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Ao Estado cumpre o dever de chamar para si a função jurisdicional, visando realizar a composição dos conflitos sociais e assim resguardar a paz interna. Para tanto, este investe uma pessoa física com poderes para a composição dos conflitos de interesse.

A pessoa física investida de poderes é o juiz que exercerá tal função por intermédio do processo. Contudo, frente a vários fatores, extensão geográfica, diversidade de ramos do Direito, hierarquia judiciária e mesmo a divisão de tarefas,

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26 SADEK, Maria Tereza. (coord.). Acesso à Justiça. São Paulo: Konrad Adenauer, 2001, p. 94.

27 CATALAN, Marcos Jorge. O Procedimento do Juizado Especial Cível, São Paulo: Mundo Jurídico, 2003, p. 37.

28 SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 5.

ed. São Paulo: Cortez, 1999, p. 174.

tornam impossível que um único juiz exerça tal função, surgindo a necessidade da divisão racional da prestação jurisdicional.

A competência é definida de maneira vertical e horizontal; começando pela própria Constituição que define as "justiças" diversas (Justiça Federal, Estadual, Trabalhista, Militar e Eleitoral). Depois, dentro da "Justiça" fixada pela Constituição, indaga-se qual o órgão, se superior ou inferior, competente para o julgamento de determinada questão. E é dentro do Código de Processo Civil e das regras de organização judiciária que são definidas a competência de foro e de juízo.29

Assim, a competência é fator essencial a aplicação jurisdicional, eis que a jurisdição é atribuída pela própria Constituição ou pela lei aos órgãos jurisdicionais, os quais, para o exercício de tal função, obedecerão a determinados critérios que poderão ser de ordem objetiva, territorial ou funcional.

No âmbito dos Juizados Especiais, o qual possui assento constitucional, com competência ali delineada, vários foram os critérios utilizados dentro das causas cíveis de menor complexidade, contudo, o conceito de menor complexidade é fluido e igualmente indeterminado, levando a redação do artigo 3° da Lei 9.099/9549 a abranger certos tipos de causas que não se submetem ao valor de alçada, mas sim a natureza da lide. Portanto os limites de competência dos Juizados Especiais Cíveis dependem da ótica subjetiva do julgador.

Na Lei dos Juizados Especiais Cíveis encontramos a competência objetiva, decorrente da matéria e em razão do valor no artigo 3°, a competência territorial no artigo 4° e a competência funcional nos artigos 41, parágrafo 1 °, 48 e 52 e 53.

1.3.1 Opcionalidade dos Juizados Especiais Cíveis

Resquícios da antiga Lei dos Juizados Especiais de Pequenas Causas – LJEPC (Lei 7.244/84) levaram a jurisprudência a se firmar em torno de reconhecer o

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29 SALOMÃO, Luis Felipe. Roteiro dos Juizados Especiais Cíveis. 3. ed. rev. e amp. Rio de Janeiro:

Destaque, 2003, p. 33.

direito de opção do autor para a propositura da ação perante os Juizados Especiais

Aqui, data vênia aos renomados processualistas adeptos da competência absoluta, a opcionalidade consiste em uma via rápida e de acesso gratuito, alternativa esta colocada à disposição, sobretudo, da parte hipossuficiente, sem prejuízo de eventual eleição da via ordinária cujo proveito econômico, diga-se o valor da causa, pode ser mais aprazível em detrimento de eventual lentidão do processo tradicional.

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30 DINAMARCO, Cândido Rangel - in Caderno de doutrina da associação paulista de magistrados Ano I, n° 1. p. 12. "... e chocaria com os próprios conceitos fundamentais inerentes aos Juizados e ao seu processo, com a mecânica do sistema em seu funcionamento prático e com acontecimentos legislativos recentes na história processual brasileira".

31 Nelson Nery afirma que a restrição à liberdade de escolha é uma ofensa ao princípio da isonomia;

"tratar de forma desigual o cidadão que é titular de um direito de menor complexidade ou de pequeno valor, quando é comparado àquele que é titular de um direito que envolva expressivo valor econômico ou grande complexidade. A Constituição Federal determina que o tratamento isonômico entre todos os cidadãos; distingui-Ios pelo valor pecuniário do seu direito ou pela complexidade, impedindo o acesso à Justiça Tradicional daqueles cujo direito encerre pequeno valor econômico e menor complexidade, constitui, sem sombra de dúvida, violação à norma constitucional expressa" NERY, Nelson. Atualidades sobre o Direito Civil, 2. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1996, p. 80.

