crimes contra a humanidade no brasil: a imprescritibilidade da persecução e
5. os sequestros de crianças impulsionando o ad- ad-vento do direito internacional
Um rumoroso caso sobre sequestro de crianças teria um papel importante ser considerado. A médica Silva Quintela, grávida, fora sequestrada por forças de segurança em 1977, tendo desaparecido após dar à luz à sua filha no centro de detenção Campo de Maio. Seu parceiro, Abel Madariaga, que havia sobrevivido à perseguição, suspeitava de um médico militar, Norberto Bianco, como responsável pelo sequestro e alteração de identidade. Após fugir para o Paraguai e retornar em um processo extradicional, Bianco e sua mulher foram formalmente acusados. A advogada de Madariaga, Alcira Ríos, destacou desde sempre o caráter abominável de tais crimes, excluídos expressamente das leis de anistia argentinas. Depois de desenvolver um contato com as Avós de Praça de Maio, ela se determinou na estratégia de obter provas de oficiais de mais baixa hierarquia e famílias de militares com o objetivo de ascender a pontos mais altos da cadeia de comando para determinar quem colocou as práticas em vigor. Na década de 1990, a Argentina viria a se tornar um banco de dados de referência mundial que permitia o cruzamento de DNA’s por três gerações. Foi criada, inclusive, uma Comissão Nacional para o Direito à Identidade: esta se viu diante de situações de apresentação voluntária de jovens, assim como recusas veementes em esclarecer os casos, bem como em desfazer os laços com os pais sequestradores.
O juiz Roberto Marquevich, responsável pelo caso Quintela até 1997, tinha como objetivo encontrar as crianças e punir os responsáveis pelos sequestros.
Investigando o oficial Julio César Caserotto, ele promoveu um acordo de delação premiada; o acusado, então, nomeou o General Rafael Videla como responsável pelas ordens de sequestro. Sobreviventes relataram a existência de uma maternidade no centro de Campo de Maio – conhecida como “unidade de epidemiologia”. Uma outra acusação contra Videla foi formulada por Garzón na Argentina. Em julho de 1988, Marquevitch ordenou a prisão do general. No processo, Marquevitch concluiu pela responsabilidade de Videla por um plano generalizado de sequestro. Ele confirmou que tais crimes não estavam abrangidos pela anistia, além de serem crimes permanentes e crimes contra a humanidade, à luz dos precedentes Schwammberger e Priebke. Rapidamente, as investigações sobre outros casos ganharam espaço.
Em Buenos Aires, o advogado Alberto Pedroncini sustentou perante o Juiz Bagnasco a natureza sistemática do roubo de crianças. Para tanto, acusou outros membros das juntas, como Reynaldo Bignone, Cristino Nicolaides e Rubén Franco. Estes arguiram que mesmo que casos individuais não tivessem sido considerados nos julgamentos das juntas, novos procedimentos, nesse momento, levariam a uma situação de bis in idem, já que o Judiciário refutou a existência de um plano sistemático. A Corte Suprema argentina colocou de lado essa alegação e declarou válidas as investigações, que discutiam justamente casos concretos de sequestro de crianças13.
Além dos casos de sequestro de crianças, um outro motivo para rediscutir a persecução penal na Argentina foi o uso de ilimitados poderes por perpetradores para sequestrar e extorquir com objetivos de ganho pessoal. Foi o que aconteceu com o bem-sucedido empresário de Mendoza Conrado Gómez. Sequestrado em seu escritório por um grupo de 15 a 20 homens em 1977, seu cofre foi arrombado, tendo sido levados quase US$ 1 milhão, assim como títulos de propriedade que rapidamente foram transferidos para militares, usando-se nomes falsos ou o de uma pessoa jurídica controlada pelo Almirante Massera. Uma investigação de 1999 concluiu não ter havido a apuração de todos os envolvidos no caso durante o julgamento das juntas, incluindo-se o famigerado Alfredo Astiz. O Judiciário argentino reconheceu que era necessário interpretar restritivamente as leis de anistia e que o sequestro visando o enriquecimento ilícito pessoal não poderia ser
tolerado sob os auspícios de uma suposta reconciliação em jogo. Mais que isso, não haveria que se discutir nenhuma cláusula de exclusão da responsabilidade, uma vez que os crimes aqui teriam o claro contorno de crimes permanentes. Com isso, Massera e quatro outros agentes da ESMA foram formalmente acusados.
Um último fator a ser considerado diz com o fato de que não haveria mais como sustentar o absurdo de permitir investigações sobre as crianças desapa-recidas e os bens das vítimas, mas, ao mesmo tempo, silenciar sobre os próprios crimes de desaparecimento forçado. Com isto, começaram a brotar decisões reconhecendo a invalidade das leis do ponto final e de obediência devida perante o Direito interno argentino e o Direito Internacional.
