4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
4.4 EM BUSCA DE UMA FUNDAMENTAÇÃO SOCIOLÓGICA
4.4.1 Complexidade, Contingência e Expectativa de Expectativas
O discurso luhmanniano empresta à complexidade a noção de totalidade de possibilidades de experiências ou ações. Esta complexidade poderá ser grande ou pequena variando em termos quantitativos, de diversidade ou de interdependência, bem como estruturada ou desestruturada. A complexidade desestruturada equivale ao arbítrio; à igualdade entre todas as possibilidades. A complexidade estruturada permite que as possibilidades se excluam ou se limitem reciprocamente.249
A noção de complexidade advém de uma constatação e premissa luhmaniana: que a relação do homem com o mundo é uma relação constituída de forma sensorial.250 Em sendo assim, o mundo apresenta ao ser humano uma multiplicidade de possíveis experiências e ações em contraposição ao seu limitado potencial em termos de percepção, assimilação de informação e ação atual e consciente. Neste sentido, cada ação ou experiência concreta remetem a outras possibilidades ao mesmo tempo complexas e contingentes.251
Temos então mais possibilidades do que podemos, de fato, realizar. Mas não apenas isso. Lidamos com outro problema denominado contingência que nos chama a atenção para o fato de as possibilidades apontadas para as demais experiências ou ações poderem ser diferentes das esperadas.
O problema do convívio humano orientado sensorialmente será, então, abordado por Luhmann a partir destes dois conceitos e outras duas constatações: a complexidade
249
LUHMANN, Niklas. Sociologia do Direito. v. 1. Trad. Gustavo Bayer. Rio de Janeiro: Ed. Tempo Brasileiro, 1983, 12/13 pp.
250
Ibidem, p. 44.
251
implica necessariamente uma seleção forçada e a contingência conduz ao perigo de desapontamentos.252
Diante desta situação existencial marcada por uma sobrecarga ou tensão, mecanismos de amenização ou alívio se formam. Tais mecanismos foram denominados de estruturas de assimilação de expectativas que absorvem e controlam o duplo problema da complexidade e da contingência.253
Em suma, Luhmann propõe-se a analisar a experiência humana a partir dos conceitos de contingência e complexidade que geram, necessariamente, uma situação de tensão amenizada pela formação de estruturas de expectativas que poderão ser normativas ou cognitivas dependendo do grau de assimilação de eventuais desapontamentos.
Devemos considerar que a experiência humana pressupõe a intersubjetividade. Assim, este mundo complexo e contingente faz inserir no campo de visão do ser humano um “alter ego”, como fonte de ações e experiências originais. Temos, então, um elemento de perturbação que reforça a complexidade e a contingência e já antecipa o problema da dupla contingência.254 Esta consiste na soma de percepções alheias a percepções próprias; na absorção de expectativas do outro. Frente a contingências simples são construídas estruturas estabilizadas de expectativas mais ou menos imunes a desapontamentos, por exemplo: à noite segue-se o dia; amanhã a casa estará de pé etc. 255 Mas a dupla contingência exige estruturas de expectativas mais complexas.
A liberdade que a mim compete é a mesma que me cerca. Os outros com quem me relaciono orientam-se a partir de suas próprias decisões. A liberdade comportamental, neste contexto, faz aumentar a complexidade e gera uma probabilidade maior de desapontamentos. Assim devemos considerar que o “(...) comportamento do outro não pode ser tomado como fato determinado, ele tem que ser expectável em sua seletividade, como seleção entre outras possibilidades do outro.”256
252 Ibidem., p. 46. 253 Ibid., p. 46. 254 Ibid., p. 46. 255 Ibid., p. 47. 256 Ibidem, p. 47.
O controle destas relações sociais impõe não apenas que “[...] cada um
experimente, mas também que cada um possa ter uma expectativa sobre a expectativa que o outro tem dele.”257 A dupla contingência, então, vai emprestar ao agir humano uma dupla relevância: uma relativa às expectativas imediatas do comportamento (satisfação ou desapontamento do que se espera do outro); outra concernente ao significado do comportamento próprio em relação às expectativas do outro.258
Ao agir, o ser humano empresta uma significação a este comportamento, mesmo inconscientemente, e comunica algo de si próprio ao outro. Ele se auto-representa. A manutenção de uma determinada linha de ação pode suscitar no outro uma expectativa de manutenção deste agir. Assim, podemos ter a situação de expectativas ilegítimas e irrealísticas criadas a partir de uma ação do outro, bem como uma má avaliação do significado comportamental daquele que age desapontando expectativas legítimas, ou até a correta avaliação do significado comportamental e a correta previsão da expectativa do outro, mas uma ação deliberadamente contrária ao esperado. Estes casos seriam exemplos típicos de conflitos, os dois últimos seriam censuráveis, em princípio, pela teoria dos atos próprios.
O comportamento contraditório trabalhado pela teoria dos atos próprios corresponde ao desapontamento da teoria luhmanniana; consiste num atentado a expectativas (de terceiros) de continuidade de auto-representação (do outro). Eis o abalizado pronunciamento de Günter Teubner, citado por Menezes Cordeiro, acerca desta temática, in
verbis:
Sociologicamente, o comportamento contraditório configura-se como um atentado <<contra expectativas fundamentais de continuidade de auto-representação que respeitam também a identidade do parceiro e a sua relação bilateral, nas palavras de Teubner. 259
Um exemplo utilizado por Luhmann pode ilustrar esta cadeia de expectativas de expectativas. Se uma mulher serve sempre no jantar comida fria ao seu marido e ele não cria nenhuma objeção, ela está autorizada a esperar que seu marido espere este comportamento 257 Ibidem, pp. 47/48. 258 Ibidem., p. 48. 259
MENEZES CORDEIRO, op. cit., pp. 750/751, citando Teubner. Vale a pena transcrever a elucidativa nota de rodapé nº 396, p. 751, da referida obra de Menezes Cordeiro, in verbis: “TEUBNER coloca-se na linha de N. LUHMANN para quem não deixa de remeter. Explica N. LUHMANN que <<toda auto-representação obriga – só porque ela representa um <<autos>> que será aproveitado para a identidade. Se se quer ficar o mesmo, deve- se permanecer como sempre se mostrou>>[...]”
seu e este, por seu turno, tem que esperar esta expectativa de expectativa. Mas se um dia, servido o jantar frio, ele diz que deseja uma sopa quente, este comportamento além de incômodo à sua esposa enfraqueceria a segurança das expectativas desta em relação a seu esposo, podendo chegar num novo equilíbrio, no qual ele teria que esperar dela a expectativa dele como alguém imprevisível.260