Nessa seção, é apresentada uma análise comparativa dos dois ecossistemas estuda- dos, considerando o número de complementadores, aplicações, relacionamentos de parceria e centralização de cada ecossistema. A Tabela 5.1 resume a comparação entre os ecossistemas do Google Apps Enterprise e Microsoft Office 365.
Tabela 5.1: Análise comparativa dos ecossistemas.
Atributo Ecossistema
Google Apps Enterprise Microsoft Office 365 Número de complementadores 1123 582
Número de aplicações 1510 1300 Número de relacionamentos 1308 820 Centralização 0,999 0,998
Fonte: Elaborada pelo autor.
A partir dos dados sumarizados na tabela comparativa, calcula-se que o número de complementadores do ecossistema do Microsoft Office 365 corresponde a 51,82% do número de
complementadores do ecossistema do Google Apps Enterprise. Numa análise preliminar, pode-se concluir que o número de aplicações seria proporcional ao número de complementadores. Porém, a partir de novos cálculos, nota-se que o número de aplicações disponíveis no ecossistema do Microsoft Office 365 corresponde a 86,09% do número de aplicações presentes no Google Apps Enterprise. Isso indica que os dois ecossistemas apresentam diferentes níveis de produtividade. No ecossistema do Microsoft Office 365, foram identificadas 1300 aplicações, enquanto no ecossistema do Google Apps Enterprise foram identificadas 1510 aplicações. Considerando-se o número de complementadores de cada ecossistema (1123 do Google Apps Enterprise e 582 do Microsoft Office 365), pode-se calcular o número de aplicações por comple- mentador, métrica que pode ser utilizada para inferir o grau de produtividade de cada ecossistema. Sendo assim, tem-se 2,23 aplicações por complementador no ecossistema do Microsoft Office 365. Já no ecossistema do Google Apps Enterprise, tem-se 1,34 aplicações por complementador. Esses dados podem ser visualizados na Tabela 5.2.
Tabela 5.2: Produtividade dos ecossistemas do Google Apps Enterprise e Microsoft Office 365.
Atributo Ecossistema
Google Apps Enterprise Microsoft Office 365 Produtividade 1,34 2,23
Fonte: Elaborada pelo autor.
A partir de tais dados, postulou-se a seguinte proposição:
Proposição 1 A produtividade de um ecossistema de software não é diretamente proporcional ao número de complementadores presentes no ecossistema.
Considerando-se a Proposição 1, sugere-se que a produtividade não deve ser sempre relacionada ao aumento do número de complementadores do ecossistema. A chegada de novos complementadores aumenta o número de aplicações no ecossistema, mas a produtividade não é influenciada apenas por esse fator. Portanto, keystones não necessariamente precisam flexibilizar as barreiras de entrada no ecossistema para que os índices de produtividade aumentem.
Gawer e Cusumano (2002) ilustram a necessidade de investimento em produtividade a partir do caso Intel. A Intel é uma das principais empresas responsáveis pela produção de microprocessadores. Sem a existência de empresas parceiras, que desenvolvem computadores e respectivas aplicações, essa empresa teria grandes entraves para prosperar no mercado de software.
Percebe-se, então, que a produtividade assume importância vital para a sobrevivência do keystone e, consequentemente, da plataforma e ecossistema em torno dela. Para aumentar a produtividade do ecossistema, é essencial que haja compartilhamento de conhecimentos técnicos sobre a produção de novos complementos para a plataforma (JANSEN; CUSUMANO, 2012). Outra estratégia nesse sentido é expandir a plataforma para incorporar novas funcionalidades e a abertura de novas interfaces de comunicação com os complementadores.
Outro parâmetro de comparação entre os ecossistemas que pode ser explorado com base nos resultados desta pesquisa é o número de relacionamentos de parceria entre complementadores. A partir da exclusão das parcerias entre complementadores e keystone, calcula-se que o ecossistema do Google Apps Enterprise apresenta 185 relacionamentos de parceria, enquanto o ecossistema do Microsoft Office 365 apresenta 238 relacionamentos. Ou seja, mesmo com número inferior de complementadores (582), o ecossistema Microsoft Office 365 possui mais relacionamentos. Logo, postula-se a seguinte proposição:
Proposição 2 O número de relacionamentos de parceria entre complementadores de um ecos- sistema de software não é diretamente proporcional ao número de complementadores
presentes no ecossistema.
Analisando-se o atributo centralização da Tabela 5.1, nota-se que os dois ecossistemas apresentam alto grau de centralização próximo a 1. Isso sugere que a maioria dos relacionamentos de parceria ocorre entre os complementadores e o keystone.
Supõe-se que a maior parte das organizações presentes nos ecossistemas do Google Apps Enterprise e Microsoft Office 365 desenvolvam aplicações com funcionalidades específicas para end users. Essas empresas tendem a não comportar um grande número de relacionamentos, pois não há necessidade de um grande número de parcerias tecnológicas para a construção de seus produtos. Esses complementadores então mantêm apenas relacionamentos-chave para o sucesso do negócio. Por outro lado, empresas de maior porte tendem a firmar relacionamentos de parceria com vários complementadores do ecossistema para aumentar sua influência na rede (HANNEMAN; RIDDLE, 2005).
É possível também traçar um comparativo entre os histogramas dos dois ecossistemas. Eles são novamente apresentados na Figura 5.1.
Figura 5.1: Comparação entre histogramas do Google Apps Enterprise e Microsoft Office 365.
Fonte: Elaborada pelo autor.
Comparando-se os dois histogramas, percebe-se que a maior parte dos pontos do histograma do Microsoft Office 365 concentra-se próxima ao cruzamento do Eixo X (número de aplicações) com o eixo Y (número de complementadores). Isso ocorre devido à grande quantidade de aplicações desenvolvidas pelo maior desenvolvedor do ecossistema do Microsoft Office 365, responsável pelo desenvolvimento de 151 aplicações. Já no histograma do Google Apps Enterprise, nota-se que o maior número de aplicações desenvolvido é 31, portanto, o gráfico não fica tão próximo dos eixos X e Y como no caso do Microsoft Office 365.
É importante observar também que há uma semelhança entre as curvas presentes nos dois histogramas. Nos dois casos, as curvas têm seu ponto de início com alto valor para o eixo Y (número de complementadores) e baixo valor de X (número de aplicações). Isso indica que a maior parte dos complementadores nos dois ecossistemas é responsável pelo desenvolvimento de somente uma aplicação.