1 INTRODUÇÃO
2.1 COORDENAÇÃO MODULAR
2.1.1 Compreensão do módulo e coordenação modular
A palavra “módulo” tem origem no latim modulu e segundo Ferreira (1948) é definido como uma medida reguladora das proporções arquitetônicas de um edifício.
O conceito do módulo não é novo, sendo que seu uso remete à Antiguidade. Os módulos, portanto, já eram utilizados na arquitetura clássica grega, romana e japonesa.
Para os gregos e romanos da Antiguidade clássica, a unidade básica de dimensão era o diâmetro da coluna. Desse módulo derivavam as dimensões do fuste, do capitel, assim como do pedestal abaixo e do entablamento acima, até o menor detalhe. O intercolúnio, que significa o sistema de espaçamento entre colunas, também era baseado no diâmetro da coluna. Este sistema de construção baseado em módulos representava as ordens clássicas, na sua proporcionalidade dos elementos, de modo a expressar a perfeição da beleza e harmonia (CHING, 2005).
FIGURA 1 - COLUNA DÓRICA FIGURA 02 – FACHADA DE TEMPLO DA ORDEM TOSCANA FONTE: Ching (2005)
NOTA: Escala dos módulos (M): 2M = 1 diâmetro de coluna ½ M = 1 Parte (P)
Na arquitetura japonesa, a unidade tradicional de medida era o shaku, originalmente importada da China. Esta medida é quase equivalente ao pé inglês e divisível em unidades decimais. Outra unidade de medida foi o ken, introduzida na segunda metade da Idade Média Japonesa. Originalmente, o ken era utilizado apenas para designar o intervalo entre duas colunas e variava de tamanho, entretanto, foi logo padronizado para a arquitetura residencial. Diferentemente do módulo das Ordens Clássicas, que se baseava no diâmetro de uma coluna e variava conforme o tamanho de um edifício, o ken se tornou uma medida absoluta. O ken, no entanto, não estabelecia apenas uma medida para a construção de edifícios. Ele se desenvolveu até se converter em um módulo estético que organizava a estrutura, os materiais e o espaço da arquitetura japonesa. Por exemplo, em uma residência típica japonesa, a malha do ken organiza a estrutura, assim como a sequência
espaço a espaço de cômodos. O tamanho relativamente pequeno dos módulos possibilita que espaços retangulares sejam livremente dispostos em padrões lineares, em ziguezague ou aglomerados (CHING, 2005).
FIGURA 3 - CASA TRADICIONAL JAPONESA FONTE: Ching (2005)
No entanto, neste período, o módulo tinha apenas a função de organizar o espaço e regular as proporções arquitetônicas do edifício. Com o passar dos anos, e o desenvolvimento das disciplinas de arquitetura e engenharia, o conceito de módulo se desenvolveu e então surgiram os módulos construtivos. Segundo Miller e Elgard (1998), tipicamente, esses módulos construtivos eram elementos físicos, com interfaces descritas pela geometria. Assim, para esses autores o atributo básico do sistema baseado em blocos construtivos é a habilidade em criar diversidade através da combinação e intercambialidade entre diferentes blocos.
O uso dos módulos com caráter funcional e industrial foi abordado durante o período da escola alemã Bauhaus (1919-1933), quando seu fundador, o arquiteto Water Gropius combinou a idéia da padronização dos componentes com o pensamento funcional e a produção industrial da construção de edifícios. Dessa
maneira, a partir de um módulo uniforme, diferentes tipos de edifícios poderiam ser compostos, de modo que as unidades construtivas tornavam-se autônomas com base no princípio da funcionalidade. Assim, a construção era compreendida como um conjunto de diversas unidades construtivas independentes e não como um bloco homogêneo de construção. Essas unidades construtivas diferenciavam-se em volume, altura e arranjo espacial de acordo com suas particularidades funcionais (e.g. trabalho, residêncial, lazer). Baseado nesses conceitos, o arquiteto húngaro Fréd Forbát, na Exposição Bauhaus de 1923, apresentou as casas padronizadas de Forbát, construídas a partir de seis componentes e que poderiam ser combinados de várias formas. Essas casas de Forbát, com suas células de espaço, foram expostas como “arquitetura-colmeia”. Gropius designava esse sistema como uma caixa de construções em grande escala, do qual se poderiam compor diferentes “máquinas vivas”, dependendo das necessidades e do número de habitantes (DROSTE, 1992;
KENTGENS-CRAIG, 1998).
