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2.1 Fundamentos teóricos do conhecimento

2.1.6 Compartilhar conhecimento

Conforme já citado nesta tese, as pessoas criam seu conhecimento a partir do aprendizado pessoal, ou por meio de interações que proporcionam o compartilhamento de experiências e ideias.

De acordo com Garvin (2000, p. 68), o conhecimento deve ser socializado com rapidez e eficiência na organização, para que o aprendizado seja mais que um assunto local. Para tal propósito, o autor cita vários mecanismos que auxiliam no compartilhamento do conhecimento, tais como: “apresentações escritas, orais e visuais; visitas e excursões a outras localidades; programas de rodízio de pessoal; programas de educação e treinamento.

Para Balerini (2003), tal compartilhamento pode acontecer por: conversas informais (cafezinho); trocas presenciais semi-estruturadas, via brainstorming; meios presenciais estruturados, como palestras, conferências e treinamentos; trocas virtuais simples, como e-mails e trocas virtuais organizadas (educação a distância e videoconferência).

Já Teixeira Filho (2000) faz referência ao compartilhamento por meios estruturados, tais como: livros, documentos, páginas da Web, entre outros. No que se refere a esse tema, Szulanski (1996) destaca que, dentro da organização, o processo de compartilhamento de conhecimentos é uma experiência distinta e que esse processo consiste em quatro estágios:

Iniciação: esta é a fase em que a necessidade de um tipo particular de conhecimento é criada e a informação requerida para sanar essa carência existe dentro da organização.

Execução: este é o processo real de compartilhar o conhecimento e evidenciar as fontes relevantes de informação (documentos, e-

mails, etc.).

Mudança de nível: nesta fase, o receptor analisa as informações recebidas e constrói seu conhecimento.

Integração: aqui, as pessoas começam a utilizar o conhecimento novo para executar suas tarefas.

É pertinente salientar que os dois primeiros estágios abrangem todos os eventos que conduzem à decisão para o compartilhamento de conhecimentos, já os dois últimos estágios têm início quando o receptor começa a utilizar o conhecimento novo. Fica assim claro que o compartilhamento não tem nenhum valor útil se o receptor não utilizar o conhecimento novo (MINBAEVA ET AL., 2003).

Dessa forma, segundo Minbaeva et al. (2003), o elemento chave no compartilhamento do conhecimentos não é o conhecimento subjacente (original), mas sim a extensão a que o receptor cria o seu conhecimento

potencial útil e o utiliza em suas próprias operações. Essa criação depende então dos participantes envoltos e de como eles percebem, processam e interpretam o significado em uma situação particular (RENZL, 2007).

Para Silva, Soffner e Pinhão (2004), o compartilhamento do conhecimento pode muito bem utilizar hardware e software de

Groupware, redes de informação e comunicação, EaD, Intranet e

Portais, fórum de discussão, videoconferência, chat, lista de e-mail e mapas de conhecimento. Observa-se que, em tópico posterior, será tratado com maiores detalhes as tecnologias da informação e comunicação que auxiliam a gestão do conhecimento.

No que se refere ao uso da tecnologia, Davenport e Prusak (1998) ressaltam que ela não cria o conhecimento, mas que é um sistema que contribui para a distribuição, o armazenamento e o intercâmbio de dados e informações, e para a criação, o compartilhamento e a utilização de conhecimentos.

Apesar de a tecnologia contribuir para o compartilhamento de conhecimentos, Szulanski (1996) demonstra, conforme mostra o Quadro 2, quatro características que dificultam tal compartilhamento.

CARACTERÍSTICAS DESCRIÇÃO

Do conhecimento compartilhado

• Alguns conhecimentos são mais fáceis de compartilhar do que outros. É difícil socializar as práticas em que há uma proporção elevada de conhecimento, em função das habilidades tácitas envolvidas, da natureza coletiva da informação, ou da característica peculiar do contexto em que o conhecimento é posto em uso (isto é, quando há uma ambiguidade no porque, ou quando, uma prática trabalha bem).

