10. RESULTADOS E DISCUSSÕES
10.2 Componente acesso as telas
Figura 6 - Frequência da variável Renda per capita na amostra.
Tabela 5 - Frequência da variável Renda Per Capita na amostra
do envelhecimento (CASTELLS, 1999; DE WIT et al., 2011; FANCOURT; STEPTOE, 2019; WILSON; STOCK, 2021). Existe uma tendencia crescente de adultos mais velhos permanecerem em suas próprias casas e viverem de forma independente por meio das redes (BOLDY et al., 2011; GARAY VILLEGAS; MONTES DE OCA ZAVALA; GUILLÉN, 2014; KEMPERMAN et al., 2019). Com efeito, 73,7% dos entrevistados costumam acessar as telas diariamente.
As redes sociais são como vínculo de relacionamentos interpessoais. Essas ligações muitas vezes oferecem um sentimento de identidade, apoio, solidariedade e pertencimento (ASAMANE; GREIG; THOMPSON, 2020; DEAN et al., 2009). Durante a vida adulta as redes sociais são instáveis, servindo de suporte para características situacionais e pessoais como aposentadoria, problemas de saúde, perda do cônjuge, mudanças residenciais e outros eventos de vida associados principalmente ao envelhecimento (SAHYOUN; ZHANG, 2005).
O uso não mediado das mídias pode ter impacto negativo na saúde dos idosos pois inclui uma inclinação causal estabelecida com a adiposidade (BLASS et al., 2006) e correlações com o aumento do risco de doenças crônicas, atividade física reduzida e comportamentos indesejáveis de escolha de alimentos (SPENCE;
Figura 7 - Frequência da variável “Costumo acessar as telas todos os dias”
na amostra.
Tabela 6 - Frequência da variável “Costumo acessar as telas todos os dias”
na amostra.
MANCINI; HUISMAN, 2019). A publicidade tem como alvo os idosos como um segmento-chave do mercado que promove produtos antienvelhecimento, com potenciais impactos na imagem corporal (BELLISLE; DALIX, 2001). No entanto, há poucas evidências de que os idosos sejam particularmente frágeis e vulneráveis aos efeitos a esse tipo de redes sociais (BERKMAN, 1983; GOUVEIA; MATOS;
SCHOUTEN, 2016). Além disso, algumas pesquisas trazem resultados positivos pelo fato de as redes sociais terem como alvo menor os idosos, o que acaba não prejudicando a satisfação social e o bem-estar. Na verdade, os idosos tendem a relatar melhor bem-estar do que os adultos mais jovens (BAHRAMNEZHAD et al., 2017; BRUINE DE BRUIN; PARKER; STROUGH, 2020).
Embora a mídia social ainda seja uma adição relativamente recente em nossas vidas, há evidências crescentes de que o uso da mídia social pode ajudar idosos a manter seus relacionamentos sociais e a viver uma vida mais plena (HAN et al., 2021; KRENDL et al., 2022; NIMROD, 2017). O uso de mídia social entre a comunidade idosa melhora a saúde em termos de capacidade cognitiva, aumenta o senso de auto competência e pode ter um efeito benéfico no bem-estar mental.
(KELLY et al., 2017; NIE et al., 2021; QUINN, 2018). A correlação entre o uso de mídias sociais e a saúde mental de idosos foi mais significativa do que a saúde física, o que justifica as ambiguidades de resultados nas pesquisas encontradas (DUPLAGA, 2021).
Paralelamente, um destaque desta pesquisa é propensão para a comensalidade digital. A comensalidade digital é um termo usado para descrever comer fisicamente junto com alguma intervenção baseada em tecnologia digital (MOSER; SCHOENEBECK; REINECKE, 2016; SPENCE; MANCINI; HUISMAN, 2019; WEI et al., 2011). Nesse sentido da amostra, 35,8% concordam que fazem as principais refeições em frente alguma tela, enquanto 60% concordam que consumem alimentos esporádicos quando estão em frente algum tipo de tela.
Figura 8 - Frequência da variável “Faço as principais refeições em frente algum tipo de tela” na amostra.
