CONSIDERAÇÕES INICIAIS
4. NOVAS TENDÊNCIAS NO ÂMBITO DO COMÉRCIO E MEIOS DE PAGAMENTOS INTERNACIONAIS
4.2. MOEDA ELETRÔNICA E MEIOS ALTERNATIVOS DE PAGAMENTO
Impulsionado pela crescente expansão do comércio eletrônico, o mercado financeiro foi compelido a repensar os meios de pagamento disponíveis de forma a adequá-los à nova realidade, pois a velocidade e facilidade das transações de comércio eletrônico exigiam meios de pagamento mais ágeis, mas que, ao mesmo tempo, também pudessem propiciar certa proteção e segurança às partes contratantes, uma vez que no comércio eletrônico o relacionamento pode ser ainda mais distanciado e desconhecido.
Neste sentido, o PayPal foi fundado em 1998 na Califórnia como uma solução inovadora e pioneira para o envio e recebimento de pagamentos na - internet, visando atender a necessidade das partes contratantes que necessitam efetuar pagamentos. O PayPal se popularizou rapidamente por propiciar maior grau de sigilo e segurança para as partes, tornando-se uma grande inovação em termos de meio de pagamentos.
17 Cf. informações do site http://tudoecommerce.com.br/tipos de-e-commerce-ou-comercio-
Considera-se o PayPal como uma instituição de pagamento na modalidade emissor de moeda eletrônica e instituidor de arranjos de pagamento nos termos da Lei nº 12.855 de 09 de outubro de 2013 e, como tal, o PayPal oferece serviços de pagamento para partes contratantes. Nos termos previstos no contrato padrão de usuário do PayPal, o arranjo de pagamento é celebrado por meio de instrumento contratual que pode ser definido como um arranjo de compra e de pagamento pré-pago.
Ao se tornar cliente do PayPal o usuário poderá atuar tanto como usuário pagador, adquirindo mercadorias ou serviços ou como usuário recebedor, dependendo da atividade desenvolvida em relação a determinada transação comercial.
O PayPal atua basicamente como um agente de pagamentos, fazendo a intermediação das informações e pagamentos evitando-se, assim, o compartilhamento de informações financeiras das partes envolvidas na transação comercial. As transações via PayPal evitam a utilização de meios de pagamento tradicionais como cheques, transferências bancárias ou pagamento de boletos bancários.
Pagamentos realizados via PayPal são largamente aceitos em transações de e-commerce efetuadas na internet. A utilização do PayPal depende de simples criação de uma conta gratuita atrelada a um cartão de crédito. Desta forma, pessoas físicas e jurídicas se tornam membros do PayPal e terão a faculdade de efetuar pagamentos utilizando-se de suas respectivas contas PayPal para qualquer beneficiário ao redor do mundo e sem qualquer compartilhamento de suas informações financeiras.
O PayPal foi mencionado especificamente devido a popularização de sua utilização, mas serviços de pagamento similares são oferecidos por outras empresas que atuam neste mercado.
A Koin se estabeleceu como uma nova solução de pagamentos para o comércio eletrônico chamado de pós-pago. A Koin se estabeleceu como uma nova modalidade de compra e meio de pagamento na internet, uma vez o valor de aquisição do produto somente será pago pelo comprador após o recebimento da mercadoria e sem que haja necessidade de fornecimento de quaisquer dados financeiros do comprador ao vendedor por intermédio da internet.
O modelo adotado pela Koin basicamente estabelece que seus clientes efetuam compras de mercadorias em lojas eletrônicas estabelecidas na rede mundial de computadores-internet sem necessidade de que as mesmas forneçam seus dados financeiros aos vendedores. Além disto, é garantido ao comprador que ele somente efetuará o pagamento após o recebimento da mercadoria adquirida. Do outro lado, o vendedor que efetua a venda de sua mercadoria por intermédio de sua loja eletrônica deve obter a aprovação da transação pela Koin que se responsabilizará por efetuar o pagamento diretamente
ao vendedor. Desta forma, a Koin assume integralmente o risco relacionado à transação comercial basicamente atuando como terceiro garantidor da transação, uma vez que o comprador somente será obrigado a efetuar o pagamento para a
Koin mediante o recebimento da mercadoria adquirida e o vendedor receberá
o pagamento diretamente da Koin e não do comprador, independentemente do vendedor ter efetuado o pagamento devido.
