3.1 O EMPREGO DA FORÇA E SEUS SIGNIFICADOS
3.1.2 Compreendendo o processo de centralização
A ameaça, como o efetivo emprego da força, quando associada ao Direito, transforma- se no instrumento para harmonização e pacificação dos conflitos que, inevitavelmente, surgem entre os membros sujeitos dessa ordem jurídica comunitária. É imperativo, no entanto, esclarecer sobre o que consiste o processo de centralização antes de analisar os aspectos da força no direito nacional e no direito internacional, o que implica abordar, de forma abstrata, a questão dos modos de solução de conflitos entre os seres humanos.
Centralização é um fenômeno muito complexo. Nesse contexto, somente uma das facetas do fenômeno interessa. Falamos de centralização, de uma ordem jurídica
61 Tradução livre do original em inglês: “Force holds nothing together. Force is a substitute for unity. So far as it
rules, there is no unity and no development. Force as servant of intelligence at times prepares the way for unity, but the credit belongs more to the master that to servant. Force will always disrupts unless it is made subservient to common will.”
centralizada, se as normas dessa ordem são criadas e aplicadas, e especialmente se as sanções são executadas por órgãos especiais que funcionam de acordo com o princípio da divisão do trabalho Conseqüentemente os órgãos criadores e aplicadores da ordem jurídica, especialmente os órgãos executivos das sanções, são diferentes e mais ou menos independentes dos indivíduos sujeitos àquela ordem.62
(KELSEN, 2004, p. 101).
Centralização nada mais significa que uma especialização e legitimação social do emprego da força, ou seja, o termo força, quando dentro de um sistema centralizado, de uma ordem institucionalizada, assume a feição de coerção, de sanção institucionalizada.
Essa perspectiva acaba tendo como conclusão: quanto mais centralizada uma comunidade se encontrar, mais racional e mais civilizada é essa comunidade. Conseqüentemente, a centralização pode ser conceituada como um lento e gradual processo que as comunidades humanas sofrem, passando do estágio natural de total anarquia para um estágio em que surge uma ordem social comunitária determinando as condições e os indivíduos autorizados a interferir, por meio do emprego da força, nas esferas individuais dos membros em prol da harmonização da sociedade.
O monopólio da força na comunidade pode ser centralizado ou descentralizado. É centralizada se a ordem social institui, de acordo com o princípio da divisão do trabalho, órgãos especiais para a execução das sanções providas pela ordem. Isso, como já fora apontado, é o caso quando a ordem legal institui tribunais competentes para solucionar, por via de um procedimento determinado pela ordem, qualquer delito que tenha sido cometido e quem fora o responsável por ele, e quando a ordem
62 Tradução livre do original em inglês: “Centralization is a very complex phenomenon. In this connection only
one side of the phenomenon is of interest. We speak of centralization, of a centralized legal order, if the norms of this order are created and applied, and especially if the sanctions are executed, by special organs functioning according to the principle of division of labor. Conseqüently the organs creating and applying the legal order, and especially the organs executing the sanctions, are different from and more or less independent of the individuals subject to the order.”
63 Tradução livre do original em inglês: “The force monopoly of the community may be centralized or
decentralized. It is centralized if the social order institutes, according to the principle of division of labor, special organs for the execution of the sanctions provided for by the order. This, as has been pointed, out is the case when a legal order institutes tribunals competent to ascertain in a procedure, determined by the law, whether a delict has been committed and who is responsible for it, and when the legal order institutes special organs to execute the sanctions ordered by the tribunals.”
jurídica institui órgãos especiais para a execução das sanções ordenadas pelos tribunais.64 (KELSEN, 2004, p. 9).
É óbvio que nesse processo de centralização existirão diferentes etapas evolutivas, divididas na teoria geral do processo em três modalidades: autotutela, autocomposição e heterotutela.
O estágio da autotutela é o do estado de natureza predominando o que se conhece de vingança (a justiça privada), em que o emprego da força fica a cargo do próprio Indivíduo, sendo em regra a não-existência de uma autoridade capaz de monopolizar o emprego da força ou ser incapaz de determinar o modo de solução a ser adotado pelas partes em conflito.
A autotutela é comumente associada à organização social das comunidades primitivas, consideradas como se tivessem um Direito descentralizado pela ausência de órgãos especializados para promover a pacificação social, sendo o emprego da força o instrumento primário para solucionar o conflito.
O estágio da autocomposição consiste em um meio termo entre o estado natural- anárquico e o estado racional-ordenativo, pois predomina a idéia de se evitar o recurso da violência (da vingança) como modo predominante de solucionar conflitos, dando preferência às composições, á busca de denominadores comuns entre os litigantes para solucionar as divergências. O emprego da força começa a ser transferido para um plano secundário, começando a ser visualizado como instrumento de garantia da composição, do pacto.
O estágio da heterotutela consiste no estágio mais racional da comunidade; retira-se a capacidade do indivíduo de empregar a força e a centraliza na mão de órgão com a finalidade de promover a pacificação social. É o estágio em que surge a idéia de ordem, baseada em uma
64 Tradução livre do original em inglês: “The force monopoly of the community may be centralized or
decentralized. It is centralized if the social order institutes, according to the principle of division of labor, special organs for the execution of the sanctions provided for by the order. This, as has been pointed, out is the case when a legal order institutes tribunals competent to ascertain in a procedure, determined by the law, whether a delict has been committed and who is responsible for it, and when the legal order institutes special organs to execute the sanctions ordered by the tribunals.”
autoridade que monopoliza o emprego da força e determina a solução dos conflitos sociais. O emprego da força é instrumento dessa autoridade, tornando-se conhecida como sanção jurídica.
É importante salientar que, dentre esses três estágios, somente o estágio da autotutela pode ser considerado como ter existido sozinho em determinado momento da história humana, tendo essa existência compartilhada com os outros estágios evolutivos a partir do momento em que eles forem atingidos.
Situação que demonstra que, por mais civilizadas que as comunidades possam ser, não existe uma extirpação total da autotutela, mas sim um abrandamento até ela ficar restrita a casos raríssimos e, costumeiramente, enumerados taxativamente pela ordem jurídica, tornando-se exceção em vez de regra.
A grande indagação sobre essa exposição poderia ser o motivo pelo qual se realiza esta breve exposição acerca dos gêneros de forma de solução de conflitos. Esta brevíssima exposição tem o fito de estabelecer um pequeno aporte para compreender a exposição que se adotará nos três tópicos subseqüentes, em especial a associação do termo força ao de violência e o de sanção em determinados momentos, sendo retomada mais adiante ao abordarmos a concepção de jurisdição (infra 3.2.1).