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3 TRABALHO E INDUSTRIALIZAÇÃO: A FÁBRICA DE TECIDOS RIO TINTO NO CONTEXTO NACIONAL E REGIONAL

3.2 CONSTRUÇÃO DAS PRIMEIRAS VILAS OPERÁRIAS

3.2.3 Construção de complexos fabris no interior

A construção dos complexos fabris no interior não tem sua origem no Brasil, contudo, ganham uma conotação diferente, especialmente quando se relaciona ao modo peculiar de formação da classe trabalhadora livre, com resíduos de controle que se assemelham em alguns aspectos aos domínios no período da escravidão, guardada as devidas proporções.

Os argumentos econômicos para a construção das fábricas em locais periféricos sempre estiveram presentes nos discursos do empresariado. No entanto, a criação de um território privado e longe dos poderes públicos, facilitou,sem dúvida, o controle sobre a

mão de obra livre em formação. Rago (1985, p. 188) comenta sobre a disciplina nos espaços fabris, entre eles, a vila operária:

A estratégia de disciplinarização da figura do trabalhador e a redefinição da rede e relações familiares a partir da construção das vilas operárias e de toda a organização do lazer operário, possibilitada por seu internamento num espaço arquitetônico literalmente cercado e fechado, caracteriza o período de formação do mercado de trabalho livre no país, nas primeiras décadas do século.

Esse afastamento do Estado postergou inclusive a interferência sobre as condições de trabalho, que só se deu por volta dos anos 50. Data desse período, o fim de construção de moradias pelos empresários a partir de quando “[…] o Estado intervém nas relações e conflitos da produção.” (BLAY, 1985, p. 25).

A interiorização e a distância que se cria da intervenção pública, provoca a criação de cidades pelos industriais, como ocorrera na Inglaterra e em outros países que já haviam passado pela industrialização, como ressaltam Hardman e Leonardi (1991, p. 149):

[...] era o nascimento nessas cidades de bairros fabris e operários, ou de vilas operárias contíguas a grandes complexos industriais. Vimos como muitas vezes era a própria empresa que desenvolvia um núcleo urbano e de habitações para os trabalhadores em torno de si mesma, relativamente isolado de outros centros urbanos.

A construção desses complexos fabris, que abrigaram muitas pessoas, necessitou arcar com a edificação de uma base indispensável para a vida de uma sociedade: água, energia. No caso de Rio Tinto, a hierarquia das casas não se restringiu à arquitetura destas, possuídas pelos funcionários que ocupavam os postos mais altos. Essas casas receberam, de maneira prioritária, o encanamento de água e o fornecimento de energia elétrica, que chegou com atraso a casa do operariado. Blay (1985, p. 38) comenta sobre essas grandes obras realizadas pelos empresários, funcionando para manter a ideologia paternalista entre os/as trabalhadores/as, além de ter servido como barganha e troca de favores políticos com o Estado.

A instalação das empresas industriais no Interior obriga o empresário a construir os estabelecimentos fabris e a implantar uma certa infra- estrutura para o funcionamento das fábricas. A ausência de condições gerais para a produção, na passagem do século, foi um entrave à industrialização superado pelo capital privado. Neste tópico destacam-

se, além dos próprios estabelecimentos industriais, a produção de energia e a construção de vilas operárias.

As vilas operárias construídas no interior ganharam não só em Rio Tinto, mas em outras localidades, a marca da hierarquização dos postos de trabalho na moradia, como apontado acima e ratificado por Decca (1990, p. 24-25):

As vilas operárias construídas pelos industriais assemelhavam-se às outras: compunham-se de uma série de pequenas casas, sem jardins, de três ou quatro cômodos no máximo, que tinham um fundo comum;às vezes, fileiras de pequenas casas contíguas escondiam-se da rua, atrás de uma primeira fileira que ficava rente à calçada. Destinadas prioritariamente aos mestres e contramestres, operários especializados que era necessário controlar e conservar, tais vilas erguidas por grandes industriais não foram iniciativa muito frequente na capital do estado até, pelo menos, o final dos anos trinta. Não havia necessidade premente de fixar a abundante força de trabalho não qualificado junto às fábricas e locais de trabalho.

As casas das fábricas, ocupadas pelos/as trabalhadores/as, assumiam o papel de capital constante (contabiliza como meios de produção) das indústrias e “como forma de pressão ou instrumento de força para conter greves ou rebeldias.” (DECCA, 1990, p. 26). A moradia, portanto, representa, desde o início “uma forma de reduzir o preço da força de trabalho, ampliar a capacidade de acumulação e induzir o trabalhador a permanecer no emprego.” (BLAY, 1985, p. 53). A autora ainda pontua que a edificação e fundação das casas não apresentava grandes desafios na sua construção, e os aluguéis constituíam um retorno pelos salários pagos, isso quando as casas pertenciam as fábricas:

Pequenas e simples, estas casas são de fácil construção e não exigem trabalho especializado. Ficam prontas rapidamente e representam um imediato retorno do capital através dos aluguéis.Portanto, como investimento imobiliário, as vilas operárias pouco representam no capital total das empresas; mas, após construídas, constituem-se em mais um bem imóvel de propriedade das empresas e se contabilizam como parte do capital constante. As casas alugadas aos empregados têm o aluguel descontado do salário […] o capital variável investido nos salários, é recuperado parcialmente pelas empresas através do aluguel. Portanto, o aluguel barateia o salário ou, ainda, a parcela destinada ao pagamento dos salários se reduz imediatamente pelo fato de ter deduzido o aluguel. (BLAY, 1985, p. 213).

