No momento em que iniciei o curso de psicopedagogia, ainda desconhecia o papel do profissional nas instituições escolares. No entanto, durante meus estudos pude compreender a função do psicopedagogo como mediador entre o aprendente (o aluno), o conhecimento e o ensinante (o
professor). Através de um olhar e uma escuta diferenciados, ele trabalha a socialização na sala de aula, observando a prática do professor e como isso reflete na aprendizagem do aluno.
O foco do psicopedagogo é a aprendizagem, buscando caminhos que tornem a mesma prazerosa, trabalhando com a criatividade, o questionamento, objetivando tornar os alunos seres pensantes, autores da própria história.
Esse profissional surge para dar conta de um vácuo existente na relação entre professor, aluno e conhecimento, e cria estratégias com a função de construir um espaço de confiança, trazendo o prazer no processo de ensino-aprendizagem.
“Na instituição escolar, ele desvela o que está oculto, intervindo nas modalidades de aprendizagem, no enfrentamento e prevenção: permitindo que as diferenças apareçam e sejam trabalhadas no grupo.”(NETO e ALMEIDA, p.18)
Bossa (2000) diz que o psicopedagogo vem
“Preencher um espaço que não poderia ser ocupado nem por pedagogos nem por psicólogos (...), objetivando resolver o fracasso escolar e trabalhar memória, percepção, atenção, motricidade e pensamento. Este profissional deveria orientar o processo educativo nas suas mais diversas falhas, como métodos inadequados, evasão escolar e crise na escola”. (p.40)
O papel do psciopedagogo é observar como o sujeito aprende, como é o seu modo particular, original. A especificidade da avaliação psicopedagógica exige articulação do todo, não acontece isoladamente, ele ocorre entre as várias instâncias e vários saberes, há a compreensão do sujeito enquanto aprendente.
Mas como o psicopedagogo atua frente às dificuldades de aprendizagem que surgem no âmbito escolar?
À partir dessa queixa feita pela professora (capítulo 2), pude observar o trabalho da psicopedagoga, que chamaremos de Joana, dessa escola em relação a esse aluno. O primeiro momento foi de ouvir a docente, compreender melhor a questão que ela trazia referente a esse aluno. Após a escuta, Joana
foi observar o aluno em sala de aula para conhecer melhor o aprendente e compreender a queixa que Maria trazia.
A pesquisa realizada por mim era observar o papel do professor e do psicopedagogo diante da dificuldade de aprendizagem, porém sendo uma estudante de psicopedagogia, muitas vezes pegava para mim as funções e responsabilidades do trabalho da Joana, com o objetivo de aprender com a profissional e poder de alguma forma ajudar aquela criança e aquela professora angustiada. Dessa forma, quem fez a EOCMEA fui eu, como já foi citado no capítulo anterior.
Porém ao observar, ou como algumas vezes, tomar a frente de ações que cabiam a Joana pude observar algumas tarefas que são próprias do psicopedagogo, como identificar sintomas de dificuldades no processo ensinoapredizagem e fazer a mediação entre os sujeitos envolvidos nesse processo (pais, professores, alunos e funcionários); trabalhar com grupos; a importância da equipe, do outro; administrar ansiedades e conflitos; fazer encaminhamentos e orientações; ter um olhar clínico, uma escuta diferenciada; e como diz Alicia Fernandez “transformar queixas em pensamento”.
Antes de fazer a avaliação psicopedagógica, é necessário contextualizar o sujeito na sua história escolar e clínica, fazer um levantamento de questões da instituição escolar que tem reflexos na aprendizagem do aluno, realizar entrevistas e fazer estudo da realidade escolar vivida pela criança.
Joana quando escutou o lamento de Maria em relação ao aluno, realizou a anamnese, que é um instrumento que nos dá informações relevantes e necessárias para consecução das hipóteses diagnósticas. A partir dela, o psicopedagogo tem uma ampla observação dos fatos cotidianos da história do aprendente segundo sua família. É um conjunto de situações que investigadas vão proporcionar ao psicopedagogo compreender a questão do discente e entender como essas relações com a família contribuem ou não para manter os sintomas decorrentes dos obstáculos de aprendizagem.
