3. O REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO: Bakhtin como visão de mundo e aporte para compreensão de
3.6. Compreensão dos Enunciados Completos e Concretos
Para Bakhtin, “compreender não é um ato passivo (um mero reconhecimento), mas uma réplica ativa, uma resposta, uma tomada de posição diante do texto” (Faraco, 2009, p. 42). Como os signos emergem de relações sociais, para estudá-los é necessário situá-los nos processos globais que lhe dão significado.
Nessa perspectiva, não podemos também perder de vista que compreender é também fazer parte do diálogo, assim como na ciência moderna o observador é parte integrante da observação e nela interfere.
A compreensão do todo do enunciado e da relação dialógica que se estabelece é necessariamente dialógica (é também o caso do pesquisador nas ciências humanas); aquele que pratica o ato de compreensão (também no caso do pesquisador) passa a ser participante do diálogo, ainda que seja num nível específico (que depende da orientação da compreensão ou da pesquisa).
Analogia com a inclusão do experimentador num sistema experimental (enquanto parte desse sistema) ou do observador incluído no mundo observado em microfísica (teoria dos quantas). O observador não se situa em parte alguma fora do mundo observado, e sua observação é parte integrante do objeto observado.
(Bakhtin, 1977, p. 355)
Quando nos referimos à completude do enunciado concreto, referimo-nos à unidade da comunicação verbal que expressa todo o conteúdo que o enunciador almejou dizer, com certo acabamento (estrutura). Tanto o conteúdo temático quanto a estrutura dos enunciados completos estão diretamente relacionados aos contextos situados e juntos promovem a compreensão ativa. “... o que é dito (o todo do enunciado) está sempre relacionado às condições específicas e às finalidades de cada esfera de atividade” (Faraco, 2009, p.126).
Assim, completude do enunciado é delimitada fronteiramente pela alternância entre os sujeitos falantes e nuclearmente pelo: “1) o tratamento exaustivo do objeto do sentido; 2) o intuito, o
responsabilidade do agente pelo ato, um responder responsável que envolve necessariamente um compromisso ético do agente” (p.20).
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querer-dizer do locutor; 3) as formas típicas de estruturação do gênero do acabamento.” (Bakhtin, 1977, p. 299). Trataremos adiante destas questões.3.6.1. Sentidos de um enunciado: o tema e a significação
O tema é o “sentido da enunciação completa” (Bakhtin, 1995, p.128) e como tal é único e socialmente situado, já que não é apenas determinado pelas formas linguísticas que entram na composição do discurso, mas também pelos elementos extra verbais da situação.
Além do tema, a enunciação é igualmente dotada de significação, compreendida como “os elementos da enunciação que são reiteráveis e idênticos cada vez que são repetidos.” (idem, p.128).
Os sentidos potenciais expressos nos dicionários são bons exemplos de significação. A escolha adequada entre estes possíveis sentidos apenas se dá pelo contexto situacional e pelos locutores envolvidos na comunicação.55
O tema, como dissemos, é um atributo apenas da enunciação completa.
Por outro lado, a significação pertence a um elemento ou conjunto de elementos na sua relação com o todo. É claro que se abstrairmos por completo essa relação com o todo, (isto é, com a enunciação), perderemos a significação. É por isso que não se pode traçar uma fronteira clara entre o tema e a significação.
(Bakhtin, 1995, p.130)
A significação é um estágio inferior da capacidade de significar, e o tema, um estágio superior da mesma capacidade. A significação existe como capacidade potencial de construir sentido, própria dos signos linguísticos e das formas gramaticais da língua. É o sentido que esses elementos historicamente assumem, em virtude de seus usos reiterados. (Cereja, 2007, p. 202).
Portanto, a significação sempre é múltipla, já que é separada do diálogo, promovendo significados potenciais, os quais num processo de compreensão ativa e responsiva, dentro de um contexto situado, fornece o tema específico.
