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Capítulo 1 Microprocessadores e Microcomputadores na Filosofia da Técnica de Simondon

1.5 Microeletrônica, microprocessadores e microcomputadores

1.5.4 Computador como indivíduo e processador como elemento técnico

Apesar de ser um sistema composto por três subsistemas, um microcomputador aproxima-se mais de um indivíduo técnico e menos de um conjunto técnico simondoniano.

Microprocessador, memória RAM/ROM e controladores de entrada e saída estão mais próximos da formação de um meio associado e menos próximos de uma integração com elevada compatibilidade. Os três subsistemas apenas são funcionais quando integrados e a individualidade advém justamente dessa integração que cria uma margem de indeterminação peculiar, passível de funções diversas conforme as evoluções técnicas. Apesar do microprocessador ser um circuito integrado composto por transístores, resistores, diodos, capacitores e inclusive memórias RAM e ROM internas, não possui uma autorregulação que permita seu funcionamento independente do circuito integrado onde também se encontram as memórias RAM e ROM externas e os controladores de periféricos. De modo distinto, essa autorregulação existe em computadores. Assim, embora um transístor seja menor e menos composto por associações em relação a um processador, ambos aproximam-se em razão da inexistência de uma autorregulação e um meio associado que permita a esses um funcionamento desvinculado de outros objetos técnicos.

Aqui mais uma vez vale nos recordarmos do corpo humano. O cérebro também pode ser compreendido como uma associação de vários elementos biológicos, reações químicas altamente complexas e processos eletromagnéticos de processamento de informações trocadas entre todo o corpo humano via sistema nervoso central e periférico. No entanto, seu funcionamento é comprometido quando desvinculado de sua função no controle das associações entre os elementos constituintes do corpo humano. Desse modo, não apresenta uma autorregulação que permita funcionamento desvinculado dos demais órgãos.

Apesar da necessidade do processador e do cérebro se associaram a indivíduos, Simondon deixa claro como isso não significa a ausência de uma individualidade, mas uma “subindividualidade”, denominada composição plurifuncional, porque a autorregulação e o meio associado estão ausentes. Simondon deixa isso claro ao exemplificar a partir de lâmpadas de cátodo quente, que apenas funcionam quando conectadas a um circuito de corrente elétrica externo à sua estrutura:

Abaixo do nível dos indivíduos técnicos, existem agrupamentos que possuem uma certa individualidade? Sim, mas essa individualidade não possui a mesma estrutura que a dos objetos técnicos que possuem um meio associado; essa é uma individualidade de composição plurifuncional sem meio associado positivo, ou seja, sem autorregulação. Tomemos o caso de uma lâmpada de cátodo quente. Quando essa lâmpada se insere em uma montagem, com uma resistência catódica e polarização automática, é sede de fenômenos de autorregulação; por

exemplo, quando aumenta a tensão de esquentamento, aumenta a emissão catódica, o que faz crescer a polarização negativa (…). Mas essas contrarreações reguladoras não têm unicamente sua sede no interior da lâmpada, dependem do conjunto da montagem e, em alguns casos, dependendo das montagens construídas, nem mesmo existem40. (Simondon, 1989, p. 64-65).

O filósofo conclui ao definir essa infraindividualidade como característica dos elementos técnicos, comparável a órgãos de corpos vivos:

Os objetos técnicos infraindividuais podem ser nomeados como elementos técnicos; se distinguem dos verdadeiros indivíduos no sentido de que não possuem meio associado; podem se integrar a um indivíduo; uma lâmpada de catodo quente é um elemento técnico mais do que é um indivíduo técnico completo; pode-se compará-la com o que é um órgão em um corpo vivo. Seria possível, nesse sentido, definir uma organologia geral que estude os objetos técnicos no nível do elemento e que formaria parte da tecnologia junto com a mecanologia, que estudaria os indivíduos técnicos completos. (Simondon, 1989, p. 64-65).

Em síntese, não é a complexidade do objeto, entendida aqui como o grau de evolução técnica ou o número e a forma de associação entre os elementos em sua estrutura, que o define como elemento, indivíduo ou conjunto técnico. A existência da autorregulação e de meio associado define um indivíduo técnico, enquanto sua ausência e a necessidade de integração num circuito externo define o elemento técnico. Assim, um elemento técnico pode ser composto por elementos técnicos, como fica perceptível nos microprocessadores.