32 “... O sistema dos Juizados Especiais tem por fonte a própria CF (art. 98, I) e em conseqüência consagra princípios próprios que visam aumentar e não restringir as alternativas de busca da satisfação de direitos, circunstâncias suficientes para que sua interpretação se afaste de teses clássicas cuja eficácia, aliás, já é questionada até mesmo em relação ao procedimento comum. A natureza opcional do Juizado Cível dos Estados e do Distrito Federal, ademais, continua prevista no § 3Q do art. 3Q da Lei n. 9.099/95. Caso o princípio da competência absoluta em razão da matéria fosse aplicável ao Sistema do Juizado Especial Cível dos Estados e do Distrito Federal, com a promulgação da Lei n. 9.245, de 26-12 1995 (posterior à Lei n. 9.099/95), todas as causas previstas no inciso II do art. 275 do CPC retomariam à competência exclusiva da Justiça Comum e tramitariam sob o rito sumário (art. 2Q, § 12, da LICC), excluindo-se tais matérias do Sistema do Juizado e de seu rito sumariíssimo específico antes mesmo de a Lei n. 9.099/95 completar um mês de vigência. A natureza optativa do foro (competência relativa) quanto aos Juizados dos Estados e do Distrito Federal, reconhecida por ampla maioria no I Congresso Brasileiro de Direito Processual e Juizados Especiais (Santa Catarina, agosto de 1997), também é defendida, entre outros, pela Escola Nacional da Magistratura (5i! Conclusão da Comissão de Interpretação da Lei n. 9.099/95), pela OAB/SP (Carta de Águas de Lindóia), pelos Professores Cândido Rangel Dinamarco e Antonio Raphael Silva Salvador (Tribuna da Magistratura, edições de abril e maio de 1996, pela 7i! Câmara do 1 Q TACSP (AgI 679.8509), pelo magistrado de Joinville Joel Dias Figueira Jr. (Comentários, cit., p. 81) e pelo Fórum Permanente de Coordenadores dos Juizados Especiais do Brasil (Enunciado 1).

1.3.2 Competência em razão do valor

Ao comando da Constituição Federal em seu artigo 98, inciso I33, a Lei 9.099/95 elenca em seu artigo 3°34 as causas cíveis de menor complexidade. Já no inciso I a competência do Juizado Especial Cível delimita-se no valor da demanda am qual, não poderá exceder a quarenta salários mínimos, estabelecendo critérios materiais e científicos para determinar o conceito de causas cíveis de menor complexidade.

Atenta-se assim, que a competência dos Juizados Especiais, além de julgar e processar ações cíveis de menor complexidade, estende-se à execução de seus julgados e a títulos executivos extrajudiciais de valor até quarenta salários mínimos vigentes no país à data do ajuizamento da ação, englobando o valor principal e acessório (juros, correção monetária, multas e demais acréscimos legais ou contratuais), não se estabelecendo limites a posterior condenação ou mesmo acréscimos estabelecidos em sentença.

Ao demandante cabe verificar o valor da demanda eis, que ultrapassando o limite de 40 salários mínimos, implica dizer que o mesmo abriu mão do valor excedente o qual, uma vez renunciado, não poderá ser pleiteado em nova oportunidade nem no Juízo Comum. A remissão parcial da dívida é irretratável.

Qualquer que seja o tipo de causa ou ação, dentro do processo de conhecimento, excluídas as elencadas no parágrafo 2°, artigo 3° d a Lei 9.099/9558, eis que as mesmas envolvem questões de alta indagação e complexidade, caberá sua propositura no Juizado Especial, desde que não ultrapasse o valor estabelecido.

Esta causa ou ação se submeterá ao rito especialíssimo estabelecido pela lei _____________

33Art. 98: A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão: I - juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas em lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau; [.. .]

34 Art. 3º O Juizado Especial Cível tem competência para conciliação, processo e julgamento das causas cíveis de menor complexidade, assim consideradas: I - as causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo; II - as enumeradas no art. 275, inciso II, do Código de Processo Civil; III - a ação de despejo para uso próprio; IV - as ações possessórias sobre bens imóveis de valor não excedente ao fixado no inciso I deste artigo.

federal, não importando se no Juízo Comum teria um rito especial, sumário ou ordinário.

Já sob a égide da Lei n. 9.099/95, os Juizados Especiais funcionam com critérios distintos de competência, que não se interpenetram e não dependem um do outro. Isso significa dizer que, uma vez atendido o critério do valor da causa, já se tem por firmada a competência do Juizado Cível, independentemente da matéria em discussão, ou vice-versa, pois, estando a ação prevista entre aquelas incluídas no elenco de sua competência, o Juizado pode ser buscado pelo autor mesmo que o seu valor não respeite o limite de alçada.35

1.3.3 Competência em razão da matéria

O legislador do Juizado Especial elencou nos incisos II, III e IV, do artigo 3°

da Lei 9.099/95, as causas que serão processadas no procedimento especial em função da matéria. No inciso II, artigo 3° a Lei 9. 099/95 remete-nos ao artigo 275 do Código de Processo Civil, assim estabelecido:

Art. 275. Observar-se-á o procedimento sumário: (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

...

...

