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Capítulo 1 Microprocessadores e Microcomputadores na Filosofia da Técnica de Simondon

1.1. Ser vivo, ser técnico, microcomputadores e microprocessadores

Como abordado na “Introdução”, Simondon atribui singularidade à existência dos seres técnicos e coloca como função da cultura a compreensão dos seus modos de existência e suas formas de relação com seres naturais e humanos. Um objetivo específico desta dissertação é o estudo do microprocessador enquanto objeto técnico simondoniano e compreender seu modo de existência singular, enquanto um segundo objetivo é mostrar sua situação e sua relevância na compreensão da sociedade contemporânea, especialmente no recorte de estudo desta dissertação.

Esta primeira seção atende, majoritariamente, o primeiro objetivo citado: a compreensão do microprocessador como objeto técnico simondoniano. Para isso, foi feito um aprofundamento teórico do conceito de objeto técnico e aqui os resultados são apresentados numa ordem específica. Primeiro, opta-se por apresentar o conceito de objeto técnico a partir da reunião das analogias entre o ser humano e o ser técnico, feitas por Simondon (1989) em momentos esparsos e oportunos, e o desenvolvimento dessas a fim de apresentar o que é semelhante e o que é único no ser técnico e no ser humano. Ao longo desses estudos comparados, escolheu-se aqui como “representantes práticos”, a fim de já apresentar o objeto empírico, analogias e comparações entre o corpo humano, de um lado, e microcomputadores e microprocessadores, de outro lado. Durante a apresentação da analogia, prioriza- se um texto mais fluido e menos interrompido com detalhamentos e citações, o que é feito posteriormente quando se trata mais profundamente das singularidades dos seres técnicos junto de dados técnicos acerca dos microcomputadores e microprocessadores. A intenção, aqui, é primeiro montar uma imagem e uma compreensão iniciais sobre o que é um objeto técnico na perspectiva de Simondon e, em seguida, valer-se dessas para um aprofundamento da teoria simondoniana e da hipótese desta dissertação sobre microcomputador como indivíduo técnico e do microprocessador como elemento técnico.

1.1.1 Semelhanças entre o ser técnico e o ser humano

A partir de Simondon (1989), podemos compreender que humano tem sua forma definida por um sistema composto por órgãos e demais elementos fisiológicos em associação, o corpo, que pode ser denominado de “indivíduo” em virtude da autorregulação de sua existência e independência de seus progenitores. Por autorregulação entende-se a autonomia de funcionamento do sistema, não isolamento e ausência de relação com demais seres técnicos, humanos ou naturais. Parte desses elementos fisiológicos não existem apenas no humano, alguns são idênticos aos existentes em outros animais e outros possuem aperfeiçoamentos exclusivos para a forma humana. O que atribui individualidade ao corpo como humano é justamente a sua associação exclusiva de elementos fisiológicos que constituem um específico sistema em funcionamento.

As funções do humano, que devem ser entendidas como o quê o humano faz com o seu

corpo (i. e. praticar esportes, compor músicas, produzir signos e significados etc.) e não como as funções fisiológicas do sistema em funcionamento (comer, piscar os olhos, urinar etc.), não atribuem

individualidade porque não são previamente definidas. O sistema do corpo humano contém uma elevada margem de indeterminação de suas funções em virtude da possibilidade de planejamento e execução de inúmeras tarefas e inclusive aprendizagem de novas habilidades que permitem ampliar suas funções ao mesmo tempo que o especializa nessas funções. Em outras palavras, podemos pensar que enquanto uma criança possui elevada margem de indeterminação, um adulto já diminui essa margem em razão de seu corpo físico e sua intelectualidade estarem mais especializados para realização de determinadas tarefas. Um nadador, boxeador, cantor, instrumentista, artista, cacique ou xamã possuem corpos humanos similares, mas executam atividades distintas em virtude de reduzirem a margem de indeterminação de seus corpos para diferentes especialidades. Em síntese, o corpo humano é definido pelo seu sistema de funcionamento e não pelas suas funções.