Portanto, o significado contemporâneo do módulo integra as características técnicas dos blocos construtivos, ou seja, suas interfaces padronizadas, com as funcionalidades necessárias de um sistema (e.g. construção ou qualquer produto manufaturado). Em um contexto industrial incorporar funcionalidade no módulo é importante, pois permite a realização de testes de forma independente. Além disso, o conceito de módulo associado à uniformização e funcionalidade contribui para as atuais necessidades das indústrias em integrar técnicas de padronização e customização em massa. O entendimento do módulo como uma unidade funcional, portanto, tendo uma definição mais ampla do que meramente elementos físicos geométricos, permite uma compreensão mais abstrata. Assim, o conceito de módulo passa também a considerar aspectos imateriais e ser utilizado na indústria de computação e na gestão do conhecimento, quando aborda aspectos relacionados à reutilização de engenharia (MILLER e ELGARD, 1998).
No entanto, conforme Miller e Elgard (1998), não basta apenas considerar o módulo. Para esses autores, para a criação de variedade através da combinação e intercambialidade é necessário considerar o módulo como sendo parte de um sistema. Assim, segundo Graziadio (2004), os módulos podem ser projetados ou produzidos separadamente, porém funcionam em conjunto de maneira integrada.
Considerando a construção civil, um sistema é definido como um conjunto de regras nas quais os detalhes são projetados antes que a edificação seja planejada. Neste sistema os componentes são utilizados em diversas edificações, que se diferenciam como produto final, no entanto são produzidos por processos similares. As partes principais de um sistema de construção são os subsistemas, que geralmente correspondem às principais funções da edificação. Portanto, um sistema de construção é usualmente composto por cinco subsistemas: a estrutura, as paredes internas, as paredes externas, as instalações e os equipamentos (RICHARD, 2007).
Baseando-se nos aspectos acima discutidos, módulo pode ser compreendido como uma unidade funcional, com interfaces e interações bem definidas, sendo parte de um sistema. Neste contexto, para assegurar uma construção modular, a edificação é vista como um sistema, sendo composta por subsistemas que correspondem às principais funcionalidades da edificação. Esses subsistemas, portanto podem ser designados como os módulos do sistema, sendo utilizados em outras construções. Esse é o conceito moderno de módulo, que corresponde aos módulos funcionais da construção. Já o conceito de coordenação modular, conforme apresentado pelas normas, implica apenas nos aspectos dimensionais dos componentes e, portanto não aborda o uso de módulos funcionais.
Essa é a diferença entre o conceito de coordenação modular e o conceito atual de módulos, utilizado tanto na indústria da construção civil, como na indústria de manufatura. Enfatiza-se ainda que a coordenação modular requer a padronização dos componentes construtivos, o que inclui suas interfaces e interações. Portanto, torna-se importante distinguir o conceito de padronização do conceito de modulação.
Assim, a padronização busca um padrão para a fabricação industrial dos componentes construtivos, sendo isso uma premissa para processos de modulação.
Dessa maneira, a coordenação modular torna-se possível através da simples montagem dos componentes padronizados industrialmente, garantindo vantagens como a intercambialidade entre componentes construtivos. A seguir serão detalhados conceitos pertinentes a coordenação modular e ainda uma discussão a respeito do estado atual das normas sobre o assunto.