2 CONTEXTUALIZANDO A UNIVERSIDADE NO BRASIL DESDE SUA
5.2 A voz dos evadidos respondentes da Unioeste/Campus de Cascavel: que
5.2.2 Componente: Atitude Comportamental Docente
O professor tem de prestar atenção no aluno, ser curioso, ouvi- lo, surpreender-se e atuar como uma espécie de detetive que procura descobrir as razões que levam as crianças a dizer certas coisas.
Donald A. Schõn
O docente é a pessoa que tem mais contato com o aluno e sua ação pedagógica poderá ser decisiva na motivação do aluno durante o processo de aprendizagem. Nesse sentido, um dos componentes definido no questionário para a reflexão dos evadidos foi o comportamento docente, conforme visualizado na Tabela 11.
Tabela 11 – Componente: Atitude Comportamental Docente
Componentes Causas (1) NI (2) PI (3) AI (4) BI (5) MI Impacto Médio
Atitude Comportamental Docente Arrogância dos professores 92 26 35 29 42 2,57 Professores desmotivados 108 32 35 27 22 2,21 Bullying 195 11 7 1 10 1,30 Assédio sexual 217 2 2 1 2 1,08
Legenda: NI = nenhuma influência; PI = pouca influência; AI = alguma influência; BI = bastante influência; MI = muita influência.
Fonte: Elaborada pela autora com base nos dados do questionário.
Dentre as atitudes comportamentais dos docentes, o maior índice verificado recai sobre a arrogância dos professores, isso seguido de professores desmotivados com o curso. E isso significa mais de 50% da influência na decisão pela evasão dos discentes evadidos respondentes, conforme pode ser visualizado no Gráfico 17. Essas causas se constituem, de acordo com o
impacto médio, na segunda e quinta causa mais citada pelos evadidos respondentes.
De acordo com Goergen (2002), a atividade docente exige tanto conhecimentos técnicos, específicos da disciplina, quanto domínio de uma metodologia eficaz de transmissão do conteúdo ao aluno, isso aliado ainda às questões éticas, sociais e políticas. Por outro lado, Schõn (1992) nos alerta para o fato de que o professor pode cair na rotina, situação em que:
O seu conhecimento prático vai-se fossilizando e repetindo, aplicando indiferentemente os mesmos esquemas a situações cada vez menos semelhantes. Fica incapacitado de entabular o diálogo criativo com a complexa situação real. Empobrece-se o seu pensamento e a sua intervenção torna-se rígida. Progressivamente, torna-se insensível às peculiaridades dos fenômenos que não se encaixam nas categorias do seu empobrecido pensamento prático e cometerá erros que nem sequer conseguirá detectar. (SCHÕN, 1992, p. 105-106).
Enfim, a docência é uma atividade complexa, que requer atualizações frequentes tanto nos conhecimentos específicos como práticas pedagógicas.
Gráfico 17 - Atitude Comportamental Docente
Legenda: NI = nenhuma influência; PI = pouca influência; AI = alguma influência; BI = bastante influência; MI = muita influência.
Fonte: Elaborado pela autora com base questionário.
0% 20% 40% 60% 80% 100% N.I. (1) P. I. (2) A.I. (3) B. I. (4) M.I. (5)
Arrogância dos professores. Professores desmotivados com o curso.
Sofri bullying
Sofri assédio sexual por parte de Docentes.
As causas relacionadas ao bullying e ao assédio sexual obtiveram
pequeno impacto médio. Ficaram em 28ª e 33ª colocação. Representa, no entanto, que 29 evadidos respondentes sofreram bullying e 7, assédio sexual.
Com relação à intensidade que essas causas os influenciaram, identificou-se que 12 deles indicaram “muita influência”. Para melhor análise dessas causas, destacam-se alguns depoimentos dos evadidos respondentes:
“Foi a melhor coisa que eu fiz, pois não gostava do curso, nem de alguns professores irresponsáveis que lecionavam no curso” (Evadido 123).
“Bullying constante nesses cursos por alunos que estudaram em escola particular a vida toda, pouca atenção dos professores quanto à aprendizagem de quem nunca fez nem cursinho particular pra passar numa universidade pública, senti-me deslocado, burro” (Evadido 13).
“Graças a Deus, estou longe desse inferno. Acredito que o ensino e pesquisa deve estar fundamentado na meritocracia, e não nos caprichos e influência de alguns indivíduos” (Evadido 28).
“Os alunos me excluíram, estava sozinha em um outro Estado sem nenhum familiar ou amigos, sofri abuso sexual em meu próprio apartamento. Não consegui mais continuar em Cascavel” (Evadido 41).
“Bom, para iniciar o desabafo, em todos os anos que estive na Unioeste eu sofri de alguma forma bullying de colegas de classe, em intensidades diferentes. No início do curso, o bullying era mais intenso e mais para o último ano que estive no curso, foi bem menor, porque desenvolvi amizades boas que me ajudaram e me fizeram sentir menos sozinho, me dando suporte para lidar com esses problemas” (Evadido 47).
“Sair da UNIOESTE ajudou a restabelecer minha saúde metal” (Evadido 119).