O microcomputador tem sua forma definida por um sistema composto por três subsistemas (microprocessador, memórias RAM e ROM e controladores de entrada e saída) e demais elementos microeletrônicos em associação. Pode ser compreendido como um indivíduo técnico em virtude de sua autorregulação de seu funcionamento, independente de seus fabricantes ou de outros seres. Parte de suas peças não existem apenas nos microcomputadores, algumas são idênticas às existentes em outros seres técnicos e outras possuem aperfeiçoamentos exclusivos para a forma microcomputador. O que atribui individualidade ao objeto técnico como microcomputador é justamente

a sua associação exclusiva de elementos técnicos que constituem um específico sistema em

funcionamento. O microprocessador, embora também de existência sistêmica, não possui uma

autorregulação desvinculada das memórias RAM e ROM e dos controladores de periféricos, sendo impossível atribuir uma individualidade de funcionamento independente desses dois objetos técnicos. Encontramos uma individualidade no microcomputador, sendo o microprocessador uma peça fundamental, um subsistema plenamente integrado, o que se aproxima mais da definição simondoniana de elemento técnico.

As funções do microcomputador e do microprocessador também não são previamente definidas e não atribuem individualidade aos objetos. Em síntese, o primeiro consiste em um sistema de processamento de dados para “fins gerais” a partir dos subsistemas microprocessador, memórias RAM e ROM e controladores de periféricos. O microprocessador é o responsável pela leitura e escrita de dados nas memórias e pelo controle dos periféricos – como teclados, monitores, CDs/DVDs e discos rígidos. Por “processamento” entende-se a leitura de dados na entrada da máquina, a realização das tarefas necessárias e, por fim, a informação como resultado. Desse modo, o que será processado, qual a informação obtida e os “fins gerais” - em outras palavras, as suas funções ou o quê o microcomputador

faz com o seu sistema – são reinventáveis conforme a evolução técnica. Enquanto os primeiros

microcomputadores realizavam cálculos avançados e convertiam códigos binários em palavras dos alfabetos contemporâneos, os atuais já são capazes de interpretar movimentos humanos à distância e processar imagens e sons digitais em alta qualidade durante jogos de videogame ou operações cirúrgicas assistidas por robôs24 de escalas nanométricas. Em outras palavras, as margens de indeterminação do microcomputador e do microprocessador são elevadas e desvinculadas de funções pré-determinadas. Um videogame, um robô cirúrgico, um celular ou um laptop possuem sistemas de microcomputadores similares, mas executam atividades distintas em virtude de reduzirem a margem de indeterminação de seus sistemas para diferentes especialidades. Em síntese, o microcomputador e o microprocessador, tal como o corpo humano, são definidos pelos seus sistemas de funcionamento e não pelas suas funções.

24 Aqui se refere a objetos técnicos de forma humanoide, similares a formas animais ou de formas originais, cujos movimentos são controlados por microcomputadores. A palavra “robô” foi cunhada originalmente no inglês, robot, pelo escritor Issac Asimov em suas ficções para definir os “microcomputadores móveis”, personagens de seus livros e contos. Os robôs ora eram providos de inteligência artificial, portanto emitiam opiniões e agiam por vontade própria, e ora eram providos apenas de capacidades lógicas e aritméticas avançadas, portanto obedeciam a comandos de humanos e podiam, por exemplo, ser fabricados em tamanhos nanométricos e atravessar corpos humanos de modo indolor e eficaz para realizar cirurgias médicas. Atualmente, a microeletrônica já produz “microcomputadores móveis” controlados por microcomputadores e geralmente são referidos como robôs. Alguns, inclusive, são dotados de inteligência artificial em virtude de possuírem habilidades de aprendizado e de escolha, mas são desprovidos de vontade própria.

Na filosofia da técnica simondoniana, a autorregulação não é limitada em razão da necessidade constante de consumo de fontes energéticas. Humanos necessitam de alimentação orgânica tal como microcomputadores de alimentação elétrica como fontes de energia, mas o papel da energia é mais colocar o sistema em funcionamento e menos exercer uma função reguladora no sistema. A sua ausência interrompe o funcionamento, mas não atribui uma regra para o funcionamento capaz de influenciar na direção do sistema.

Figura I: Ser Natural e Ser Técnico e suas Formas Sistêmicas

Corpo humano

(as 2 espécies) (4 espécies contemporâneas)Microcomputadores

Desktop: geralmente, atribui-se o nome de microcomputador ao computador-de-mesa, também conhecido por desktop. Os periféricos teclado, mouse e monitor geralmente encontram-se separados, embora existam versões embutidas. A possibilidade de ocupar mais espaço permite o uso de placas e sistemas de resfriamento que proporcionam processamentos de dados mais velozes. Exige alimentação permanente de energia elétrica. Permite visualização de vídeos em alta definição, acoplamento a sistemas avançados de áudio e demais softwares que exigem processamento de muitos dados em curto tempo.

