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3 TRABALHO E INDUSTRIALIZAÇÃO: A FÁBRICA DE TECIDOS RIO TINTO NO CONTEXTO NACIONAL E REGIONAL

3.2 CONSTRUÇÃO DAS PRIMEIRAS VILAS OPERÁRIAS

3.3.1 Compras das terras e primeiras edificações

As fontes encontradas a respeito da construção do núcleo fabril de Rio Tinto são diversas, vão desde os escritos dos memorialistas, a exemplo das biografias dos Lundgrens, e escritos de ex-operários e ex-funcionários da fábrica, além da produção acadêmica cujos temas abordados vão desde a arquitetura da cidade às lutas trabalhistas. A compra dos terrenos e construção dos primeiros espaços da futura cidade foram abordados com frequência e tratam desde a compra de terras, até a estrutura da fábrica e vila.

- “A cidade do princípio e do fim”28

Manchete do Jornal “A União” do dia 28 de dezembro de 1924, a “Inauguração da Fábrica Rio Tinto”29, foi noticiado enquanto grande evento, após um longo tempo de pequenas reportagens, que preparava o público leitor, com ansiedade, para o momento de abertura do núcleo fabril. A matéria apresentou a descrição da prestigiada abertura e enfatizou a “grandiosidade” do empreendimento e de sua estrutura para a região. Contando com a presença de autoridades de vários setores, a fábrica foi inaugurada em cerimônia marcada por um banquete oferecido pela família Lundgren , por benção do representante do arcebispo metropolitano e por falas entusiasmadas de representantes do governo do Estado, da imprensa e também de dirigentes da Companhia. A notícia do jornal “A União”30

reproduziu parte do discurso do secretário de Estado e representante

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Frase dita por Dona Ana Maria da Silva ex-liçadeira, em uma conversa informal antes da realização da entrevista, em 19 de setembro de 2014.

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A respeito da denominação de Fábrica para Companhia, Macêdo (1986, p. 60) comenta: “ No ano de 1951, O Diário Oficial do Estado da Paraíba publicou a Escritura Pública de Constituição da Sociedade anônima “Companhia de Tecidos Rio Tinto” que, até então, era denominada da Cia. de Tecidos Paulista- Fábrica Rio Tinto, com um capital de 110.000.000,00 (cento de dez milhões de cruzeiros).”

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O Jornal “A União”, veículo de comunicação estatal - criado em Fevereiro de 1893 e ainda hoje em circulação, se constituiu ao ponto que foi, um considerável meio de difusão de matérias, tanto relacionadas às Casas Paulistas, loja de venda em varejo e atacado, dos produtos da Companhia de Tecidos Paulista dos Lundgren - bem como do futuro complexo fabril que estava sendo instalado em terras próximas à cidade de Mamanguape. Sobre as Casas Paulistas, é importante ressaltar, a sua responsabilidade na expansão do lucro, uma vez que eles optaram pela “integração indústria-comércio”, construindo as Casas Paulista- que seriam depois chamadas de Casas Pernambucanas-, cujo objetivo era se juntar ao mercado nacional, com lojas desde o Nordeste até o resto do país (HARDMAN; LEONARDI, 1991, p. 127).

do interventor João Suassuna, Demócrito de Almeida, no qual ele reforçou a parceria entre o governo e a Companhia, destacando o caráter de “mais absoluto acordo” desta relação. O secretário também discursou acerca das vantagens para além de ganhos econômicos que o empreendimento proporcionaria à pequena região, servindo de exemplo de método e disciplina.