“A Unioeste é uma universidade muito boa e o curso de [...] tem matérias adoráveis. Era o curso de minha escolha, apesar de ainda ter muitas dúvidas profissionais na época. Porém não é um ambiente de tolerância, pelo menos não nesse curso e em outros cursos de [...]. Há uma fortíssima doutrinação política e o ambiente não parece permitir comentários e ideias que não batam com ideais de esquerda. No primeiro dia de uma determinada aula uma professora entrou na sala dizendo que esse curso não era curso de burguês e, na mesma aula, disse que o culto dos evangélicos (minha religião na época) não era edificante à alma. Esse ambiente opressivo, combinado com
outros problemas emocionais à época, me levaram a trocar de curso e faculdade. Acredito que há profissionais muito capacidades e uma estrutura muito boa, mas não é uma universidade de verdade se não permite um universo de ideias como devia ser” (Evadido 157).
“Confundiam minha falta de habilidade social com consumo de drogas. Tanto os colegas quanto os professores desacreditavam das respostas dadas, mesmo quando estas estavam corretas. Estar neste ambiente era uma tortura” (Evadido 188).
O conceito de bullying está relacionado à violência praticada contra algum
indivíduo ou grupo de pessoas. Normalmente, sofrem desse tipo de violência os indivíduos que possuem alguma fragilidade, seja física ou psicológica. De acordo com Silva (2010), essas pessoas não se socializam facilmente e
Em geral são tímidas ou reservadas, e não conseguem reagir aos comportamentos provocadores e agressivos dirigidos contra elas. Normalmente são mais frágeis fisicamente ou apresentam alguma marca que as destaca da maioria dos alunos: são gordinhas, magras de mais, usam óculos [...], são de raça, credo, condição econômica ou orientação sexual diferente. [...] Normalmente, [...] “estampam” facilmente as suas inseguranças na forma extrema de sensibilidade, passividade, submissão, falta de coordenação motora, baixa autoestima, ansiedade excessiva, dificuldades de se expressar. Por que apresentam dificuldades significativas de se impor ao grupo, tanto física quanto verbalmente, tornam-se alvos fáceis e comuns dos ofensores. (SILVA, 2010, p. 37-38).
O bullying envolve tanto os docentes quanto os colegas da universidade.
De acordo com os desabafos, essa violência foi cometida tanto por docentes quanto por alunos da instituição pesquisada. O depoimento a seguir transcrito consta da página do Facebook Spotted48 e corrobora a resposta dos discentes
evadidos pesquisados:
“Fica aí o texto de conforto pra quem trancou 2 cursos já, na Unioeste foi o primeiro. Estava diagnosticada com alto stress, comecei a tomar medicação pra hipertensão e trocava as aulas do professor [...] por truco, porque não aguentava as humilhações dele” (Ex-aluna Unioeste, comentário publicado no Facebook Spotted).
48 Trata-se de uma página criada junto ao Facebook por alunos da Unioeste, Campus de Cascavel, que o utilizam como ferramenta de comunicação. Em 8-6-2018 postaram um texto anônimo, que parece ter sido escrito por um aluno, onde ele desabafa sobre como está sua vida em função da Universidade. O texto teve, até o dia 11-7-2018, 1,4 mil curtidas e mais de 500 comentários e compartilhamentos. Nos comentários vários alunos se manifestam e alguns relatam os motivos da desistência do curso de graduação. Disponível em: <https://www.face book.com/565712966782444/posts/1909082889112105/>. Acesso em: 10 jul. 2018.
“Unioeste é uma das piores universidades em questão psicológica dos alunos, a gente sofre horrores pra entrar e sofre mais ainda lá dentro” (Ex-aluna Unioeste, comentário publicado no Facebook Spotted).
Além dos depoimentos dos evadidos respondentes e dos relatos inseridos no Spotted, há registro de denúncias de bullying e assédio sexual junto à
Ouvidoria da Unioeste, cometidos por docentes. No ano de 2018, de acordo com a Ouvidoria da instituição, houve várias denúncias de abuso de autoridade ou assédio moral por parte de docentes. Houve também duas denúncias por assédio sexual.
Jessé Souza, em seu livro A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato,
destaca como a elite, na época da escravidão, se utilizava da tortura física e psíquica para que os indivíduos feitos de escravos obedecessem ao “feitor” sem oferecer resistência. E, com o fim da escravidão, essa mesma elite os abandonou à própria sorte depois de ter destruído qualquer centelha de autoestima que os mesmos pudessem ter. Na sequência buscaram imigrantes, que possuíam uma cultura totalmente diferente da dos escravos, que ocuparam os postos de trabalho antes ocupados por esses escravos em condições totalmente indignas para um ser humano. O que ficou dessa história real, de acordo com Souza (2017), foi:
Depois, como se não tivessem nada a ver com este genocídio de classe, buscaram imigrantes com um passado e um ponto de partida muito diferente para contraporem o mérito de um e de outro, aprofundando ainda mais a humilhação e a injustiça. Este esquema funciona até os dias de hoje sem qualquer diferença. Esse abandono e essa injustiça flagrante é o real câncer brasileiro e a causa de todos os reais problemas nacionais. (SOUZA, 2017, p. 84).
Ou seja, fazendo uma ponte entre a evasão motivada pelas causas que envolvem a atitude comportamental docente e as chances de acesso e de permanência de alguns estudantes, identifica-se, quando o evadido respondente relata que se sentia “deslocado, burro”, que ele estava sem autoestima e, ao se comparar com os alunos oriundos de escola particular, se percebe incapaz de continuar. Além disso, parece que a instituição está praticando certa violência simbólica, isso por meio de uma arrogância docente sentida pelos evadidos respondentes.