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6.2 COMPETÊNCIA

6.2.2 Competência absoluta e competência relativa

As regras atinentes à competência podem ser imperativas e cogentes, ou apenas dispositivas e, portanto, transponíveis, dependendo do critério utilizado para determiná-la, a ordem pública ou o interesse privado224.

Há duas ordens de interesses que devem ser consideradas para a fixação de regras de competência; uma ligada à conveniência da administração da justiça e outra à comodidade das partes. Não significa dizer que estes interesses sejam necessariamente contrapostos e reciprocamente excludentes. É possível que eles coincidam, o que facilitará sobremodo a opção legislativa225.

Contudo, na eventualidade de haver conflito entre esses interesses, será necessário sopesar qual deles merece maior proteção naquela determinada circunstância, de modo que o legislador, quando da fixação da regra de competência, deverá desprezar um deles em benefício do outro. Concebe-se que há casos em que o interesse público, que envolve o bom desempenho da máquina judiciária, sobrepõe-se ao interesse privado, de modo que, em havendo conflito, a lei terá de sacrificar o segundo em benefício do primeiro. Há situações, entretanto, em que a escolha do foro, pelo ângulo do interesse público, assume diminuta relevância; neste caso, prevalecerá o interesse privado na designação do foro competente226.

A regra inserta no art. 95 do CPC é um exemplo de regra de competência intransponível, verbis: “Nas ações fundadas em direito real sobre imóveis, é

223 Neste sentido: PIZZOL, Patrícia Miranda. Competência no processo civil, p. 128.

224 Conforme ensinamento de Rosa Maria de Andrade Nery, o Código de Processo Civil brasileiro

levou em consideração dois critérios para se determinar a competência, sob ângulo dicotômico público-privado, a ordem pública e o interesse privado. (Competência relativa de foro e a ordem pública: O art. 51 do CDC e o verbete n. 33 da Súmula do STJ. Justitia 167/46, p. 46).

225 Neste sentido: MOREIRA, José Carlos Barbosa. Pode o juiz declarar de ofício a incompetência

relativa? Revista de Processo 62/29, p. 29. 226 Idem.

competente o foro da situação da coisa”. A razão legislativa é clara; prende-se à ideia de que este é, em princípio, o lugar em que a atividade jurisdicional será exercida com mais facilidade e eficiência, e isto se dá porque a proximidade do imóvel facilitará por certo a colheita de provas, que poderá abarcar a realização de perícia ou inspeção judicial227.

Em outros casos, entretanto, a lei não subordina o interesse público ao privado. “Ela assim procede, é verdade, na maioria dos casos; mas deixa de lado outros, em que a seu ver não causará mal maior a transigência com a comodidade privada”228. Nestas situações, o legislador fixa a regra de competência levando em consideração o interesse exclusivamente privado daquele que suportará a lide, ou seja, daquele que sofrerá o incômodo de se ver demandado.

Nas palavras de Athos Gusmão Carneiro229:

Em certos casos, as regras de competência visam atender primacialmente ao interesse das partes, quer facilitando ao autor o acesso ao Judiciário, quer propiciando ao réu melhores condições de defesa. [...] Em outros casos, as regras de competência são motivadas por considerações ligadas principalmente ao interesse público de uma melhor administração da Justiça [grifo no original].

Nos casos em que a lei leva em consideração o interesse público para a fixação de regras de competência, a competência é absoluta; naqueles que as regras são fixadas em observância aos interesses privados, a competência é relativa.

A principal consequência dessa classificação diz respeito à possibilidade de prorrogação e de ser reconhecida e declarada de ofício pelo juiz.

Enrico Tullio Liebman230, a respeito, afirma que:

As normas que disciplinam a competência são inspiradas em diversas razões e apresentam uma rigidez variável. A competência,

227 Neste sentido lecionam Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery: “Para as ações

fundadas em direito real sobre imóveis, é competente o foro da situação da coisa (forum rei sitae), tendo em vista que o juiz deste lugar, por exercer ali sua função, tem melhores condições de julgar essas ações, aliado ao fato de que as provas, normalmente, são colhidas mais direta e facilmente”. (Código de Processo Civil comentado e legislação extravagante. 10ª. ed., rev., ampl. e at. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 350).

228 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Pode o juiz declarar de ofício a incompetência relativa? p. 29.

229 CARNEIRO, Athos Gusmão. Jurisdição e competência. 15. ed., at., inclusive em face das reformas

do CPC de 2006/2007. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 103.

por isso, absoluta ou relativa; a primeira é insuscetível de prorrogação pelas partes e a segunda, ao contrário, é prorrogável.

No mesmo sentido é o magistério de Moacyr Amaral Santos231:

Os limites da jurisdição nem sempre são intransponíveis. Pode, em certos casos, um juiz, incompetente segundo as normas ordinárias da competência para conhecer de uma causa, ter jurisdição ampliada, prorrogada, tornando-se competente para conhecê-la. Normalmente, não teria ele competência: não teria competência, segundo critérios ordinários determinadores da competência, mas, por força de um fato superveniente, adquire competência que não tinha [grifo no original].

Não há dissenso na doutrina a respeito da impossibilidade de prorrogação da competência absoluta, isto porque se trata de pressuposto processual de validade da relação jurídica processual232. Ademais, a disposição constante do art.