Este tipo de resultado é preocupante à medida que o nosso cérebro prioriza alguns sentidos por questões de sobrevivência, neste caso a visão, pois esta era muito mais importante para o homem primitivo do que o paladar e o olfato (FRANÇA et al., 2012; GÓMEZ-PINILLA, 2008; QUAIOTI; CRISTINA, 2006). Quando se come mecanicamente sem prestar atenção à comida, textura, sabor e aroma, há uma chance maior de comer demasiadamente (HIGGS; ROBINSON; LEE, 2012). As pessoas tendem a continuar comendo e terminam sem perceber o sinal do seu corpo e cérebro de que está satisfeito (HIGGS, 2002). Não há atenção aos sinais sutis do corpo, o que faz com que a sensação de saciedade pareça entorpecida porque a atenção é direcionada para fora, para o que está acontecendo na tela, e não para dentro (KEMPS et al., 2016; LIRA et al., 2017).
Comer sem pensar pode resultar em comer mais do que o necessário, ou em não mastigar bem o suficiente. Esse excesso pode levar a um aumento de peso, porque o corpo não se sente satisfeito (ALVARENGA M et al., 2015). Isso ocorre porque o cérebro não registra o que acabou de consumir e existe a possibilidade de Tabela 7 - Frequência da variável “Faço as principais refeições em frente algum tipo de tela” na amostra.
liberar a sensação de fome em cerca de uma hora (JUNIOR; MELO, 2006; QUAIOTI;
CRISTINA, 2006; VIANA, 2012). A cognição, memória e atenção, em particular, desempenham um papel no controle do apetite e do tamanho da refeição, podendo ser alterada quando esta junção tela e alimentação é ativada simultaneamente (FRANÇA et al., 2012; KLOTZ-SILVA; PRADO; SEIXAS, 2016).
Não é nenhum segredo que a taxa crescente de obesidade e a ascensão da tecnologia coincidem (PONTES; BASTOS; DIAS, 2007; ROYAL SOCIETY FOR PUBLIC HEALTH, 2017). Entretanto, ninguém pode dizer que as telas de TV e os telefones celulares, computadores, tablets, entre outros, são as únicas razões para os níveis preocupantes de obesidade. Devem ser considerados também fatores como fácil acesso a alimentos processados, redes de fast-food, inatividade física e vida sedentária, mas há uma ligação clara entre o tempo de tela e o peso corporal (LUCENA et al., 2015; SAHYOUN; ZHANG, 2005; SHIUE, 2015).
Quando ocorre alimentação paralela a uma tela, não há muita atenção à comida (HIGGS; WOODWARD, 2009). De certa forma, deixa de ser apreciado plenamente a comida e existe uma tendencia a comer demais. Sem contar, que estudos também indicam que a sensação positiva que o cérebro fornece quando ocorre alimentação em frente as telas, passa por um sistema de retroalimentação, aumentando o desejo por alimentos açucarados ou alimentos que produzam glicose, como massas e pães, ocasionado pela dopamina (PESSOA, 2008; WATANABE, 2007). Esses alimentos por vezes são densos em calorias, deficitários em nutrientes e não fornecem nenhum benefício à saúde a curto ou a longo prazo (ALVARENGA M et al., 2015; FRANÇA et al., 2012).
A pesquisa demostrou que não apenas as refeições principais estão sendo consumidas de frente às telas, mas também que existe uma tendência de consumo de outros alimentos, já que 60% dos participantes responderam que concordam que consomem alimentos esporádicos em frente às telas.
Figura 9 - Frequência da variável “Consumo alimentos esporádicos em frente as telas” na amostra.
Em suma, além de comer no piloto automático, os idosos podem perder completamente qualquer benefício da interação com outros membros da família e o que estão comendo (COUTINHO et al., 2016; SILVA et al., 2017). Essa atitude de forma casual não é maléfica, mas quando se torna um padrão repetido, ou quando comer e assistir TV ou qualquer outro tipo de tela se tornam cognitivamente ligados, passa a ser um padrão não saudável.
Pesquisas anteriores identificaram vários prós e contras associados à incorporação das telas em episódios de comer e beber (BLASS et al., 2006). Por exemplo, aqueles que se distraem em frente algum tipo de tela pode comer/beber mais, resultando na incapacidade de captar e atender as sensações relacionadas à comida que indicam o término da alimentação, como a saciedade (SEGALLA;
SPINELLI, 2013; SOUZA et al., 2019). Especialistas dizem que leva cerca de 20 minutos para o sinal de saciedade chegar do corpo ao cérebro; assim, comer dwvar e mastigar bem a comida dá tempo para que esse sinal chegue ao cérebro, evitando o excesso de alimentação e aumentando a plenitude e saciedade (PAYETTE, 2005;
PEREIRA; SPYRIDES; ANDRADE, 2016a; SILVA et al., 2017).
