Maria Júlia Kovács
"O suicídio é o único problema filosófico verdadeirame nte sé-
rio, pois julgar se a vida vale ou não à pena ser vivida é respon- der à qu estão fundamental da filosofia." (Albert Camus, O mito de Sísifo.)
Esta é realmente a questão fundamental, a vida va le ou não à pena ser
vivida? O suicídio inclui uma gam a de situações muito complexas, cujos
contornos são vagos e indefmidos. Ter clareza quando se trata efetiva- mente de su icídio, ou de acidentes, acaso, homicídio, doença ou quais-
quer outros atos autodestrutivos é muito difícil. Veremos neste capítulo
como vários autores procuraram compreender este problema. Arrolare-
mos hipóteses, tentativas de explicação e tratamento de um problema tão profundo. Estaremos apenas tangenciando alguns dos pontos essenciais para a discussão do suicídio, ou melhor dos suicídios.
Levy (1979) tr az em seu artigo algumas das defmições, que permitem situar o que é suicídio. Em sentido est rito é considerado como uma auto-elimina- ção consciente, voluntária e intencional. Num sentido mais amplo, o suicídio inclui processos autodestrutivos inconscientes, lentos e crôn icos.
Tenta tivas d e suicid io são atos de liberad os de au to-agres são, em qu e a
pessoa não tem certeza da sobrevivência, manifesta ndo uma intenção au-
todestrutiva e uma consciência vaga do risco de morte.
Equivalentes suicidas, também cham ados de "pára-suicídios" ou de sui- cídios inconscientes, são atos que não se expressam d e modo explícito e manifesto, e sim de forma incompleta, deslocada, simbólica como se
16 6 Morte e desenvolvimento humano verifica em certos acidentes, homicídios provocados pela vítima e a uto-
mutilações.
Processos autodestrutivos crônicos são processos lentos, provocados
por tendências inconscientes como é o caso de certas doenças psicosso- máticas e toxicomanias. Nestes casos, não se observa u m risco tanatogê- nico imediato.
Levy traz a questão etimológica; na palavra SUICÍDIO estão as palavras
sul de si mesmo e caedes ação de matar, portanto ma tar a si mesmo, e em
1778 a palavra foi incluída no dicionário de língua fr a ncesa. Embora a
etimologia traga evidências, a idéia do suicídio oferece muitas dificulda- des com suas inúmeras controvérsias. As causas podem ser as mais varia- das, incluindo aspectos externos, normas sociais e motivações internas.
Para alguns autores, só é vá lido considerar suicídio quando o indivíduo
está consciente do seu ato. O su jeito tem de estar lúcido quando da reali- zação do ato, excluindo-se aqueles casos em que o indivíduo se encontra confuso, escolhendo a morte em vez da vida. A intencionalidade da ação autodestrutiva é um aspecto distintivo do suicídio, embora nem sempre seja fácil de ser avaliada. Dois aspectos devem ser levados em conta: a. Possibilidade ou impossibilidade de reversão do m étodo empregado
para morrer.
b. Providências que tornam possível a açã o de terceiros, quando esta intervenção é possível e pode se inferir que a intencionalidade seja
mínima.
Existe um grau crescente de intencionalidade quando se consideram
idéias de suicídio, passando-se para desejos, ameaças, tentativas e final-
mente o ato consumado. Será que o indivíduo quer mesmo morrer ou viver? Em cada situação deve ser levada em conta a intenciona lidade e
letalidade do ato. Pelo que está sendo visto, cada caso tem de ser estud a- do em seus aspectos m ais minuciosos.
Deve se levar em consideração o que Schneidmann e Farberow (1959)
chamaram de "C ry for Help", onde o sujeito atenta contra a própria vida
como forma de chamar a atenção das pessoas à sua volta para as suas
Compo rt amentos autodestrutivos e o suicídio 16 7
necessidades, buscando m aior amor e valorização pessoal. É uma forma de comunicação. Há uma ambivalência entre o desejo de viver e morrer.
Osuicidio é um ato muito complexo, porta nto, não pode ser considerado
em todos os casos como psicose, ou como decorrente de desordem social. Ta mb ém nã o p od e s er ligado de forma simplista a um determinado acon- tecimento como rompimento amoroso, ou perda de emprego. Trata-se de um p rocesso, que pode ter tido o seu início na infância, embora os moti- vos alegados sejam tão somente os fatores desencadeantes.
