ANEXO III QUESTIONÁRIO SÓCIO DEMOGRÁFICO 280 ANEXO IV GUIÕES DAS ENTREVISTAS
ENQUADRAMENTO TEÓRICO
1.4. COMUNICAR EM CONTEXTO DE CUIDADOS DE SAÚDE
A comunicação é um processo interactivo, pluridireccional e contínuo, de informação, troca, partilha, que coloca em comum sentimentos e emoções entre pessoas. Contudo é um processo complexo, e as possibilidades de enviar ou receber mensagens de maneira errada ou distorcida são numerosas. A comunicação é essencial à vida e constitui o elemento básico da interacção humana, permitindo estabelecer, manter e desenvolver a relação com os outros.
A comunicação transmite-se de maneira consciente ou inconsciente pelo comportamento verbal e não verbal e por seu intermédio apreendemos e compreendemos as intenções, opiniões, sentimentos e emoções. Compreende uma troca verbal informativa de conteúdo cognitivo e uma contrapartida afectiva, revelada ou ocultada pelo comportamento não verbal. A razão capta as palavras e emoções evidentes e o inconsciente apreende as emoções mais veladas.
Os princípios gerais da comunicação, citando Phaneuf (2005, p.26-29) são:
- A comunicação encontra-se em toda a parte. - É impossível não comunicar.
- A comunicação situa-se nos planos cognitivo e afectivo.
- No caso das mensagens verbais e não verbais contraditórias, é o significado da mensagem não verbal que é retido.
- A comunicação é dificilmente reversível.
- Os primeiros minutos da comunicação são muito importantes: dão o tom à relação.
As atitudes e comportamentos que se adoptam quotidianamente nas nossas vidas, especialmente na Saúde, têm consequências em cada um dos intervenientes dos episódios comunicacionais.
Quando se analisa a comunicação em contexto de saúde, percebe-se o quão complexo é o processo relacional estabelecido entre os técnicos de saúde e o doente. O modelo tradicional encarava o processo comunicacional de forma unidireccional, em que um especialista comunica os seus conhecimentos a um simples doente, sendo a relação sustentada numa base de superioridade dos profissionais de saúde e os doentes uns meros executores de orientações e práticas, por vezes antagónicas aos seus mitos, valores e tradições, perdendo inclusive nos rituais de internamento hospitalar a sua própria identidade, sendo identificados com um número e sujeitos a regras impostas e inflexíveis.
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No entanto, investigações recentes sugeriram que o processo de comunicação pode ser melhorado, caso seja adoptado um estilo partilhado de consulta centrado no doente. Os investigadores têm analisado o papel e o tipo de informação que melhora a adesão dos doentes em relação às recomendações feitas durante as consultas dos técnicos de saúde e, ao longo dos tempos, alguns factores têm contribuído para uma maior individualização do doente, nomeadamente na consciencialização do respeito e aceitação que o doente seja mais interveniente nas decisões que a ele digam respeito, como no caso da saúde. Com todos estes processos de mudança ligados às mudanças da própria sociedade em geral, os técnicos de saúde têm sido confrontados com novos conceitos na arte de comunicar e de se relacionar com os doentes e suas famílias.
No último século desde a década de 60 com o movimento dos direitos do doente, estes têm vindo a exigir o conhecimento detalhado acerca do diagnóstico, da fisiopatologia, das opções de tratamento e do prognóstico. Laine & Davidoff (1996) citados por Ribeiro (2005, p.227) consideram que os doentes ( ) exigem informações que antes estavam unicamente ao alcance do médico, e os médicos estão cada vez mais interessados em partilhar tal informação com os doentes.
O fornecimento de informação é um aspecto básico em contexto de saúde, existindo muitas maneiras de o fazer, sendo a melhor maneira a de manter os doentes bem informados fornecendo toda a informação que é possível e que esteja de acordo com os valores do doente.
Kleinman (1979) citado por Ribeiro (2005, p.229) propôs que os profissionais de saúde incluam três tipos de questões na entrevista clínica:
- Questões acerca da compreensão que o doente e suas famílias têm da sua doença - Questões acerca da perspectiva do doente sobre o significado da doença
- Questões acerca das expectativas do doente acerca da sua doença.
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adquirissem e desenvolvessem competências em comunicação relacional, uma vez que são únicos nas suas relações com a equipa interdisciplinar e sobretudo com o doente/família.
