Comprometimento com a ocupa ç
4.3.3 Testes Complementares Utilizando o Teste T de Student e a Regressão Logística
Os testes realizados nesta seção extrapolam os inicialmente previstos nos procedimentos metodológicos e tem por intenção explorar aspectos para os quais não se havia atentado na
ocasião do delineamento do trabalho. Neste sentido, procura-se superar o inconveniente deixado pela composição da amostra da pesquisa, que se dissociou daquela utilizada no trabalho de Frederick (2005) e que foi o trabalho tomado como base de sustentação para a pesquisa em tela.
O teste de Levene (TABELA 23) permite rejeitar a hipótese de igualdade de variâncias em termos de comprometimento com a ocupação por parte dos respondentes, ou seja, indivíduos intuitivos e não intuitivos diferem em termos de comprometimento com a ocupação. Para as três dimensões do constructo comprometimento com a ocupação (afetivo, afiliativo e instrumental), o nível de significância foi inferior a 0,05, sendo que o teste indicou níveis de significância de 0,047, 0,06 e 0,039, respectivamente.
Tabela 23 – Teste t para hipótese de igualdade de variâncias – classificação cognitiva Fator ou dimensão de análise Significância Comprometimento afetivo com a ocupação 0,047* Comprometimento afiliativo com a ocupação 0,006* Comprometimento instrumental com a ocupação 0,039* Participação no processo orçamentário 0,688 * Significância ao nível de 5%.
Fonte: Elaboração própria, 2011
Estes resultados se coadunam com aquilo que foi expresso por Locke e Latham (1990) apud Junqueira, Oyadomari e Moraes (2010) e por Nouri e Parker (1996) ao apontarem que o comprometimento é uma nuance importante para a compreensão da subjetividade humana e que pessoas comprometidas se empenharão de forma mais efetiva no alcance dos seus objetivos.
O teste indicou, entretanto, conforme a Tabela 23, que há igualdade entre as variâncias para a dimensão participação no processo orçamentário e que, portanto, indivíduos intuitivos e não intuitivos se comportam de forma equivalente em termos de participação no processo orçamentário.
Corroborando os achados da regressão logística, o resultado do teste de Levene (TABELA 24) não permite rejeitar a hipótese de igualdade entre as variâncias para a “presença da
miopia” em preferências intertemporais. Além disto, o supracitado teste demonstra que comportamento intertemporal é o mesmo havendo um maior ou menor comprometimento com a ocupação (afetivo, afiliativo ou instrumental). Verifica-se, ainda, que uma maior ou menor participação no processo orçamentário não acarreta alterações significativas no comportamento intertemporal dos indivíduos.
Tabela 24 - Teste t para hipótese de igualdade de variâncias – preferências intertemporais Fator ou dimensão de análise Significância
Comprometimento afetivo com a ocupação 0,571 Comprometimento afiliativo com a ocupação 0,772 Comprometimento instrumental com a ocupação 0,730 Participação no processo orçamentário 0,296
Fonte: Elaboração própria, 2011
Este resultado contradiz a existência de associação entre a participação no processo orçamentário e o comportamento de subordinados quando da alocação de recursos, conforme apontado por Junqueira, Oyadomari e Moraes (2010).
Depreende-se, portanto, que o comportamento intertemporal dos respondentes apresenta igualdade entre as variâncias, indicando que a presença ou ausência de miopia em preferências intertemporais não difere em função do nível de comprometimento com a ocupação dos respondentes e mesmo em função do nível de participação destes no processo orçamentário.
Os resultados do teste t realizado para a classificação cognitiva dos respondentes indicaram que indivíduos intuitivos e não intuitivos apresentam comportamento estatisticamente diferentes, suscitando que indivíduos intuitivos são influenciados positivamente pelo nível de comprometimento com a ocupação/carreira, confirmando a classificação cognitiva realizada por Frederck (2005). Este comportamento não se verifica, entretanto, para o constructo participação no processo orçamentário.
