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A Complexidade que a Lógica Tetragramática Traz para Indústria da Moda

PARTE IV – DISCUSSÕES

10 Discussões sobre a lógica tetragramática, organização neguentrópica e rizoma

10.1.5 A Complexidade que a Lógica Tetragramática Traz para Indústria da Moda

Á medida que as marcas deixam parados nas próprias confecções resíduos têxtis, rolo de tecido não vendido, coleções antigas não vendidas, elas geram um passivo ambiental. Esse passivo ambiental pode ter vários caminhos a serem destinados, entre os quais existe o aterro industrial, coprocessamento e reciclagem (upcycling ou downcycling).

A lógica business-as-usual que essas empresas adotam dentro de uma produção linear comporta esse tipo de situações. Um mercado sempre mais competitivo dentro do Brasil devido

à concorrência com a roupa vindo da China, os varejistas brasileiros compram produtos vindo de fora, externalizando problema de ética e garantindo que as auditorias sejam feitas a níveis globais. No Brasil, existe uma lei nacional de resíduo sólido que compartilha a responsabilidade de quem gera o resíduo; assim, o varejista é responsável pelos resíduos que o fornecedor dela produz - isso em 2018, sendo que a lei é de 2010.

Portanto, existe uma economia linear que usa tecido produzido de matéria-prima nacional ou internacional, produz aqui no Brasil, consome e descarta aqui. O que é consumido e descartado aqui no Brasil pode ser produzido em um outro país, e a matéria-prima pode não ser brasileira. Devido a limitadas informações, é impossível controlar a cadeia produtiva da moda; somente em alguns casos há marcas que usam uma coleção inteiramente produzida e consumida aqui no Brasil, mas não é o caso dos varejistas brasileiros, que, por uma questão de custo, compram de países asiáticos.

Complexo é entender como as relações complementares, antagônicas e concorrentes das interações entre ordem/desordem/organização podem trazer um holofote sobre alguns aspectos que a lógica simplificadora poderia ter obscurecido.

10.1.5.1 Complementariedade

Sendo a moda fast fashion produzida por empresas ligadas a um modelo de negócio tradicional, ou seja, produção para empurrar a demanda, gerando estoque de material, procura de baixo custo de produção, além das bordas nacionais. Embora o monitoramento das praticas sociais possa ser duvidoso, as empresas almejam lucrar e parte das práticas sociais e ambientais têm o alvo para reduzir discórdias e multas pelas autoridades nacionais. Isso é um dos motivos da externalização da produção em países de baixo custo de mão de obra e com legislações ambientais e sociais talvez menos restritivas que no Brasil. Embora o problema da terceirização seja vivenciado também aqui no Brasil, pois o contratante não consegue controlar o terceirizado do próprio fornecedor, já que não tem um acesso direto, existe a possibilidade de terceirização, com a produção averiguando a capacidade do próprio fornecedor - e aceitar um pedido além das próprias capacidade poder ser um sinal de alerta. Os achados das entrevistas com as empresas investigadas com o modelo fast fashion estão alinhados com uma pesquisa realizadas por Hockerts (2015) com 12 empresas que investem em iniciativas sustentáveis. A procura por redução do risco, a construção de uma imagem, a procura por novos mercados e por eficiência

dos resultados é um lógica dominante dentro das empresas que procuram ter resultados sustentáveis (HOCKERTS, 2015).

A lógica dominante dessas empresas é perpetuar um modelo de negócio da procura da margem de lucro conforme os acionistas ou o proprietário desejam. Nessa perspectiva elas são consideradas a “ordem inicial” dessa tese, ou seja, a moda tradicional começou a ser dominada por esses atores desde que perceberam que a Zara, grande empresa da Espanha, conseguira lucrar em breve tempo mediante à redução do custo de produção com materiais de baixa qualidade, mão de obra barata e entrega rápida no marcado (em um tempo de três semanas), com preço acessíveis, copiando as coleções de alta moda das marcas italianas, alemãs, francesas e americanas - fazia isso quando essas lançavam nas passarelas dos grandes polos atrativos mundiais as próprias criações (GHEMAWAT; NUENO, 2006).

