• Nenhum resultado encontrado

a comunidade como espaço de perda do comum e ambiente de pluralidade

processo de mudanças institucionais

2. a comunidade como espaço de perda do comum e ambiente de pluralidade

Em sede clássica, o conceito de comunidade representa um espaço de sedimentação de valores comuns, estritamente interligados com base em um tipo de intersubjetividade coletiva e homogênea. Ela importa a união de sujeitos sociais que organizam sua vida em tempo e normatização ordinária, o que resulta no compartilhamento de laços culturais e estrutura organizacional reciprocamente harmonizada pelo comum.

No mesmo sentido, à esteira do pensamento de Ferdinand Tönnies (1947), tratar-se-ia do que ele nomeia de Gemeinschaft, correspondente às relações comunitárias e entendida sob a perspectiva da vida social expressa no coletivo, no interior, includente do ponto de vista do grupo e excludente em confronto à Gesellschaft, das relações societárias, que partem do domínio público, do individual racional, do mundo exterior à comunidade. Nesse sentido, a comunidade refletiria o adensamento de ideias gregárias, constituídas sob laços de consanguinidade, coabitação territorial ou afinidade espiritual; os quais estabelecem-se inclinados pelo senso emocional de reciprocidade, convívio e consenso.

Assim, características como limitação dos entornos geográfico e cultural, homogeneidade e relações interpessoais de concordância evidenciariam a natureza da comunidade enquanto lócus de formação de uma espécie de contrato social primário. Ou seja, ela tenderia a se apresentar sob a condição de que os que se conhecem, se gostam, se respeitam e convivem em espaço mútuo, o que implica igual ordenação da vida em comum.

No entanto, conforme expõem por exemplo doutrinadores como Roberto Esposito e Jean-Luc Nancy, a comunidade não tem apenas o adensamento do comum como elemento irrefutável de sua constituição. Ao contrário, este apresenta-se mais próximo a ideal que, em sede microfacetada, não se apresenta necessariamente como dado real; ou, em outras palavras, resulta na reconfiguração do sentido da palavra comunidade, cuja origem latina communis sintetiza o

comum somente se considerado no contexto de algo compartilhado por muitos, pelo companheirismo.

Dessa forma, há uma espécie de fuga do comum na filosofia da comunidade, onde os indivíduos exercem sua subjetividade em razão dos próximos, dos desenhos institucionais que se formam a partir da vinculação entre uns e outros. Isto é, há uma relação de interdependência nas estruturas comunidade, permeadas pelo senso de direitos e deveres estabelecidos reciprocamente.

Em síntese, de acordo com o pensamento de Roberto Espósito (2007), a comunidade não constitui a apropriação de um sentimento de comum partilhado entre indivíduos, como propriedade, território, cultura, ideologia; mas justamente o que a isto se contrapõe: a comum desapropriação destes indivíduos, o esvaziamento de todo o seu conteúdo, sua subjetividade e interioridade em favor de um outro. O comum da comunidade, neste caso, é o sacrifício individual ou a doação incondicional do sujeito para com o próximo.

Portanto, em contexto hodierno há de se considerar a relevância de uma espé- cie de perda do comum para consistência dos laços de comunidade. O conceito passa a considerar outras vertentes e essa ideia do comum que se perdeu acompa-nha a própria evolução da natureza conceitual de comunidade. Neste norte, evidencia-se a mitigação do espaço homogeneizado, contrariado pela elevação da identidade singular como elemento intrínseco à configuração da diferença. Representa, em outros termos, o fortalecimento da característica de separação em razão da diferença.

Há, assim, a redução do eu individual em prol do outro, em razão do fortalecimento da outridade como dever de compartilhar o que simbolicamente lhes une. Trata-se de uma obrigação carregada pelo senso vinculativo, de reciprocidade, em que se realiza a ação comunitária por um dever ou obrigação para com o outro, subjacente à própria necessidade de sustentação da comunidade.

Conforme expõe Espósito (2007) através de sua ideia de “munus”, na comunidade exsurge-se a capacidade de dissolução do eu singular no outro, como um processo de encarar o que está de fora, na relação, uma experiência de morte que:

é a experiência da desapropriação de nós mesmos. A morte não é jamais minha: é o faltar do que possuo. Ninguém pode viver a própria morte, a morte é sempre do outro. Mas nem mesmo o outro possui e vive a sua morte. A morte é em essência uma impropriedade que nos nivela a todos. E este é o segredo da comunidade: a partilha da impossibilidade de morrer a própria morte. A experiência da morte – entendida como abandono de cada identidade não a uma identidade comum, mas a uma comum ausência de identidade – equivale portanto, à experiência de uma comunidade: já que a morte é a nossa comum impossibilidade de ser aquilo que nos esforçamos para a continuar a ser: indivíduos isolados. (ESPÓSITO, 2007, p. 136)

Em antecipada conclusão, a relação opera-se a partir de uma espécie de conjugação recíproca de forças, que se referencia pela formação de vínculos de alteridade e de atributividade, os quais enaltecem a dependência intrínseca dos membros da comunidade, bem como a atribuição de normatização que garanta arranjos institucionais de vinculação entre ambos os centros de interesse da relação.

Trata-se, em outros termos, da consideração da diversidade como causa de fornecimento das condições necessárias para a configuração ontológica da comunidade, a qual apresenta-se, aliás, em contexto de pluralidade do singular, visto que o ser nomeadamente comporta-se com o outro, para o outro com o qual compartilha suas vivências. Trata-se, em síntese, de considerar a perspectiva também desviada do sentido de identidade comum, pretensamente homogênea e erguida em referência ao uníssono; mas, ao contrário, de considerar o plural.