Se a significação está para o signo – ambos virtualidade de construção de sentido da língua -, o tema está para o signo ideológico, resultado da enunciação concreta e da compreensão ativa, o que traz para o primeiro plano as relações concretas entre sujeitos. (Brait, 2007, p. 202)
Já “o conteúdo temático não é o assunto específico de um texto, mas é o domínio de sentido de que se ocupa o gênero. Assim, as cartas de amor apresentam o conteúdo temático das relações amorosas.” (Fiorin, 2008, p.62)
3.6.2. Propósito comunicativo
O propósito comunicativo de um enunciado tem relação direta com os motivos que levaram àquela comunicação e as intenções comunicativas do enunciador. Sendo este o motor da comunicação, tem relação direta com a produção de sentidos do enunciado, assim como com as formas típicas de estruturação do enunciado.
3.6.3. Formas típicas de estruturação do enunciado
Nos enunciados completos, tanto os sentidos expressos pelo tema, quanto os propósitos comunicativos, moldam também as maneiras pelas quais o discurso é estruturado, o seu acabamento. Entre as formas típicas de estruturação dos discursos dos enunciados completos,
55 “O sentido sempre responde a uma pergunta. O que não responde a nada parece-nos insensato, separa-se do diálogo. Sentido e significação. A significação é separada do diálogo, mas separada deliberadamente, suprimida convencionalmente do diálogo. Ela contém um potencial de sentido.”(Bakhtin, 1977, p. 386)
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Bakhtin chama a atenção para os gêneros discursivos, a construção composicional e o estilo dos enunciados.Os gêneros do discurso são os “tipos relativamente estáveis de enunciados” (Bakhtin, 1977, p.127)56 caracterizados por um ponto de vista, uma construção composicional e estilo próprios, marcados pela especificidade de uma esfera de ação. Os gêneros discursivos não necessariamente são específicos da linguagem escrita.
Eles são consolidados em esferas sociais diversas num tempo histórico específico para assumir uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) ligada à organização da expressão verbal. Dessa maneira, no gênero, a palavra comporta certa expressão típica.
Com o tempo, o repertório de gêneros vai se diferenciando e ampliando-se conforme a esfera social se desenvolve, ou seja, “[...] à medida que as esferas de atividade se desenvolvem e ficam mais complexas, gêneros desaparecem ou aparecem, gêneros diferenciam-se” (Fiorin, 2008, p.65).
Para perceber essa transformação basta comparar uma notícia de jornal atual com aquela do século passado para perceber como o gênero mudou de maneira radical.
Apesar do aparente foco na estrutura dos discursos, quando se referia aos gêneros discursivos, Bakhtin se interessava mesmo pelos processos envolvidos, já que seu foco era a relação existente entre a utilização da linguagem e as atividades humanas. Assim, no gênero “os enunciados devem ser vistos na sua função no processo de interação” (p.61) dentro de uma esfera de atividade.
Por manter certa estabilidade, os gêneros “[...] são elementos organizadores das atividades e, por isso, orientam nossa participação em determinada esfera de atividade (eles balizam nosso entendimento das ações dos outros, assim como são referência para nossas próprias ações)”.
(Faraco, 2009, p. 130)
Dessa maneira, antes de decidir o gênero que vai usar, o indivíduo define o seu propósito comunicativo.
O querer-dizer do locutor se realiza acima de tudo na escolha de um gênero do discurso. Essa escolha é determinada em função da especificidade de uma dada esfera da comunicação verbal, das necessidades de uma temática (do objeto do sentido), do conjunto constituído dos parceiros, etc. (Bakhtin, 1977, p.
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O uso da língua nas mais variadas esferas da comunicação podem ser classificados em dois conjuntos diferenciados por Bakhtin: os gêneros primários e gêneros secundários:
Os gêneros primários correspondem a um espectro diversificado da atividade linguística humana relacionada com os discursos da oralidade em seus mais variados níveis (do diálogo cotidiano ao discurso filosófico ou sociopolítico).