A expansão do complexo industrial da família, já iniciado em Pernambuco, na cidade de Paulista, cujo proprietário era o sueco Herman Theodor Lundgren31, que chegou no Brasil em 1855, teve o seu desenvolvimento com a indústria em Rio Tinto. O empresário foi colocado ao lado dos homens que se dispuseram a construir impérios industriais no país, como aponta Raul de Goés (1963), biógrafo do Lundgren em questão. Antes de comprar as propriedades, onde seria consolidada a Companhia de Tecidos Paulista - CTP32, o empresário sueco funda a Powder Factory S/A, que produz durante um tempo, pólvora para armamentos das Forças Armadas Brasileiras. No ano de 1904, firma a compra das instalações fabris e começa a executar o projeto de fábrica- vila operária, que será, anos depois, repetido em Rio Tinto. Nas duas décadas seguintes a fábrica se expande, proporcionando, dentre outras coisas, condições financeiras para a compra das terras na Paraíba.

Após a consolidação do primeiro negócio têxtil da família, é iniciada a busca por um novo local para construir uma fábrica-vila operária. No ano de 1917, Frederico João Lundgren já estava à frente dos negócios da fábrica, posto que seu pai havia falecido dez anos antes. Estabelece-se então uma busca por local adequado. Inicialmente é cogitada a possibilidade do Rio Grande do Norte, mas o acordo com o governo não é bem sucedido. Chegando a Paraíba, consegue-se um acordo com o então Presidente do Estado, Camilo de Holanda (1916-1920), que concede vinte e cinco anos de isenção de impostos, conforme aponta Eltern Campina Vale (2008, p. 30):

Em abril de 1920, o governo do estado e a direção da Companhia Rio Tinto homologam oficialmente o contrato de isenção de impostos que 31

Herman Theodor Lundgren teve cinco filhos com Anna Elisabeth Stolzenwald (PANET,et al., 2002, p. 25).

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Paulista foi adquirida em 1891. Lá funcionava já atividade fabril e o operariado habitava em mocambos. Com a compra das terras, as edificações e o modo de viver, foi sendo modificado pelos Lundgrens: “Nesse município, o domínio da família Lundgren verificava-se na vida econômica, social e política, exercendo relações de trabalho de caráter paternalista e assistencialista junto aos operários da fábrica. (VERAS, 1980, p. 187 apud MACÊDO, 1986, p. 50).

recebe em 1926, alguns aditivos de atualização. A fábrica em 1926 continua isenta de impostos, obrigada, todavia, a pagar 60 contos de réis (60:000$000) anuais, em duas parcelas de 30 contos de réis, a cada seis meses, o que corresponde a 1.008 (mil e oito) teares da fábrica.

No entanto, o Estado também se isentaria de responsabilidades, como construção de escola, hospitais e segurança pública. Sendo essa, uma demanda da fábrica. Os espaços edificados trouxeram a ideologia pretendida pelos donos, corroborando para criar um espaço perpassado pelo controle, marca desses complexos fabris instalados em áreas isoladas (RAGO, 1985, p.188).

Com ordens para as primeiras compras de terra, Artur Barbosa de Goés se transferiu para a região e fez morada para iniciar a compra das terras, que foi adquirida por 23 (vinte e três) contos de réis seiscentos e sessenta (os 660 km), segundo Macêdo (1986).

Artur de Goés deu conta do recado. Estabeleceu-se no Salema - o antigo e abandonado pôrto fluvial da cidade - montando sortida mercearia. Familiarizou-se com a gente do lugar e adquiriu Preguiça33, sem pestanejar, para o espanto de tôda aquela gente.(GOÉS, 1963, p.89).

Seguindo ordens, ele continuou a aquisição dos terrenos. Posteriormente, Apolônio Gomes de Arruda foi nomeado para administrar a propriedade, com a incubência de contratar pessoas para o levantamento das primeiras casas, drenagem e saneamento das terras, dentre outras atribuições, conforme aponta Goés (1963, p. 90- 91).

Uma das particularidades, que atualmente marca esse caráter privado que a cidade possui até hoje, pode ser entendido a partir deste trecho de Panet et al. (2002, p. 27): “A compra dessas terras garantiu o monopólio territorial, impedindo sua aquisição por terceiros após sua valorização, decorrente da construção da cidade e da fábrica de Rio Tinto.” Isto é, com o novo fluxo do lugar, ao proporcionar emprego, as áreas ao redor foram objeto de maior especulação. Entretanto, a extensão de terra adquirida pelos Lundgren, dificultou a proximidade de especuladores com a fábrica e a vila.