Um novo caminho começou a despontar com a decisão do juiz Gabriel Cavallo no caso Caso Simon (ARGENTINA, CORTE SUPREMA DE JUSTICIA DE LA NACIÓN, 2005)14. Júlio Simon, ou “Turco Julián” era acusado, juntamente com Juan Antonio Del Cerro e Carlos Alberto Rolón, de ter sequestrado José Liborio Poblete Roa, Gertrudis Marta Hlaczik e Claudia Vitoria Poblete, em 28 de novembro de 1978. Claudia Vitoria Poblete, então com oito meses de idade, seria entregue à família do General Ceferino Landa, passando a adotar o nome de Mercedes Beatriz Landa. Para proceder ao interrogatório de Simon e Del Cerro, o juiz de primeiro grau declarou a invalidade das leis de “ponto final” e “obediência devida” perante a Convenção Americana de Direitos Humanos, a Declaração Americana de Direitos Humanos, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes; e mais, com fundamento no art. 29 da Constituição Argentina, reconheceu a inconstitucionalidade e a nulidade daquelas normas. Isto já demonstra a possibilidade de que o controle de constitucionalidade pudesse funcionar em um modelo de força centrípeta, em que as instâncias inferiores “inspirariam” as instâncias superiores.
A CSJN (Corte Suprema de Justicia Nacional) entendeu que a lei de “obediência devida” visava convalidar uma decisão do Poder Executivo de declarar a
impu-14 ARGENTINA. Corte Suprema de Justicia de la Nación. S. 1767. XXXVIII. Símon, Julio Hector y otros s/ privación ilegítima de la libertad, etc. Causa n° 17.768. Fallos: 328:2056. Buenos Aires, 14 de junho de 2005. Disponível em <www.csjn.gov.ar>. Acesso em 12 jul. 2012.
nidade de pessoas do meio militar, mas que ela estava inquinada de “sérias falên- cias”. Pois não se poderia considerar que normas de hierarquia pudessem desculpar ações de conteúdo ilícito manifesto, atos atrozes ou aberrantes totalmente con- trários à Constituição. O órgão jurisdicional reconheceu, contudo, que cir-cunstâncias políticas impeliram a nação argentina a sucumbir perante este suposto conflito de interesses em nome da “paz social”. Ocorre que, desde a adoção da lei até o presente, o sistema jurídico argentino foi impactado por mudanças importantíssimas que exigiam uma revisão daquele resultado. O Direito Internacional dos Direitos Humanos, especialmente impulsionado pelo dispositivo do art. 25, inc. 22, da Constituição Argentina, não permitiria semelhante ponderação. Ainda que o Poder Legislativo ainda detivesse a prerrogativa de estabelecer anistias, não poderia fazê-lo nos moldes anteriores. Se outrora se aceitava tais normas em prol de um equilíbrio social entre civis e militares, hoje não mais se poderia entender que elas teriam o poder de determinar um esquecimento de graves violações de direitos humanos. A base dessa mudança de entendimento estaria também na jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A normativa internacional protetiva dos direitos humanos fez parte também, assinalou a CSJN, dos debates parlamentares que levaram à aprovação da Lei n° 25.779/2003, que anulou as leis de “obediência devida” e “ponto final”. Em tais debates, discutiu-se inclusive que o advento da lei anuladora ou revogadora seria impotente ante o princípio da “lei penal mais benigna”. Isto não teria passado desapercebido pelos representantes do povo que, ainda assim, viram nas normas do Direito Internacional dos Direitos Humanos uma vinculação mais exigente:
Asimismo, la discusión legislativa permite inferir que el sentido principal que se pretendió dar a la declaración de nulidad de las leyes fue, justamente, el de intentar dar cumplimiento a los tratados constitucionales en materia de derechos humanos por medio de la eliminación de todo aquello que pudiera aparecer como un obstáculo para que la justicia argentina investigue debidamente los hechos alcanzados por dichas leyes y, de este modo, subsanar la infracción al derecho internacional que ellas continúan representando. Se trató, fundamentalmente, de facilitar el cumplimiento del deber estatal de reparar, haciéndolo de la forma más amplia posible, de conformidad con los compromisos asumidos con rango constitucional ante la comunidad
interna-cional (ARGENTINA, CORTE SUPREMA DE JUSTICIA DE LA NACIÓN, 2005, p. 27-28).
A posição da CSJN foi precedida por diversos casos no controle difuso, como na Corte de Apelações de Salta (Cabezas, Daniel Vicente y Otros).
Por último, resta mencionar que a eleição em 2003 de Néstor Kirchner permitiu uma nova composição para a Corte Suprema argentina. Ele mesmo já havia mencionado publicamente sua opinião pela inconstitucionalidade das leis. Além disso, determinou a aposentadoria de agentes que pudessem enfrentar processos de responsabilização. Em agosto de 2003, como mencionado, o Congresso revogou as normas anistiadoras. O argumento que essa seria a norma mais favorável aos réus não chegou a imperar, dado que elas eram ab initio nulas, não tendo a força de lei. Note-se que este foi o argumento levantado na década de 1980 para não revogar, mas anular a auto-anistia dos militares estabelecida pela Lei 22.294/1983, por intermédio da Lei 23.040/198315.
6. justiça transnacional na europa: bélgica, frança,