Conforme sustenta Marilaine Silva:

O que há é a negação da idéia de comunidade como tentativa de redução a uma identidade pretensamente comum, irmanada dentro de forças que lhe são exteriores (território, partido político, religião, língua, etc.): “[...] é possível fazer da multidão uma colectividade de homens livres, em vez de um conjunto de escravos?” (DELEUZE, 1980, p. 17). Essa pergunta de Espinosa parece ecoar no texto llansoliano. Desse modo, um sentido possível para comunidade não reside no que está fora a determinar uma reunião a partir de uma identidade comum, mas na intensidade dos próprios corpos, os afetos de que são capazes. “Aliás, quem

sabe o que é um corpo?” (LLANSOL, 1994, p. 145), pergunta de Llansol a nos lembrar Espinosa: “Não sabemos o que pode um corpo” (DELEUZE, 1980, p. 139). Nesse imprevisível dos corpos e seus afetos, mora a possibilidade do encontro, um estar em comum, mas ainda na diversidade. O que não é um paradoxo, mas uma condição.

A comunidade apresenta-se, portanto, como um espaço de perda do comum, onde a condição sine qua non de sua sustentação dá-se com base na vinculação entre o eu e o outro, ou seja, na diversidade inerente ao coletivo. Assim, a união não necessariamente representa a formulação de uma identidade comum, mas, antes, a aproximação de predicados singulares, que, em compartilhamento, favorecem a organização de forças sociais vinculativamente engendradas.

No mesmo norte, como sustenta Nancy (2003), somos “seres-com”, vez que o que nos impulsiona não é o isolamento, mas as relações sociais que estabelecemos com o outro. Trata-se de uma perspectiva sedimentada pela falta, pelo sentimento de vazio que assombra o ser desde sua origem, tornando-o uma espécie de ser esvaziado que tem à sua sombra a metáfora de um fantasma que o rodeia informando que algo lhe falta.

De semelhante maneira, Heiddeger (2009) expõe que o vazio (ou o nada) participa de todas as coisas. No mesmo sentido, a presença se caracteriza dentro de uma espacialidade concreta, em uma relação intencionada com os demais entes intramundanos, que só ganham significância dentro de uma conjuntura, uma relação complexa de referências. Dentro dessa perspectiva, a designação particular dos objetos deve ser pensada como um processo derivado, dependente dessa totalidade. E esse contexto só é possível porque a presença, desde sempre, é ser-no-mundo. A relação da presença com um mundo circundante e, nele, com um conjunto de entes intramundanos em uma espacialidade, só é possível porque já se deu previamente um mundo.

Assim, a noção de comunidade não necessariamente apenas se configura como espaço determinado e limitado geograficamente, com tradições e culturas partilhadas em comum. Há também em sua estrutura uma ideia de obrigação para com o outro que requer uma proporcional desobrigação. (ESPÓSITO, 2007, p. 28).

Por essa razão, a comunidade tenderia a constituir-se vinculada ao nada, permeada por uma característica intrínseca de niilismo, através da qual os sujeitos sociais não se realizam plenamente, sustentando-se com respaldo num confuso sistema de perda da subjetividade do indivíduo, evidenciado em torno da abdicação da plena realização do eu em confronto com o outro.

Nesse sentido, decai-se a ideia tradicional de encarar na comunidade apenas o senso de proteção, correspondente à capacidade de assegurar a todos os indivíduos a plena realização de sua subjetividade e de seus interesses. Evidencia-se também, de outro modo, uma espécie de sequestro, expropriação ou manipulação do compartilhamento de um comum não pertencimento, de uma comum estranheza e singularidade.

Por isso Jean-Luc Nancy afirmara que a comunidade não é aquilo que a experiência histórica da sociedade teria destruído, mas é, antes, o mito daquilo que o homem ocidental teria perdido desde sempre. A bem dizer, a experiência da comunidade seria justamente a experiência inquietante daquilo que nunca houve, “La communauté n’a pas eu lieu”. (Nancy, 1986, p. 33).

Em outros termos, implica-se a necessidade de despojamento da noção de junção do comum, pois, contraditoriamente, isto resultaria na perda da pluralidade, da diversidade, e, ato contínuo, no soerguimento de uma espécie de pureza unitária que leva a correspondências totalitárias e de quase-morte do eu singular. Em contraposição, a ideia de comunidade não se dá entre os mesmos, ou, do igual com o igual, mas entre este e aquele, entre diferentes. Há de se reconhecer especialmente o estar junto, estar com; ressignificar a ordem de organização em atenção ao que se complementa.

Como expõe Nancy (2003, p.14):

Somos juntos e apenas então, ou assim, podemos dizer ‘eu’: eu não diria ‘eu’se estivesse só, pois se estivesse só não teria nada de que tivesse que me distinguir. Se me distingo é porque somos vários: haveria que entender ‘ser vários’ com valor distributivo e ao mesmo tempo com o mesmo valor que em ‘ser-no-mundo’.

A comunidade exsurge, desse modo, uma espécie de perda do comum, no sentido de delegar ao compartilhar da diversidade o papel de fundamento

necessário para a sua constituição. É na pluralidade, então, que sedimenta sua estrutura e os arquétipos do sistema político responsável pela organização da vida de seus cidadãos, os quais vinculam-se reciprocamente em razão da alteridade ou da solidariedade.

3. a solidariedade como elemento de alteridade en-