113 do CPC não deixa qualquer dúvida acerca desta conclusão: “A incompetência absoluta deve ser declarada de ofício e pode ser alegada em qualquer tempo e grau de jurisdição, independentemente de exceção”.

Ao verificar sua incompetência absoluta, deve o juiz declará-la de ofício, em qualquer tempo ou grau de jurisdição, independentemente de prévia arguição pelo réu. Trata-se de um poder-dever de zelar pela observância da norma de determinação de competência, considerando que, nestes casos, o legislador não se preocupou com a vontade dos litigantes, mas sim com a administração da justiça e, portanto, com o interesse público.

Como ensina José Carlos Barbosa Moreira233:

[...] o órgão que recebe a petição inicial ficará não só autorizado, mas obrigado, a recusar a causa, sem atribuir relevância alguma à vontade manifestada pelo autor, nem aguardar a manifestação expressa ou tácita, da vontade do réu. Cabe-lhe, pura e simplesmente, declarar ex officio a sua própria incompetência (art. 113, caput).

A incompetência absoluta é vício insanável. A sentença proferida por juiz absolutamente incompetente é nula, podendo ser rescindida por ação rescisória, nos

231 SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil, p. 254.

232 NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil comentado e

legislação extravagante, p. 371.

233 BARBOSA, José, Carlos Barbosa. Pode o juiz declarar de ofício a incompetência relativa? p. 29-

termos do art. 485, II, do CPC: “A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: [...] II – proferida por juiz absolutamente incompetente”234.

A competência relativa, de outro lado, cujas regras são ditadas no interesse exclusivo das partes, porque irrelevante para a ordem pública, é informada pelo princípio dispositivo235, de modo que admite prorrogação e não pode ser conhecida de ofício pelo juiz.

Pelo fenômeno da prorrogação, o juiz que era relativamente incompetente torna-se competente para o julgamento da causa, se o réu não alegar a incompetência, por meio de exceção, no prazo para defesa (art. 114 do CPC: “Prorroga-se a competência se dela o juiz não declinar na forma do parágrafo único do art. 112 desta Lei ou o réu não opuser exceção declinatória nos casos e prazos legais”)236. Pela prorrogação, portanto, “a competência de um juiz é ampliada, para abranger determinada causa que, pelas regras gerais, nela não estaria incluída”237.

A prorrogação da competência relativa pode ocorrer de modo expresso ou tácito. Será expresso quando as partes assim dispuserem previamente em contrato, convencionando que quaisquer ações dele oriundas serão propostas em determinado foro, ainda que outro seja competente, estatuindo, assim, o chamado foro de eleição. Será tácita, a prorrogação, quando ocorrer após o ajuizamento da demanda, em virtude da inércia do réu em apresentar exceção declinatória de foro, no prazo para defesa, aceitando, assim, o foro escolhido pelo autor.

Diante de suas características, especialmente por ser informada pelo princípio dispositivo, bem assim por não se tratar de matéria de ordem pública, a incompetência relativa não pode ser reconhecida de ofício pelo juiz238, de modo que,

se o réu não apresentar exceção de incompetência no prazo legal, a competência sofrerá prorrogação.

Há várias razões que justificam a impossibilidade de reconhecimento de ofício da incompetência relativa.

234 Neste sentido: SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil, v.1, p. 256.

235 “O Juiz, em matéria de direito dispositivo, não pode adiantar-se às partes, mas deve conservar a

característica da inércia da jurisdição, somente se pronunciando se for provocado para tanto”. NERY, Rosa Maria de Andrade. Competência relativa de foro e a ordem pública: O artigo 51 do CDC e o verbete n. 33 da Súmula do STJ, p. 48.

236 Neste sentido: NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil

comentado e legislação extravagante, p. 373-374.

237 CARNEIRO, Athos Gusmão. Jurisdição e competência, p. 111.

Como afirmado anteriormente, as regras de competência relativa levam em consideração não a conveniência da administração da justiça, como as regras de competência absoluta, mas o interesse privado; a presumida comodidade da parte. Ocorre que é possível que o interesse real do réu não coincida com o interesse presumido pela lei, de sorte que a ele menos inconveniente se afigure litigar no foro escolhido pelo autor do que no foro de seu domicílio. Prudente, desta forma, que o juiz não se valha de um dado presumido para declinar de sua competência, mas sim que aguarde a manifestação do réu, para que possa avaliar se a presunção abstratamente considerada revela-se exata no caso concreto, ou seja, se há coincidência entre a presunção legal e a realidade do caso concreto.

O único modo de obter o dado real consiste em consultar o próprio réu. Se ele se abstiver de impugnar a escolha feita pelo autor, isso significará que mais lhe convém defender-se no foro em que a demanda foi ajuizada, restando satisfeitos os interesses coincidentes das partes, resultado a que não se chegaria se o juiz se precipitasse ao reconhecer e declarar, de plano, sua incompetência e remetesse os autos a outro foro239.

Diante da possibilidade de a presunção legal não se verificar no caso concreto, o reconhecimento, de ofício, da incompetência relativa poderia contrariar o objetivo da lei.

6.3 A REGRA DE COMPETÊNCIA ESTATUÍDA PELO ART. 101, I, DO CÓDIGO DE