Se, por um lado, esse modelo de negócio é considerado o grande causador da poluição dos rios e de práticas sociais duvidosas ao redor do mundo, é inegável afirmar que havia um mercado inexplorado pelas grandes marcas, ou seja, do consumidor com baixo poder aquisitivo, pois o poder aquisitivo de comprar uma roupa de Versace ou de Giorgio Armani, entre outras grandes marcas da moda mundial, é possibilitado para pouquíssimas pessoas. Portanto, a fast

fashion empoderou uma classe social que sequer tinha condições de acessar um vestido de

Versace. Hoje, por exemplo, essa tese mostra o lado complementar do fast fashion mediante à colaboração com pequenos ateliês que seguem um modelo de negócio chamado upcycling o qual cria novas coleções partindo de coleções antigas e consertam peças com defeitos de marcas famosas brasileiras que aderiram ao fast fashion para se tornarem competitivas no mercado, a fim de alcançarem o público a preço mais acessível, tendo em vista que a roupa possui um etiqueta que atesta a marca e o nome do ateliê que consertou a peça. Esses ateliês são praticamente desconhecidos na “ordem inicial”, mas seus donos não, pois o papel desses indivíído dos valores deles. Isso cria tensões entre o indiviíduo e a organização, corroborando outros estudos, como aquele de Bansal (2003). Além disso, sendo isolados dentro de uma lógica de mainstream, têm dificuldades de entender a cadeia da indústria da moda além das bordas da empresa. Embora eles se depararem com as consequências que o modelo fast fashion (moda rápida) estava acarretando ao meio ambiente e à sociedade - e, portanto, resolveram abrir um próprio negócio ou um ateliê com propósitos diferentes; é isso que denomino como fase de “desordem”. A desordem nasce, portanto, de uma consequência do fast fashion através das

quais vários marcos se encontram nessa tese, mas a pedra milhar é sem dúvida o desabamento do edifício chamado Rana Plaza em Bangladesh, em 2013, quando a sociedade começou entender o preço social e ambiental da roupa que estava comprando com um preço barato através dos grandes varejistas espalhados pelo mundo. O slow fashion nasce desde então como uma alternativa, entre outros modelos de negócio que impulsionam a economia global (SEBRAE, 2015).

10.1.5.2 Antagonismo

Ordem e desordem, como alega o paradigma da simplificação, são antagonistas por natureza, pois a “ordem” almeja o estabelecimento de regras, modus operandi e padrões, afastando-se do caos, do incerto, da “desordem”, que não é o contrário da “ordem”, mas a sua imagem, pois não existiria a ordem sem a desordem. Inclusive etimologicamente as duas palavras têm o mesmo radical, “ordem”. A complexidade, como analisada por Morin, não exclui a “ordem” ou a “desordem”, mas liga os dois estados, ou seja, ajuda a explicar por que precisam estar ligados e não separados.

Na tese, os resultados da “desordem” e da “ordem inicial” (chamo aqui ordem inicial para não confundir o leitor com a nova ordem) são também antagônicos ao mesmo tempo, e está aqui a reflexão, além da incerteza de compreensão da complexidade. Se, como visto anteriormente, existe uma complementariedade entre “ordem inicial” e “desordem”, existe também seu antagonismo, que sempre trabalha para que se distanciem esses dois estados. Essa luta não cessa de existir e nem a complexidade de Morin explica isso, mas alimenta essa reflexão. O antagonismo não é um mal a ser extinguido, mas sim um ponto sobre o qual devemos refletir.