Tabela 8 - Frequência da variável “Consumo alimentos esporádicos em frente as telas” na amostra.
Outro ponto levantado por esta pesquisa é o quanto os idosos podem ser induzidos a retirar da lista de compras, comprar, consumir ou deixar de consumir alimentos de acordo com informações que recebem. Essa pergunta tenta identificar se existe consumo ou retirada pós-propaganda, se os influencers digitais ou até mesmo reportagens em queque classificam alimentos como bons ou ruins tem como consequência a alteração do padrão alimentar deste idoso. Com efeito, e de forma expressiva, 64,2% concordam que retiram ou incluem alimentos seguindo orientações que recebem de fontes vindas das telas.
Figura 10 - Frequência da variável “Costumo retirar ou incluir alimentos, segundo informações das telas na amostra”.
Conclui-se então que os algoritmos de mídia social promovem conteúdo com o qual os usuários se envolvem mais, e a televisão, por sua vez, mostra aquilo que é mais rentável. Dito isso, as mídias sociais podem desempenhar um papel importante na formação do comportamento alimentar dos consumidores (FANCOURT;
STEPTOE, 2019; ROSSI et al., 2010; SALMON; CAMPBELL; CRAWFORD, 2006).
Um opção para manter maior engajamento e métricas de alcance para público e redução de alimentação não saudáveis, seria os produtores de conteúdo mudarem Tabela 9 - Frequência da variável “Costumo retirar ou incluir alimentos, segundo informações das telas na amostra”.
gradualmente seu conteúdo para alimentos que melhorem a saúde e se manter competitivos (LARANJO et al., 2015; LUPIÁÑEZ-VILLANUEVA, 2011). A maior exposição a alimentos não saudáveis influencia a percepção do consumidor sobre o que é um hábito alimentar saudável, potencializando assim que o consumidor desenvolva um costume alimentar que é danoso à saúde. Portanto, este fator deve ser melhor analisado por meio de políticas pública e pela inclusão de normas mais rígidas, como informações claras e objetivas dos riscos de alimentos que representam à saúde (ABDEL-HADI, 2012; KELLY et al., 2017; KEMPERMAN et al., 2019; REZA MARACY et al., 2011).
A publicidade é um ramo que impulsiona um produto, e pessoas que trabalham por meio das redes sociais tendem a trabalhar com o mesmo foco (LIRA et al., 2017; NOBRE et al., 2021). Mesmo que algumas pessoas sejam menos influenciadas pelo conteúdo consumido, outros sujeitos que já estão em risco podem desenvolver sintomas de distúrbios alimentareis visto o alto consumo de conteúdo de comportamentos não saudáveis. (ALVARENGA M et al., 2015; DUCHESNE;
ALMEIDA, 2002; PHILIPPI; ALVARENGA; SCAGLIUSI, 2011).
Por mais que exista uma crença popular de que as pessoas são imunes à publicidade, os profissionais de marketing usam os anúncios porque eles funcionam.
Com anúncios direcionados chegando até as mídias sociais de forma mais direta, com base em informações pessoais, a publicidade está cada vez mais individualizada (BRENNER, 1997; LIRA et al., 2017; PAYETTE, 2005; ROSSI et al., 2010).
Embora os estudos tenham descoberto que as mídias sociais podem nos fazer pensar de maneira diferente sobre comida e que normalmente nos envolvemos mais com conteúdo que apresenta alimentos não saudáveis, ainda é incerto se isso realmente se traduz em nossas mudanças em nosso comportamento na vida cotidiana (ASSIS; ANAHAS, 1999; FRANÇA et al., 2012; VIANA, 2012).
Em vista disso, pesquisas sugerem que ao tomar a decisão sobre o que e quanto comer é uma combinação de diferentes informações, e a ciência ainda não entende bem como essas influências momentâneas se misturam (KLOTZ-SILVA;
PRADO; SEIXAS, 2016; MEDLOCK et al., 2015; PANTIC, 2014). Isso se dá, talvez, porque essas influências podem incluir níveis variáveis de conhecimento nutricional, ideais corporais, habilidades culinárias e custo (LIRA et al., 2017; QUAIOTI;
CRISTINA, 2006; SILVA et al., 2017).
