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COMPETÊNCIA INTERNACIONAL

No documento DIREITO INTERNACIONAL EM ANÁLISE Volume 3 (páginas 38-42)

OBJETIVO DO PRESENTE ESTUDO

3. COMPETÊNCIA INTERNACIONAL

Para efeitos da insolvência internacional, o princípio geral aceito quase que unanimemente pelas legislações nacionais e tratados aplicáveis a essa matéria é o do centro dos principais interesses do devedor. De acordo com Rechsteiner, p. 148, “Competentes em regra são as autoridades no centro dos principais interesses do devedor, que é um conceito geral e mais abrangente”. Lembremo-nos do conceito de COMI, usado expressamente pela RIUE.

Também de acordo com Rechsteiner, id., “[a]lém do centro dos principais interesses do devedor, as legislações nacionais costumam indicar estabelecimentos comerciais secundários deste para firmar a competência internacional de suas autoridades judiciárias ou equivalentes”.

Veremos, ao discutir os princípios que norteiam as normas de direito internacional privado ou dos tratados, que a competência das autoridades judiciárias ou é “exclusiva ou absoluta, ou é relativa, concorrente, alternativa ou cumulativa, ou seja, admite-se a competência paralela das autoridades de outro Estado para atuar” (Rechsteiner, id.).

Exceção peculiar ao Brasil é a competência relativa a bens imóveis, como veremos ao discutirmos a competência internacional em termos de insolvência envolvendo o Brasil.

Na America Latina, em especial no Brasil, embora não se use expressamente o conceito de centro dos principais interesses do devedor, usa-se o

conceito de domicílio (Tratado de Direito Comercial Internacional de Montevidéu de 1889 (“Tratado de Montevidéu 1889”) e Código Bustamante) ou de principal estabelecimento (Brasil), que, na realidade, conforme explica Rechsteiner (p. 151), “corresponde àquele do centro de seus principais interesses”.

Como vimos no artigo 3o da LRF, transcrito no início deste trabalho, é o foro do principal estabelecimento que determina, não só a competência interna, nacional do juízo da insolvência, mas também internacionalmente. Segundo Rechsteiner (id.), “[t]rata-se de um foro exclusivo ou absoluto, não admitindo foro concorrente no estrangeiro”. E vai mais longe o autor ao dizer que “[e]m consequência disso uma sentença relativa a procedimento de insolvência estrangeiro não pode ser reconhecida no Brasil”. (id. p. 152).

De fato, ao estabelecer a competência do local da filial brasileira para reger a sua insolvência, a LRF afastou a possibilidade de se aceitarem os efeitos da insolvência do estabelecimento principal, como a sua sede, localizada no exterior, sobre a sua filial brasileira. Ou seja, exigir-se-ia um procedimento falimentar regido pela lei e aplicado pelo foro brasileiro, para tratar da insolvência da filial brasileira.

Do ponto de vista prático, como está em total desuso, no Brasil, a filial de empresa estrangeira, os procedimentos de insolvência de empresas de capital estrangeiro sediadas no Brasil, como subsidiárias, seriam sempre procedimentos principais de falência.

Importante mencionar que, em matéria de insolvência internacional, a regra do domicílio preside a competência judiciária. É o que reflete o artigo 88, inciso I e parágrafo único do Código de Processo Civil Brasileiro14 (“CPC 73”), que, por sua vez, replica parte do artigo 12 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Antiga Lei de Introdução ao Código Civil de 1942).

Dispositivo relevante para estudar a insolvência internacional no Brasil é o artigo 89, inciso I do CPC 7315, que estabelece a competência improrrogável do judiciário brasileiro para ações relativas a bens imóveis. Uma decorrência desse dispositivo é que será necessário abrir um procedimento de insolvência no Brasil para trazer esse imóvel para a massa falida. No entanto, tal procedimento (necessariamente de insolvência) deverá atender a todas as condições e requisitos da lei brasileira para autorizar a sua instauração, ou seja, a instauração de uma falência. Em outras palavras, se, de acordo com a lei 14 Art. 88. É competente a autoridade judiciária brasileira quando:

I – o réu, qualquer que seja a sua nacionalidade, estiver domiciliado no Brasil; (Omissis) Parágrafo único. Para o fim do disposto no no. I, reputa-se domiciliada no Brasil a pessoa jurídica estrangeira que aqui tiver agência, filial ou sucursal.

15 Art. 89. Compete à autoridade judiciária brasileira, com exclusão de qualquer outra: I -

brasileira, o proprietário estrangeiro do imóvel não possa ser declarado falido no Brasil, não será possível a execução concursal no Brasil sobre o imóvel.

Além do disposto na LRF e nos artigos 88 e 89 do CPC 73, a doutrina invoca também o artigo 786 do Código de Processo Civil de 1939 (“CPC 39”), que estipula: “Não serão exequíveis no território nacional as sentenças estrangeiras que declararem a falência de comerciante brasileiro domiciliado no Brasil”. Invoca também o artigo 788, para afastar a competência da justiça estrangeira para declarar a falência do estabelecimento secundário (filial) localizado no Brasil: “A sentença estrangeira que abrir falência a comerciante estabelecido no território nacional, embora homologada, não compreenderá em seus efeitos o estabelecimento que o mesmo possua no Brasil”.

Os artigos 786 a 788 do CPC 39 são considerados vigentes pela doutrina (Cf. Rechsteiner, Haroldo Valadão e Rubens Requião), pois o CPC 73 é omisso quanto aos procedimentos falimentares e o CPC 73 não revogou expressamente o CPC 39, limitando-se a declarar a revogação de todas as disposições em contrário16.