Todos n ós p odem os ter idéia s e a té d esejos de m orte qu and o esta mos
desesperançados ou desanimados; mas até a consumação de um ato suici- da, há uma série de variáveis em jogo que têm de ser consideradas. /, Dados epidemiológicos sobre suicídio foram apresentados por Kastenbaum (1983), que encontrou uma relação positiva entre o aumento da idade e a
taxa de suicídio. A velhice se caracte ri za por ter o índice mais alto de suicí-
dio porque neste período se vivem situações altamente desvitalizantes
como: isolamento social, desemprego, aflições econômicas e perda de pes- soas que ri das. Um exemplo desta situação foi o suicídio de Bruno B ette-
lheim. A Revista Vejalpu b licou sobre este assunto um artigo que discute o
direito de morrer de um psicanalista, com 86 anos, conhecido pelas suas obras sobre crianças. Internado em um asilo tomou um a dose que sabia fatal de tranqüilizantes antes de perder os sentidos. Parece ter sido uma decisão consciente de algo que sempre quis, ou seja, escolher a sua forma de vida e no fim, como esta se tornou insuportável achou melhor morrer.
Em termos de sexo, observou-se que os homens se suicidam mais e a hipótese explicativaé que estes apresentam um menor índice de tole-
rância à frustração.
Subgrupos minoritários estão mais vulneráveis a situações tensionantes, portanto, têm alto risco para a prática suicida. Alguns países apresentam maiores índices de suicídio como a Hungria, o Japão e a Suécia ligados à práticas educativas ou à repressão das emoções.
Em relação ao estado civil foi observado que as taxas de suicídio são mais
altas entre pessoas sozinhas como solteiros, viúvos ou separados. Apro-
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fissão em que se encontrou o m aior índice de suicídios foi a m edicina, e dois fatos podem ser a rr olados para encontrar exp licação para isso. Em primeiro lugar o fato de a medicina ser uma profissão muito tensionante, onde decisões rápidas precisam ser tomadas com alto grau de responsa-
bilidade. Por outro lado, os médicos têm fácil acesso às drogas, o que
facilita a ingestão delas numa dose letal.
Consider ando-se as doenças mentais, as taxa s de suicídio são mais altas entre indivíduos portadores de m elancolia, onde o desejo de morte pode não ter sido suficientemente satisfeito na psicose.
Diversas notícias de jornal nostrazem dados sobre a realidade brasileira
atual, sendo que algumas chamam a nossa atenção de forma especial. Uma
delas se refere ao suicídio entre indígenas. 2Acreditar-se-ia que as socieda-
des p rimitivas estariam mais a salvo do suicídio, pela continência do grupo
e presença de normas claras e precis as .A psicóloga Maria Aparecida Cos-
ta, da Funai, porém, diz que histórias de enforcamento não são n ovidade na reserva de Dourado onde vivem os índios guaranis. Não há uma hipótese clara, a resposta é o silêncio. Para a psicóloga a hipótese para o suicídio
seria o contato com as cidades, a miséria e o aba ndono das tradições e
cultos. Esse afastamento dos rituais quebra o contato com suas ra í'es, le- vando a situações de isolamento e solidão, lembrando a idéia de sociedade tanatotóxica, de que nos falam K alina e Kovadloff (1983), e a que nos refe- riremos com mais detalhes posteriormente.
Outra reportagem sobre suicídio de adolescentes traz material para pro-
fundas preocupações sobre a qualidade de vida nas gr andes cidades.3Re-
fere-se ao suicídio de M. P ., de 16 anos, que morreu ao cair da j anela de
seu apartamento depois do uso de drogas e bebida. As hipóteses são de que os jovens buscam a morte inconscientemente, sendo a sua principal causa entre adolescentes. No Brasil 5.000 adolescentes se suicidam a cada ano. Por quê? O que faz com que jovens na flor da idade, com a vida pela frente, no auge do desenvolvimento físico e psíquico, com todas as p oten- cialidades abertas, se matem?