Laptop: versão portátil de microcomputador, geralmente otimizadas para ambientes de trabalho. Contém poucos recursos para suporte de dados audiovisuais, é otimizada para o transporte e baixo consumo de energia para permanecer longos períodos alimentada por baterias.

Tablet: também uma versão portátil de microcomputadores, otimizada para leitura de textos e navegação na internet, sua linhagem técnica e periféricos são especializados em consumo baixíssimo de energia para privilegiar a mobilidade. Seus recursos audiovisuais são ainda menores, embora suportem jogos, vídeos e áudios em baixa definição.

Smartphone outra versão portátil de microcomputadores, esta otimizada para agregar funcionalidades de tablets em aparelhos telefônicos.

FORMA SISTÊMICA FORMA SISTÊMICA

25

25http://1.bp.blogspot.com/-1jOyLk3M8h0/UcKxtgvu3CI/AAAAAAAAA20/iEvwcnuxMFY/s1600/13870300-anatomy-of-the-human-body %2B(1).jpg

Mulher Homem

Placa-mãe (espaço onde são soldados os subsistemas, demais elementos e alguns periféricos).

Destaque para o “robô cirúrgico”, uma espécie ou versão do “microcomputador móvel”: Figura II: Robô Móvel, “Da Vinci”

Material disponível pelo Hospital Albert Einstein, especialmente sobre o robô “Da Vinci”, utilizado em cirurgias. O médico-cirurgião realiza os mesmos movimentos que faria se estivesse tocando no paciente, mas na verdade realiza os movimentos à distância e “tocando” em imagens virtuais tridimensionais. O microprocessador é o responsável pela conversão da linguagem mecânica do médico na linguagem binária necessária para movimentos das “mãos metálicas” do Da Vinci. Essa conversão é escrita e lida pelo microprocessador nas memórias RAM e ROM e as informações quanto aos movimentos são enviadas às “mãos metálicas” pelos controladores de periféricos. Nota-se que essas mão são chamadas de “periféricos” tal como também são os mouses, teclados, caixas de som ou pendrives de desktops e laptops, em razão de serem objetos técnicos acoplados, portanto externos ao indivíduo técnico microcomputador26.

Em síntese: do mesmo modo que órgãos não funcionam isoladamente e se associam para compor um corpo humano, um microprocessador, memórias RAM/ROM e controladores de periféricos se associam para compor um microcomputador (cada um denominado “subsistema”). Assim como veias e artérias são fio condutores de matéria orgânica e informações entre os órgãos, os barramentos de microcomputadores são fios condutores espalhados ao longo de toda a placa-mãe que transportam informações entre os diversos dispositivos. Isso não significa que órgãos e subsistemas sejam objetos simples, esses também são compostos por associações de demais objetos; a diferença principal entre

órgãos/subsistemas e indivíduo está na autorregulação do funcionamento, ou seja, na existência de um todo-conectado que funciona independente de seus progenitores/produtores e de demais seres naturais, técnicos ou humanos.

Vale destacar que essa autorregulação e independência refere-se ao funcionamento e não às funções – humanos e microcomputadores se associam com demais seres naturais, técnicos e humanos, os quais podem ser classificados como periféricos porque não fazem parte dos elementos centrais que atribuem individualidade ao objeto, para planejamento e execução de atividades. Desse modo, podemos notar dois tipos de associações: enquanto a associação entre órgãos/subsistemas na composição do indivíduo é condição sine qua non de sua existência, a associação com esses demais seres é temporária e exclusiva para realização de determinados fins. Nesse sentido, humanos se associam com tecnologias – lato sensu: linguagens, objetos estéticos, objetos naturais etc. – tal como microcomputadores se associam com tecnologias – monitores de vídeo para expressão digital das informações, placas de áudio para emissão de sons, teclados e mouses para interface com humanos e, como tem se tornado cada vez mais comum desde meados de 2000, com objetos naturais e estéticos, no que tem se consagrado como “internet das coisas”27. Ao objeto resultante da associação temporária entre indivíduos e demais objetos técnicos Simondon nomeia conjunto técnico. Podemos então esquematizar do seguinte modo:

27 A “Internet das Coisas”, em síntese, consiste na associação de microprocessadores com humanos, plantas ou animais (seja por captação de ondas sonoras, calor, densidade de água no solo etc.) que transformam informações em dados binários e posteriormente em dados digitais. Dentre os projetos já finalizados e plenamente funcionais, podemos citar as “plantas que enviam mensagens de celular” e “babás eletrônicas”. Um microprocessador é programa para enviar mensagens a determinado celular conforme a densidade da água no solo. Assim, quando abaixo de determinado nível, o microprocessador envia a mensagem “estou com sede”, indicando a necessidade de regá-la. No caso das babás eletrônicas, os microprocessadores são programados para identificar as diferentes ondas sonoras do choro dos bebês e classificá-los entre “fome”, “sono”, “dor” e outros, facilitando para adultos compreenderem as necessidades dos bebês.

Figura III: Comparação entre Elementos, Indivíduos e Conjuntos

ELEMENTOS INDIVÍDUO CONJUNTOS

Aqui é importante ressaltar que Simondon classifica a relação entre elementos, indivíduos e conjuntos como de solidariedade, não de evolução ou de substituição. Desse modo, os três tipos não correspondem a uma evolução do elemento ao conjunto, por exemplo, mas possuem evoluções técnicas próprias em virtude de suas diferentes tecnicidades. Em determinadas situações, não é interessante ao elemento adquirir autorregulação, como uma lâmpada possuir autonomia na geração de energia para acender, ou um conjunto passar a associar-se permanentemente, como diversos instrumentos musicais se tornarem um único para produzir determinadas melodias. Contudo, como será abordado com mais detalhes posteriormente, Simondon deixa clara a diferença qualitativa da tecnicidade dos três tipos: enquanto os conjuntos possuem fraca tecnicidade em virtude das associações temporárias, os indivíduos são um todo-coerente depositário das evoluções técnicas que são verdadeiramente promovidas pelo aumento da plurifuncionalidade e da convergência dos elementos

coração + pulmão + estômago + ... corpo humano associação permanente associação temporária cozinheiro ou carpinteiro ou artesão ou ... micropro- cessadores + memória + controla- dores microcomputador associação permanente associação temporária desktop ou laptop ou smartphone ou controladores ou ...

técnicos em concretização.

1.1.2 Diferenças fundamentais: solidariedade do presente e solidariedade histórica

Em síntese, como abordado até aqui, os seres humanos e os seres técnicos compartilham similaridades quando os corpos/sistemas são observados como indivíduos autorregulados, compostos por órgãos/elementos em associação permanente que se associam de modo temporário com demais sistemas para atingirem objetivos diversos. Também, ambos são definidos pelas suas estruturas de funcionamento e não pelas suas funções, as quais dependem da redução da margem de indeterminação em virtude da especialização do corpo/sistema.

Apesar dessas similaridades, Simondon deixa claro como seres vivos e seres técnicos possuem singularidades em suas existências, sendo uma diferença fundamental a solidariedade histórica exclusiva dos objetos técnicos:

A solidariedade dos seres técnicos uns em relação com os outros no presente [intercomutatividade entre elementos, indivíduos e conjuntos] mascara em geral essa outra solidariedade [histórica] muito mais essencial que exige uma dimensão temporal de evolução, mas que não é idêntica à evolução biológica (…). Se colocado em termos biológicos, a evolução técnica consistiria em uma espécie produzir um órgão que seria dado a um indivíduo e seria então convertido no primeiro termo de uma nova linhagem específica que, por sua vez, produziria posteriormente um novo órgão. No domínio da vida, o órgão não é separável da espécie; no domínio técnico, o elemento, precisamente porque é fabricado, é destacável do conjunto que o produziu; e é nisso que se encontra a diferença entre o engendrado e o produzido. O mundo técnico possui assim uma dimensão histórica além de sua dimensão espacial. A solidariedade atual não deve mascarar a solidariedade do sucessivo; em efeito, esta última solidariedade determina, através da lei da evolução irregular, as grandes épocas da vida técnica. (Simondon, 1989, p. 66-67).

Como exposto na citação, os elementos são fabricados por conjuntos técnicos – como fábricas e laboratórios –, mas tem sua existência destacada dos seus produtores; diferente dos órgãos que são engendrados por seres vivos e não existem na ausência desses. Anteriormente foi abordado como os indivíduos (corpos humanos) são autorregulados e independentes dos seus progenitores; aqui, aborda-se como os elementos naturais (órgãos) são dependentes dos indivíduos que os engendraram e

como os elementos técnicos não têm sua existência restrita ao conjunto técnico que os produziu. Em razão dessa existência não restrita, elementos técnicos diversos podem se associar e compor conjuntos ou indivíduos técnicos. Um coração e um pulmão, por exemplo, não possuem como característica a associação com novos órgãos distintos daquele corpo que os engendrou. Desse modo, enquanto a solidariedade no humano se restringe à associação entre órgãos, corpo e periféricos, a solidariedade do ser técnico é também histórica porque permite a invenção de novos seres técnicos.