Para melhor compreensão da formação do meio associado e indivíduos técnicos, Simondon nos mostra detalhes da estrutura técnica da turbina de Guimbal, presente em usinas elétricas (Simondon, 1989, p. 54-55). Em síntese, ao abordar a função da água e do óleo, Simondon enfoca, primeiro, a plurifuncionalidade de ambos: evitam superaquecimentos e conduzem energia elétrica para acionar a rotação da turbina e o gerador da usina. Segundo, as contribuições de água e óleo, no arranjo técnico específico na turbina e na usina, Simondon enfoca a existência de uma integração adequada entre o ambiente geográfico e técnico, que permite o funcionamento desses de modo harmônico e um autocondicionamento da usina elétrica. Em breves palavras, água e óleo estão concretizados na estrutura técnica de modo que permitem o melhor funcionamento da turbina e da usina e, também,

40 Neste último caso, Simondon refere-se a estruturas de funcionamento que produzem o efeito de um elemento técnico sem necessidade de empregá-lo. Exemplifica com diodos (1989, p. 40) que são dispensados em determinados objetos técnicos que conseguem realizar o esquema puro de funcionamento do diodo, a condutância assimétrica termoeletrônica, como um dos efeitos de sua estrutura, sendo desnecessário empregar o diodo.

contribuem para a construção de um meio tecnogeográfico, ou meio associado, ou seja, o objeto técnico integra-se ao ambiente geográfico a ponto de criar as próprias condições de funcionamento:

[s]e poderia dizer que a invenção concretizante consuma um meio tecnogeográfico (aqui, a água e o óleo em turbulência), que é uma condição de possibilidade de funcionamento do objeto técnico. O objeto técnico é, então, a condição de si mesmo como condição de existência desse meio misto, técnico e geográfico de uma só vez. (Simondon, 1989, p. 55).

Por meio da concretização, novas funções foram criadas para água e óleo e minimizaram abstrações do objeto técnico. No entanto, as evoluções técnicas não significam aperfeiçoamentos circunstanciais na estrutura dos objetos técnicos que os adaptam para usos específicos. A concretização ocorre por transdução, em invenções, em novas compatibilizações entre tensões supersaturadas que geram novas estruturas. Essas, sucessivamente, concedem maior autocondicionamento aos objetos técnicos pelo fato de criarem um meio tecnogeográfico ou meio associado que elimina os fatores limitantes do funcionamento pleno. É o caso da turbina de Guimbal na usina elétrica, na qual existe um autocondicionamento entre água e óleo para evitar o superaquecimento, conduzir energia elétrica e evacuar calor e, também, para que a usina crie uma condição tecnogeográfica de existência. Vale destacar como o meio associado não existe no mundo externo, apenas no mundo técnicogeográfico criado pela concretização: “a adaptação-concretização41 é um processo que condiciona o nascimento

de um meio ao invés de estar condicionado por um meio já dado, (...) há invenção porque há um salto que se efetua e se justifica pela relação que se institui no interior do meio que cria” (Simondon, 1989, p. 55). A partir desse salto inventivo é possível existir progresso técnico, como desenvolvimentos de autocondicionamentos em meios tecnogeográficos – o que podemos entender como desenvolvimentos de esquemas operatórios que articulam o mundo geográfico e o mundo dos objetos técnicos.

Uma característica marcante dos indivíduos técnicos é a substituição do humano pelo próprio meio tecnogeográfico como força operacional do objeto técnico, o que permite nomear o objeto técnico como máquina e datar sua origem no século XVIII durante a Revolução Industrial na Inglaterra, quando foram inventadas as primeiras máquinas de tear movidas a água (Marx, 2008). A distinção entre o elemento técnico – como um martelo – e o indivíduo técnico – como uma máquina de tear – é a existência do meio associado propriamente técnico e já não mais humano, como nas

41 Para diferenciar “adaptação” enquanto maior compatibilização entre elementos técnicos de “adaptação” enquanto aperfeiçoamento circunstancial, Simondon ora se refere a essa primeira como “adaptação-concretização”, ora como “invenção” – como pode-se perceber pelos meus grifos na própria citação.