Alguns aspectos que conduzem ao fracasso escolar podem ser detectados através da avaliação feita pelo psicopedagogo, o que acontece na estrutura individual de um sujeito para que seja vítima do não aprender? A
resposta a essa interrogação encontra-se na relação particular entre o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo desse sujeito, transversalizados por uma particular situação vincular e social.
“Os problemas de aprendizagem podem se apresentar em razão de uma metodologia inadequada, método de alfabetização inadequado, privação cultural e econômica, má formação docente, falta de planejamento das atividades, desconhecimento da realidade cognitiva dos alunos.” Sampaio (2011, p.90)
A psicopedagogia não lida diretamente com o problema, lida com as pessoas envolvidas, ou seja, a criança, seus familiares e com os professores, levando em conta aspectos sociais, culturais, econômicos e psicológicos.
Em sua avaliação, no encontro inicial com o aprendente e seus familiares, utiliza a “escuta psicopedagógica”, que o auxiliará a captar através do jogo, do silêncio, dos que possam explicar a causa de não aprender.
Segundo Alícia Fernandes (1990 p. 117)
“a [...] intervenção psicopedagógica não se dirige ao sintoma, mas o poder para mobilizar a modalidade de aprendizagem, o sintoma cristaliza a modalidade de aprendizagem em um determinado momento, e é a partir daí que vai transformando o processo de ensino aprendizagem.”
O papel que a psicopedagoga dessa escola teve em relação ao aluno dessa instituição foi de conhecer melhor o aluno, ter um olhar diferenciado, pesquisar fatos que possam trazer um diagnóstico do aluno. O trabalho em parceria com a comunidade escolar, em especial a professora, me mostrou a importância do trabalho em equipe, são diversos saberes que ao trabalharem juntos, aumentam a possibilidade de transformar o processo de ensino e aprendizagem em função do sucesso escolar.
A troca com o outro é condição para o conhecimento.
Na troca, há uma interação e uma interlocução com o outro, um fazer/pensar ‘independente’. É importante não esquecer que, mesmo quando o sujeito exerce, de forma independente, determinadas capacidades ou funções, sem ajuda de outras pessoas,
o outro está presente na ausência, pois a troca com o outro é constitutiva para o conhecer. (SAMPAIO,C.S.:2008, p. 170)
CONCLUSÃO
Diante desse processo investigatório tive a oportunidade de rever a minha prática e buscar alternativas em função de uma aprendizagem eficaz. Acompanhar o trabalho dessa professora e dessa psicopedagoga foram de grande importância para a minha formação, a qual está constantemente em processo, é continuada., me possibilitando alcançar novos saberes.
A partir de um olhar e uma escuta diferenciados, a professora pôde encontrar indícios, descobertas despercebidas por outros, mas que ela
consegue observar a partir de um olhar mais atento, minucioso, investigativo sobre a própria prática educativa construída e sobre os saberes e não-saberes apresentados pela turma. Ginzburg (1991), através do paradigma indiciário, contribui com esse processo ao sinalizar a importância de observar e interpretar as pistas deixadas pelos alunos na dinâmica da aprendizagem, onde questões sem importância, ao serem estudadas e refletidas, podem mostrar uma realidade complexa, a qual não é facilmente observável. Nesse caso, só foi possível pelo olhar atencioso de uma professora comprometida com a aprendizagem.
Com o decorrer da pesquisa aprendi a importância da reflexão sobre a própria prática em função do aprendizado e do trabalho em parceria com a psicopedagoga para a resolução de situações em torno da dificuldade de aprendizagem.
O aluno pesquisado nesse trabalho não nos apresentou algum diagnóstico. Atualmente observamos a necessidade de rotular e dar nome às questões que as crianças e alunos nos apresentam e que fogem do padrão desejado sobre comportamento infantil.
Porém a partir do trabalho investigativo da psicopedagoga pude observar que algumas “questões” são construídas e desconstruídas. Nessa pesquisa em especial, a criança precisava de atenção, de afeto, e se no momento ela sente falta desse abrigo dos pais, a mãe ao saber disso e mudar em função das necessidade de seu filho, ela contribui para o sucesso escolar de seu filho.
Encerro meu trabalho de pesquisa, concluindo a importância do trabalho em parceria da professora com a psicopedagoga objetivando o sucesso escolar.