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Considerando o que foi dito anteriormente sobre os cânceres serem doenças que apresentam em comum a capacidade de proliferação celular desordenada e capacidade de invasão de tecidos diferentes do tecido de origem, é possível relacionar o desenvolvimento e escape tumoral com falhas na resposta imune.

Transplantes de órgãos e enxertos de pele entre pessoas não aparentadas geralmente resultam em rejeições imunes. Em contraste, transplantes entre irmãos gêmeos idênticos geralmente são aceitos, resultados que indicam a capacidade do sistema imunológico em distinguir células exógenas e/ou alteradas. Experimentos mostraram que as rejeições de tecidos não-próprios são controladas por um conjunto complexo de macromoléculas de superfície celular chamadas antígenos de histocompatibilidade. O mais importante destes antígenos de histocompatibilidade são as proteínas do complexo principal de histocompatibilidade, ou, MHC (do inglês Major Histocompatibility Complex), como demonstrado na Figura 4 (SNUSTAD, D. P.; SIMMONS, M.J., 2008).

Em seres humanos, o MHC, onde está contido o sistema de antígeno leucocitário humano (HLA - do inglês Human Leukocyte Antigen), está envolvido na identificação de antígenos não-próprios e na ativação do sistema imunológico (HILDESHEIM; WANG, 2002; CHATTOPADHYAY, 2011). Portanto, a modificação dessas moléculas em células cancerígenas, como nos casos do câncer de mama e do colo do útero, assim como células infectadas por vírus como o HPV, é um dos mecanismos que gera escape da imunovigilância, de modo que estas células não são reconhecidas pelo sistema imune (DONG et al., 2010; GHADERI et al., 2001).

21 Figura 4 – Localização e disposição nas classes I, II e III dos genes que compõem o Complexo Principal de Histocompatibilidade (MHC) no braço curto do cromossomo 6

(6p.21.2); em amarelo, o locus HLA-G, alvo do presente estudo.

Fonte: Adaptado de Mehra; Kaur (2003). 1.5 GENE HLA-G: ANTÍGENO LEUCOCITÁRIO HUMANO G

O gene HLA-G faz parte da classe I do MHC humano, classificado como não clássico ou Ib. Ele possui oito éxons, que codificam uma sequência sinal, um domínio transmembranar e um domínio citoplasmático. O éxon 6 codifica o domínio transmembranar e o éxon 7 a cauda citoplasmática. Transcritos de mRNA produzem até 7 isoformas da molécula de HLA- G (GIMENES et al., 2014). O HLA-G possui função de escape da imunovigilância do organismo (ROUAS-FREISS et al., 2005)

As regiões reguladoras do HLA-G, 3’UT (região 3’ não traduzida, do inglês 3’

untransled region) e 5’URR (região 5’ regulatória a montante, do inglês upstream regulatory region) apresentam um alto grau de variações nucleotídicas quando comparada à região

codificadora (DONADI et al., 2011). Para a 3’UTR, esses sítios variáveis podem implicar diretamente na regulação da expressão pós-transcricional do HLA-G, visto que muitos desses polimorfismos estão envolvidos com a estabilidade do mRNA (CASTELLI et al., 2014). A 3’UTR possui 17 polimorfismos descritos até o momento e neste trabalho foram considerados três polimorfismos. Um polimorfismo de presença (inserção ou In) ou ausência (deleção ou

Del) de um fragmento de 14 pb (14 pb InDel) e dois polimorfismos de nucleotídeo único

(SNP – do inglês Single-Nucleotide Polymorphism), o +3142 G/C e o +3187 A/G. Esses são os três polimorfismos mais estudados para o HLA-G, sendo o 14 pb InDel o primeiro descrito

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e, devido ao fato de termos diferentes resultados publicados quando à sua expressão molecular, objeto de estudo de uma revisão sistemática com metanálise (ALMEIDA et al., 2018), além dele, foram estudados funcionalmente o +3142 G/C e o +3187 A/G (TAN et al., 2007; VEIT; CHIES, 2009), onde os diferentes níveis de expressão de HLA-G foram associados à instabilidade do mRNA, com a degradação do mRNA por microRNAs ou por ambos mecanismos (DONADI et al., 2010; CASTELLI et al., 2014).

O polimorfismo 14 pb In/Del (rs1704) localiza-se no éxon 8, na região 3’UTR do

HLA-G e sua inserção (In) está associada à baixa produção de mRNA (HVIID et al., 2003,

2006). Contudo, a inserção dos 14 pares de base também foi associada à modificações no processo de splicing (processamento do mRNA envolvido no processo de remodelação da molécula, remoção dos introns e união dos exons), resultando em um mRNA menor e mais estável (CLEMENTS, et al. 2005). No entanto, o aumento da estabilidade do mRNA não compensa a baixa produção de HLA-G, associada à inserção dos 14 pb (CASTELLI et al., 2014). O alelo de deleção (Del) do 14 pb está associado com produção de níveis mais altos de HLA-G (HARRISON et al., 1993; ROUSSEAU et al., 2003).

O polimorfismo +3142 G/C (rs1063320) foi descrito como sítio de ligação para determinados miRNA, com o alelo G tendo maior afinidade aos miRNA, sendo que estes desestabilizam o mRNA e reduzem a taxa de tradução. Assim, essa ligação, nesse alelo, pode ter relação com os níveis de expressão da molécula (TAN et al., 2007). Quanto ao SNP +3187

A/G (rs9380142), este foi relacionado com a degradação e estabilidade do mRNA, sendo o

alelo G associado a um aumento da produção de HLA-G. Os mecanismos envolvidos nesses processos ainda não estão totalmente elucidados (DONADI et al., 2011).

23 2 JUSTIFICATIVA

Excetuando-se o câncer de pele não melanoma, o câncer de mama é o segundo mais frequente do mundo e o mais frequente entre as mulheres, enquanto o câncer do colo do útero é o terceiro mais frequente na população feminina e a principal causa de morte por câncer em mulheres que vivem em países em desenvolvimento. Desta forma, ambas as doenças representam um problema de saúde pública a nível mundial e, tratando-se de doenças multifatoriais, é necessário o estudo dos fatores genéticos e ambientais associados às patologias.

Considerando o papel do HLA-G no escape da imunovigilância e o fato de sua expressão poder ser influenciada por polimorfismos presentes na região regulatória 3’UT, em especial o 14 pb, o +3142 G/C e o +3187 A/G, torna-se pertinente a análise da variabilidade desses polimorfismos do gene relacionados ao câncer de mama e ao câncer do colo do útero, de forma a esclarecer as causas genéticas associadas à patologia, assim como estabelecer dados para uma melhor compreensão dos mecanismos que geram maior agressividade e escape tumoral. Somado a isso, os dados epidemiológicos associados aos diferentes graus de lesões e polimorfismos, buscando uma melhor compreensão das influências ambientais e dos hábitos de vida das pacientes, podendo, no futuro, utilizar essas informações como biomarcadores para diagnósticos e opções terapêuticas.

25 3 OBJETIVOS

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