Cassorla (1984), em estudo com jovens entre 12`e 27 anos que tentaram
suicídio, verificou diferenças nas características das fam ílias de orige m
2 Suicídio contagia índios caiuás.O Estado de S. Paulo, 13/01/91. 3 Shopping News, 26/08/90.
Comportamentos autodestnitivos e o suicídio 169 dos jovens suicidas. São famílias com maior proporção de separações
entre os pais, alcoolismo, envolvimento com a policia e a justiça. Segundo o autor, isto impediu que a função parental se proc essasse de forma mais
adequada. A p erda dos pais foi mais precoce no gr upo suicida. Trata-se
de jovens com maior susceptibilidade a rejeições e uma menor capacida- de de suportar frustrações.
Kalina e Kovadloff fizeram um levantamento histórico do suicídio. Na Antiguidadegr eco-romana o suicídio era um ato clandestino, patológico,
solitário e só seria a valizado com o consentimento da sociedade. Não
havia o poder de decisão pessoal, era uma transgressão. Os suicidas não tinham direito a uma sepultura regular e suas mãos eram enterradas se- paradamente. A mão era considerada assassina e a sua separação desti-
nava-se a evita r que cometesse outros atos proibidos. A proibição dos ritos funerários era uma forma de punição, para impedir um possível
contágio dos cidadãos pelo suicida.
Em Roma, o indivíduo deveria submeter ao Senado as suas razões para o desejo de morrer.
Havia situações em que o suicídio era incentivado como, por exemplo,
o dos escravos após a m orte do dono, das viúvas na Índia após a m orte do marido.
Na Idade Média o indivíduo e a sua vida pertenciam a Deus, e o sujeito
era castigado quando tentava se apoderar da vida qu e não lhe pertencia. Na época atual, há uma maior autonomia, não existindo mais castigo im-
posto pelo Estado. Hoje a maior causa de suicídios, no Ocidente, é a
solidão, o sentimento de irrelevância social. Houve um desmoronamento dos três pilares básicos da sociedade: família, Estado e religião, que me- lhor descreveremos a seguir.
Já en tre o s p ov os pr im iti vo s, o s ui cí di o o u ato d e se mat ar es tá ligado às normas do gr upo. Pode ser incentivado pela comunidade quando há sé- rias infrações às re gras sociais, como forma de neutralizar a culpa, reabi-
litando o indivíduo diante do grupo. A quebra d e costumes e tradições
Dias (1991) apresenta um relato sobre o suicídio em outras culturas,
corno no Oriente, onde é reconhecido como auto-sacrifício ou autopurifi-
cação. No Japão o suicídio pode ser visto como a última obra de arte, a morte como arte foral. Este aspecto é magnificamente representado no
filme "Mishima", de Paul Schradder. São m encionados também os suicí- dios por honra e p or serviço.
O Japão de hoje apresenta um índice crescente de suicídios, ligados à questão da honra, de jovens que fracassam na realidade escolar e são
considerados indignos. A autora cita também os discípulos que se suici- dam após a morte do mestre, ou dos cidadãos que se matam após o óbito
do imperador, como ocorreu no caso da m orte do imperador Hiroito. A
autora menciona o livro de Maurício Pinguet, A mo rt e voluntkria no Ja-
pã o, onde se pode ver com mais detalhes estes aspectos. Port anto, para
uma aná lise do problema do suicídio devemos levar em conta qual a inserção social deste ato na comunidade da qual o indivíduo faz parte,
porque os valores são com pletamente diferentes nas diversas culturas e entre o Oriente e o Ocidente.
Entre as principais teses sociológicas sobre o suicídio, a obra que inspi-
rou outros autores foi a de Durkheim, O suicídio, do final do século 19,
considerado um importante trabalho de investigação sociológica muito
atual. Para este autor, o suicídio é um ato individual com características da sociedade que o produz. E um ato complexo, indefinido e com contor-
nos vagos. O suicídio é um homicídio intencional de si mesmo. Só uma
aproximação grosseira pode falar sobre as suas intenções. De várias ma-
neiras o indivíduo renuncia à sua existência. E um ato desesperado de
alguém que não quer viver.
Segundo, o autor a classificação do suicídio facilita a chegad a aos seus
motivos básicos: