PARTE I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3 ECONOMIA CIRCULAR E SUSTENTABILIDADE
3.1 Economia circular
O conceito de EC se encontra no discurso do Presidente da Royal Society of Chemistry, em 1848: “em uma fábrica química ideal, não há, estritamente falando, nenhum desperdício, mas apenas produtos”. Em 1966, Kenneth Ewart Boulding, um economista estadunidense nascido na Inglaterra, falou sobre uma economia fechada comparando-a com uma “nave espacial” abstrata onde a produção e o consumo precisam ser minimizados, em vez de maximizados, influenciando uma discussão enganosa sobre a satisfação humana por meio do bem-estar considerado como estoque ou fluxo de capital (BOULDING, 1966). Em 1971, Georgescu-Roegen advogou que a economia clássica, onde o consumo alimenta a produção, deveria ser alterada por uma em que o fluxo circular da economia estivesse profundamente enraizado no ambiente biofísico (GEORGESCU-ROEGEN, 1971). Em 1976, a EC foi primeiramente conceituada por Stahel e Ready-Mulvey através de um relatório da Comissão das Comunidades Europeias, em Bruxelas, intitulado “O potencial para substituir Manpower para a Energia”, mais tarde publicado em forma de livro sob o título “Emprego e Amanhã, o potencial para substituir mão de obra por energia”. Os autores defendiam a substituição de energia por mão de obra na indústria automobilística francesa. O estudo concluiu que uma economia circular, em oposição à fabricação de novos produtos, criaria empregos localmente e reduziria o consumo de recursos, as emissões de GEE e resíduos (STAHEL, 2013). Em 1982, Stahel introduziu o sistema de autorreabastecimento (extensão da vida do produto), definindo quatro ciclos dentro do sistema econômico: reutilização, reparo, remanufatura e reciclagem (STAHEL, 1982). Em 1990, Pearce e Turner (1990) descreveram o modelo de EC, enfatizando a função econômica do meio ambiente como fornecedor de recursos, como assimilador de resíduos e como fonte direta de utilidade, a consequência dos resíduos quando são reciclados ou não e as exaustivas e renováveis funções de recurso em que o primeiro diminui o estoque de
recursos disponível e o último aumenta se a taxa de uso for menor que a de sua substituição. Em 1998, McDonough e Braungart (1998) apontaram que os produtos no final de uso pode ser divididos em nutrientes biológicos e técnicos para reutilizá-los, manufaturá-los e reciclá-los como Stahel (1982) disse, além de reinseri-los no fluxo econômico e reutilizá-lo na fazenda biológica como orgânicos, de forma semelhante à ideia de Bioeconomia sugerida por Georgescu-Roegen em 1971. McDonough e Braungart sugeriram que as vantagens desse sistema são duplas: nenhum resíduo potencialmente perigoso é gerado, e bilhões de dólares em materiais valiosos são salvos e retidos pelo fabricante (MCDONOUGH; BRAUNGART, 1998).
Durante o processo de desenvolvimento do modelo EC, alguns países pioneiros, como a Alemanha, com o “Ato Alemão sobre Ciclo de Substâncias Fechadas e Gerenciamento de Resíduos de 1994”, promoveram um gerenciamento fechado de ciclo de substâncias para conservar os recursos naturais e garantir o descarte ambientalmente compatível de resíduos (FEDERAL MINISTRY OF ENVIRONMENT, 1994); e como o Japão, em 1993, com a lei ambiental, e em 2000 com a “Promoção da formação de uma lei da sociedade da reciclagem”, com foco na construção de uma sólida estrutura social de cima para baixo. Economia circular, assim, tornou-se um padrão de vida nacional em que a o desenvolvimento da economia circular foi alcançado em diferentes aspectos e níveis (HAO; JI; ZHANG, 2012).
Em 2008, a União Europeia estabelece o quadro legislativo para o gerenciamento de resíduos na Comunidade, definindo conceitos-chave como resíduos, valorização e eliminação, e estabelece ainda os requisitos essenciais para a gestão de resíduos que obrigam os Estados- Membros a cumprir o quadro legislativo Europeu (UNIONE EUROPEA, 2008). Em 2014, a Comissão Europeia (2014) lançou um programa de desperdício zero para promover a eficiência de recursos para proteger a economia do risco de suprimento. Esse programa apoia todos os países da Europa a adotarem o EC como política de nível nacional.
A EC é um modelo econômico (MURRAY; SKENE; HAYNES, 2017) e possui uma importante contribuição da ciência da sustentabilidade que se baseia na ecologia industrial (FROSCH; GALLOPOULOS, 1989), no ecossistema industrial (ASHTON, 2009), na simbiose industrial (CHERTOW; EHRENFELD, 2012), na produção mais limpa (BAAS, 2008), no sistema de serviço do produto (MONT, 2002), n ecoeficiência (EHRENFELD,
2005), no design do berço ao berço (BRAUNGART; MCDONOUGH; BOLLINGER, 2007), na economia de desempenho (STAHEL, 2010), no capitalismo natural (HAWKEN; LOVINS; LOVINS, 1999), na resiliência do sistema sócio ecológico (FOLKE, 2006) e na economia azul (PAULI, 2010).
Antes de prosseguir, apresento a última definição na literatura dada por Korhonen, Honkasalo e Seppälä (2018):
“A economia circular é uma economia construída a partir de sistemas sociais de produção e consumo que maximizam o serviço produzido a partir do fluxo linear de produção de energia e material natureza-sociedade-natureza. Isso é feito usando fluxos de materiais cíclicos, fontes de energia renováveis e fluxos de energia do tipo em cascata1. A economia circular bem-sucedida contribui para todas as três dimensões do desenvolvimento sustentável. A economia circular limita o fluxo de produção a um nível que a natureza tolera e utiliza os ciclos do ecossistema nos ciclos econômicos, respeitando suas taxas de reprodução natural.” (KORHONEN; HONKASALO; SEPPÄLÄ, 2018, p. 39).