Já a Bitcoin trata-se de uma moeda digital criada para ser utilizada em transações virtuais que são gerenciadas coletivamente pelos usuários da
internet.
O sistema Bitcoin implica na transferência de quantias entre contas e todas as transações são públicas e o histórico das transações deve ser armazenado em um banco de dados.
Por não estarem regulamentadas ou supervisionadas por nenhuma autoridade específica, as Bitcoins podem ser utilizadas de maneira diferenciada das formas atualmente regulamentadas e disponíveis nos sistemas de pagamento regulados.
O Financial Crimes Enforcement Network (FinCEN), órgão do governo americano, emitiu relatório no dia 18 de Março de 2013 sobre moedas virtuais classificando moedas digitais e outras formas de pagamentos, inclusive a Bitcoin, como “moedas virtuais” e eximiu os usuários americanos de quaisquer obrigações legais referentes às moedas virtuais por considerar que a
Bitcoin não é regulada pelo FinCEN, mas determinou que quaisquer partes que
emitam moedas virtuais devem obedecer à legislação específica caso vendam sua moeda virtual em troca da moeda nacional.
Em agosto de 2013, o Departamento de Finanças da Alemanha autorizou a utilização da Bitcoin em transações financeiras privadas, mas determinou que as empresas que façam uso da Bitcoin devem solicitar permissão da Autoridade de Supervisão Financeira Federal. Na Alemanha, a Bitcoin não é classificada como uma moeda real, mas sim como uma unidade de conta.
No dia 19 de fevereiro de 2014, o Banco Central do Brasil emitiu esclarecimento público informando que as chamadas moedas virtuais não se confundem com moeda eletrônica que se caracteriza por recursos armazenados em dispositivo ou sistema eletrônico que permitem efetivar pagamentos denominados em reais. Esse mesmo comunicado esclareceu que as moedas virtuais – como a Bitcoin - são denominadas em unidade de conta distinta das moedas emitidas por governos soberanos, e portanto, não se caracterizam como dispositivo ou sistema eletrônico para armazenamento em reais.
Conforme esclarecido por diversas fontes, as chamadas moedas virtuais - como a Bitcoin - não são emitidas ou garantidas por uma autoridade monetária central e as entidades e pessoas que emitem ou fazem a intermediação desses ativos virtuais
não são reguladas nem supervisionadas por autoridades monetárias de qualquer país. Portanto, as chamadas moedas virtuais não têm garantia de conversão para qualquer moeda oficial e nem tampouco são garantidas por lastro de qualquer espécie, ficando o risco de sua aceitação nas mãos dos próprios usuários.
O Banco Central do Brasil está acompanhando a evolução da utilização de tais moedas virtuais, bem como as discussões a esse respeito nos foros internacionais para fins de adoção no Brasil de eventuais medidas no âmbito de sua competência legal, embora o uso das chamadas moedas virtuais ainda não tenha demonstrado, até o presente momento, capaz de oferecer riscos ao Sistema Financeiro Nacional ou às transações de pagamentos de varejo18.
A utilização das chamadas moedas virtuais e a incidência de normas aplicáveis aos sistemas financeiros e de pagamentos sobre elas têm sido tema de amplo debate internacional face aos riscos que tais moedas virtuais apresentam às partes contratantes de transações de comércio e ao mercado.