ferramentas – “diremos que há indivíduo técnico quando o meio associado existe como condição sine qua non de funcionamento” (Simondon, 1989, p. 61). Quanto ao conjunto técnico, novamente distingui-se do indivíduo técnico pela não existência de um meio associado e dos elementos técnicos por não se compatibilizarem em vista à formação de um meio associado. O conjunto é um organizador de acoplamentos de indivíduos e elementos técnicos, como um laboratório que reúne diversos instrumentos de geração de som. A criação de um único meio associado é algo indesejável porque se privilegia o uso em conjunto das individualidades dos diversos objetos técnicos. Em síntese, a

formação de um meio associado entre os elementos técnicos define um indivíduo técnico; a associação

entre indivíduos e elementos técnicos, temporária e não criadora de uma individualidade única para os objetos em associação, define um conjunto técnico.

O computador, sistema composto pelos subsistemas processador, memórias RAM e ROM e controladores de entrada e saída, pode ser compreendido como um indivíduo técnico em virtude da autorregulação do meio associado composto entre os subsistemas. Assim como os subsistemas não são funcionais quando isolados, os periféricos são concretizados isoladamente e funcionam de modo acoplado ao computador; similar ao corpo humano cujos órgãos não são funcionais quando isolados e as tecnologias às quais o corpo se associa são desenvolvidas isoladamente; podemos também citar os motores, os quais possuem elementos técnicos associados de forma a constituir um sistema individual, com meio associado e autorregulação, e são acoplados a veículos e outros objetos concretizados isoladamente. O sistema integrado de elementos técnicos que torna funcional a arquitetura de von Neumann, autorregulado e concretizado a partir de evoluções técnicas que aumentam a plurifuncionalidade dos elementos e minimizam os efeitos negativos, tornando o sistema cada vez mais integrado e eficiente em seu funcionamento, pode ser compreendido enquanto indivíduo técnico.

Apesar disso, é importante destacar como processador, memória RAM/ROM e controladores não são sempre concretizados conjuntamente, mas por pesquisas e financiamentos de empresas, universidades ou comunidades distintas. Como será abordado posteriormente, segundo Gawer e Cusumano (2002) a Intel desde a década de 1970 tem investido no commodity computing e liderado a horizontalização da indústria de microcomputadores. Nessa indústria, empresas especializam-se em elementos e conjuntos técnicos de microcomputadores (exemplo: Intel, microprocessadores; Kingston, placas de memória; Asus, placas-mãe com controladores; Microsoft, sistemas operacionais; NVIDIA, placas de vídeo; Seagate, discos rígidos) e investem em

compatibilizações para melhor comunicação entre os objetos. É possível adquirir uma placa de memória Kingston e inseri-la num microcomputador equipado com microprocessador da empresa Intel ou da empresa AMD, por exemplo. Do mesmo modo que os motores devem ser concretizados para acoplarem-se a máquinas distintas (automóveis, naves espaciais ou usinas), os microcomputadores devem ser concretizados para funcionamentos adequados em cada conjunto técnico. Essa condição permite às empresas transformarem placas de memória RAM/ROM e microprocessadores em commodities.

No movimento hardware livre, especialmente na OpenCores, a concretização ocorre conjuntamente. Como será melhor abordado posteriormente, há equipes distintas responsáveis pelo desenvolvimento dos subsistemas e dos periféricos e desenvolvedores focados na integração entre esses. A OpenCores mostra como o grau de evolução técnica e a complexidade dos três subsistemas acabam por exigir que seus desenvolvedores sejam especializados, o que justifica a divisão em equipes de trabalho. Entretanto, como o licenciamento livre permite que toda a tecnicidade esteja explícita, há uma comunicação frequente entre as equipes a respeito das evoluções técnicas de cada subsistema e, consequentemente, uma concretização colaborativa. Já as empresas supracitadas, em razão de possuírem laboratórios privados, com frequência publicam as parcerias firmadas em determinados projetos nas quais acordam sobre a troca de propriedade intelectual, como será melhor abordado posteriormente.

Sobre os periféricos de microcomputadores, esses consistem em objetos técnicos externos à arquitetura de von Neumann que recebem do computador suas instruções de funcionamento. São periféricos porque variam conforme as gerações dos computadores e não compõem os três subsistemas originais da Máquina de Von Neumann, mas foram acoplados conforme as evoluções técnicas da Arquitetura. Podemos compreendê-los não como submissos ao indivíduo, mas como participantes de uma invenção de novos usos. Em razão da ampla margem de indeterminação dos computadores, esses podem ser objetivados para determinadas funções que são executadas quando em associação com periféricos. Podemos mostrar isso ao observarmos as diferentes gerações.