Sendo assim, é possível para algumas pessoas em certas situações que a mídia social possa ser o fator predominante que influencia seu comportamento, mas é apenas um fator (HAWKINS; FARROW; THOMAS, 2021), e essa influência varia de acordo com o indivíduo. Indo além, descobertas recentes sugerem que não apenas a exposição a imagens de alimentos saudáveis nas mídias sociais, mas também aquelas que são fortemente endossadas pelo criador/expositor do conteúdo, podem levar as pessoas a optar por comer alimentos mais saudáveis no lugar de alimentos menos nutritivos (ABDEL-HADI, 2012; HAN et al., 2021;
HAWKINS; FARROW; THOMAS, 2021; SAHYOUN; ZHANG, 2005). Em suma, o que vemos os outros aprovarem sobre alimentação pode afetar nosso comportamento alimentar.
Portanto, as interações sociais podem moldar fortemente o que, quando e o quanto as pessoas comem, algo intensificado com a alta velocidade de criação de conteúdo do meio online. Essas descobertas destacam o importante papel que as redes sociais têm na formação dessas influências (LIRA et al., 2017), explicitando que há uma diferença sutil entre aquilo que se motiva nas redes, para o que é irreal, mas quando as pessoas vislumbram um modelo saudável são incentivadas a concretizar mudanças positivas (GOUVEIA; MATOS; SCHOUTEN, 2016; PEREIRA;
SPYRIDES; ANDRADE, 2016b; ROSSI et al., 2010). Isso pode afetar não apenas os hábitos de compra, mas também as autopercepções e comportamentos (BLASS et al., 2006; HAWKINS; FARROW; THOMAS, 2021). Embora sejam necessárias mais pesquisas sobre a interação entre anúncios e escolhas alimentares, está claro que os anúncios são uma influência poderosa no comportamento em geral e podem influenciar a buscar alimentos que não seriam escolhidos de outra forma (HAN et al., 2021; KORDA; ITANI, 2013).
Em virtude desta problemática, outro ponto levantado aqui é a questão do tempo em tela. Da mesma forma sobre a possibilidade de influenciar o comportamento alimentar, a proposta da questão a seguir era saber se as pessoas idosas se distraiam facilmente na iminência de perder atenção no tempo. De forma considerável, 44,2% concordaram completamente e 46,3% concordaram, conforme demostrado abaixo.
Figura 11 - Frequência da variável “Distraio-me facilmente com as telas, a ponto de nem perceber o horário na amostra”.
Esse resultado traz o alerta de que o uso excessivo da tecnologia pode levar à diminuição da capacidade de se concentrar em uma coisa de cada vez, à incapacidade de resistir a distrações e ao aumento da dificuldade de retornar a um estado de espírito calmo, pois afeta o córtex frontal do cérebro, liberando dopamina no cérebro, o que pode afetar negativamente o controle dos impulsos (ciclo de prazer/recompensa) (DE WIT et al., 2011; DONG; POTENZA, 2015; PAYETTE, 2005). O excesso em tela também pode contribuir para problemas físicos, incluindo dores de cabeça crônicas, cansaço visual e problemas de postura (FRUTUOSO;
BISMARCK-NASR; GAMBARDELLA, 2003; ROSSI et al., 2010; SILVA et al., 2017).
Segundo os dados reunidos pela pesquisa, os idosos passam em média mais de sete horas em telas, ou seja, estão gastando uma quantidade significativa de tempo assistindo TV e interagindo com outras tecnologias (BAHRAMNEZHAD et al., 2017; BROMBACH et al., 2017; DUPLAGA, 2021). Apesar da maioria dos idosos não ter a opção de se afastar completamente das telas, os especialistas afirmam que existem maneiras de restaurar o equilíbrio e usar a tecnologia de maneira mais saudável (COSTA; SANTOS; BROTAS, 2018).
Tabela 10 - Frequência da variável “Distraio-me facilmente com as telas, a ponto de nem perceber o horário na amostra”.
Isso destaca outro ponto importante quanto a interação das telas na vida dos idosos: saber se existe a possibilidade de deixar de assumir compromissos por causas das telas ou priorizar as telas ao invés das obrigações. Sobre está questão, 55,8% concordaram totalmente que já deixaram de fazer algo importante por estarem distraídos com as telas e 35,8% concordaram.