• O conhecimento que não foi ainda utilizado é mais difícil “de vender”.

Da fonte do conhecimento

• Falta de motivação – medo de perder a propriedade, ou de a pessoa ofender-se por não ser recompensada por compartilhar o sucesso.

• A fonte do conhecimento não é vista como de confiança. Do receptor da informação

• Falta de motivação – síndrome do “não foi inventado aqui”. • Falta de capacidade para avaliar, assimilar e aplicar com

sucesso o conhecimento novo.

• Falta de persistência para fazer o trabalho. Do contexto organizacional

(estruturas, sistemas formais, liderança, relacionamentos e comportamentos)

Contexto organizacional fértil versus estéril – um contexto fértil é o que facilita o compartilhamento do conhecimento; já o estéril é aquele que dificulta a evolução dos compartilhamentos.

• Relacionamento entre os envolvidos – se a comunicação entre a fonte e o receptor ocorrer com facilidade, o compartilhamento é mais tranquilo do que se o relacionamento ocorrer com dificuldade e distanciamento.

Quadro 2 – Características que dificultam o compartilhamento do conhecimento Fonte: Adaptado de Szulanski (1996)

Davenport e Prusak (1998) também relatam alguns fatores culturais que inibem o processo de compartilhamento do conhecimento. O Quadro 3 exibe os tipos de atritos e as possíveis soluções para evitar esse problema.

ATRITO SOLUÇÕES POSSÍVEIS

Falta de confiança mútua. Construir relacionamentos e confiança mútua em reuniões, face a face.

Diferentes culturas, vocabulários e

quadros de referência. Estabelecer um consenso por meio de discussões, publicações, trabalho em equipe e rodízio de funções. Falta de tempo; ideia estreita de

trabalho produtivo. Criar tempo e locais de compartilhamento de conhecimentos: salas de bate-papo, de conferências.

Status e recompensas vão para os

possuidores do conhecimento. Avaliar o desempenho e oferecer incentivos baseados no compartilhamento. Falta de capacidade de absorção das

informações por aqueles que delas necessitam.

Educar funcionários para a flexibilidade; propiciar tempo para aprendizado; basear as contratações na abertura a ideias.

Crença de que o conhecimento é prerrogativa de determinados grupos, síndrome do “não inventado aqui”.

Estimular a aproximação não hierárquica do conhecimento; a qualidade das ideias é mais importante do que o cargo da fonte.

Intolerância aos erros ou à

necessidade de ajuda. Aceitar e recompensar erros criativos e colaboração; não há perda de status por não se saber tudo.

Quadro 3 – Fatores culturais inibidores do compartilhamento do conhecimento Fonte: Adaptado de Davenport e Prusak (1998)

Esses atritos retardam ou impedem o compartilhamento do conhecimento, no entanto, se a organização estiver atenta para as possíveis soluções, os problemas poderão ser evitados. Além disso, vale salientar que pessoas que compartilham a mesma cultura de trabalho tendem a se comunicar melhor e compartilhar conhecimentos, de forma mais eficaz, do que aquelas que não têm uma cultura em comum (DAVENPORT; PRUSAK, 1998).

O compartilhamento do conhecimento ocorre em diferentes estágios. É preciso insistir que o conhecimento só terá valor se ele for útil para quem recebe a informação. Há diferentes meios para que a prática do compartilhamento ocorra; nesse sentido, as TICs contribuem para o desenvolvimento desse processo.

Entretanto, destaca-se que as TICs não criam por si só o conhecimento, mas auxiliam na troca, na distribuição, no armazenamento, consequentemente, contribuem para a criação, o compartilhamento e a utilização do conhecimento. Observa-se que, em tópico posterior, são abordadas as TICs que auxiliam a gestão do conhecimento.