2 O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL NO CONTEXTO DOS DIREITOS
2.5 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL
2.5.3 Competência material
O Art. 5º do Estatuto de Roma discorre sobre a sua competência material, sendo ela de acordo com Krieger (2004, p. 286):
1. A competência do Tribunal se restringira aos crimes mais graves que afetam a comunidade internacional no seu conjunto. Nos termos do presente Estatuto, o Tribunal terá competência para julgar os seguintes crimes:
a) o crime de genocídio;
b) os crimes contra a humanidade; c) os crimes de guerra;
d) o crime de agressão.
2. O Tribunal poderá exercer a sua competência em relação ao crime de agressão desde que, nos termos dos arts. 121 e 123, seja aprovada uma disposição em que se defina o crime e se enunciem as condições em que o Tribunal terá competência relativamente a este crime. Tal disposição deve ser compatível com as disposições pertinentes da Carta das Nações Unidas.
Saliente-se que cada crime da competência material estará apresentado nos próximos subseção.
2.5.3.1 O crime de genocídio
De acordo com Siqueira (2011), o termo genocídio é derivado da palavra grega “genos” que significa tribo ou família, e “cide” de raiz latina que significa matar, aparecendo pela primeira vez em 1944 para, contextualizar os crimes cometidos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial (JAPIASSÚ, 2009), entretanto só atingiu significado independente em 1948 quando a Assembleia das Nações Unidas adota a convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio.
O Crime de genocídio está exposto no artigo 6º do Estatuto de Roma e, pode ser configurado como cópia do Artigo II da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, onde o texto também é retomado nos Estatutos dos Tribunais para a Antiga Iugoslávia e para Ruanda (JANKOV, 2009, BAZELAIRE; CRETIN, 2004, CARDOSO, 2012, MELLO2004, PIOVESAN, 2002). O art. 6º traz que:
Para os efeitos do presente Estatuto, entende-se por “genocídio” qualquer um dos atos que a seguir se enumera, praticados com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial o religioso, como tal:
a) matando membros do grupo;
d) causando lesões graves à integridade física ou mental de membros do grupo; c) sujeitando intencionalmente o grupo a condições de vida capazes de provocar a sua destruição física, total ou parcial;
d) impondo medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo; e) transferindo à força crianças para outro grupo. (KRIEGER, 2004, p. 287).
Sendo em sua essência um crime contra a humanidade foi destacado desta categoria devido a sua importância, mesmo carente de ajustes foi inserido no Estatuto de Roma por ser considerado como o crime dos crimes que tem por objetivo não destruir apenas pessoas, mas costumes, culturas, sendo a sua principal vítima a diversidade (SIQUEIRA, 2011, JAPIASSÚ, 2009). Ainda de acordo com Jankov (2009), o dollus specialis distingue o crime de genocídio dos crimes de guerra e crimes contra a humanidade, pois para ser considerado como um crime de genocídio, o ato deve ter sido feito com o intuito de destruir uma parte ou o todo de um grupo especifico.
2.5.3.2 Crimes contra a humanidade
As suas origens retornam na Primeira Guerra Mundial, durante o massacre dos armênios pelos turcos, sendo considerados como uma ofensa que ferem alguns princípios do Direito Internacional (SIQUEIRA, 2011, KRIEGER, 2004, JAPIASSÚ, 2009), tendo sua primeira definição jurídica no Estatuto do Tribunal de Nuremberg em seu artigo 6º, e posteriormente nos Estatutos para os tribunais da Antiga Iugoslávia e Ruanda (BAZELAIRE; CRETIN, 2004), os crimes contra a humanidade enfrentam duas dificuldades sendo elas:
i. a distinção entre os crimes contra a humanidade e os crimes de guerra, além dos crimes sujeitos ao direito nacional;
ii. a determinação das condutas puníveis de acordo com o direito internacional como fruto da responsabilidade criminal individual, distinta da responsabilidade do Estado por violações dos direitos humanos (JANKOV, p. 61).
Tendo suscitado discussões intensas durante a Conferência de Roma, os mesmos estão dispostos no artigo 7º do Estatuto de Roma e contêm os atos de assassinato, exterminação, escravidão, deportação ou transferência forçada da população, prisão ou privação severa de
liberdade, tortura, estupro, gravidez forçada, prostituição forçada, esterilização forçada, perseguição contra algum grupo especifico, desaparecimento forçado de pessoas, crime de apartheid, e outros atos desumanos que cause intencionalmente sofrimentos ou ferimentos (ICC, 2017f, JAPIASSÚ, 2009, BAZELAIRE; CRETIN, 2004, MELLO, 2004). Devendo ser cometido contra a população civil (JANKOV, 2009, CARDOSO, 2012).
Um dos debates mais importantes que ocorreram em relação aos crimes contra a humanidade, era a dúvida se seria ou não necessário, que os mesmos estivessem ligados a um conflito armado, entretanto para não se tornarem redundantes em relação aos crimes dos guerra, foi acordado que esse nexo não seria necessário (JAPIASSÚ, 2009, KRIEGER, 2004).