Com frequência os doentes queixam-se de maior ou menor desumanização dos cuidados, lamentando a pouca atenção que lhes é concedida, a falta de sensibilidade dos profissionais de saúde perante o seu sofrimento e até mesmo a ausência de disponibilidade real para os escutar. Sendo a relação de ajuda uma das funções autónomas, em especial do médico / enfermeiro, revela-se um meio poderoso de intervenção e subentende a existência de um elo de ligação com o doente. Aqui, o estar em relação assume um carácter mais abrangente que significa mais do que a presença física, implica a presença do técnico com todo o seu ser. Lazure diz-nos que O acto de ajudar impõe exigências que ( ), por ter escolhido uma profissão de ajuda, não pode subestimar: dar do seu tempo, dar da sua competência, dar do seu saber, dar do seu interesse, dar da sua capacidade de escuta e compreensão. Em suma, dar uma parte de si mesma . (1994, p.97)
A relação de ajuda só poderá desenvolver-se num clima de segurança afectiva e de confiança mútua que conduza à responsabilização de cada um dos intervenientes pelo outro. Tem por base valores fundamentais como a autenticidade, a confiança e fundamentalmente o respeito pelo doente. Respeitar, implica reconhecer o outro como único no seu modo de ser e estar no mundo, encará-lo de forma holística e acreditar que tem potencial para responder às suas próprias necessidades.
Estamos conscientes do contributo de algumas teorias da comunicação relacional, entre as quais se destaca a Teoria da Gestão Coordenada de Significações, desenvolvida em 1982 por Barnett Pearce e Vernon Cronen, conhecida por CMM (Coordinated Management of Meaning) como um modelo extremamente rico na análise da coordenação comunicacional e proporcionador da consciencialização das dificuldades pessoais que temos nas interacções comunicacionais. Não é nossa intenção aprofundarmos neste estudo estas teorias, mas percebermos como o CMM pode ser um precioso contributo para a ultrapassagem de perigosas simplificações da comunicação, na medida em que surge como uma descontinuidade com os modelos de transmissão da informação e enquadra-se na perspectiva do construcionismo social.
Wazlawick (1984) refere que a pessoa que aceita a realidade como uma construção, tornar-se- á mais tolerante para com os outros, sentir-se-á responsável pelas suas decisões, acções e
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também pela realidade criada por profecias auto-confirmatórias, o que a levará a julgar os outros com precaução. Para nós tornou-se claro que este modelo foi extremamente enriquecedor para as nossas vidas, quer a nível pessoal quer profissional.
Se tivermos em conta que nos cruzamos diariamente com mundos sociais diferentes dos nossos em contextos diferentes, o CMM pode ser um precioso contributo para nos ajudar a compreender a complexidade das interacções comunicacionais e identificar algumas oportunidades de comunicação em ocasiões específicas.
O termo coordenação chama a atenção para o facto de que, seja o que for que façamos, não o fazemos sozinhos, pelo que o CMM nos pode ajudar a desenvolver hábitos e capacidades de escutar, para que as outras pessoas saibam que foram escutadas e compreendidas. Pearce (1994), salienta que o CMM nos pode ajudar a melhorar os mundos sociais existentes, evitar a formação de mundos sociais indesejáveis e chamar a atenção para a existência de mundos sociais melhores.
De acordo com Pearce (1994), uma vez que a comunicação interpessoal é maioritariamente oral, uma das suas características é a importância dada às pistas vocais e faciais, já que um determinado olhar, um tom de voz ou uma inflexão podem mudar completamente o significado do que se pretende dizer. Assim, a nossa habilidade como comunicadores será melhor servida se conseguirmos desenvolver os múltiplos canais de comunicação interpessoal.
Os doentes diferem no nível de participação que pretendem quando recorrem aos cuidados de saúde, desejando maior ou menor informação e envolvimento na tomada de decisão e, paralelamente, os profissionais de saúde também divergem na informação que fornecem. Obter informação para fazer um diagnóstico e dar informação para facilitar a compreensão do doente face ao seu problema é um elemento central da prestação dos cuidados de saúde. No
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comunicacionais dos técnicos de saúde em geral. Podemos concluir que a comunicação em contexto de saúde deve estar adequada às capacidades cognitivas, ao nível cultural/educacional, às representações e crenças de saúde, às necessidades individuais, emocionais, sociais, culturais e linguísticas do utente/doente (Ramos, 2004). Não ter em conta estas necessidades tem consequências, aumentando o sofrimento, o que dificulta a adaptação psicológica à doença. Origina insatisfação quanto à qualidade de cuidados e comportamento profissional dos técnicos, diminuindo a adesão a comportamentos e tratamentos medicamentosos e aumenta a possibilidade de abandono e/ou descuido na procura de cuidados de saúde. Para uma melhor comunicação entre o sistema de saúde oficial e o sistema de pensamento do doente é necessário estabelecer uma relação de confiança entre os técnicos de saúde e os doentes. Assim é indispensável ao nível do tratamento, citando Ramos (2004, p.106) ( ) o conhecimento simultâneo das representações, crenças de saúde e hábitos de protecção aos quais os indivíduos se referem, dos modos de organização social e familiar em que vivem e dos contextos ecológicos.
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CAPÍTULO II
QUALIDADE DE VIDA