3.1.1 O nível corporativo na economia circular
A seleção de materiais e o design do produto são promovidos pela cadeia de suprimentos reversa, que inclui atividades relacionadas ao gerenciamento de fim de vida útil, a fim de maximizar a criação de valor ao longo de todo o ciclo de vida, através da recuperação de valor de produtos após o uso, seja pelo fabricante original do produto ou por uma terceira parte (FRENCH; LAFORGE, 2006).
Bocken et al. (2014) retrataram oito arquétipos, agrupados em tecnológico, social e organizacional: maximizar materiais e eficiência energética, criar valores a partir de resíduos, substituir matérias primas não renováveis pelas renováveis, incentivar a funcionalidade de um produto/serviço em vez da propriedade, adotar papel de responsabilidade, incentivar a suficiência, reposicionar novos escopos para a sociedade/meio ambiente e desenvolver soluções de expansão.
Bocken, Bakker e Pauw (2016) apontaram que o design para EC deve ser atingido no design de produtos para maior durabilidade e capacidade de atualização a partir de alguns estudos de caso analisados pelos autores. Na literatura da gestão corporativa para EC, os
modelos de negócios são bem analisados a nível empresarial e acadêmico (BOCKEN et al., 2014; BOCKEN; BAKKER; PAUW, 2016; LÜDEKE-FREUND; GOLD; BOCKEN, 2019; PRENDEVILLE; BOCKEN, 2016).
Essa literatura descreve apenas um elemento da gestão corporativa para a EC - o nível arquitetural (LÜDEKE-FREUND, 2009), porém, conforme elaborado por Schaltegger, Lüdeke-Freund e Hansen (2012), o modelo de negócios ainda é utilizado de forma difusa. Além disso, autores como Boons e Lüdeke-Freund estão mais focados em como os modelos de negócios devem ser moldados sob requisitos normativos para atender à inovação sustentável. De fato, a gestão corporativa da EC é muito complexa para ser entendida como um modelo de negócios apenas porque impede uma investigação mais aprofundada no nível transdisciplinar (SCHALTEGGER; BECKMANN; HANSEN, 2013). Os argumentos supracitados mostram que a EC é complexa demais para ser percebida sob apenas uma lente. De fato, até agora, a EC permanece um tópico intrincado (KORHONEN; HONKASALO; SEPPÄLÄ, 2018), embora tenha sido introduzida por Pearce e Turner (1990) há mais de duas décadas.
É necessária uma visão holística para levar em consideração as questões econômica, social e ambiental. Murray et al. (2017) sugeriram que pesquisas futuras deveriam começar a incorporar os mais recentes conhecimentos ecológicos sem silenciar a dimensão social e humana, realinhando as práticas econômicas e de gestão. A EC é tipicamente conceituada como um sistema de engenharia puro com foco na produção primária, portanto, não leva em consideração particularmente os efeitos de repercussões, como os requisitos comerciais e técnicos de produtos secundários produzidos com material reciclado (ZINK; GEYER, 2017).
De acordo com Murray et al. (2017), a EC é “um modelo econômico em que planejamento, recursos, compras, produção e reprocessamento são projetados e gerenciados, como processo e resultado, para maximizar o funcionamento do ecossistema e o bem-estar humano”. É importante destacar que a EC compartilha algumas semelhanças e diferencias com a sustentabilidade em algumas questões. Geissdoerfer et al. (2017) apontam algumas semelhanças e diferencias entre a EC e a sustentabilidade; esta visa beneficiar o meio ambiente , a sociedade e a economia, em vez dos atores econômicos, principal e indiretamente a sociedade e o meio ambiente (como EC faz). A sustentabilidade visa melhorar seus resultados indefinidamente, enquanto a EC aponta para otimizar os processos de produção. Um aspecto
importante diz respeito às percepções de responsabilidade; na sustentabilidade, elas são compartilhadas, mas não claramente definidas entre as partes interessadas, que objetivam em vários graus obter melhores preços para os consumidores, lucros organizacionais e menos desperdício para um bom ambiente. Já na EC as responsabilidades são bem compreendidas pelas organizações e pelos órgãos reguladores/tomadores de decisão políticas para obter vantagens econômicas, embora menos consumo de recursos e poluição para o meio ambiente.
3.1.2 As tensões na economia circular
A sustentabilidade empresarial para EC não é nova, mas precisa tornar mais claras algumas terminologias antes de prosseguir sua discussão, porque as empresas há muito tempo prosperam para resolver problemas ambientais, embora com resultados ruins, através da eficiência do gerenciamento de recursos. No entanto, existe um paradoxo, pois as empresas estão investindo mais em tecnologias verdes, contudo, os problemas ambientais surgem em todo o mundo (WHITEMAN; WALKER; PEREGO, 2013). Além disso, Levy e Liechtenstein (2011) apontaram a necessidade de abordagens de sustentabilidade corporativa entre o nível da empresa e o sistema da Terra para evitar mais danos ao meio ambiente.
O futuro da pesquisa deve abranger as integrações de valores, comportamentos e ações dos tomadores de decisão desde o nível individual até o social sob uma lente multinível, vinculando a teoria organizacional aos processos de ecologização (STARIK; RANDS, 1995). A sustentabilidade corporativa está mudando constantemente devido às tensões de novos padrões como a EC, novos níveis de sistemas inter-relacionados como indivíduo, organização, intraorganização e socioeconomia (HAHN et al., 2015).