2.5.3.3 Crimes de agressão
Anteriormente conhecido como crimes contra a paz, pode ser considerado entre todos os crimes de jurisprudência do tribunal o que tenha a conceituação mais difícil, sendo caracterizado como infrações ao direito à guerra4, que dita quando é licito o uso de forças
militares (JAPIASSÚ, 2009, BAZELAIRE; CRETIN, 2004), como mostra o já citado art. 5º do Estatuto de Roma no inciso segundo os crimes de agressão terão jurisprudência no TPI quando for provado um dispositivo em conformidade com os artigos 121 e 123 (KRIEGER, 2004, SIQUEIRA, 2011, JANKOV, 2009, BAZELAIRE; CRETIN, 2004, CARDOSO, 2012).
No art. 8º do Estatuto encontra-se que o crime de agressão é o “planejamento, preparação, iniciação ou execução, por parte de uma pessoa em posição efetiva de exercer controle sobre ou direcionar a ação política ou militar de um Estado, de um ato de agressão” (ICC, 2017f) que de alguma forma violem a Carta das Nações Unidas.
2.5.3.4 Crimes de guerra
Para Krieger (2004), um dos pontos que difere os crimes de guerra dos crimes contra a humanidade no Direito Internacional Consuetudinário é que estes podem ocorrer em tempos de paz, enquanto aqueles necessariamente necessitam de um conflito, como dito anteriormente de modo a se evitar que ambos se tornem redundantes.
4 Jus ad bellum
Os mesmos são baseados no jus in bello que entram em oposição ao jus ad
bellum5, sendo que no final do século XIX diversos movimentos para regular a guerra tiveram início como, declaração de Paris (1856), Convenção de Genebra (1864), declaração de São Petersburgo (1868), declaração de Bruxelas (1874), convenções de Haia (1899 e 1907), protocolos de Genebra (1925), convenção de Genebra (1929), Convenção de Genebra (1949) e seus protocolos adicionais (1977) (JAPIASSU, 2009).
Os crimes de guerra estão dispostos no artigo 8º parágrafo segundo do Estatuto, sendo aqueles que ferem:
a) As violações graves às quatro Convenções de Genebra.
b) Outras violações graves das leis e costumes aplicáveis em conflitos armados internacionais no âmbito do Direito Internacional.
c) Em caso de conflito armado que não seja de índole internacional, as violações graves do artigo terceiro comum às quatro Convenções de Genebra, e, por conseguinte, não se aplica a situações de distúrbio e de tensão internas, tais como motins, atos de violência esporádicos ou isolados ou outros de caráter semelhante. d) As outras violações graves das leis e costumes aplicáveis aos conflitos armados que não têm caráter internacional, no quadro do Direito Internacional (KRIEGER, 2004, p. 198).
Ainda dentro dos quatro itens, existem diversos pontos, como por exemplo, nas violações às quatro Convenções de Genebra encontram-se os crimes de: homicídio doloso, tomada de reféns, tortura ou outros tratamentos desumanos, deportação ou transferência de ilegais, entre outros. Enquanto no tópico “b” podem ser encontrados os seguintes crimes: utilizar veneno ou armas envenenadas, utilizar gases asfixiantes, utilizar balas que expandam declarar que não será dado quartel (BRASIL, 2004, BAZELAIRE; CRETIN, 2004, MELLO, 2004).
Entre os crimes encontrados no tópico “b” do artigo 8º parágrafo segundo encontra- se “recrutar ou alistar menores de 15 anos nas forças armadas nacionais ou utilizá-los para participar ativamente nas hostilidades” (BRASIL, 2004, JAPIASSÚ, 2009). Os tópicos “c e d” tratam para os conflitos que não possuem uma índole internacional, sendo de caráter interno.
Onde é possível encontrar no tópico “c” crimes como: tomada de reféns, ultrajes a dignidade humana, enquanto no tópico “d”, encontra-se crimes como o de “recrutar ou alistar menores de 15 anos nas forças armadas nacionais ou em grupos, ou utilizá-los para participar ativamente nas hostilidades” (BRASIL, 2004, JAPIASSÚ, 2009).
5 Meios de evitar o desencadeamento de uma guerra, sendo que para alguns autores, dedicar um estudo que crie regras para se conduzir uma guerra não seria necessário, visto que o ato de guerrear já seria ilícito por si só, entretanto é possível analisar que deste a antiguidade as pessoas se preocupavam em estabelecer algumas regras limitadoras, como San Tzu que descreveu que os velhos e os feridos deveriam ser excluídos da guerra (JAPIASSÚ, 2009).
Aqui reside o objeto de estudo principal deste trabalho, que tem a finalidade de explorar e demonstrar como o Tribunal Penal Internacional atua quando este crime de guerra ocorre em algum lugar, especialmente a realidade da Colômbia que começou o seu conflito interno na década de 1960.