Os gêneros secundários (da literatura, da ciência, da filosofia, da política), embora elaborados pela comunicação cultural mais complexa, principalmente escrita, correspondem a uma interface dos gêneros primários, como examina Bakhtin em sua teoria da enunciação” (Machado, 2007, p.204)
No entanto essa divisão é tênue, difusa e se modifica ao longo da história, já que “os gêneros secundários absorvem e digerem os primários, transformando-os” (Fiorin, 2008, p.70)
56 “Ao dizer que são relativamente estáveis, Bakhtin está dando relevo, de um lado, à historicidade dos gêneros; e, de outro, à necessária imprecisão de suas características e fronteiras”(Faraco, 2009, p. 127)
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Como exemplos de gêneros, Bakhtin cita vários tipos de enunciados: curta réplica do diálogo cotidiano, o relato familiar, a carta, a ordem militar padronizada, documentos oficiais, declarações públicas, romance, teatro, o discurso científico, ideológico, cotidiano, retórico, literário etc. No entanto,[...] como os sujeitos são pluriativos (envolvem-se em múltiplas dessas esferas da atividade humana), são também seres que transitam por múltiplos gêneros do discurso, isto é, realizam seu dizer por meio de diferentes gêneros correlacionados às diferentes esferas da atividade. (Faraco, 2009, p. 121)
Já a organização ou construção composicional, que tem íntima relação com gênero e estilo, diz respeito ao modo de estruturar, de organizar, o enunciado:
Por exemplo, sendo a carta uma comunicação diferida, é preciso ancorá-la num tempo, num espaço e numa relação de interlocução, para que os dêiticos usados possam ser compreendidos. É por isso que as cartas trazem a indicação do local e da data em que foram escritas e o nome de quem escreve e da pessoa para quem se escreve. (Fiorin, 2008, p.62)
Embora gênero e estilo estejam imbricados, podemos entender o estilo como um espaço individual do uso da língua, caracterizando-se “pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais” (
Bakhtin, 1977, p. 279)
que impõe personalidade ao enunciado, enquanto a construção composicional está relacionada à forma propriamente dita do discurso. Embora tratados aqui em separado, gênero, composição e estilo estão intimamente relacionados57.[...] a elaboração estilística da enunciação é uma atividade de seleção, de escolha individual, mas de natureza sociológica, já que o estilo se constrói a partir de uma orientação social de caráter apreciativo: as seleções e escolhas são, primordialmente, tomadas de posições axiológicas frente à realidade linguística, incluindo o vasto universo de vozes sociais. (Faraco, 2009, p.137)
O estilo verbal também é determinado pela apreciação valorativa58 e atitude avaliativa com o objeto do discurso, ou seja, o estilo é resultante de uma visão de mundo. Remonta também à dialogicidade dos enunciados, pois também tem relação íntima com o auditório social específico59, ou seja, o estilo depende do modo que o autor percebe e compreende seu destinatário e do modo que ele presume uma compreensão responsiva ativa, além de que depende de outros enunciados, já que o estilo se constituiu em oposição a outros:
A quem se dirige o enunciado? Como o locutor (ou o escritor) percebe e imagina o seu destinatário? Qual é a força da influência deste sobre o enunciado?
É disso que depende a composição, e sobretudo o estilo, do enunciado. Cada um dos gêneros do discurso, em cada uma das áreas da comunicação verbal, tem sua concepção padrão do destinatário que o determina como gênero. (Bakhtin, 1977, p. 321)
Nossa fala, isto é, nossos enunciados (que incluem as obras literárias), estão repletos de palavras dos outros, caracterizadas, em graus variáveis, pela alteridade ou pela assimilação, caracterizadas, também, em graus variáveis, por
57 “Quando há estilo, há gênero” (Bakhtin, 1977, p. 286).
