A FAO e o INCRA consideram como agropecuária familiar, aquela que: a) a direção dos trabalhos é exercida pelo prudutor;
b) não foram realizadas despesas com serviços de empreitada;
c) sem empregados permenentes e com número médio de empregados temporários menor ou igual a quatro ou comum um empregado permenente e número médio de empregados
entanto, no que diz respeito ao incremento da produção agropecuária, já atende as demandas do setor urbano-industrial. Essa desigualdade na distribuição dos bens primários (rendas, poderes...) é aceitável, se essa distribuição melhorar a vida desses excluídos. Entretanto, para Romeiro (2002:124) essas demandas “excluem a satisfação das necessidades mínimas” da maioria populacional mundial.
Nos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, a terra também é rigorosamente um fator de produção importante, por conseguinte, por seu elevado significado na vida das pessoas e das comunidades é enaltecida em suas manifestações culturais, colocam-na em exaltação, um dos símbolos de sua existência, de sua relação com a natureza e com Deus. Para Maurel (1998:89), “apartar o jurídico, o econômico, o social e o simbólico, de uma relação multidimensional como esta, ocorreria uma situação fictícia, por isso ‘arbitrária”.
Ademais, os pequenos agropecuaristas da América Latina, Ásia, África e Leste da Europa ocupam espaços frágeis e degradáveis, no entanto dão uma contribuição substancial para a auto-suficiência alimentar regional e proteção à natureza. Porém, esses obtêm muito pouco com os processos de desenvolvimento e transferência de tecnologias da revolução verde e da biotecnológica. Não que as inovações, principalmente tecnológicas, fossem inadequadas para esses agropecuaristas, mas o difícil acesso ao crédito, ao subsídio, à informação, ao apoio técnico. O alto grau de analfabetismo nos países africanos e sulamericanos e na Índia não lhes permite adotar essas inovações, pois não só lhe falta leitura, para absorver a nova e imperativa técnica hegemônica, como sobra imposição para a referida implementação.
Ao analisar essa situação com imaginação e criatividade, percebe-se que as famílias de técnicas emergentes – em especial a informática – possibilitam a superação deste imperativo e a proliferação de novos arranjos. Nesse sentido, a implementação dessas técnicas aumenta a participação dos pequenos agropecuaristas e, ao Estado, assegura essa ajuda. Portanto, “quando um determinado ator não tem as condições para mobilizar as técnicas consideradas mais avançadas, torna-se, por isso mesmo, um ator de menor importância no período atual” (SANTOS, 2002:25).
Através das nações desenvolvidas, técnicas modernas foram disseminadas e gerou-se um espaço rural maior do que a agropecuária, tanto nos países centrais
como nos periféricos, e que, segundo Medeiros et al.,(2002:29-30), originou subsetores (quadro 9):
Quadro 9: Subsetores da agricultura.
1 - uma agropecuária moderna baseada em commodities e intimamente ligada às agroindústrias; 2 - um conjunto de atividades não-agrícolas, ligadas à moradia, ao lazer e às várias atividades
industriais e de prestações de serviços;
3 - um conjunto de “novas” atividades agropecuárias, localizadas em nichos específicos de mercados.
Elaborado pelo Autor.
Convém ressaltar que a participação do agronegócio no Produto Interno Bruto /PIB brasileiro em 2002, foi de 29% (BORTOLÁS,2003:B-12), o que quer dizer que quase um terço do PIB vem das atividades ligadas ao campo. É uma atividade forte, com presença em todo o território, podendo gerar mais empregos e rendas. No Brasil, não só o agronegócio é de fundamental importância, uma vez que a agropecuária familiar pode dar respostas positivas, se incluirmos seus produtos e serviços artesanais como objetos de desejo dos consumidores.
Nas nações ricas, o PIB da agricultura superprotegida (altamente subsidiada) responde com percentuais baixíssimos, conforme tabela 3, em função das outras atividades do setor secundário e terciário terem melhor desempenho, menos riscos e serem mais remunerativas. Como construir uma proposta de desenvolvimento sustentável, quando um país é tão dependente do setor agropecuário?
Tabela 3: Subsídios agrícolas (em%) – países selecionados pela OCDE, 2001.
PAÍSES Participação da agricultura no PIB.
