2 O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL NO CONTEXTO DOS DIREITOS
2.3 DIREITOS HUMANOS
Neste tópico será exposta a evolução histórica dos Direitos Humanos, como se manifestou em diferentes culturas e em momentos históricos sucessivos, como na afirmação da dignidade da pessoa humana, na luta contra todas as formas de dominação, opressão e exclusão (MARTINS, 2009, p. 749).
2.3.1 Evolução histórica
Em 539 a. C. Ciro, o Grande, primeiro rei da Antiga Pérsia quando conquistou a Babilônia, libertou os escravos e registrou em um cilindro de argila na língua arcádica que todas as pessoas tinham o direito de escolher a sua própria religião e a igualdade racial (UNIDOS PELOS DIREITOS HUMANOS, 2017a).
Outros documentos que serviram de percurso para a consolidação dos Direitos Humanos atuais, foram: a Carta Magna (1215), a Petição de Direito (1628), a Constituição dos Estados Unidos (1787), a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e a Declaração dos Direitos dos Estados Unidos (1791). (UNIDOS PELOS DIREITOS HUMANOS, 2017a).
No art. 48 da Carta Magna (1215), fica estipulado que ninguém pode ser detido ou preso, sem que antes aconteça um julgamento de acordo com as leis do país (CARDOSO, 1986). Posteriormente com a criação da Constituição dos Estados Unidos (1787), alguns Direitos Humanos Fundamentais foram criados tais como: liberdade religiosa, julgamento pelo tribunal do júri, inviolabilidade de domicilio e proibição de aplicação de penas cruéis (DHNET, 2017a). Com o estabelecimento da Primeira República Francesa e fim da Monarquia absoluta em 1789 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi adotada, onde garante que todos os cidadãos possuem o direito de liberdade, prosperidade, segurança e resistência à opressão (UNIDOS PELOS DIREITOS HUMANOS, 2017a).
Por outro lado a Declaração dos Direitos dos Estados Unidos, ou Bill of Rigths, limitava os poderes do governo federal dos Estados Unidos e garantia o direito de todos os seus cidadãos (DHNET, 2017a). Posteriormente já em 1864, a primeira Conferência de Genebra é celebrada com o objetivo de criar uma Convenção para o tratamento de soldados feridos em combate (UNIDOS PELOS DIREITOS HUMANOS, 2017a).
Tanto durante a Primeira Guerra Mundial como na Segunda Guerra Mundial os Direitos Humanos foram deixados de lado, segundo Piovesan (2006, p.8) “A era Hitler foi marcada pela lógica da destruição e da decartabilidade da pessoa humana, que resultou no envio de 18 milhões de pessoas a campos de concentração, com morte de 11 milhões, sendo 6 milhões de judeus, além de comunistas, homossexuais e ciganos.”
Já com o fim da Segunda Guerra voltaram a ter importância para o cenário internacional com a Criação da Organização das Nações Unidas em 1945, onde os Direitos Humanos deixam de ser apenas papel do Estado (GARCIA, 2005). Se a Segunda Guerra Mundial significou a ruptura dos Direitos Humanos, o pós-guerra traz a sua reconstrução e a sua internacionalização (PIOVESAN, 2006).
No decorrer da Carta das Nações Unidas o termo Direitos Humanos foi utilizado sete vezes, apontando que este seria o caminho que a organização iria seguir, os direitos humanos não estão vinculados à cor, raça, opção religiosa, capacidade financeira, estado civil, sexo ou qualquer outra variável (UNITED NATIONS, 2017d, ARAUJO; NEME, 2009).
O conceito de Direitos Humanos também é bastante discutido entre os teóricos. Para Reis (2009) os Direitos Humanos seria a capacidade de um indivíduo se reconhecer no outro. Enquanto para Piovesan (2006, p. 8):
Os direitos humanos compõem uma racionalidade de resistência, na medida em que traduzem processos que abrem e consolidam espaços de luta pela dignidade humana. Invocam nesse sentido, uma plataforma emancipatória voltada à proteção humana e a evitar sofrimentos, em face da persistência brutalidade humana.
A autora prossegue afirmando que além de serem direitos universais pois, a condição de pessoa já é requisito para usufruir dos direitos, e compõem uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, capaz de conjugar o catálogo de direitos civis e políticos com o catalogo de direitos sociais, econômicos e culturais, e são também intransferíveis (PIOVESAN, 2006).
Em 1946 durante uma sessão o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, concordou que deveria ser criada uma comissão de Direitos Humanos (CDH), a partir de três etapas, na primeira etapa seria criada uma declaração de direitos humanos, na segunda etapa um documento que tivesse força vinculante mais do que uma mera declaração, e na terceira etapa um meio de garantir que esses direitos fossem respeitados e as medidas para caso de violação (COMPARATO, 2010).
A primeira etapa foi concluída em 1948, com a publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que contemplou a universalidade dos direitos inerentes a todo homem, em meio a diversidade cultural, e estabeleceu que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos (MARTINS, 2009).
Com a Declaração a comunidade internacional reconheceu que o indivíduo é membro direto da sociedade humana, e não somente cidadão de seu pais, mas também é cidadão do mundo, e desse modo necessita de proteção internacional (PIOVESAN, 2008).
