2 CONTEXTUALIZANDO A UNIVERSIDADE NO BRASIL DESDE SUA
2.6 O Papel Social da Universidade
A universidade brasileira é resultante do processo histórico pelo qual o país passou e reflete a estrutura e funcionamento da sociedade que a permeia. Sua criação foi fortemente influenciada pelas questões econômicas e sociais de cada período tendo por função, em regra geral, a produção e a disseminação do saber. Além disto, por ser uma instituição social, a universidade tem um compromisso com a sociedade. Segundo Marilena Chauí (2003), a universidade enquanto instituição social é:
uma ação social, uma prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela. (CHAUÍ, 2003, p. 5).
Na mesma linha, Dias Sobrinho (2002) complementa que por ser produto da estrutura e funcionamento da sociedade ela “resulta de um conjunto de relações contraditórias e moventes que constituem a vida social e a história” (2002, p.15). Dias Sobrinho assevera:
A universidade é um espaço social fundado nas diferenças, onde se aprendem conteúdos especializados, úteis para as necessidades práticas da vida, até mesmo imprescindíveis para a sobrevivência e para o enriquecimento do processo histórico civilizatório. [...] através dos processos de aprendizagem também se constroem, em maior ou menor grau, uma relação com a ciência e a consciência das posições políticas relativas à vida dos indivíduos na sociedade. O que primordialmente justifica a existência da universidade é a formação humana e produção de conhecimentos. (DIAS SOBRINHO, 2002, p.16-18).
Darcy Ribeiro (1969) teve grande preocupação com a finalidade da universidade em formar cidadãos herdeiros do patrimônio artístico, literário e intelectual da humanidade sem as devidas atualizações no tempo. Sua preocupação envolve a questão de a universidade tornar-se apenas uma transmissora de um saber desatualizado sem se envolver com os problemas atuais da sociedade e a construção de saberes que proporcionem soluções aos problemas.
Além de Darcy Ribeiro, Buarque (1994) também critica os muros levantados pela universidade que a separa da sociedade. Para ele a universidade por vezes parece uma “ilha de saber em oceano de ignorância” (1994, p. 57). Para Buarque a universidade relacionava-se muito bem com a sociedade quando o sistema socioeconômico crescia satisfatoriamente, porém, em tempos de crise:
Quando o sistema entrou em crise e o mercado deixou de retratar as aspirações sociais e de organizar a sociedade eficientemente, a universidade demonstrou sua fragilidade e ineficiência. Em vez de enfrentar os problemas decorrentes da estrutura socioeconômica, como a fome, o desequilíbrio ecológico, as necessidades energéticas e de transportes, continuou prisioneira das exigências do mercado ineficiente – situação que se agrava nas sociedades desiguais, onde o mercado ignora os problemas das grandes massas. Por sua vocação democrática, a universidade deseja reduzir a desigualdade, ajudar a resolver os problemas dos excluídos, mas, cativa do mercado que orienta as vocações dos alunos e as pesquisas dos professores, ela se dedica apenas às minorias privilegiadas.(BUARQUE, 1994, p.59).
A educadora Maria Amélia Sabbag Zainko (2003), em seu artigo Educação Superior, democracia e desenvolvimento humano sustentável18,
18Texto apresentado no Seminário Internacional de Políticas e Gestão da Educação Superior, Curitiba, junho de 2002
ressalta a importância do processo de formação do ser humano pois, é, também, por meio deste processo, que a democracia do país é afirmada, segundo ela:
O projeto democrático foi e é um projeto educativo e para tanto é necessário rever a democracia existente no interior das instituições de ensino superior, tornando-a no seu sentido maior de valor universal e analisar as implicações desse entendimento para a expansão do acesso, com garantia de permanência, de qualidade e de pertinência social. (ZAINKO, 2003, p.49).
O Brasil é um dos países de maior desigualdade social e produtor de uma grande massa de excluídos. E, neste contexto, que queríamos chamar a atenção sobre democracia e democratização da universidade, antes concluir sobre o papel social que ela tem ou deveria ter.
De acordo com Boaventura de Souza Santos a universidade se ocupou desde a idade média europeia da formação das elites por meio da “produção de alta cultura, pensamento crítico e conhecimentos exemplares, científicos e humanísticos” (SANTOS, 2005, p.8). A universidade, defensora da democracia em todos os seus aspectos, não exerce a democratização plena na universidade quando limita e seleciona os alunos para dela participarem. E, por outro lado, não possui eficácia na permanência dos alunos em seu interior, haja vista, os índices de evasão nela encontrados.
Santos (2005) salienta que a universidade além de participar da exclusão social tratou com inferioridade os conhecimentos produzidos pelos excluídos, tidos como inferiores, em função “da prioridade epistemológica concedida à ciência” (SANTOS, 2005, p. 73). Assim, a universidade participou da naturalização da desigualdade social e sua continuidade.
A desigualdade social, por vezes, é resultado das escolhas políticas realizadas ao longo da nossa existência e o desafio não é, apenas levantar as causas, mas, “explicar sua permanência, e, em alguns casos, seu aprofundamento, apesar dos valores igualitários modernos”. (SCALON, 2011, p. 50).
