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2. TEORIA DO COTIDIANO E O TEMPO

2.2 Tempo

2.2.1 Compreensão do tempo

O tempo era compreendido como uma dimensão do universo físico e se transforma num símbolo de origem humana quando a sociedade se coloca como sujeito do saber no campo de observação. O caráter da dimensão universal assumido pelo tempo demonstra que ele apenas é uma figuração simbólica de tudo que perpassa por um fluxo incessante de acontecimentos. O tempo, neste caso, reflete os esforços que os seres humanos enviam para se localizar no interior desse fluxo, estabelecendo posições, medindo durações de intervalos e de velocidades de mudanças. Por isso, se afirma que a determinação do tempo, bem como, o próprio conceito de tempo são inerentes a representação geral que os humanos têm do seu universo e das circunstâncias em que vivem nele. (ELIAS, 1998).

Considerar as funções de orientação e de regulação social do tempo gerou dificuldades para alcançar uma teoria consensual do tempo, o que levou a tentativas de resolver o problema no plano filosófico. A polêmica sobre a natureza do tempo encontrava duas posições inteiramente opostas. A primeira representada por Newton, sustentava uma concepção mais objetivista, onde o tempo assume um dado objetivo do mundo criado, não se distinguindo dos demais objetos da natureza por seu modo de ser, justamente por não ser perceptível. Essa concepção começou a decair a partir do início da era moderna. A segunda concepção, por sua vez, era defendida por Descartes, onde se afirmava que o tempo é um modo de atrair um conjunto de acontecimentos que encontram-se numa particularidade da consciência humana, ou seja, da razão ou do espírito humano. Neste caso, o tempo é uma forma originária da experiência, tornando-se um dado inalterável da natureza humana. Estas duas concepções apresentam o tempo como um dado natural. Mas a primeira o trata como um dado objetivo independente da realidade humana. E o segundo como uma representação subjetiva, proveniente da natureza humana. (ELIAS, 1998).

Refletir sobre o tempo implica corrigir essa imagem de um universo separado por setores hermeticamente fechados. É necessário reconhecer o entrelaçamento e a interdependência entre natureza, sociedade e indivíduo. (ELIAS, 1998). As práticas temporais de toda sociedade estão intimamente envolvidas em processos

de reprodução e de transformação das relações sociais. A história da mudança social é em parte compreendida pela história da concepção de tempo e, inclusive, dos usos ideológicos por trás desta concepção. (HARVEY, 2003).

O tempo possui traços de dualidade: o aqui e algum lugar; e também suas triplicidades: o cotidiano, o histórico e o cósmico. O tempo envolve mudança, não apenas em termos de modificação do espaço, mas o tempo das transições, da dialética, dos conflitos. O tempo não tem estrutura. Apenas flui de forma contínua – entre lentidão, debates e silêncio. O tempo cuja origem jamais se revela, mas simboliza-se perpetuamente. (LEFEBVRE, 1991). O tempo não é memorizado como um fluxo, mas como lembrança de lugares vividos. O tempo nada mais é que um material fundamental da expressão social. (HARVEY, 2003).

O tempo é cíclico, onde os começos são recomeços e renascimentos. Também não possui nada de linear. Percorre em contiguidades e descontinuidades, antes de se fusionar na memória e no destino. Não existe uma nota beneficiada, pois não há pausa. Existem cortes, mas não começos. Intervalos, mas sem acontecimentos previamente ditos. O tempo escapa dos ciclos naturais e tampouco obedece aos recortes lineares da duração racionalizada. Nada mais que o tempo do imprevisto. (LEFEBVRE, 1991).

O tempo não pode ser medido pelos sentidos. Não se deixa ver, tocar, ouvir, saborear, nem cheirar. É algo invisível. A ideia de tempo permite que este seja transmitido de uma pessoa para outra apenas por imagens mnêmicas que dão lugar a uma experiência, mas não alcançam o nível dos sentidos não perceptivos. (ELIAS, 1998).

O tempo é reduzido à irreversibilidade dos fatos como parte orgânica da consciência temporal cotidiana. Exemplo disso são os lamentos pelas ocasiões não aproveitadas ou das coisas que passam e não voltam mais. Os humanos tendem a não se conformar com a irreversibilidade como forma de reagir a inevitável finitude da vida. (HELLER, 1991).