A Declaração é composta por 30 artigos e em preâmbulo traz que:
A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição(OHCHR, 2017a).
A Segunda etapa foi completada apenas em 1966, com a aprovação de dois pactos, o primeiro sendo sobre direitos civis e o segundo sobre direitos econômicos sociais e culturais (COMPARATO, 2010). O Primeiro pacto estabelece obrigações como não cometer tortura e prover um sistema para violação dos direitos dos cidadãos, enquanto o segundo tinha como objetivo principal incorporar os dispositivos da Declaração Universal e voltado principalmente aos Estados (PIOVESAN, 2008).
Em 1993 em uma conferência produzida pela ONU em Viena, foi criado o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos (ACNUDH), que centraliza as atividades da ONU na área de Direitos Humanos, e suas principais temáticas são: reforçar a igualdade,
combater a discriminação, fortalecer a responsabilidade e o Estado de direito e integrar os direitos humanos no desenvolvimento e na esfera econômica (OHCR, 2017b).
Posteriormente em 2006, a partir da resolução 60/251 da AG, o Conselho Econômico e Social substitui a Comissão de Direitos Humanos da ONU pelo Conselho de Direitos Humanos, utilizando de justificativa que a Comissão estava perdendo a sua credibilidade. O Conselho é formado por 47 Estados-membros: 13 dos Estados Africanos, 13 dos Estados Asiáticos, 6 dos Estados do Leste Europeu, 8 dos Estados da América Latina e Caribe e 7 Estados da Europa Ocidental, sendo que o mandato dura 3 anos (PIOVESAN, 2008). Dentre as suas atividades destacam-se promover a educação e o ensino em direitos humanos, bem como a assistência técnica e programas de capacitação e servir como um fórum de diálogo sobre temas de direitos humanos. A Assembleia Geral também adotou outras convenções sobre os Direitos Humanos como: Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio (1948), Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984), Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher (1979), Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial (1965) e a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) (PIOVESAN, 2008).
2.3.2 Convenção sobre os Direitos da Criança
A convenção foi adotada pela ONU em 1989, e se tornou vigente em 1990, e é o tratado internacional de proteção aos Direitos Humanos com o maior número de ratificações, em 2007 contava com 193 Estados-Partes (PIOVESAN, 2008).
Em seu art. 1 traz que “nos termos da presente Convenção, criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo” (UNICEF, 2004).
Acolhendo a concepção de que a criança é verdadeiro sujeito de direito, e que exige proteção especial e possui absoluta prioridade, a convenção conta com 54 artigos, e entre os direitos inclusos encontram-se: o direito à vida e à proteção contra a pena capital; a proteção ante a separação dos pais; o direito de deixar qualquer país e entrar em seu próprio país; e que menores de 15 anos não poderão participar diretamente das hostilidades (PIOVENSAN, 2008). Em maio de 2000 foi adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, dois protocolos adicionais a convenção sendo eles: Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo à venda de crianças, prostituição e pornografia infantis e o
Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo ao envolvimento de crianças em conflitos armados (UNICEF, 2004).
O art. 3 do Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo ao envolvimento de crianças em conflitos armados traz que:
Os Estados Partes elevarão a idade mínima para o recrutamento voluntário de pessoas em suas forças armadas nacionais acima daquela fixada no Artigo 38, parágrafo 3, da Convenção sobre os Direitos da Criança, tendo em conta os princípios contidos no referido Artigo e reconhecendo que, em conformidade com a Convenção, indivíduos menores de 18 anos tem direito a proteção especial. 2. Cada Estado Parte depositará, ao ratificar o presente Protocolo ou a ele aderir, uma declaração vinculante fixando a idade mínima em que permitirá o recrutamento voluntário em suas forças armadas nacionais, bem como das salvaguardas adotadas para assegurar que o referido recrutamento não seja feito por meio da força ou coação. 3. Os Estados Partes que permitirem o recrutamento voluntário de menores de 18 anos em suas forças armadas nacionais manterão salvaguardas para assegurar, no mínimo que: a) o referido recrutamento seja genuinamente voluntário; b) o referido recrutamento seja feito com o consentimento informado dos pais do menor ou de seus tutores legais; c) os menores em questão sejam devidamente informados das responsabilidades envolvidas no referido serviço militar; d) os menores em questão forneçam comprovação fiável de sua idade antes de serem aceitos no serviço militar nacional. 4. Os Estados Partes poderão ampliar sua declaração a qualquer tempo por meio de notificação para tal fim encaminhada ao Secretário Geral das Nações Unidas, o qual informará todos os Estados Partes. A referida notificação entrará em vigor na data de seu recebimento pelo Secretário Geral. 5. A exigência relativa à elevação da idade a que se refere o parágrafo 1 do presente Artigo não se aplica a escolas operadas ou controladas pelas forças armadas dos Estados Partes, em conformidade com os Artigos 28 e 29 da Convenção sobre os Direitos da Criança (BRASIL, 2004).
Destaque-se que o mecanismo para controle e fiscalização dos direitos da convenção e dos protocolos adicionais é o Comitê sobre Direitos da Criança, onde os Estados- partes devem fornecer relatórios informando as medidas tomadas para a implementação dos mesmos (PIOVESAN, 2008).