A possível explicação do nível de habilidade cognitiva dos indivíduos a partir do comprometimento com a ocupação, conforme mostrado pelo teste t de student, requer uma
definição de quais covariáveis estão relacionadas a esta variável resposta12. Assim, para investigar o relacionamento entre a variável resposta “nível de habilidade cognitiva” e as covariáveis definidas para o estudo (comprometimento afetivo, afiliativo e instrumental com a ocupação e participação no processo orçamentário) optou-se por um modelo logístico, agora considerando o nível de habilidade cognitiva como variável independente. A variável “preferências intertemporais” não foi incluída no modelo em razão de não serem verificadas relações significativas entre esta e a variável “nível de habilidade cognitiva”, objeto central do presente trabalho13.
Foi montado, portanto, um modelo logístico múltiplo, conforme expresso pela Equação 12, considerando as variáveis do estudo que se seguem:
=
Y β0+ β2aX2a+ β2bX2b+ β2cX2c+ β3X3, em que: Equação 12
Y: representa a variável resposta nível de habilidade cognitiva;
X2a: representa o valor da variável comprometimento afetivo com a ocupação;
X2b: representa o valor da variável comprometimento afiliativo com a ocupação;
X2c: representa o valor da variável comprometimento instrumental com a ocupação;
X3: representa o valor da variável participação no processo orçamentário; β0: o intercepto;
β2a: parâmetro desconhecido associado à covariável X2a; β2b: parâmetro desconhecido associado à covariável X2b; β2c: parâmetro desconhecido associado à covariável X2c; β3: parâmetro desconhecido associado à covariável X3.
Considerando-se este modelo foram inseridas algumas hipóteses suplementares para serem testadas à luz do modelo logístico para a variável resposta “nível de habilidade cognitiva” e as variáveis explanatórias “comprometimento com a ocupação” e “participação no processo orçamentário”.
12
Embora não seja objeto desta dissertação, as externalidades apontam no sentido de que há como explicar o comportamento de indivíduos intuitivos e não intuitivos a partir de outras variáveis do estudo, a exemplo da variável comprometimento com a ocupação.
13
É válido destacar que a ausência de relação significativa entre preferências intertemporais e nível de habilidade cognitiva não foi constatada quando considerada a divisão original dos grupos, sem se excluir os respondentes que acertaram uma ou duas questões do CRT (área de penumbra).
As propostas das hipóteses Hc1, Hc2 eHc3 visaram avaliar se existe diferença significativa entre
o comprometimento com a ocupação (afetivo, afiliativo e instrumental) e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes. Com essa finalidade, foram formuladas as seguintes hipóteses, nulas e alternativas, respectivamente.
Hc1_0: Não existe diferença significativa entre o comprometimento afetivo com a
ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes;
Hc1_1: Existe diferença significativa entre o comprometimento afetivo com a ocupação
e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes;
Hc2_0: Não existe diferença significativa entre o comprometimento afiliativo com a
ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes;
Hc2_1: Existe diferença significativa entre o comprometimento afiliativo com a
ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes;
Hc3_0: Não existe diferença significativa entre o comprometimento instrumental com
a ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes;
Hc3_1: Existe diferença significativa entre o comprometimento instrumental com a
ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes.
A proposta da hipótese Hb é avaliar se existe diferença significativa entre a participação no
processo orçamentário e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes. Com essa finalidade, foram formuladas as seguintes hipóteses, nula e alternativa, respectivamente.
Hb_0: Não existe diferença significativa entre o escore de participação no processo
orçamentário e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes;
Hb_1: Existe diferença significativa entre o escore de participação no processo
A partir da Tabela 25, constatam-se evidências de que as variáveis, escore de comprometimento afetivo com a ocupação e escore de comprometimento afiliativo com a ocupação têm efeito significativo em relação ao nível de habilidade cognitiva, contribuindo, em conjunto, para explicar o score do nível de habilidade cognitiva dos respondentes.
Tabela 25 - Avaliação múltipla dos fatores de risco para o nível de habilidade cognitiva Nível de habilidade cognitiva
Fatores de risco
OR [IC 95%] P-valor Comprometimento Afetivo com a
Ocupação 1,449 (1,019;2,061) 0,039 Comprometimento Afiliativo com
a Ocupação 0,713 (0,543;0,935) 0,015 Comprometimento Instrumental
com a Ocupação 0,950 (0,736;1,225) 0,693 Participação no Processo
Orçamentário 1,026 (0,829;1,270) 0,810 Fonte: Elaboração própria, 2011
Desta forma, ratifica-se o que foi encontrado na matriz de correlações cruzadas de Pearson (TABELA 15), a qual mostrou que há uma correlação negativa entre o nível de habilidade cognitiva e o comprometimento com a ocupação. Neste sentido, indivíduos com um baixo nível de habilidade cognitiva mostram-se mais comprometidos com a ocupação/carreira (ao menos em termos de comprometimento afetivo e afiliativo).