58 “Todo enunciado tem a pretensão de ser correto, verdadeiro, belo, etc. E esses valores do enunciado não se determinam por sua relação com a língua (enquanto sistema), mas pelas formas de sua relação com a realidade, com o sujeito falante, com os outros enunciados – com os enunciados alheios – (em particular com aqueles que os colocam como valores da verdade, da beleza, etc.)” (Bakhtin, 1977, p. 352).
59 “O estilo é o homem”, dizem; mas poderíamos dizer: o estilo é pelo menos duas pessoas ou, mais precisamente, uma pessoa mais seu grupo social na forma do seu representante autorizado, o ouvinte – o participante constante na fala interior e exterior de uma pessoa” (Volochinov citado por Brait, 2007, p. 83)
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um emprego consciente e decalcado. As palavras dos outros introduzem suaprópria expressividade, seu tom valorativo, que assimilamos, reestruturamos, modificamos. (Bakhtin, 1977, p. 314)
Já a atitude avaliativa é concretizada na entonação do enunciado que emerge do universo valorativo do enunciador.
3.6.4. Discurso Citado (ou reportado)
Bakhtin também assinala a orientação de cunho social que acontece na citação, processo em que há no enunciado a presença explícita da palavra de outro (situado fora do contexto). Bakhtin chama a atenção para a análise das formas do discurso citado, pois este reflete “tendências básicas e constantes da recepção ativa do discurso de outrem, e é essa recepção, afinal, que é fundamental também para o diálogo.” (Bahktin, 1995, p.146). Além disso, a transmissão leva em conta uma terceira pessoa para quem estão sendo transmitidas as enunciações citadas, o contexto narrativo e os fins específicos com os quais a transmissão é efetivada.
Algumas dessas tendências do discurso citado podem ser observadas, por exemplo, nos meios acadêmicos60 e expressam, em geral, o objetivo de mostrar a origem da linha de pensamento desenvolvido, atribuir autoria a algumas ideias ou mesmo dar credibilidade ao discurso. Por outro lado, o uso excessivo da citação pode mostrar certa insegurança com enunciados.
O discurso citado é o discurso no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma enunciação sobre enunciação. (Bahktin, 1995, p.144)
No discurso citado, o discurso de outrem passa para outro “contexto narrativo, conservando o seu conteúdo e ao menos rudimentos de sua integridade linguística e da sua autonomia estrutural primitivas” (Bahktin, 1995, p.145.). Uma nova enunciação é então formada dentro de novas regras sintáticas, outro estilo e composição, “conservando, pelo menos sob uma forma rudimentar, a autonomia primitiva do discurso de outrem, sem o que ele não poderia ser completamente apreendido” (Idem).
Assim como qualquer outro discurso, o discurso citado se compõe por um comentário efetivo, de um lado, e a réplica, de outro, afinal todo enunciado é uma réplica, um posicionamento dentro de um diálogo, ou seja, “[...] reportar não é fundamentalmente reproduzir, repetir; é principalmente estabelecer uma relação ativa entre o discurso que reporta e o discurso reportado; uma interação dessas duas dimensões” (Faraco, 2009, p. 140).
Segundo Fiorin (2008), o discurso alheio pode ser tanto demarcado “em que o discurso alheio é abertamente citado e nitidamente separado do discurso citante” (p.33), como pode ser bivocal, não demarcado, em que “[...] não temos demarcações nítidas entre as vozes. Elas misturam-se, mas apesar disso, são claramente percebidas” (idem).
60 “O discurso retórico, diferentemente do discurso literário, pela própria natureza da sua orientação, não é tão livre na sua maneira de tratar as palavras de outrem. Ele tem, de forma inerente, um sentimento agudo dos direitos de propriedade da palavra e uma preocupação exagerada com a autenticidade.” (Bahktin, 1995, p.153)