Como visto, estamos diante de uma nova realidade que precisa ser analisada e atendida pelo Direito e neste sentido Vladmir Oliveira da Silveira e Ernani Contipelli asseveram ser certo que com o processo de globalização a ciência do direito vem se ligando cada vez mais aos fatos que dizem respeito à economia haja vista os numerosos fenômenos neste campo de conhecimento que refletem diretamente no próprio direito positivo19.
Do mesmo modo, Marcelo Neves opina que a economia moderna não pode prescindir de institutos jurídicos para o seu desenvolvimento, assim como o direito moderno pressupõe uma dinâmica veloz de trocas, circulação e apropriação econômica de bens e valores para manter e inovar permanentemente os institutos do contrato e da mutação de propriedade20.
Ainda nessa mesma direção Cláudio Finkelstein, reafirma a necessidade de um direito vocacionado à realidade contemporânea e aos tempos de globalização21.
CONCLUSÃO
Em relação ao objetivo inicial da presente pesquisa, qual seja, a investigação e análise de instrumentos e mecanismos jurídicos que pudessem propiciar às partes contratantes de transações comerciais e internacionais 18 Cf. Informações do site http://www.bcb.gov.br/pt-br/Paginas/bc-esclarece-sobre-os-riscos-
decorrentes-da-aquisicao-das-chamadas-moedas-virtuais-ou-moedas-criptografadas.aspx.
19 SILVEIRA, Vladmir Oliveira, e Ernani Contipelli. Direitos Humanos Econômicos na perspectiva da Solidariedade: desenvolvimento integral. XVI Encontro Nacional CONPEDI, 2008, p.2580. 20 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Ed.WMF Martins Fontes, 2009, p.36. 21 FINKELSTEIN, Cláudio. Hierarquia das Normas no Direito Internacional: jus cogens e
o estabelecimento de elos de proteção e segurança que as respaldassem no âmbito de tais transações, pode-se concluir que esses elos possíveis derivam-se de diversas fontes e apresentam-se na forma de uma gama de possibilidades e soluções em diferentes graduações de complexidade, que podem ir desde a simples adoção dos usos e costumes desenvolvidos ao longo do tempo pelos próprios contratantes até a utilização de produtos e serviços financeiros altamente complexos e sofisticados.
Com base na pesquisa realizada realmente pode-se concluir que existem mecanismos e instrumentos jurídicos disponíveis no mercado internacional que podem ser adotados pelos participantes do mercado de comércio internacional com a finalidade que as partes contratantes tenham o grau desejado de segurança e conforto, cabendo, portanto, às partes envolvidas a escolha da solução que melhor lhes aprouver considerando as suas respectivas necessidades e tolerância à risco bem como as particularidades de cada transação comercial específica.
É importante ressaltar que os participantes do comércio internacio- nal, quer sejam pessoas físicas, empresas locais, empresas transnacionais, insti- tuições financeiras, seguradoras, associações ou entidades não governamentais, além dos Estados, desempenham papel fundamental e tem grande interesse em contribuir direta ou indiretamente no estabelecimento de regras, padrões, práti- cas e regulamentações que ao mesmo tempo provenham segurança e estimulem o fluxo comercial internacional que servem como força motriz para o desenvol- vimento e crescimento das economias mundiais.
Vivemos um momento em que os mercados estão em constante evolução e, portanto, as contribuições têm que ser dinâmicas e cada vez mais céleres para que se possa, de forma adequada, acompanhar as tendências de evolução e desenvolvimento do comércio internacional visando proporcionar às partes maior nível de segurança e menor exposição à risco por intermédio do estabelecimento de condições mais transparentes, uniformes e seguras que, ao final, beneficiarão à todos e contribuirão não somente para o desenvolvimento das economias mundiais mas também para a construção de um ambiente normativo internacional.
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Bitcoin: https://bitcoin.org/en/ Comex: http://www.comexbrasil.gov.br/conteudo/ver/chave/incoterms Conpedi: http://www.publicadireito.com.br/conpedi/manaus/arquivos/anais/salvador/ ernani_contipedi.pdt
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