Figura 12 - Frequência da variável “Já deixei de fazer algo importante, por estar distraído nas telas” na amostra.
O fato é que as pessoas mais velhas estão se voltando para as telas por causa da solidão e isolamento, visto a existente possibilidade de isolamento social à medida que a pessoa envelhece (FANCOURT; STEPTOE, 2019; KEMPERMAN et al., 2019; SALMON; CAMPBELL; CRAWFORD, 2006). Isso se dá por diversas razões, como a aposentadoria, viuvez, perda de amigos e/ou colegas, limitações físicas restritivas etc, que leva o sujeito a ter menos experiências sociais. (COSTA;
SANTOS; BROTAS, 2018; LARANJO et al., 2015; QUINN, 2018).
Como forma de lidar com esses sentimentos e experiências reais de isolamento social, os idosos muitas vezes recorrem à TV ou a internet como sua principal forma de companhia (COSTA; SANTOS; BROTAS, 2018; GYASI et al., Tabela 11 - Frequência da variável “Já deixei de fazer algo importante, por estar distraído nas telas” na amostra.
2019). Há algumas pesquisas que sugerem que as pessoas são capazes de formar conexões com personagens e personalidades da TV e da internet, o que pode proporcionar algum sentimento de pertencimento e combater sentimento de rejeição (HAN et al., 2021; VIANA, 2012).
Contudo, isso não quer dizer que a televisão seja um substituto adequado para a interação social. Em geral, o consumo excessivo de redes sociais pode ter efeitos adversos nas pessoas, como prejudicar memória, levar à estagnação física e produzir sentimentos negativos, especialmente nos idosos visto suas vulnerabilidades sociais e físicas (FRUTUOSO; BISMARCK-NASR;
GAMBARDELLA, 2003; JUNIOR; MELO, 2006; VIANA, 2012).
Apesar desses dados, muitos pesquisadores tentaram explicar os benefícios da tecnologia para os idosos. Alguns afirmam que o desenvolvimento de novas tecnologias é uma promessa significativa para aumentar a qualidade de vida na velhice, e que a tecnologia aumenta a conectividade dos idosos com a família e amigos, ajudando-os a combater a possível solidão e depressão (LEWANDOWSKI et al., 2011; QUINN, 2018; WILSON; STOCK, 2021). Outros propuseram que o uso da tecnologia pode melhorar a qualidade de vida em casa e aumentar a independência dos idosos os motivando a adotar um estilo de vida saudável (KORDA; ITANI, 2013; LARANJO et al., 2015). Em outras palavras, ao coletar e fornecer informações apropriadas, as novas tecnologias podem ajudar os indivíduos a tomar decisões de estilo de vida que podem ajudar no tratamento e manejo de algumas doenças (BAUMEISTER HARALD AND KRAFT, 2019; MONTAG et al., 2019; PONTES; BASTOS; DIAS, 2007).
Em vista disso, as redes sociais podem ser benéficas se usadas com cautela e autocritica, ao ponto de conscientizar os idosos de eventos e problemas atuais, expor a novas informações e ideias, ofertar oportunidades de participar de programas e eventos comunitários. conectar e ampliar a comunicação com amigos e familiares, principalmente aqueles que não moram nas proximidades. Indo além, podem cooperar no acesso a redes de apoio, estas que podem ser particularmente úteis para pessoas com problemas de saúde ou deficiência, ou que se sintam excluídas pela sociedade, e conscientiza comportamentos saudáveis e sustentáveis (CEBRIAN; TRADUÇÃO DE LAURO MACHADO COELHO, 1999; COSTA;
SANTOS; BROTAS, 2018; PONTES; BASTOS; DIAS, 2007; REZA MARACY et al., 2011).