Segundo Tanenbaum (2007), a primeira geração era especializada em cálculos aritméticos e movimentos lógicos para fins miliares. A segunda geração, que já contava com a possibilidade de processamento de milhares de instruções por segundo, possibilitava exibir os dados processados em monitores de poucos pixels e cores que mostravam o trajeto de mísseis e aeronaves militares. Esses monitores também incentivaram estudantes do MIT (Instituto de Tecnologia de

Massachusetts) a utilizarem os computadores para fins de lazer: “[u]ma das muitas inovações do PDP-I era um visor com capacidade de plotar pontos em qualquer lugar de sua tela de 512 por 512 [pixels]. Em pouco tempo os estudantes já tinham programado o PDP-I para jogar guerra no espaço e o mundo ganhou seu primeiro videogame” (Tanenbaum, 2007, p. 12).

A terceira geração introduziu a multiprogramação – possibilidade de iniciar o processamento de tarefas enquanto tarefas já processadas estão no subsistema de entrada e saída. A quarta geração desenvolveu a GUI (Graphical User Interface – Interface Gráfica de Usuário), que consiste em atalhos gráficos intuitivos e animados, como a navegação em janelas, substitutivos da necessidade do uso de comandos para execução de tarefas. Em razão do amplo papel da GUI para a popularização dos microcomputadores no mercado doméstico, essa é mostrado de modo mais detalhado abaixo, entre as Figuras X e V:

Figura X: Terminal de Comando GNU\Linux-Debian

A figura acima mostra um terminal, uma tela com ausência de interface gráfica porque é composto apenas por uma linha de comando que aguarda qual ação o usuário stefano deseja executar na máquina de nome sebian (representado por stefano@sebian em cada linha). Ao digitar su, é requisitado ao computador acesso pleno para navegar na máquina e instalar ou remover programas, sendo necessário digitar uma senha (representado, agora, por root@sebian). Para navegar, é necessário usar o comando dir para visualizar o conteúdo de cada pasta virtual e cd seguido do nome da pasta para acessar o local desejado. Percebe-se que na linha 6 digitei errado o nome da pasta e o computador me responde na linha 7 alegando sua inexistência. Na linha 15, solicito voltar para a pasta raiz (representada por /) e na linha 16 executo um comando para instalar o software kspaceduel. O computador inicia, então, a busca por esse programa nos repositórios online para os quais a máquina sebian está configurada (no caso, os repositórios do sistema operacional GNU\Linux-Debian). Após encontrar, a máquina expõe no terminal todos os arquivos necessários para instalação do programa e pergunta se o usuário deseja continuar. Ao digitar S, o computador incia o download do kspaceduel. Terminada a instalação, basta digitar kspaceduel na linha de comando e será executado o jogo de batalhas espacial

inventado pelos estudantes do MIT para o computador de segunda geração PDP-I, em 1962, como mostrado abaixo nas Figura XI e XII.

Figuras XI e XII: Versão KSpaceDuel moderna de 2014 e versão original de 1962.

Ambos consistem em duas naves inimigas em torno de uma estrela que têm como objetivo atirar para destruir o oponente. A versão moderna utiliza mais pixels e cores em razão do processamento de dados mais veloz. O terminal de comando era o único modo de uso de computadores, até a invenção do sistema de janelas. Esse consiste, grosso modo, em atalhos gráficos e animados que, através do uso de mouses e teclados, executam conjuntos de instruções similares às linhas de comando em terminais.

Figura XIII: Terminal de Comando do IBM-PC, de 1981

Acima observamos uma imagem do terminal de comando do IBM-PC de 1981. Nesse terminal foi executado o comando dir *.com, que solicita ao computador mostrar na pasta ou diretório A todos os arquivos de extensão .com. Dentre esses arquivos, podemos citar: format, para apagar todo o conteúdo do disco rígido e reconfigurar o sistema operacional; date e time, para redefinir data e horário; e chkdsk, para receber informações sobre a máquina. Para instalarmos o KspaceDuel, o processo é similar ao contemporâneo GNU/Linux-Debian: digitação de linhas de comandos para acesso aos repositórios online ou a repositórios físicos, caso utilizássemos disquetes ou HDs de outras máquinas. A diferença estaria em quais linhas de