Uma das experiências interiores temporais mais subjetiva é a memória. Aquilo que uma pessoa vive é de fato irreversível, pois a lembrança nada mais é do que um momento dessa irreversibilidade. O tempo vivido não é apenas antropomórfico, mas também é subjetivo por ser o tempo de uma determinada pessoa, e cada pessoa possui um tempo vivido diferente, desde aquele tempo que não passa nunca para aquele em que passa muito rápido. Por esta razão, a experiência interior temporal

de uma pessoa não pode ser medida, pois não existe uma “correlação com o tempo efetivamente transcorrido, com a quantidade de tempo medido com base em uma convenção social”. (HELLER, 1991, p.392).

O tempo vivido é uma função da carga ou ausência de experiências interiores de uma pessoa, variando de acordo com o grau de saturação dessas experiências interiores. O conteúdo do acontecimento é que vai estabelecer se uma experiência interior será longa ou breve. Cinco minutos de tortura podem parecer uma eternidade e horas felizes podem processar como minutos. (HELLER, 1991).

Por outro lado, existe o tempo reversível que se concentra nas crenças e nas atividades tradicionais. Este tempo é governado pela lógica da repetição, sendo o passado um meio de organizar o futuro. A tradição, deste modo, se refere à forma como as crenças e práticas são organizadas em relação ao tempo.

Nas culturas tradicionais, o passado é honrado e os símbolos valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um modo de integrar a monitoração da ação com a organização tempo-espacial da comunidade. Ela é uma maneira de lidar com o tempo e o espaço, que insere qualquer atividade ou experiência particular dentro da continuidade do passado, presente e futuro, sendo estes por sua vez estruturados por práticas sociais recorrentes. A tradição não é inteiramente estática, porque ela tem que ser reinventada a cada nova geração conforme esta assume sua herança cultural dos precedentes. A tradição não só resiste à mudança como pertence a um contexto no qual há, separados, poucos marcadores temporais e espaciais em cujos termos a mudança pode ter alguma forma significativa. (GIDDENS, 1991, p.44)

O tempo é organizado de acordo com um espaço preexistente, no qual se deixa prescrever. (LEFEBVRE, 1991). Assim, toda mudança no espaço é uma mudança no tempo e vice-versa.

O ‘espaço’ refere-se a relações posicionais entre acontecimentos móveis, os quais procuramos determinar mediante a abstração de seus movimentos e mudanças efetivas; o ‘tempo’, ao contrário, refere-se a relações posicionais no interior de um continuum evolutivo que procuramos determinar sem abstrair seus movimentos e mudanças contínuos. (ELIAS, 1998, p.81-82).

A relação temporalidade-espacialidade, é tanto o espaço como sendo subordinado ao tempo, marcado por ele, espaço no tempo. Como também é a

inscrição do tempo no espaço. (LEFEBVRE, 1991). Já a separação entre tempo e espaço não pode ser percebida como um desenvolvimento unilateral, onde não seja possível reversões ou onde seja compreendida como um todo abrangente. Esta separação possui traços dialéticos que provocam características opostas. (GIDDENS, 1991).

O espaço e o tempo são dimensões básicas da existência humana. Suas concepções são criadas através de práticas e processos materiais que são úteis à reprodução da vida social. Podem variar geograficamente e historicamente, pois o tempo e o espaço social são construídos de forma distinta. O espaço e o tempo também podem ser considerados relevantes para a vida social em diferentes ocasiões. (HARVEY, 2003).

O tempo da vida cotidiana e o espaço são antropocêntricos. O espaço está relacionado ao aqui do particular, o tempo ao seu agora – o presente. (HELLER, 1991). Esta concepção assim como as outras anteriores revelam que não existe um sentido único e objetivo de tempo e espaço. Por isso, é preciso reconhecer a multiplicidade das qualidades objetivas que o espaço e tempo podem expressar e a função das práticas humanas em construção. No entanto, o modo como o espaço e o tempo são retratados na teoria afeta a maneira como as pessoas interpretam e depois agem em relação ao mundo. (HARVEY, 2003).