Com a chegada dos/as primeiros/as trabalhadores, não os/as que iriam trabalhar na fábrica, mas na edificação da mesma, surgiu uma estrutura que abrigou toda a cidade que ganhou forma com o passar do tempo. A construção inicial abrigou as máquinas e outros equipamentos, os barracões, olaria e oficinas mêcanicas. Os meios de transporte,

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essenciais para o funcionamento da fábrica, no escoamento da produção, também foram providenciados e chegaram a medida que a fábrica se edificava. São eles: barcos, caminhões e algumas locomotivas. A soma de boas condições naturais, de transporte (já havia um porto) e da isenção de impostos, favoreceu a construção da fábrica naquela região.

Com a intenção de “vir plantar gente pelas bandas da Paraíba”, ou em qualquer Estado que conseguissem benesses fiscais, os Lundgren optaram pela expansão dos negócios devido à necessidade de sair de Pernambuco, conforme tese de Leite Lopes (1988). Esta asserção afirma que os Lundgren estariam sofrendo perseguição política. Outra justificativa, apresentada por Vale (2008), que em certa medida corrobora com a de Leite Lopes (1988) é a de Tâmara Tânia Egler (1986), cuja afirmação tange na questão política, pesando especialmente na forte mobilização que o movimento operário estava fazendo na altura, em Paulista. A proximidade da cidade à Recife, com operariado já fortemente organizado, favoreceu as trocas junto à classe trabalhadora desse complexo industrial.

O financiamento para a construção da cidade-fábrica foi estrangeiro. Isto muito se deve a situação do sistema bancário brasileiro, dominado por bancos internacionais, dentre eles: ingleses, alemães, franceses e italianos (HARDAMAN; LEONARDI, 1991). Em um contexto que o Banco do Brasil já havia quase fechado, a circulação de dinheiro para investimento sofria crises constantes. Com lastros que vinham desde o período colonial, de grande exploração das riquezas do Brasil e acumulação por parte da Inglaterra, a industrialização e seu financiamento sofreu consequências que passavam pela divisão internacional do trabalho. Sobre a situação bancária do país, ilustram Hardman e Leonardi (1991, p. 70-71):

A expansão do sistema bancário brasileiro verificada a partir de 1890 encontrou logo em seguida poderosos entraves por parte do capital financeiro. Com a crise bancária de 1900, nada menos de dezessete bancos foram à falência [...]. Por volta de 1913, os ativos dos bancos britânicos que operavam no Brasil constituíam quase 30% dos ativos totais de todos os bancos, nacionais e estrangeiros, e mais de 57% dos ativos de todos os bancos estrangeiros que operavam no país.

Perante essa situação, os Lundgren conseguem suporte financeiro da Alemanha e Inglaterra. Os proprietários adquirem desta última os máquinários —já obsoletos— que seriam utilizados na fábrica. Grande quantidade veio de Manchester, embarcada nas barcaças da Companhia e chegando pelo ancoradouro, localizado muito próximo aos

galpões. Como as máquinas já se encontravam em grau adiantado de desgaste, foi necessário a vinda de técnicos estrangeiros especializados para que as consertassem sempre que fosse necessário, uma vez que os defeitos apareciam recorrentemente. A fábrica não tardou, inclusive, de construir uma oficina para os reparos. Novos meios de produção só foram adquiridos em fins da década de 50, quando a fábrica passou por uma fase de modernização, como ilustra Macêdo (1986, p. 95): “A ampliação que a fábrica realiza nesse ano conta com a aquisição de 220 teares automáticos, de marca Kovo, fabricados em 1959 que, somados aos existentes, totalizaram, 2518 teares.”

Figura 3 - Mapa dos setores da cidade de Rio Tinto – PB.

Fonte: PANET, et al. (2002).