Divergindo da doutrina quanto aos bens móveis, Rechsteiner entende ser possível a homologação de sentença estrangeira declaratória de insolvência aos bens móveis do falido que se encontrem no Brasil, isto mesmo na situação em que o devedor não tenha estabelecimento secundário em solo brasileiro.

Argumenta o autor, pp. 96-97 da obra já citada: “Para nós não existe óbice algum ao reconhecimento dessa sentença quando forem cumpridos todos os requisitos gerais para a homologação conforme a legislação brasileira. O problema da competência internacional de juiz estrangeiro nem aparece aqui 16 Art. 786. Não serão exeqüíveis no território nacional as sentenças estrangeiras que declararem

a falência de comerciante brasileiro domiciliado no Brasil.

Art. 787. As sentenças estrangeiras que abrirem falência a comerciantes domiciliados no país onde foram proferidas, produzirão no Brasil, depois de homologadas, os efeitos inerentes às sentenças de declaração de falência, salvo as seguintes restrições:

I – independentemente de homologação e à vista da sentença e do ato de nomeação em forma autêntica, os síndicos, administradores, curadores ou representantes legais da massa poderão requerer diligências que lhe assegurem os direitos, cobrar dívidas e intentar ações, sem obrigação de prestar fiança às custas;

II – os atos que importarem execução de sentença, tais como a arrecadação e arrematação dos bens do falido, somente se praticarão depois de homologada a sentença e mediante autorização do juiz, respeitadas as fórmulas do direito pátrio;

III – embora declarada arquivo a sentença estrangeira da abertura de falência, aos credores domiciliados no Brasil, que tiverem, na data da homologação, ações ajuizadas contra os falidos, será licito prosseguir nos termos do processo e executar os bens do falido situados no território nacional. Art. 788. A sentença estrangeira que abrir falência a comerciante estabelecido no território nacional, embora homologada, não compreenderá em seus efeitos o estabelecimento que o mesmo possua no Brasil.

porque, segundo nosso entendimento, a justiça brasileira é internacionalmente competente para declarar a falência de um credor (sic)17 no País quando este é meramente proprietário de bens móveis no Brasil”.

Segundo Rechsteiner, Haroldo Valadão e Rubens Requião, mesmo admitindo a homologação da sentença falimentar estrangeira sobre bens móveis localizados no Brasil, afirmam ser aplicável o artigo 787, III. Entendem que, para os “credores domiciliados no Brasil, que tiverem, na data da homologação, ações ajuizadas contra os falidos, será lícito prosseguir nos termos do processo e executar os bens do falido situados no território nacional”. Para eles, tal possibilidade não existe, por ser “inerente ao instituto da homologação que a sentença estrangeira aqui no País surta todos os efeitos jurídicos que produza no seu país de origem, na medida em que seja compatível com a ordem pública brasileira” (id. p. 97).

E arremata de forma dificilmente contestável: “Na parte em que o Código de Processo Civil de 18 de setembro de 1939 permite ações individuais de credores contra o devedor, mesmo que exista uma sentença estrangeira homologada, ele não se coaduna nem com as regras do novo Código de Processo Civil, de 11 de janeiro de 1973, que não contém tal restrição, nem com o espírito da Lei de Falências, de 21 de junho de 194518, em vigor. Consideramo- lo revogado sob esse aspecto pelo direito superveniente”.

Assim, se pudéssemos estabelecer em um quadro o melhor entendimento da competência internacional em matéria de insolvência no Brasil poderíamos apresentar o quanto segue:

Situação Fática Competência do Judiciário Brasileiro

Estabelecimento principal no Brasil Absoluta, improrrogável, homologação de sentença estran- geira impossível.

Estabelecimento secundário3 Absoluta, improrrogável, homologação de sentença estran-

geira impossível.

Imóvel Absoluta, improrrogável, homologação de sentença estran- geira impossível.

Bens móveis Relativa, prorrogável, homologação de sentença estrangeira possível. *

* Obviamente, com obediência às regras de homologação, não só as dos Art. 12 e 15 da Lei de Introdução, refletidas no CPC 73 (Arts. 483 e segs) e nas regras de homologação do STJ (Res. 9), mas também a observância aos princípio da Ordem Pública, Soberania Nacional e os Bons Costumes (Art. 17 da Lei de

17 Deveria ser “devedor”.

18 Essa afirmação também se aplica à LRF que manteve, no Art. 3o, praticamente idêntico ao do

Introdução). O requisito da Ordem Pública precisa ser examinado com cautela, em especial tendo em vista a hierarquia dos créditos no concurso de credores de um procedimento falimentar. Questões como o tratamento do fisco, proteção dos direitos dos trabalhadores e outras questões deverão ser observadas e poderão limitar o âmbito da homologação pretendida.

A abordagem feita nos itens acima deu uma perspectiva histórica e descritiva da forma como os ordenamentos jurídicos nacionais, em especial do Brasil, e os tratados, regulam o conflito de leis e de competências judiciárias no espaço. Dessa abordagem, que tem um alto componente prático, passaremos agora para os princípios que embasam as soluções de conflitos de normas no espaço na matéria sob comento.

4. PRINCÍPIOS DA UNIDADE E PLURALIDADE. PRINCÍPIOS DA UNIVERSALIDADE

No documento DIREITO INTERNACIONAL EM ANÁLISE Volume 3 (páginas 38-42)