• Nenhum resultado encontrado

2. TEORIA DO COTIDIANO E O TEMPO

2.2 Tempo

2.2.3 Tempo na contemporaneidade

O emprego do tempo na sociedade moderna está dividido em três categorias: o tempo obrigatório exercido pelo trabalho profissional, o tempo livre reservado para as atividades de lazer, e o tempo imposto que compreende as diversas formas de exigência que circundam a vida privada. O tempo imposto é maior que o tempo dos lazeres, e se inscreve na cotidianidade, tendendo a defini-la pela soma de suas imposições. (LEFEBVRE, 1991).

A relevância da divisão do tempo está relacionada a uma continuidade da vida social humana. A distribuição do tempo torna-se uma consequência fundamental da finitude da vida. Quanto mais coisas precisam ser realizadas a cada dia e de forma mais rápida possível, mais importante se torna aprender a distribuir bem o tempo, de modo a organizá-lo. Por isso, é interessante que as pessoas possam desenvolver a habilidade de atuar simultaneamente. (HELLER, 1991).

O ritmo da vida cotidiana ocasionada pela aceleração do ritmo dos acontecimentos históricos deve ser moderadamente estável. Alcançar essa estabilidade é importante principalmente por causa do trabalho, uma vez que temos que trabalhar determinadas horas por dia. Um ritmo mais estável e seguro torna-se um alívio. Ao contrário de uma vida irregular, que modifica constantemente de ritmo, deteriorando a saúde das pessoas. (HELLER, 1991).

Mudanças temporais regulares como férias e festas no final do ano não contradizem esse ritmo da vida cotidiana. O repouso não se trata apenas de uma pausa durante uma atividade, mas também um ritmo de vida diferente. É válido esclarecer também que um ritmo de vida regulado com descanso não é o mesmo que tensão e relaxamento. Esses dois últimos aspectos se atribuem à obrigatoriedade do trabalho alienado e o consequente prazer de estar liberado dele. (HELLER, 1991).

Outro aspecto a ser considerado sobre o tempo é de que a convivência social se tornaria muito difícil se as pessoas não respeitassem os términos temporais comprometidos. Contudo, estes possuem significados diferentes de acordo com época e com o tipo de ação a que se refere. Por exemplo, no ritmo de vida acelerado da atualidade, o tempo pode ser considerado um atraso, ao contrário da Idade Média em que não havia essa concepção. Assim como, em cada contexto existe uma espécie de medida do tempo, ou seja, o que é calculado como um atraso no local de trabalho, não será encarado da mesma forma num encontro de amigos. (HELLER, 1991).

O tempo não transcorre de forma veloz nem lenta. O ritmo do tempo se transforma conforme os períodos históricos. Existem períodos nas quais a estrutura social não se modifica durante séculos, e outros períodos em que um século ou até mesmo dez anos são percebidos como uma série de acontecimentos resolutivos. A aceleração do tempo é percebida como uma tendência geral da história com o aparecimento do capitalismo. (HELLER, 1991).

A aceleração do ritmo histórico faz com que a vida das pessoas dentro de uma determinada geração se transforme. A vida será reordenada com frequência e essa readequação opera sobre o ritmo da vida em si. Com o surgimento do capitalismo, o modo de trabalho foi modificado e as pessoas, por consequência, tiveram que se adaptar a outros sistemas de exigências e também a um ritmo de vida mais rápido. (HELLER, 1991). O tempo, no capitalismo, estabelece uma velocidade tão frenética às mudanças que mal se pode acompanhá-las. (CORAGGIO, 2000).

O capitalismo pode ser considerado um modo de produção revolucionário, onde práticas e processos de reprodução social estão em constante movimento, assim como os significados do tempo que também acompanham essas modificações. O avanço de conhecimentos – científico, técnico, administrativo, burocrático – foi vital para o progresso da produção e do consumo capitalistas, assim como, as transformações do conceito do tempo trouxeram consequências concretas para a organização da vida diária. (HARVEY, 2003).

O capitalismo possui uma inclinação para a fragmentação e a efemeridade, em meio ao seu universo de monetização, intercâmbio de mercado e circulação do capital. Existe uma intersecção entre o dinheiro, o tempo e o espaço, onde o domínio do tempo é um elemento crucial para a busca do lucro. Por isso, o domínio do tempo de trabalho dos outros fornece aos capitalistas o poder de se apossar dos lucros para si. O modo como o tempo se vincula ao dinheiro e como esse vínculo se organiza de forma estreita com o desenvolvimento do capitalismo revela práticas sociais orientadas para a produção de mercadorias. (HARVEY, 2003).

O centro da modernidade capitalista é a aceleração do ritmo dos processos econômicos e da vida social. (HARVEY, 2003). Somente nas sociedades altamente industrializadas que o desenrolar da própria vida desempenha um papel de sucessão padronizado. (ELIAS, 1998). O tempo industrial, presente neste contexto, aloca o trabalho para tarefas de intensos ritmos de mudança tecnológica que trazem em seu âmago a busca incansável de acumulação do capital. O fordismo, por exemplo, fragmentou as tarefas para aumentar a eficiência e diminuir o fluxo produtivo. A organização espacial foi utilizada para acelerar o tempo de giro do capital produtivo. O tempo, desta forma, foi acelerado através da organização e fragmentação da ordem espacial de produção. (HARVEY, 2003).

O tempo não é neutro quando se trata de assuntos sociais, pois explicita algum tipo de conteúdo de classe ou de outra esfera social, sendo muitas vezes foco de uma intensa luta social. Existem resistências individuais que podem se transformar em movimentos sociais (religiosos, místicos, comunitários, humanitários) que tem a intenção de liberar o tempo de suas materializações vigentes, bem como, de construir uma sociedade alternativa onde o valor, o tempo e o dinheiro sejam apreendidos de outra maneira. Todavia, esses movimentos sociais se deparam com um paradoxo, por mais articulados que sejam seus objetivos. (HARVEY, 2003).

Porque não somente a comunidade do dinheiro, aliado com um espaço e um tempo racionalizados, os define num sentido oposicional, como também os movimentos têm de enfrentar a questão do valor e de sua expressão, bem como da organização necessária do espaço e do tempo apropriada à sua própria reprodução. Ao fazê-lo, eles se abrem necessariamente ao poder dissolutivo do dinheiro, assim como às cambiantes definições de espaço e de tempo que surgem por meio da dinâmica da circulação do capital. (HARVEY, 2003, p.217).

Desta forma, o capital mantém sua predominância, e o faz por causa do domínio superior do tempo, mesmo quando movimentos sociais de oposição conquistam por algum tempo o controle de um espaço particular. Com muita frequência, estas resistências estão sujeitas ao poder que o capital possui sobre a coordenação do espaço fragmentado e a jornada do tempo histórico global do capitalismo. (HARVEY, 2003).

A mudança do ritmo da história possui efeitos sob a vida cotidiana. Afeta, num primeiro momento, as classes e as camadas da sociedade que tem um papel ativo nos acontecimentos históricos ou que são afetados por eles. Desde o surgimento do capitalismo, a mudança do ritmo da história influencia a sociedade como um todo. Mas existem estruturas sociais que não tomam parte da história, assim como, também a história não provoca nelas nenhuma modificação. Nota-se então, a diferença entre “quem participa ativamente e quem simplesmente sofre influência da história”. (HELLER, 1991, p.390).