• Nenhum resultado encontrado

COMUNIDADE DE DIACONIA: a misericórdia um dom que entregamos

No documento Fraternalmente em Cristo e La Salle (páginas 35-38)

LUGAR DE ACOLHIDA, DE COMUNHÃO, DE PRÁTICA DA MISERICÓRDIA

4. COMUNIDADE DE DIACONIA: a misericórdia um dom que entregamos

O dom que recebemos e partilhamos é, também, o dom que devemos entregar a Deus.

Novamente, é bom voltarmos nossos olhos para Jesus. Suas entranhas misericordiosas tradu-ziram-se sempre em ações salvíficas. Sabemos que a comunidade não existe para si mesma, mas que está em função da missão. Seu valor radica em ser mediação dos valores do Evange-lho. Trata-se de uma comunidade apostólica. Como diz Juan Ramón Moreno, um dos Jesuítas assassinados em El Salvador: “O elemento unificador da comunidade não é tanto a convivên-cia, mas o olhar juntos para o mundo, o povo, as gentes, deixando que esse povo de carne e osso, seja a realidade concreta que configure nossa ação e nosso modo de vida”.

Quando falamos de entrega e entrega total pensamos em Jesus, que nos amou até ao ex-tremo. Seu atuar sem medida, movido pelo amor e sua misericórdia sem limites, pode até es-candalizar-nos. Quantas palavras, parábolas e encontros de Jesus provocaram o escândalo dos bons. Como nos disse Enzo Bianchi: Sim. A misericórdia de Jesus, a que ele praticou e pre-gou é exagerada e escandaliza. Estamos mais dispostos aos atos de culto, à liturgia do que à misericórdia (Cf. Os 6,6; Mt 9,13; 12,7). Como escreveu exatamente Albert Camus em “A Queda”: “Na história da humanidade houve um momento em que se falou de perdão e misericórdia; mas durou muito pouco, mais ou menos dois ou três anos, e a história termi-nou mal” (Família Cristã, 08 de dezembro de 2015).

Mas hoje, com frequência, estamos vivendo outra realidade, na qual o que conta é uma intimidade sem história, a ânsia de êxito e de cultura à imagem e à aparência, que antepõe a realização pessoal às necessidades do mundo; todos elementos que nos afastam do outro e da misericórdia. Em chave bíblica poderíamos dizer que estamos passando de Amós, profeta da justiça, a Oseias¸ profeta da misericórdia e do afeto. Agrade-nos ou não, devemos estar aber-tos aos sinais dos tempos, que, com todas as suas ambiguidades, nos mostram o terreno no qual devemos semear a Boa Semente.

A um povo desanimado, ferido e fragilizado, Oseias alenta com a linguagem cálida do afeto, do perdão e da graça. Deus decide curar a Israel com o carinho e o afeto. Não será isso, para nós, um apelo para tomar mais a sério as feridas do coração dos homens, para curá-las?

A Boa Nova não é sobretudo consciência de sentir-se amado, valorizado, abençoado, como forma de contrapor-se à baixa autoestima de tantos irmãos/ãs. E numa sociedade, em que tudo se vende e se compra, não teremos que converter-nos à gratuidade que nos permite desenvol-ver a capacidade de contemplar, de agradecer, de maravilhar-nos ante o mistério ou a beleza?

Isso não significa renunciar à justiça. Porque a união a Javé deve cimentar-se na justiça e no

36

direito: “Eu te desposarei para sempre. Justiça e retidão nos unirão, junto com o amor e a ternura, a mútua fidelidade também. E assim conhecerás quem é Javé” (Os 2,21-22). (Cf.

Manuel Díaz Mateos, SJ, publicado em Páginas (CEP) Lima, abril 96).

Por isso Díaz Mateos afirma: “O compromisso pela libertação e pela opção pelos po-bres não se motiva unicamente pela urgência ou grandeza do problema. Motiva-se especial-mente quando descobrimos a gratuidade do amor de Deus que nos move a fazer-nos graça, dom e entrega como resposta, e quando experimentamos na própria carne a excessiva sensi-bilidade desse mesmo Deus para curar os males de seu povo. Falando de coração a coração contagia-nos algo do que aflige o coração do Pai comum, e somos convidados a sonhar com o que Ele sonha, que será sempre uma porta de esperança para seu povo (Art. cit. p. 12).

Não devemos esquecer, tampouco, que no mistério da Encarnação Jesus manifestou a bondade de Deus, Salvador nosso, e seu amor pelos homens. Não se ateve ao bem que poderíamos ter feito, mas que nos teve misericórdia e nos salvou” (Tt 3,4-5). Em Jesus, Deus nos fala de coração a coração, de rosto a rosto, de olhar a olhar. Sabemos, como nos diz São Mateus, que Ele “tomou sobre si nossos sofrimentos e carregou nossas enfermidades” (Mt 8,17). O convite que Jesus nos faz de fazer-nos crianças, é um convite para abrir-nos ao mundo da graça, da ternura, da carícia, do afeto, como o fazem as crianças. Sem dúvida os homens e as mulheres de hoje necessitam sobretudo de uma palavra ou de um gesto que lhes chegue ao coração; aí, então, se encontrarão com Deus e se abrirão a seus irmãos e irmãs necessitados. O desafio será sempre saber unir esta atitude próxima e compassiva com a palavra profética e o gesto contestatório, que brotam do mesmo amor.

