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3. Animais morais

3.1. Compreender Locke e o babuíno

O programa de investigação darwiniano entende que a vida nesse planeta está unida por relações entre as suas diferentes formas, originadas a partir de um processo que envolve seleção natural e descendência com modificação. As formas de vida não surgiram em separado em algum momento único, mas tornaram-se cada vez mais diversificadas ao longo do tempo a partir de uma ancestralidade comum. Nesse sentido, a hipótese evolucionista tornou-se essencial para a compreensão da vida, incluindo a vida humana: assim como todos os seres vivos, somos um tipo dos produtos oriundos de movimentos naturais.

Conforme abordamos no capítulo anterior, a ampliação deste programa de investigação da vida desenvolvida pela sociobiologia buscou mostrar que o processo evolutivo fundado nas pressões da seleção natural originou não apenas as estruturas corporais das formas de vida, mas também produziu os seus traços comportamentais e sociais, inclusive no caso do Homo sapiens. Dessa forma, numa definição canônica de seu objeto, a sociobiologia propôs um estudo das bases biológicas do comportamento social dos animais e, por extensão, dos seres humanos. Também conforme vimos, as propostas sociobiológicas foram alvo de uma série de críticas e objeções e consideradas incompletas em relação à sua análise sobre a natureza e o funcionamento da moralidade, uma vez que não abordam integralmente o fenômeno moral. No entanto, conforme defendemos, investigações

102 evolucionistas podem trazer informações sobre as possíveis origens evolutivas de alguns aspectos ligados à origem e desenvolvimento da moralidade.

Darwin já havia sugerido que poderíamos obter informações relevantes da condição humana caso comparássemos de forma experimental os instintos, emoções e comportamentos de humanos e de outros animais. Assim, poderíamos compreender mais sobre as ações humanas do que através de conclusões baseadas em especulações abstratas e subjetivas. Em 16 de julho de 1838, Darwin escreveu em seu “Caderno M” sobre suas expectativas sobre o potencial das investigações evolucionistas: “Aquele que compreender o babuíno contribuirá mais para a metafísica do que Locke.” Em sua expectativa, o entendimento da natureza da mente humana se daria a partir da compreensão das nossas origens primatas. Já em 4 de setembro do mesmo ano, comenta: “Platão disse no Fédon que nossas ‘ideias imaginárias’ derivam da existência anterior da alma, e não da experiência. Porém, por existência anterior, entenda-se símio”. Por fim, em 4 de outubro de 1838, esboça uma nova metodologia de investigação sobre a mente:

Estudar a metafísica como sempre se tem feito me parece tão ineficaz como querer saber de astronomia sem a ajuda da mecânica. A experiência demonstra que o problema da mente não pode ser resolvido atacando diretamente a cidadela. A mente é uma função do corpo. É preciso proporcionar um fundamento sólido a partir do qual possamos extrair nossos argumentos. (Citado em CONTINENZA, 2008, 82-85)

Desde então, a tentativa de compreensão mais geral da mente humana – ou psicologia – teve uma expansão significativa, criando e envolvendo diversas áreas e possibilidades de investigação. Muitas dessas áreas floresceram a partir do programa de naturalização da mente e das capacidades e traços humanos, como as tentativas da sociobiologia, e das atuais ciências cognitivas e neurociências. Tais desenvolvimentos ocorreram de forma integrada ao modelo evolucionista darwiniano, cujas concepções e expectativas mais profundas já poderiam ser encontradas nos textos e anotações do naturalista inglês.

No entanto, há desconfiança em relação ao alcance desse programa de pesquisa. Para alguns, nem todos os campos e experiências da existência e da psicologia humanas acomodam-se de forma harmoniosa nesse programa. O escritor russo Liev Tolstoi, após um contato tardio no final do século XIX com a hipótese darwiniana criticou o real alcance da mesma. Segundo sua crítica, Darwin busca descrever as condições de existência e desenvolvimento das formas de vida, porém “não nos explica nada sobre o propósito da

103 existência vida, nem nos orientam em nossas ações” (Citado em DUGATKIN, 2006 [2007], 52). Essa objeção também poderia ser atribuída às explicações naturalistas e evolucionistas sobre a natureza do altruísmo e das incursões da sociobiologia sobre a moralidade humana. Tais possibilidades explicativas buscam descrever, num contexto darwiniano, o modo como o altruísmo surgiu e as raízes da capacidade para a moralidade encontrada em humanos, porém não esclarecem sobre o que seres humanos devem fazer e/ou valorizar – ou, nas palavras de Tolstoi, não “orientam nossas ações”. De modo mais geral, a impossibilidade de se passar de fatos a valores, exposta por David Hume, e a falaciosa equiparação semântica de natural a bom, denunciada como “falácia naturalista” por G. E. Moore, já apontavam as dificuldades de pretensas descrições factuais sobre o mundo possuírem algum impacto sobre as normatizações próprias dos sistemas morais.

Nesse sentido, a estruturação de uma proposta normativa fundamentada em bases darwinistas fracassou, como no caso da proposta de Herbert Spencer. Já a substituição dos filósofos pelos biólogos evolucionistas, que possivelmente conhecem mais sobre a origem e o funcionamento dos processos evolutivos que produziram o animal humano e, consequentemente, sobre a sua estruturação psicológica – conforme defendido por Edward. O. Wilson – também se mostrou pouco proveitosa para o âmbito da moral, devido às expectativas de que a informação oriunda da ciência sociobiológica poderia nos dar a compreensão da totalidade da moralidade. Porém, a proposta da sociobiologia de compreender melhor as capacidades humanas a partir de uma investigação de fundo evolucionista, mesmo sem trazer bases para a efetivação de uma proposta ética, pode trazer informações relevantes sobre tais capacidades e seu funcionamento. Conforme já abordado, dentre a lista de possíveis relações entre a biologia evolucionista e a filosofia moral propostos por Kitcher (1994), está a possibilidade de explicação da psicologia moral humana. Dessa forma, conforme Kitcher, as ciências evolucionistas poderiam fornecer (ao menos em parte) uma explicação evolucionista sobre como nossa espécie veio a adquirir a possibilidade de fazer juízos morais e produzir conceitos relativos à moralidade.

Nesse contexto, no presente capítulo serão abordadas as investigações e propostas da psicologia de viés darwiniano sobre a origem e funcionamento da capacidade moral humana. Depois de tratarmos das hipóteses do próprio Darwin e dos adeptos do darwinismo social (Capítulo 1) e dos estudos sociobiólogos (Capítulo 2), analisamos neste terceiro capítulo os desenvolvimentos subsequentes da investigação evolucionista sobre o comportamento humano, a denominada psicologia evolucionista, e suas explicações para a moralidade.

104 Juntamente a isso, desenvolve-se posteriormente uma análise mais ampla de outras investigações – teóricas e experimentais – baseadas na hipótese darwiniana, como a primatologia, a antropologia evolucionista, a psicologia do desenvolvimento e as neurociências. Tais abordagens envolvem pressupostos próximos, com o objetivo de esclarecer a condição moral humana dentro de um quadro geral naturalista-evolucionista. Por fim, dentro do escopo da nossa proposta geral, analisamos os limites e possibilidades de tais ciências de natureza evolucionista para a compreensão da moralidade humana e, principalmente, se existem implicações relevantes para a filosofia moral e para sua principal questão: como havemos de viver?