O fast fashion trabalha para uma moda rápida e nem sempre barata; já o upcycling, que emerge na complementariedade com o fast fashion na fase de “desordem”, alimenta dois polos distintos, pois o fast fashion aponta para uma moda inclusiva na qual a maioria das pessoas podem utilizar uma roupa de marca, enquanto o upcycling aponta para uma moda exclusiva, ou seja, nem sempre as peças são baratas para o grande público, pois tem ateliê que dá uma ca bem para um mercado mais seletivo. O upcycling trouxe sem dúvida uma alternativa à produção de roupa, mas com tempos de produção maiores e sem escalas, dificultando o acesso para a massa - como uma empresa ligada ao fast fashion alega quando diz que o upcycling não vai vestir

o mundo. Isso é verdade, mas também é verdade que o upcycling tem uma produção limpa, enquanto o fast fashion não o tem. O antagonismo entre a “ordem inicial” e a “desordem” na incerteza de que um traz valor para a sociedade. A tese poderia abrir uma discussão sobre a necessidade de uma “desordem” antagônica e inclusiva social e ambientalmente, mas até que ponto é ambiental e socialmente sustentável a “desordem”? Até que ponto ela traz um valor para a moda sustentável?

10.1.5.3 Concorrente

A complexidade ajuda na reflexão sobre os aspectos antagônicos, complementares e concorrentes das relações entre elementos, considerados disjuntos pela ciência clássica. O concorrente se dá quando dois elementos são ao mesmo tempo um e outro - a “ordem inicial” e a “desordem” são ao mesmo tempo destruição e ausência de mudança, pois a “desordem” almeja mudar seu estado de caos (MORIN, 2001).

Na tese emergiu que a “desordem” provocada pelos acontecimentos sociais e ambientais entorno da moda fez os valores contrastarem, alimentados por um grupo de pessoas que trabalhavam na “ordem inicial”. Portanto, há como inferir que na “ordem inicial” já havia uma ansiedade, uma vontade de mudança; o “caos” não começou somente nas ideias desse grupo de pessoas, mas no ecossistema deles também, mediante os contatos que iam tendo ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, a “desordem” não é a tendência somente ao “caos”, mas a tese mostra que a “ordem inicial”, com suas regras, estava dentro da “desordem”, encontrando uma saída para solucionar seus problemas, tanto que um ateliê de upcycling se define como “lavanderia” das grandes empresas que poluem com os próprios descartes.

No entanto, a reflexão cobre somente um aspecto da incerteza que a complexidade almeja lidar, pois tanto a “ordem inicial” quanto a “desordem” trazem seus pontos obscuros. Por exemplo, a “desordem” traz benefícios para a moda sustentável ou não? A tese levanta o resultado de que, em um primeiro momento, traz benefícios, pois os ateliês emergem para resolver um problema das empresas que trabalham de uma forma tradicional, ou seja, na “ordem inicial”. De fato, isso alimenta uma moda upcycling e é sem duvida um elemento que a tese mostra, mas será que as empresas continuariam ou não nesse modelo tradicional sabendo que há um grupo de outras empresas que reutilizam seus passivos ambientais (sobra de produção)? Portanto, “ordem inicial” e “desordem” concorrem também entre si para uma moda não

sustentável. Isso emerge não claramente pelas entrevistas, mas pela rede que está se construindo com a sobra de produção de tecido. Houve duas empresas as quais alegaram que, quando não houver mais sobra no mercado, a missão deles dará certo! Mas, por que não haverá mais sobra circulando, ou por que nas confecções não haverá mais desperdício?

Após ter visto como o jogo complexo desvenda nuances que, com outras lentes, talvez não seria possível, pois a complexidade entre os elementos do anel tetralógico traz questões\paradoxos\discussões que a lógica linear poderia simplificar, a tese avança sobre as discussões da “organização complexa”, como representado pela figura 3 ponto vermelho 12 e 13, pois isso poderia trazer ao leitor maior compreensão sobre por quais condições a indústria da moda passa de uma “ordem inicial” para uma “desordem” e para os outros elementos do tetragrama.