Os resultados apresentados nesta análise multivariada trazem à tona alguns delineamentos importantes para o entendimento da relação entre comprometimento afetivo e afiliativo com a ocupação e classificação cognitiva dos indivíduos, como por exemplo, ao permitirem inferir que pessoas mais intuitivas apresentam um maior sentimento de identificação e afiliação com a ocupação/carreira.
Assim sendo, há uma interseção entre o presente trabalho e estudos preliminares, como os desenvolvidos por Kelman (1958) e Becker (1992) apud Medeiros (2003), que definem comprometimento afiliativo como o vínculo psicológico do indivíduo com uma profissão, tendo por base um sentimento de identificação e afiliação. Esta interseção se manifesta também em relação ao comprometimento afetivo, identificado pela introjeção dos valores da profissão, já que estes são congruentes com os do indivíduo (KELMAN, 1958 apud MEDEIROS, 2003).
O Quadro 13 apresenta os resultados encontrados nos testes de hipóteses para as situações que envolvem o nível de habilidade cognitiva dos respondentes com as quatro variáveis explanatórias: comprometimento afetivo com a ocupação, comprometimento afiliativo com a ocupação, comprometimento instrumental com a ocupação e participação no processo orçamentário.
Embora os resultados da análise multivariada não corroborem a plataforma teórica apresentada neste estudo, a análise não paramétrica de Mann Whitney ratificou a relação entre o nível de habilidade cognitiva dos indivíduos e as preferências intertemporais explicitadas por Frederick (2005). A rejeição das hipóteses relacionadas às variáveis intervenientes comprometimento com a ocupação e participação no processo orçamentário necessitam ser melhor investigadas para se verificar se outras covariáveis como as condições político- institucionais de formulação do orçamento nas organizações e/ou as especificidades de cada carreira/profissão não ofuscaram a capacidade de explicativa das variáveis definidas para o presente estudo.
Quadro 13 – Teste de hipóteses para a variável resposta nível de habilidade cognitiva
Construto Teste de Hipótese Resultado
Comprometimento afetivo com a ocupação
H2a: estabelece que existe diferença significativa entre o comprometimento afetivo com a ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes.
Hipótese corroborada
Comprometimento afiliativo com a
ocupação
H2b: estabelece que existe diferença significativa entre o comprometimento afiliativo com a ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes.
Hipótese corroborada
Comprometimento instrumental com a
ocupação
H2c: estabelece que existe diferença significativa entre o comprometimento instrumental com a ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes.
Hipótese refutada
Participação no processo orçamentário
H3: estabelece que existe diferença significativa entre o escore de participação no processo
orçamentário e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes.
Hipótese refutada
Fonte: Elaboração própria, 2011
A Figura 15 apresenta o modelo de pesquisa com os resultados dos testes de hipóteses confirmadas e refutadas para as hipóteses suplementares. As hipóteses HC3 (existe diferença
significativa entre o comprometimento instrumental com a ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes) e HB(estabelece que existe diferença significativa entre o escore
de participação no processo orçamentário e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes) foram rejeitadas. As hipóteses HC1 (existe diferença significativa entre o comprometimento
afetivo com a ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes) e HC2 (existe
diferença significativa entre o comprometimento afiliativo com a ocupação e o nível de habilidade cognitiva dos respondentes) foram aceitas. A partir deste modelo e do modelo original serão discutidos os resultados encontrados, as limitações da pesquisa e apresentada propostas para futuras pesquisas.