Participação dos subsídios na receita dos agricultores
Austrália 1,3 4 Canadá 2,2 17 Estados Unidos 1,4 21 Japão 1,1 59 Suíça 1,2 69 União Européia 2,1 35 Média OCDE n.d 31 Fonte: Prado, 2003
Ainda assim, os países ricos, através de organismos multilaterais: FMI – Fundo Monetário Internacional, OMC – Organização Mundial do Comércio, Banco
melhor, – as devedoras, por exemplo: receber indústrias poluentes e devoradoras de energia, sucata de origem diversa – componentes eletrônicos, mecânicos, pneumáticos, material radioativo, como também recrudesce em ações que minimizem a atuação dos estados nacionais endividados, para não atrapalhar o livre comércio. É a supremacia do poder imposta pelos países e instituições credoras.
Diante deste cenário fortemente contrário a estilos de vida menos dependente e degradante do uso do recurso natural, a agropecuária sustentável emerge com uma proposta de mudança no imaginário individual e social, tanto das sociedades de consumo como naquelas de conservação e preservação dos recursos da natureza. No entanto, é necessário compreender a amplitude desses modos de vida. Os povos autóctones, com rituais e ritos próprios, dão uma conotação vigorosa as suas manifestações culturais e modos de vida ligados à cooperação, parceria e conservação dos bens de uso, perfilhando-se com os defensores da ecologia profunda, na outra ponta, modos de vida fortemente concentrados no consumo frenético de bens e serviços e na degradação dos recursos da natureza, alinhados aos defensores da competitividade, em seus aspectos: dominação, linearidade, expansão, reducionismo, características vigorosas da economia pura. E o Relatório da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento destaca esses interesses: “evidentemente, são seus elementos constitutivos – a saúde, o bem-estar, e a prosperidade do povo – e não as toneladas de minérios, o volume das árvores ou a quantidade de espécies animais” (CUÉLLAR,1997:275).
Nesse contexto, há rituais de gestão em sustentabilidade em andamento, para isso as empresas realizam práticas de planejamento e gestão social, ambiental e de governança (VINHA, 2003: 189) como: ISO – International Organisation for Standardisation 14000; negociam ações tipo: RSC – Responsabilidade Social Corporativa e SRI – Fundos de Investimentos Responsáveis, SA 8000 – Social Accountability, que avaliam o desempenho do processo produtivo sob o viés da gestão ambiental. Instrumentos de política ambiental são usados pelos países que participam do comércio exterior, tais como taxação, certificados comercializáveis de poluição ou de exploração de recursos, lista negra dos poluidores, licenciamento para atividades econômicas e relatório de impacto ambiental e outros, para coibir e punir os transgressores: organismo individual, corporativo e concessionário de serviço público.
Todas essas atitudes e atos são formas importantes de problematizar a gestão dos recursos naturais, têm surtido alguns efeitos: a consciência ecológica já é tratada nos diversos fóruns e punições, por degradar e poluir o meio ambiente fazem parte da rotina dos órgãos fiscalizadores. Alguns países já realizam até programas de garantias de renda aos pobres, inclusive aos agropecuaristas, como forma de mitigar os danos ambientais. Nesse sentido, no Brasil, em janeiro de 2003, ao assumir o governo, Lula dá forma ao Projeto de Lei do senador Suplicy, sancionando a Lei que institui a Renda de Cidadania a partir de janeiro de 2005.
Não é difícil constatar ambigüidades em quaisquer dos discursos, no entanto a capacidade humana em melhorar as imperfeições é a alavanca desse processo inacabado e inacabável, que é a construção de tipos de desenvolvimento sustentável. Certamente, uma educação desinteressada que assegure o protagonismo dos indivíduos, organizações sociais, comunidades e dos países é salutar. Pois, ao considerar e dialogar com os valores, crenças e tradições de cada cultura local, encontrará respostas criativas para superar o desejo utilitarista de produzir bens e serviços em volumes que ninguém terá tempo de consumi-lo.
Assim sendo, a ambigüidade do termo agropecuária sustentável também não se resume – a explotação dos recursos naturais, como é notório em algumas argumentações expostas por especialistas e políticos, sobretudo, afirmando que a introspecção da racionalidade econômica como única forma de alcançar o desenvolvimento.
Dessarte, entende-se como Agropecuária Sustentável o exercício relacional de conhecimento e reconhecimento do uso de técnicas pelos diversos modos de produção existentes e ignorados, para a obtenção de produtos saudáveis; praticar a policultura com boas práticas de conservação de solo e dos mananciais de água, produtos isentos de substâncias e organismos patogênicos, com boas produtividades e rendimentos agrícolas e industriais; realizar uma contabilidade nacional13, baseada no emprego de taxas de retorno baixas e altos impostos para aqueles que degradam, poluem e estimulam o consumo supérfluo dos produtos originados dos recursos naturais e seus serviços; do renovado diálogo entre os