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Alocação de Recursos

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.3 HIPÓTESES

3.3.1 Composição do Modelo Operacional da Pesquisa

A preferência intertemporal foi testada por meio de uma ou mais situações incorporadas ao quase-experimento desenvolvido para esse estudo. Assim, os respondentes foram submetidos a um questionário, contendo tais situações, para que decidissem entre as alternativas. Isso permitiu verificar a existência de relação entre os aspectos intuitivos (baixo nível de habilidade cognitiva) e as decisões envolvendo preferências intertemporais na alocação de recursos às atividades organizacionais.

Além disso, buscou-se verificar se as variáveis “comprometimento com a ocupação” e “participação no processo orçamentário” influenciam na relação entre os aspectos intuitivos dos respondentes e a alocação de recursos às atividades organizacionais.

Para Ryan, Scapens e Theobald (1992), as variáveis consideradas em estudos empíricos podem ser dicotomizadas como variáveis dependentes e independentes. A variável independente em um experimento é a variável manipulada pelo pesquisador. A variável dependente mensura o impacto da manipulação realizada na variável independente. Desta forma, em um experimento, o pesquisador está interessado em determinar o impacto de mudanças na variável independente (manipulada) sobre a variável dependente (observada).

É importante destacar que o questionário utilizado para analisar as preferências intertemporais é uma adaptação do trabalho desenvolvido por Frederick, em 2005, sendo mantidos os valores por ele utilizados e assegurando-se a mesma seqüência na apresentação dos valores. Houve, entretanto, a incorporação de situações hipotéticas voltadas às decisões gerenciais de utilização do orçamento para alocação de recursos às atividades organizacionais.

O desenvolvimento da pesquisa obedeceu ao modelo operacional evidenciado na Figura 3.

Figura 3 - Modelo operacional da pesquisa

Fonte: Elaboração própria, 2011

O modelo operacional da pesquisa relacionou as seguintes variáveis independentes: (a) nível de habilidade cognitiva e; (b) participação no processo orçamentário e; c) comprometimento com a ocupação. A variável dependente foi representada pelas preferências intertemporais relacionadas às práticas de alocação de recursos às atividades organizacionais, considerada esta uma atividade típica do orçamento.

O modelo proposto espera identificar, inicialmente, se o nível de habilidade cognitiva dos indivíduos influencia as preferências intertemporais dos indivíduos em termos de alocação de recursos às atividades organizacionais. Uma vez identificada a existência de relação entre o nível de habilidade cognitiva dos indivíduos e suas preferências intertemporais na alocação de recursos em atividades organizacionais, pretende-se verificar, por meio da realização de testes de hipóteses, se as covariáveis inseridas no modelo interferem nesta relação, ou seja, se os escores de comprometimento com a ocupação e de participação no processo orçamentário exercem influência sobre as preferências intertemporais dos indivíduos, considerando-se o diferenciado nível de habilidade cognitiva dos indivíduos pesquisados.

Alocação de Recursos Nível de Habilidade Cognitiva Comprometimento com a Ocupação

H

A

HB

Preferências Intertemporais Participação no Processo Orçamentário

HC

Conforme discutido no primeiro capítulo, o nível de habilidade cognitiva dos indivíduos, medida por meio do Cognitive Reflection Test (CRT), pode influenciar em escolhas intertemporais, induzindo-os a preferirem alternativas cujas recompensas se processam no curto prazo, mesmo sendo a recompensa para estas alternativas inferior àquela que se poderia auferir em um espaço temporal mais longo.

A hipótese HA sugere, conforme a Figura 3, que existe relação entre nível de habilidade

cognitiva dos indivíduos e as preferências intertemporais de alocação de recursos em atividades organizacionais.

De acordo com Junqueira, Oyadomari e Moraes (2010), diversos autores sugeriram uma relação entre o orçamento participativo e outros vieses comportamentais, tais como a “obediência dos subordinados a pressões de superiores para a criação da folga orçamentária” (DAVIS; ZOORT; KOOP, 2006). Nesta perspectiva, a hipótese definida pelos autores é que a participação dos indivíduos no processo orçamentário tende a reduzir a folga orçamentária (NOURI; PARKER, 1996).

Este pressuposto é um possível indicativo de que, embora não se tenha identificado uma associação explícita na literatura entre participação no processo orçamentário e nível de habilidade cognitiva, estas variáveis podem apresentar algum tipo de associação, merecendo, portanto, ser verificada. A influência dos indivíduos no processo orçamentário se relaciona com a lógica da ação coletiva, elaborada por Mancur Olson (2002)7. Esta lógica defende a idéia de que as ações coletivas não seguem a mesma lógica que rege as ações individuais e que as pessoas podem mudar de lógica individual para uma lógica coletiva.

A hipótese HB pressupõe que quanto maior a participação no processo orçamentário menor a

influência do nível de habilidade cognitiva nas preferências intertemporais de alocação de recursos em atividades organizacionais.

7

A lógica da ação coletiva se fundamenta na crença generalizada de que indivíduos com interesses compartilhados constituem grupos que se empenham em ações coletivas visando a realização daqueles interesses comuns supostamente compartilhados. Olson (2002) afirma que haveria uma transitividade do comportamento racional e auto-orientado do nível individual para o nível coletivo.

Locke e Latham (1990) apud Junqueira, Oyadomari e Moraes (2010), ao buscarem compreender o processo de aceitação de objetivos, desenvolveram a Teoria dos Objetivos. Segundo esta teoria, pessoas comprometidas se empenharão de forma mais efetiva no alcance dos seus objetivos. Portanto, para os defensores desta teoria, os objetivos organizacionais podem ser alcançados de forma mais efetiva caso haja comprometimento dos agentes envolvidos.

Evidências empíricas, a exemplo das encontradas por Nouri e Parker (1996), apontam no sentido de que o comprometimento organizacional, uma das variantes do construto comprometimento, minimiza a ocorrência da folga orçamentária, um tipo de distorção gerencial ocasionada, dentre outros aspectos, por vieses comportamentais.

A hipótese HC, conforme apresentado na Figura 3, pressupõe que quanto maior o

comprometimento com a ocupação menor a influência do nível de habilidade cognitiva nas preferências intertemporais de alocação de recursos em atividades organizacionais.

Considerando que as duas covariáveis do modelo (comprometimento com a ocupação e participação no processo orçamentário) representam constructos multidimensionais, tornam- se imprescindíveis a definição da carga teórica destes constructos, bem como, a validação estatística dos mesmos, sendo apresentados no tópico a seguir os procedimentos adotados para validar as escalas do modelo.