Figura 15 - Modelo operacional de pesquisa para os testes suplementares
Comprometimento Afetivo com a ocupação
H
B Nível de Habilidade Participação OrçamentárioH
C 1 Comprometimento Afiliativo com a Ocupação C2H
Comprometimento Instrumental com a Ocupação C 3H
C
o
m
p
ro
m
e
ti
m
e
n
to
c
o
m
a
O
c
u
p
a
ç
ã
o
Cognitiva no Processo Comprometimento Afetivo com a ocupaçãoH
B Nível de Habilidade Participação OrçamentárioH
C 1 Comprometimento Afiliativo com a Ocupação C2H
Comprometimento Instrumental com a Ocupação C 3H
C
o
m
p
ro
m
e
ti
m
e
n
to
c
o
m
a
O
c
u
p
a
ç
ã
o
Cognitiva no ProcessoFonte: Elaboração própria, 2011
Desta forma, como um maior comprometimento afetivo e afiliativo com a ocupação está associado a indivíduos possuidores de menores níveis de habilidades cognitivas e como um menor comprometimento afetivo e afiliativo está associado a um maior nível de habilidade cognitiva, depreende-se que a classificação cognitiva dos indivíduos pode perpassar a ocupação/carreira escolhida pelos indivíduos.
No campo do comprometimento afetivo, entende-se que, se o indivíduo crê e aceita os objetivos e valores da ocupação, propõe-se a defender a ocupação e se mantém o desejo de
manter vínculo com a ocupação (MOWDAY; PORTER; STEERS, 1982 apud DEMO, 2003), possivelmente este apresentará um baixo nível de habilidade cognitiva, sendo a relação oposta também aceitável (menor comprometimento afetivo com a ocupação implica em maior nível de habilidade cognitiva).
Esta relação também é válida para a dimensão afiliativa, em sentido negativo, conforme observado na matriz de correlações de Pearson (TABELA 15). Embora fuja da compreensão de Borges e Medeiros (2010a, p.8), de que “o comprometimento afiliativo denota um vínculo psicológico racional, sem a confusão de valores pessoais e profissionais”, esta relação entre comprometimento afiliativo e classificação cognitiva permite observar que indivíduos mais suscetíveis a mecanismos institucionais que orientam a ocupação a que pertencem apresentarão, possivelmente, um menor nível de habilidade cognitiva, sendo válida também a relação em sentido contrário (menor comprometimento afiliativo com a ocupação implica em maior nível de habilidade cognitiva).
5 CONCLUSÃO
Esta dissertação examinou a influência dos aspectos intuitivos dos indivíduos sobre as escolhas intertemporais dos decisores, considerando o contexto do processo orçamentário de alocação de recursos às atividades organizacionais. Em sentido restrito, buscou-se investigar se a propensão de os indivíduos recorrerem ao sistema automático (ou intuitivo) impacta nas práticas de alocação de recursos às atividades organizacionais em termos de recompensas imediatas, mesmo com um retorno inferior àqueles que se poderiam auferir no futuro.
Buscou-se, ainda, verificar se as covariáveis comprometimento com a ocupação e participação no processo orçamentário são capazes de atenuar a presença de vieses comportamentais nas escolhas intertemporais, a exemplo da miopia em preferências intertemporais.
Os atalhos mentais, orientados pelo sistema 1 (ou intuitivos), estão presentes nas práticas decisórias do dia a dia organizacional e o nível de habilidade cognitiva representa uma dimensão fundamental para se compreender como os indivíduos tomam decisões.
A forma como se processa a seleção de informações e se delineia a hierarquização destas na mente dos decisores é algo ainda não plenamente solucionado e representa uma das facetas dos fenômenos psicológicos a serem desvendadas, tanto em sua dimensão racional quanto em sua dimensão tácita ou automática.
Os atalhos mentais, presentes no sistema intuitivos das pessoas, são fascinantes mecanismos utilizados pelas pessoas para atenuar um possível “retrabalho” em decisões aprioristicamente definidas. Entretanto, embora representem um mecanismo simplificador do processo decisório, os atalhos mentais podem se configurar em armadilhas capazes de conduzir os decisores a decisões subótimas, ou mesmo, a decisões “irracionais”.
Sob o ponto de vista das preferências intertemporais, pode-se destacar a ocorrência da miopia em preferências intertemporais, fenômeno este capaz de afetar negativamente o planejamento de longo prazo de uma organização e, portanto, a sua continuidade.
O presente capítulo traz as principais contribuições – teóricas e metodológicas – da dissertação. Além disso, são apresentadas algumas sugestões de pesquisa para futuros trabalhos.