A desigualdade está naturalizada, ou seja, no dia-a-dia, observam-se as injustiças, a falta de oportunidades ou miséria como sendo natural, como se fosse normal pessoas viverem na extrema riqueza e outras na extrema pobreza. E, infelizmente, a educação, em especial a de nível superior, tem participação neste processo de naturalização da desigualdade. Ainda, de acordo com a
Scalon, no Brasil, “existe uma grande valorização da educação que é vista como o principal recurso para inclusão e ascensão social. Isso acaba por legitimar os ganhos diferenciais dos grupos mais educados”. (SCALON, 2011, p. 58).
Portanto, a universidade elitista, somente conseguirá, de fato, mudar esta realidade quando for verdadeiramente democrática. De acordo com Buarque (2003) a universidade conseguirá exercer seu papel social se passar por uma reforma que privilegie:
• um firme compromisso para com a qualidade, em todas as áreas. Se o país mantém uma universidade, ele deve poder se orgulhar dela e da qualidade de seu produto, representado pelos profissionais e por seu trabalho. O objetivo é tornar o mundo um lugar mais belo, eficiente e justo;
• os currículos dos cursos das áreas técnicas, aquelas que transformam o mundo, como, por exemplo, a Medicina, a Engenharia, a Arquitetura e a Economia têm de passar por reformas, de modo a adaptar seus princípios à ética de um mundo mais justo, do qual um número cada vez maior de pessoas possa se beneficiar, independentemente da renda, do gênero, da raça, do local de nascimento;
• a universidade tem de ter participação nas atividades políticas da sociedade, o que não pode se dar internamente à produção do conhecimento em si, que deve ser livre, mas por intermédio dos diversos tipos de práticas de mobilização. (BUARQUE, 2003, p. 33).
Enfim, se a sociedade lutou tanto para criar e manter a universidade para ser o alicerce do desenvolvimento dela própria, a universidade além de ser “a mestra da moderação e da tolerância, há de ser também a mestra da paz entre os homens”. (TEIXEIRA, 2005, p.338). Com o passar do tempo foi-se descobrindo que o mais importante era o desenvolvimento do indivíduo e não das classes sociais, pois, o preconceito e a “teorização da inferioridade”19 exclui
pessoas e gera desigualdade social. (SANTOS, 2005).
A universidade, que é a responsável pelo saber, na mesma proporção que alcança e gera conhecimento, deve desenvolver mecanismos que promovam a tolerância e a paz, portanto, o respeito entre os homens sem restringir a grupos específicos ou classes sociais. (TEIXEIRA, 2005).
O papel social da universidade é justamente o de atender a necessidade da sociedade, de servi-la em seus diversos anseios buscando contribuir para o
19 Boaventura de Souza Santos. A Universidade no Século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade. 2005.
seu desenvolvimento cultural, social e econômico. De acordo com Dias Sobrinho (2003), o papel social da universidade é:
existe para expandir os processos civilizatórios, desenvolver e aprofundar os interesses sociais e públicos que se hegemonizam em uma dada situação das disputas sociais e das relações de poder. Do ponto de vista ideal, mas sem desconsiderar as reais contradições e limites de qualquer fenômeno humano e social, uma instituição de educação superior existe para cumprir o mandato social de produzir os conhecimentos emancipatórios, formar os cidadãos e assim desenvolver a sociedade humana, segundo e mediante os valores e princípios mais caros ao processo civilizatório e à vida democrática, tais como a solidariedade, a cooperação, a justiça, a igualdade, o direito à dignidade, o respeito à alteridade e à pluralidade. (DIAS SOBRINHO, 2003, p. 119).
Em suma, com relação a responsabilidade social a universidade deve fortalecer a democracia exercitando em seu cotidiano, isso tangencia a inclusão dos alunos não somente pela democratização do acesso às diversas camadas sociais, mas, também por meio da permanência, os conteúdos e as maneiras da vida democrática buscando formar indivíduos cidadãos-profissionais (DIAS SOBRINHO, 2003).
O professor Pedro Goergen no texto Universidade e Compromisso Social, assevera que a universidade deve com urgência:
retomar seu interesse pelo estudante e perguntar o que significa, hoje, estudar e aprender. Precisa perguntar o que é o estudante. Trata-se de uma questão que vem relegada ou já é tida como resolvida pela fórmula de torná-los competentes para o trabalho. Na verdade, essa é uma questão nevrálgica que pode, inclusive, paralisar o próprio sentido da universidade. Até mesmo no interior da própria investigação acadêmica, a universidade precisa retomar as indagações: “O que significa estudar? O que significa formar jovens e profissionais para a sociedade e para a vida? [...] Qual é o tipo de cultura que a universidade oferece aos estudantes? (GOERGEN, 2006, p. 84).
Se a responsabilidade social da Universidade é para com a sociedade que a criou e a sustenta, sua primeira preocupação deve ser a formação que está propiciando aos seus alunos, uma vez que, eles serão os líderes desta mesma sociedade.
3 CULTURA E EVASÃO NA UNIVERSIDADE
Nós não nascemos como seres culturais, nem como seres naturais autossuficientes, mas como criaturas cuja natureza física indefesa é tal que a cultura é uma necessidade se for para que sobrevivamos. A cultura é o “suplemento” que tampa um buraco no cerne de nossa natureza e nossas necessidades materiais são então remodeladas em seus termos.
Terry Eagleton