ao governo central. 337
Nesta perspectiva, em março de 2001, as empresas demandantes solicitaram o anulamento do laudo do ICSID do ano 2000.338
Além disso, em sua decisão de anulamento, o Comitê expos que “no caso de uma reclamação com base em um tratado, aplicam-se as regras de direito internacional com base na atribuição, com o resultado de que o Estado argentino é internacionalmente responsável pelos atos de suas autoridades provinciais”.339
Por fim, o Comitê do ICSID constatou ao examinar este caso em particular, que:
Neste caso, os demandantes têm vencido em respeito à questão jurisdicional, ao passo que a demandada venceu quanto ao mérito. Este caso apresentou um conjunto de problemas novos e complexos que não haviam sido objeto de Argentina no es parte. [...] La demandada también niega que, para efectos jurisdiccionales, las acciones de la Provincia puedan ser atribuidas al gobierno nacional”. (ICSID, 2000, p. 15)
336
ICSID, 2000, p.29.
337
Do original: “Bajo el derecho internacional, y para los efectos de la jurisdicción de este Tribunal, es una regla bien establecida que las acciones de una subdivisión política de un estado federal, tal como es la Provincia de Tucumán dentro del estado federal de la República Argentina, son atribuibles al gobierno central”. (ICSID, 2000, paragrafo, 49, p. 19)
338
ICSID. Compañiá de Aguas del Aconquija S.A. and Vivendi Universal S.A. v. Argentine Republic, Decisão de Anulação, 3 de julho de 2002. Disponivel em: < http://www.italaw.com/sites/default/files/case-documents/ita0211.pdf>. Acesso em: 10 de janeiro de 2015. Paragarafo 96.
339
precedentes arbitrais internacionais, relativo à interação entre um tratado de investimento bilateral, um Contrato de Concessão com uma cláusula de escolha do foro e da Convenção CIADI.340
Este caso, ao tratar de um litígio baseado na violação de um “contrato internacional” celebrado entre a Província de Tucumán e a empresa CGE, cria uma situação favorável ao enquadramento na classificação de casos exceções que não estariam no escopo do Projeto de Artigos da Comissão.
No entanto, através da observância dos elementos necessários para tal enquadramento, conclui-se que não se trata de um caso exceção, em virtude de que o acordo celebrado entre as partes, não é um tratado regido pelo direito internacional.
Em suma, a Província de Tucumán não possui personalidade jurídica internacional, e mesmo que possuisse tal personalidade, não configuraria um tratado regido pelo direito internacional, em virtude da outra parte do acordo ser uma empresa desprovida de personalidade internacional.