As vilas davam moradia e fixavam o operariado nas proximidades do local de trabalho, mas a disciplinarização a qual eram impostos, adentrava ao ambiente privado de convivência familiar. Em muitas indústrias, verdadeiras lista de normas foram estabelecidas para o exercício do controle. Toda a discussão, realizada especialmente em São Paulo, sobre a higienização das moradias operárias, não serviu, portanto, para a melhoria de suas condições de maneira geral. Os aluguéis das casas eram baixos, mas os salários também. E estes, como já foi dito, eram recuperados com o valor das casas. Ou seja, as casas geralmente não tinham boas condições, precisando constantemente de reparos e ainda depreciavam a liberdade da classe trabalhadora. (DECCA, 1990).

A respeito da moradia em Rio Tinto, o trabalho de Maria Bernardete de Macêdo (1986), traz muitas informações que elucidam a questão. O seu trabalho tem como foco a modernização pela qual passou a indústria, por volta dos anos 50. A compra de novas máquinas mudou vários aspectos do cotidiano do operariado, e a questão das habitações entra na lista, uma vez que as elas eram recebidas apenas por funcionários/as da fábrica. A demissão em massa provocou o desalojamento de algumas famílias, enquanto outras receberam a moradia como indenização nos processos trabalhistas.

O trabalhador deparou-se com uma questão profundamente angustiante, já que no contrato de moradia, estava estabelecido que, perdendo o trabalho na fábrica, automaticamente se daria o desvinculamento do contrato da casa. Caso o operário permanecesse na casa da Companhia, acompanhava um aumento de 30% no contrato de aluguel. (LEMOS, 1981, p. 22 apud MACÊDO, 1986, p. 162). Como apontam Philip Gunn e Telma Correia (2002) a industrialização não só aconteceu nas cidades já dotadas de uma relativa urbanização, mas a opção da interiorização foi vastamente utilizada, construindo importantes núcleos fabris.

A construção de Rio Tinto como cidade-fábrica estava dentro dos modelos de normatização do cotidiano dos/as operários/as, como já foi comentado pelos autores/as pontuados anteriormente. As famílias que eram recrutadas - algumas com todos os seus membros empregados da fábrica ou - eram “moradores da companhia”, não de uma cidade. Isso não excluí a importância do operariado na construção da cidade, ao contrário, as várias formas de resistência ilustram como pouco a pouco, a população vai criando uma cidade. Visto que, além do controle do trabalho, a ideologia nas escolas, nos espaços de lazer, de religião, dos próprios símbolos da cidade, eram controlados com rigor pelos empresários. Dona Maria das Dores, tecelã por quase trinta e dois anos

na fábrica, lembra o preço dos aluguéis e faz a ressalva, que até hoje tudo na cidade é dos Lundgren, salvo algumas casas e outros espaços:

Menina.. uma coisa que era muita coisa e se acabar. De um povo todo rico, todo que pode, né ? Que até hoje essas casas é de indústria, né ? É da indústria. Daí de onde a gente trabalhou. É tudo de companhia. E eu acho que não tem mais nenhum canto aqui que tenha casa de indústria26. […] Aí pronto, a gente morava e pagava uma taxa. Era pouco, não era muito que a gente pagava. Porque os operários tudo tinha direito de pagar… pronto, quando eu deixei de pagar eu já tava pagando cinquenta e sete… por mês […] Quando a gente trabalhava, vamos supor: eu trabalhava, tinha direito de pagar (?)… você morava na casa e você não trabalhava, mas você pagava mais do que eu, porque eu era operária e você não era, entendeu ? Quando a fábrica parou, a gente ficou pagando mais. Todo ano aumentava uma taxa27. 3.3 COMO NASCE RIO TINTO?

O surgimento de um lugar, que ganhou destaque na produção têxtil a nível nacional e depois se transformou em cidade, não pode ser conhecido apenas a partir de uma compreensão sobre um empreendimento fabril. A edificação de um espaço, com contornos tão diversos, se dá pelo cotidiano de várias pessoas, que através do trabalho, do lazer, portanto, de seu cotidiano, dão à região contornos de vivência, resistência. Não foi diferente no caso de Rio Tinto. A cidade conhecida por ter várias partes que ainda pertencem aos descendentes dos donos da fábrica, foi palco de uma experiência fabril em proporções únicas no estado da Paraíba. Abaixo uma figura que localiza a região da cidade dentro do estado da Paraíba:

Figura 2 - Localização de Rio Tinto –PB

26

Se refere às casas que ainda são de indústrias e não dos/as moradores/as. 27

Fonte: PANET, et al. (2002).