A priori, o tempo de tela é definido como a quantidade de tempo gasto olhando ou interagindo com um dispositivo eletrônico com tela e inclui televisores, computadores e dispositivos inteligentes, como telefones ou tablets (BRELAND;
FOX; HOROWITZ, 2013; LIPSCHITZ, 1994; SHIUE, 2015). O crescimento da internet e a introdução de dispositivos de computação móvel, seguidos de perto por tablets e smartphones, fizeram com que essas tecnologias se tornassem cada vez mais integradas à vida cotidiana (ABDEL-HADI, 2012; KORDA; ITANI, 2013). Dessa forma, os dispositivos aumentaram tanto em acessibilidade quanto em portabilidade, e como tal são cada vez mais usados no momento imediato antes de dormir. A hora da tela na hora de dormir não é um fenômeno novo: assistir televisão antes de dormir cresceu em popularidade e se tornou a normal nos últimos anos (FANCOURT; STEPTOE, 2019; LUCENA et al., 2015; SALMON; CAMPBELL;
CRAWFORD, 2006). Tecnologias mais recentes, como smartphones e sistemas de videogame, estão rapidamente ganhando status semelhante. No entanto, diferentemente do uso da tela da televisão, que é passivo, esses dispositivos possuem propriedades interativas que são mais estimulantes e mais propensas a captar a atenção do sujeito, retardando assim o sono (HAN et al., 2021; KRAUT et al., 1998; MONTAG et al., 2019).
Focando neste aspecto, a pesquisa traz esta análise buscando verificar a relação dos idosos com a tela antes e depois do sono. Na pergunta “Não consigo dormir sem ter algum tipo de tela próxima a mim” o resultado da amostra foi de 38,9% concordaram, 37,9% concordaram totalmente, 13,7% discordam e 9,5%
discordaram totalmente. Conforme demostrado abaixo.
Figura 13 - Frequência da variável “Não consigo dormir sem ter algum tipo de tela próxima a mim” na amostra.
Seguindo está mesma linha de raciocínio, buscou-se compreender se essa interação de tela de alguma forma reflete no sono. Com efeito, ao contrário dos dispositivos tecnológicos passivos (por exemplo, TV, tocadores de música mp3), quanto mais dispositivos tecnológicos interativos (ou seja, computadores/laptops, telefones celulares, consoles de videogame) usados na hora antes de dormir, maior a probabilidade de dificuldades em adormecer (GRIGG-DAMBERGER; YEAGER, 2020; SINGH et al., 2019).
De fato, o uso de telas demonstrou retardar o início do sono e a secreção de melatonina, assim como estimulou os sistemas de vigília (HATORI et al., 2017).
Comprova-se então que as interações com as mídias sociais podem exacerbar esses efeitos. Uma explicação comum é que a luz emitida pelas telas atrapalha os ritmos circadianos; outra alternativa é que a cognição social inerente ao uso de mídias sociais é responsável por atingir o sistema de alerta (BOWLER; BOURKE, 2019; NOBRE et al., 2021).
As implicações à saúde envolvendo os dispositivos eletrônicos à noite podem ser significativas em termos de segurança, produtividade e bem-estar (ADAMS et al., 2017). Pesquisas demostraram que restringir o uso do telefone celular antes de Tabela 12 - Frequência da variável “Não consigo dormir sem ter algum tipo de tela próxima a mim” na amostra.
dormir é eficaz para reduzir a latência, aumentar a duração do sono, melhorar a qualidade do repouso, reduzir o despertar noturno, melhorar a memória e a sensação de bem estar (GRIGG-DAMBERGER; YEAGER, 2020; YANG et al., 2021).
De fato, quanto mais dispositivos interativos estiverem ao lado da cama, maior a probabilidade de relatar um sono não reparador e episódios de insônia – ou seja, o tempo de tela no período de dormir aumenta a excitação fisiológica, o que atrapalha o sono (TÄHKÄMÖ; PARTONEN; PESONEN, 2019).
Contudo, é preciso considerar a exposição a qualquer luz, pois isso suprime a produção natural de melatonina no corpo. Ainda assim, vários estudos mostraram que a luz específica (luz azul de comprimento de onda curto) emitida pelas telas dos dispositivos digitais é particularmente perturbadora (HATORI et al., 2017; ŠMOTEK et al., 2020; TOSINI; FERGUSON; TSUBOTA, 2016; ZHAO et al., 2018). Um estudo comparou a exposição à luz azul e à verde e descobriu que a luz azul suprimiu a secreção de melatonina duas vezes mais do que uma luz verde (SASSEVILLE;
HÉBERT, 2010; WEST et al., 2011). Outro estudo comparou a secreção de melatonina entre participantes que usavam óculos bloqueadores de luz azul enquanto expostos à luz brilhante com participantes sem óculos expostos à luz fraca. Ambos os grupos exibiram produção de melatonina semelhante, reforçando a hipótese que a luz azul altera a melatonina (VAN DER LELY et al., 2015).