comandos seriam utilizadas, como cd ao invés de dir para abrir as pastas, já que o sistema operacional do IBM-PC foi feito pela Microsoft, denominado MS-DOS – Microsoft Disk Operating System –, e não pela comunidade do GNU/Linux-Debian42. No final da década de 1980, a Microsoft investe maciçamente para que

o MS-DOS passe a utilizar o sistema de janelas, mais intuitivo para usuários domésticos, que passou a ser denominado como Microsoft Windows. Em 1995, o Windows 95 atinge expressivo sucesso comercial e passa a ser utilizado por empresas e usuários domésticos em escala mundial.

Figura XIV: GUI do Windows 95

A figura acima mostra uma navegação por pastas no Windows 95, valendo-se de janelas, cliques de mouse e cores ao invés de linhas de comando típicas do MS-DOS. Para jogarmos o KspaceDuel, podemos clicar no ícone “The Internet”, acessarmos um motor de busca (como o Google) e procurarmos por sites que tenham o jogo disponível. Se for necessário instalá-lo no microcomputador, basta um duplo-clique no ícone e todo o processo será feito automaticamente. Os comandos format, date, time e chkdsk, mostrados acima no IBM- PC, também possuem versões em ícones gráficos no Windows 95. O periférico mouse e os atalhos gráficos intuitivos e animados da GUI na quarta geração foram umas das principais invenções que ampliaram as possibilidades de uso ou funções dos microprocessadores e tornaram essas máquinas mais intuitivas e de fácil utilização por usuários domésticos. O Windows 95, da empresa Microsoft e seu famoso fundador Bill Gates, não foi a primeira GUI, mas o de difusão no mercado doméstico mais expressiva que mostrou o potencial dos microcomputadores pelo mercado doméstico. O GNU/Linux-Debian, a maioria das demais distribuições GNU/Linux e os iOS (Sistemas Operacionais da empresa Apple) também já utilizam os sistemas de janelas. Para, por exemplo, instalarmos o KspaceDuel no Gnu/Linux-Debian, podemos clicar no ícone "Central de Aplicativos", digitarmos o nome do jogo num campo de busca e, por fim, com um duplo- clique o instalarmos. Entretanto, as distribuições GNU/Linux são mais resistentes a uma “janelização” plena, enquanto Microsoft e Apple raramente não oferecem sistemas gráficos para uso dos computadores.

A multiprogramação e a GUI mostram como, da segunda para a quarta geração de computadores, há uma progressiva maior independência do software em relação ao hardware. Isso significa a desnecessidade de alterar as peças físicas dos computadores para serem desenvolvidos

42 Aqui não é mostrada a instalação do KspaceDuel num IBM-PC em razão da dificuldade de acesso a uma versão funcional dessa máquina atualmente.

programas – desde os mais simples, como calculadoras virtuais, até os mais complexos, como sistemas operacionais (por exemplo os acima citados Windows e GNU\Linux-Debian). Em outras palavras, há uma maior possibilidade de manipulação de códigos para se criar um ambiente virtual de múltiplas utilidades. O programador já não precisa ser um engenheiro eletrônico, mas um estudioso das extensas linguagens de códigos. Inclusive, cursos de ensino superior e carreiras de programadores são criados e seguidos por profissionais com conhecimentos básicos de eletrônica, que tem como principal objetivo criar utilidades no ambiente virtual. A década de 1980 é, então, marcada por uma distinção mais expressiva entre hardware e software. Essas três características – multiprogramação, GUI e programação sem alteração de peças –, associada ao crescente barateamento dos computadores sobretudo em suas versões microeletrônicas (pós Intel 4004), são fundamentais para essas máquinas passarem a ter utilidades para usuários domésticos.

Podemos problematizar como o a maior independência do software em relação ao hardware pode ser pensada como a invenção passar por uma transdução das peças para o ambiente virtual. É verdade que o software sempre foi o controlador do computador, seja pelos cartões perfurados de Ada Lovelace até os atuais pendrives; portanto, a invenção sempre dependeu, também, de pensar em quais funções podemos criar a partir dessa linguagem binária e elétrica convertível em linguagem textual produzida pelos humanos. A diferença da quarta geração está no ambiente virtual possuir um “vocabulário” independente o suficiente para uma maior quantidade de invenções não