Como mencionado na citação, a solidariedade histórica corresponde também a criação de “grandes épocas da vida técnica”. Quanto a isso, Simondon se refere a um tipo de evolução técnica na qual distintas essencialidades passam a determinar os seres técnicos. Na sociedade ocidental, Simondon observa como uma essencialidade artesanal cedeu espaço à termomecânica e posteriormente à eletrotécnica. Essa característica da solidariedade histórica é inaugurada pelo elemento técnico e transmitida aos indivíduos e conjuntos no que Simondon nomeia “lei de relaxação” - loi de relaxation:

Como exemplo dessa evolução segundo um ritmo de relaxação podemos observar as fontes de energia desde o século XVIII. Uma grande parte da energia empregada no século XVIII provinha de quedas d'água, de deslocamentos de ar atmosférico e de emprego de animais. Esses tipos de força motriz correspondiam a uma exploração artesanal ou a fábricas bastante restritas, dispersas ao longo dos cursos d'água. Dessas fábricas artesanais surgirão as máquinas termodinâmicas de alto rendimento do começo do século XIX e a locomotiva moderna, essa última resultante da adaptação da caldeira tubular de Marc Seguin (...), do trilho corrediço de Stephenson (...) assim como passar a marcha atrás (inversão do vapor) progressivamente (...). Essa invenção mecânica de tipo artesanal (...) torna a energia térmica facilmente adaptável à tração sobre trilhos. O trilho corrediço de Stephenson e a caldeira tubular, elementos surgidos no conjunto artesanal do século XVIII, entram nos novos indivíduos do século XIX sob a forma, em particular, da locomotiva. Os transportes de grandes toneladas, que se fizeram possíveis em vastas regiões e não apenas nos locais que seguem as curvas de nível e os meandros das vias navegáveis, conduzem a uma concentração industrial do século XIX que não apenas incorpora indivíduos cujo princípio de funcionamento está fundamentado na termodinâmica, mas que também é essencialmente termodinâmico em suas estruturas. Desse modo, é ao redor das fontes de energia térmica provenientes da queima de carvão e ao redor dos lugares onde se emprega a energia térmica (as minas de carvão e as usinas metalúrgicas) que se concentram os grandes conjuntos industriais do século XIX em seu apogeu. Do elemento termodinâmico se passou ao indivíduo termodinâmico e dos indivíduos termodinâmicos ao conjunto termodinâmico (Simondon, 1989, p. 67-68).

Na citação acima, percebe-se como a “relaxação” pode ser compreendida como a expansão da essencialidade termodinâmica dos elementos para os indivíduos e os conjuntos técnicos. Essa lei novamente atua no século XX, quando a eletricidade passa a ser introduzida nos seres técnicos:

São como elementos produzidos por estes conjuntos termodinâmicos que os principais aspectos da eletrotécnica aparecem. Antes de adquirirem sua autonomia, as aplicações da energia elétrica aparecem como meios muito levianos de transmissão de energia de um lugar a outro através de uma linha de transporte. Os metais de alta permeabilidade magnética são elementos produzidos pelas aplicações da termodinâmica na metalurgia. Os cabos de cobre, as porcelanas de alta resistência, os isolantes, saem das trefilarias a vapor e dos fornos a carvão. As estruturas metálicas dos postes e os cimentos das barragens provêm das grandes concentrações termodinâmicas e entram como elementos nos novos indivíduos técnicos que são as turbinas e os alternadores. Desse modo há uma nova ascensão, uma nova constituição de seres se acentua e se concretiza. A máquina de Gramme28 deixa lugar, na produção de energia elétrica, ao

alternador polifásico; as correntes contínuas dos primeiros transportes de energia dão lugar a correntes alternadas de frequência constante, adaptadas para produção por turbinas térmicas e consequentemente também por turbinas hidráulicas. Esses indivíduos eletrotécnicos são integrados em conjuntos de produção, de distribuição e de utilização da energia elétrica cuja