II - nas causas, qualquer que seja o valor (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

a) de arrendamento rural e de parceria agrícola; (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

b) de cobrança ao condômino de quaisquer quantias devidas ao condomínio; (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

c) de ressarcimento por danos em prédio urbano ou rústico; (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

d) de ressarcimento por danos causados em acidente de veículo de via terrestre; (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

e) de cobrança de seguro, relativamente aos danos causados em acidente de veículo, ressalvados os casos de processo de execução; (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

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35 REINALDO FILHO, Demócrito Ramos. Juizados Especiais Cíveis - comentários a Lei n. 9.099, de 26-9-1995.2. ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 24.

f) de cobrança de honorários dos profissionais liberais, ressalvado o disposto em legislação especial; (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

g) nos demais casos previstos em lei. (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995)

Parágrafo único. Este procedimento não será observado nas ações relativas ao estado e à capacidade das pessoas. (Redação dada pela Lei nº 9.245, de 26.12.1995) 36

Evidente encontra-se que, nas hipóteses acima apresentadas, não se cogita falar em limites do valor da causa, a competência se determina em razão da matéria em lide, às chamadas causas de menor complexidade pelo critério material.

Importante frisar, divergência doutrinária e jurisprudencial acerca da cobrança de quantias devidas ao condomínio conferida pelo artigo 275, inciso II, alínea b, no que tange a legitimidade ativa dos condomínios em sede JEC, porquanto tratarem-se entes despersonizados, ou seja, haveria, em tese, um conflito entre o artigo 3º, inciso II e o artigo 8º, parágrafo 1º37, ambos da Lei 9099/95.

Enumerou também o legislador, nos incisos III e IV, causas definidas em função da matéria. Importante ressaltar que em relação ao despejo, explícito ficou que o mesmo seria realizado em função do uso próprio, de seus descendentes, ascendentes, cônjuge ou companheiro. Nas ações possessórias sobre bens imóveis referidas no inciso IV, o legislador mesclou o critério da matéria com o valor da causa para fixar a competência dos Juizados Especiais.

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36 Vade Mecum / obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com colaboração de Antônio Luiz de Toledo Pinto, Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt e Lívia Céspedes – 3. ed. atual. e ampl. – São Paulo : Saraiva, 2007, art. 275, inc. II do CPC.

37 Art. 8º Não poderão ser partes, no processo instituído por esta Lei, o incapaz, o preso, as pessoas jurídicas de direito público, as empresas públicas da União, a massa falida e o insolvente civil. § 1º Somente as pessoas físicas capazes serão admitidas a propor ação perante o Juizado Especial, excluídos os cessionários de direito de pessoas jurídicas.

1.3.4 Competência em razão do território

No que tange a competência territorial, a regra geral é de que a ação no Juizado Especial Cível, será proposta no domicílio do réu ou onde o mesmo exerça sua atividade profissional, ou econômica ou mantenha estabelecimento, filial, agência, sucursal ou escritório, abrindo um leque muito grande para possibilitar opções ao autor, conferindo-lhe, sempre que possível, um efetivo acesso à máquina judiciária, evitando procrastinações desanimadoras.

Destarte, se o pedido for ajuizado em face da parte reclamada em local que não seja o seu domicílio, ou onde exerça a sua atividade, o processo deve ser extinto, pois acarretaria prejuízos para as partes, principalmente na fase executória, na qual ter-se-ia de lançar mão da carta precatória.38

É estabelecido também, o foro do lugar onde a obrigação deverá ser satisfeita, e nas ações de reparação de dano, o domicílio do autor ou o local do ato ou fato, poderá ser escolhido.

A incompetência territorial é relativa, a qual poderá ser argüida em preliminar de contestação, podendo, nos Juizados Especiais pode ser conhecida de ofício ou a qualquer tempo pelo juiz, atentando-se sempre, para os princípios informadores desta Lei especial: simplicidade, celeridade e economia processual.

"Ementa: Em se tratando de Juizado Especial, nos termos do art. 51, inciso III, da Lei 9.099/95, é possível o conhecimento de ofício pelo juiz da incompetência territorial, extinguindo-se o processo sem julgamento do mérito.”39

Dessa forma, reconhecida a incompetência, absoluta ou relativa, a conseqüência será a extinção do processo, sem julgamento do mérito, com seu imediato arquivamento.

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38 PIMENTA, Cristóvão de Sousa. Juizados Especiais Cíveis: doutrina, jurisprudência e legislação.

Belo Horizonte: Dei Rey, 2002, p. 9.

39 BRASIL, DISTRITO FEDERAL, BRASíLlA. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios.

Apelação Cível no Juizado Especial Cível 2020110409490ACJDF. Acórdão da Primeira Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais do DF, n. 168523. Relator: José de Aquino Perpétuo. Brasília, DF, 12 de nov de 2002. Diário de Justiça [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 26 fev. 2003. Seção 2, p. 69.