É importante destacar que é necessário estudos e intervenções relacionadas ao tempo de tela entre os idosos para de fato compreender a magnitude e os mecanismos da associação.
Seguindo essa linha, 50,5% concordaram totalmente com a afirmação “A primeira coisa que faço ao acordar é verificar alguma tela”, enquanto 41,1%
concordaram, 7,4% discordaram e apenas 1,1% discordaram totalmente.
Figura 14 - Frequência da variável “A primeira coisa que faço ao acordar é verificar alguma tela” na amostra
Para compreender a importância deste resultado, é necessário observar as mudanças que ocorrem com o corpo humano quando as primeiras horas do dia são sobrecarregadas por informações que surgem da tela (PATTNAIK; DHALIWAL;
PATTNAIK, 2019). Em virtude do despertar, o cérebro muda de ondas delta, que ocorrem em um estado de sono profundo, para ondas teta, que ocorrem durante uma espécie de estado de devaneio (ADDANTE et al., 2021; LIN et al., 2019). O cérebro então se move para produzir ondas alfa quando está acordado, mas relaxado e não processando muita informação (ORTUÑO et al., 2019). Agora, ao contato de despertar e interligar alguma tela, o corpo é forçado a pular os importantes estágios teta e alfa e ir direto do estágio delta para se manter acordado e alerta (também conhecido como estado beta) (MURAT et al., 2011; TOH et al., 2019).
Contudo, ideação que pode ocorrer durante o estado teta geralmente é de fluxo livre e ocorre sem censura ou culpa (ROBERTS et al., 2018). Isso torna o estado teta um momento ideal para acessar a mente subconsciente para visualizar o que o se deseja e ajudar o cérebro a impulsionar as ações para alcançar a visão Tabela 13 - Frequência da variável “A primeira coisa que faço ao acordar é verificar alguma tela” na amostra.
(HANSLMAYR; AXMACHER; INMAN, 2019). O problema é que pular esse estado pode desencadear uma resposta ao estresse, o que causa irritabilidade durante o resto do dia (ADDANTE et al., 2021).
Os efeitos de verificar as telas ao acordar começam antes mesmo de acessar qualquer conteúdo, ou seja, o estado de alerta fica condicionado constantemente (CROFT et al., 2008) (VAN DER LELY et al., 2015; WEST et al., 2011). Em contrapartida, essa luz azul emitida pelas telas de LED encontradas em dispositivos eletrônicos como smartphones, tablets e computadores também tem alguns benefícios: quando há exposição a ela pela manhã, por exemplo, ela pode ajudar a acordar e se mexer (TÄHKÄMÖ; PARTONEN; PESONEN, 2019; VAN DER LELY et al., 2015). Isso é reforçado pelo fato de que a maior fonte de luz azul é a luz solar, o que sugere que estamos programados para entrar em estado de alerta durante o dia (HATORI et al., 2017; SASSEVILLE; HÉBERT, 2010).
Indubitavelmente, o conteúdo também importa: a exposição a más notícias está ligada a respostas emocionais relacionadas à ansiedade, baixos níveis de irracionalidade, bem como é preditiva em níveis baixos de otimismo (VIŠNJIĆ et al., 2018).
Existem inúmeros artigos publicações nomeando todas as razões pelas não se deve checar a tela ao acordar. No entanto, conhecer os efeitos da conexão logo pela manhã pode ajudar a descobrir o que é melhor para buscar um equilíbrio emocional dos idosos.
Diante o exposto, fica evidenciado que a relação das telas possui várias ciências que podem justificar as modificações na vida do idoso, entretanto três pontos refletem diretamente na saúde: o conteúdo, o horário de acesso e o tempo de acesso. Para finalizar o bloco de tela, está pesquisa buscou justamente ver esse tempo gasto diante das redes sociais. Dos participantes, 72,6% informaram que ficam mais de 04 horas diante das telas, recapitulando que conforme a pesquisa este tempo não incluía a participação de forma produtiva, como por exemplo trabalho, educação e saúde, ou seja, foi perguntado referente ao tempo em ociosidade. Apenas 27,4% da amostra acessa as redes sociais por menos de 04 horas por dia.
Figura 15 - Frequência da variável “Quanto tempo você fica nas telas por dia”
na amostra.