CONCLUSÃO

Tanto a comunidade trinitária como a comunidade de Jesus e a primeira comunidade dos Atos, são ícones de nossas comunidades. As três nos falam de amor, de relação, de misericórdia. São três convites para, antes de abrir-nos ao mundo e viver “em saída”, como nos convida o Papa Francisco, abrir primeiro a porta da misericórdia à nossa comunidade, a nossos irmãos e irmãs. O Papa, na Audiência Geral de 16 de dezembro, nos dizia: A Porta indica o próprio Jesus, que disse: “Eu sou a porta. O que entra por mim se salvará; poderá entrar e sair, e encontrará seu alimento” (Jo 10,9). Atravessar a Porta Santa é a manifestação de nossa confiança no Senhor Jesus, que veio não para julgar, mas para salvar (Cf. Jo 12,47)... Atravessar a Porta Santa é sinal da verdadeira conversão de nosso coração.

Convém recordar, quando atravessamos aquela Porta que também devemos estar com a porta de nosso coração aberta. Abrir a porta de nosso coração é fazer da misericórdia a categoria mais importante de nossa relação com nossos irmãos e irmãs.

Unicamente a partir dessa experiência de viver juntos a paixão por Jesus e a paixão por nosso povo, como os discípulos de Emaús, que, após aquele encontro que fez arder seus corações, voltaram correndo à comunidade apostólica, para discernir as urgentes necessidades dos pobres, escutar e sentir o sofrimento dos homens, tocar solidariamente e curar os que estavam caídos à beira do caminho e anunciar a boa notícia de que o nome de Deus é misericórdia, e que a última palavra a terá o Deus da vida.

“A missão é paixão por Jesus mas, ao mesmo tempo, paixão por seu povo. Quando nos detemos diante de Jesus crucificado, descobrimos todo o seu amor, que nos dignifica e nos sustenta, e ali mesmo, se não somos cegos, começamos a perceber que este olhar de Jesus se

amplia e se dirige, cheio de carinho e de ardor, a todo o seu povo. Assim redescobriremos que Ele nos quer instrumentos para chegar cada vez mais perto de seu povo amado. Ele nos tira do meio do povo e nos envia ao povo, de tal modo que nossa identidade não é compreendida sem esta pertença” (EG 268). Certamente nossa identidade comunitária não se compreende sem esta pertença (Cf. EG 154, Discurso do Papa Francisco ao Capítulo Geral dos Dominicanos, 04/08/2016).

A nível pessoal e comunitário somos chamados a continuar escrevendo o Evangelho, o livro vivo da misericórida de Deus, como o salientamos nas palavras do Papa Francisco ao iniciar esta reflexão. Creio que a melhor expressão delas são as palavras com o mesmo convite, mas com um toque mariano, que nos ofereceu na homilia aos consagrados e consagradas em sua recente viagem a Polônia, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, e com as quais termino:

Pode-se afirmar que o Evangelho, livro vivo da misericórdia de Deus, que é necessário ler e reler continuamente, possui, ao final, páginas em branco: é um livro aberto, que somos chamados a completar dentro do mesmo estilo, isto é, realizando obras de misericórdia. Per-gunto-vos: Como estão as páginas do livro de cada um de vocês? Escrevem nelas cada dia?

Estão escritas apenas em parte? Estão em branco?

Que a Mãe de Deus nos ajude nessa tarefa. Que ela, que acolheu plenamente a Palavra de Deus em sua vida (cf. Lc 8,20-21), nos conceda a graça de sermos escritores vivos do Evangelho; que nossa Mãe de misericórdia nos ensine a curar concretamente as chagas de Jesus em nossos irmãos e irmãs necessitados, dos próximos e dos afastados, do enfermo e do emigrante, porque servindo ao que sofre se honra a carne de Jesus Cristo (30 de julho de 2016).

Sem dúvida, entre esses próximos de que nos fala o Papa estão, em primeiro lugar, nos-sos irmãos de comunidade, cujas chagas, que são as de Jesus, devemos curar, e em cujos ros-tos, com olhar de Deus, devemos honrar a carne de Cristo.

38

PALAVRA DO FUNDADOR

“Já que Deus, em sua misericórdia, vos confiou tal ministério, não adultereis a sua Palavra.

Granjeai-vos, diante dele, a glória de desvendar a verdade àqueles que estais encarregados de instruir. Nas instruções que lhes dais, centrai nessa tarefa todo o vosso empenho. Considerai-vos nisso como ministros de Deus e dispensadores de seus mistérios” (MR 193,1,2).

No documento Fraternalmente em Cristo e La Salle (páginas 35-38)