UMA ESPIRITUALIDADE PARA IRMÃOS DEDICADOS AOS POBRES
2. NOSSO CAMINHAR PARA OS POBRES À LUZ DO FUNDADOR
O dar educação cristã aos filhos dos artesãos e dos pobres, nossa primeira finalidade, não se reduz a uma forma de orientar nossa missão apostólica prioritariamente para eles, antes deve ser, no seguimento dos passos de nosso Fundador, uma verdadeira escola de espirituali-dade e de oração. Razão pela qual quero iluminar nosso próprio itinerário com os passos por ele dados e as vivências experimentadas por São João Batista de La Salle.
O valor espiritual do serviço aos pobres é expresso, em belíssimas palavras, pelo Do-cumento sobre a Vida Consagrada: Servir aos pobres é um ato de evangelização e, ao mesmo tempo, sinal de autenticidade evangélica e estímulo à conversão permanente à vida consa-grada, pois, como diz São Gregório Magno, ‘quando alguém se abaixa para o mais baixo de seus próximos, então, admiravelmente, se eleva à mais alta caridade, pois que, se com be-nignidade desce ao inferior, valorosamente retorna ao superior’ (VC 82).
O primeiro artigo da Regra, recolhendo a tradição de mais de 300 anos de história, ex-pressa a experiência vivida pelo Fundador e pelos primeiros Irmãos que hoje somos chamados a continuar: Sensibilizados com o abandono humano e espiritual “dos filhos dos artesãos e dos pobres”, João Batista de La Salle e seus primeiros Irmãos consagraram-se a Deus por toda a vida, em resposta ao seu chamado, para dar-lhes educação humana e cristã e, assim, estender a glória de Deus na terra. (R 1) Consagrar-se aos pobres é consagrar-se a Deus. É nossa maneira peculiar de procurar sua glória, é nosso caminho espiritual. Podemos vê-lo nas seguintes dimensões, fazendo uma leitura lassaliana de um artigo do jesuíta panamenho Car-los Cabarrus.
Os pobres são nossos mestres. Na prática, o mais importante de nosso seguimento de Jesus não é a denúncia do que profetiza de fora, a partir de dados estatísticos ou textos bíbli-cos, mas do que anuncia com sua própria pessoa, reconciliada e pobre, de que é possível um novo modo de viver. Tendes vós tais sentimentos de caridade e ternura com os meninos po-bres que deveis educar? Aproveitais o afeto que eles vos tem para levá-los a Deus? (MF 101,3)
Os pobres são nossos juízes, como o podemos ver em Mateus 25, e como no-lo re-corda o Fundador nas Meditações para o Tempo do Retiro. Quantas vezes avaliamos obras e instituições, a partir da perspectiva deles, de seus juízos, ou apenas a partir de resultados? O mesmo podereis dizer de vossos discípulos. No dia do juízo, serão vossa glória, se os houver-des instruído bem, e se tiverem aproveitado vossas instruções. Pois estas e os frutos que delas tiraram, serão manifestados à face de todos. Então sereis glorificados, por terdes instruído bem aos alunos, e não somente naquele dia, senão também por toda a eternidade, porque a glória que lhes tiverdes alcançado se derramará sobre vós. (MR 208,1)
Servir aos pobres de Cristo fortalece a vocação e nosso seguimento de Jesus. Por tanto, quanto mais os amardes, tanto mais pertencereis a Jesus Cristo (MF 173,1). Por isso devemos pedir a graça de encontrar nos homens o rosto de Jesus. É um dom de Deus. Quantas vezes me foi dado contemplar assim o Senhor? A São Vicente de Paulo, por sua vez, agrada-va-lhe afirmar que, quando se está obrigado a deixar a oração para atender a um pobre em necessidade, na realidade a oração não se interrompia, porque “se deixava a Deus por Deus” (VC 82). Não era outro o pensamento de nosso Fundador: Reconhecer a Jesus sob os farrapos dos meninos que deveis instruir (MF 96,1). A Regra reafirma esta convicção: O es-pírito de fé lhes ensina a reconhecer o convite de Deus a amá-lo e servi-lo nos outros e em tudo o que constitui sua vida. Acolhendo o incentivo do Fundador, os Irmãos reconhecem a Jesus Cristo nos pobres e o adoram neles (R 64).
Os valores dos pobres costumam ser mais cristãos do que os da sociedade de consu-mo em que viveconsu-mos. Solidariedade, capacidade festiva, sua própria fragilidade, o viver sem saldos nem seguros os faz desinstalados, generosos, livres. Eram os pobres os que ordinaria-mente seguiam a Jesus Cristo e são eles, também, os melhor dispostos a conformar-se com sua doutrina, porque encontram em si menos obstáculos exteriores para praticá-la (MF 166,2). E, na meditação sobre São Francisco de Assis, o Fundador acrescenta: Por vosso em-prego, estais obrigados a amar os pobres, visto que vossa função é instruí-los. Como São
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Francisco, considerai-os como a imagem de Jesus Cristo e como os mais dispostos a receber em abundância o seu Espírito. Portanto, quando mais os amardes, tanto mais pertencereis a Jesus Cristo. (MF 173,1).
Crer que os pobres são os criadores do futuro. Ter consciência de que eles são os verdadeiros agentes de mudança, fonte de dinamismo para todos. Querer, por isso, colaborar em mudar as estruturas da história. Estou fazendo o que posso, e da melhor maneira, para ali-viar e desenraizar a injustiça no mundo? Refleti sobre a prática generalizada entre os operá-rios e os pobres, de deixarem os filhos viver soltos pelo mundo, na vadiagem, antes de poder empregá-los em alguma profissão. Não cuidam absolutamente em colocá-los em uma escola, já por sua pobreza, que não lhes permite pagarem os professores, já pela necessidade de procurarem trabalho fora de casa. Isto forçosamente os obriga a deixá-los ao abandono. As consequências disso são funestíssimas... Deus teve a bondade de remediar tão graves incon-venientes, pelo estabelecimento das Escolas Cristãs, nas quais se ensina gratuitamente e só pela glória de Deus (MR 194,1).
E a Regra o expressa com este compromisso: João Batista de La Salle despojou-se dos próprios bens para associar-se com os mestres pobres e, com eles, depositou sua confiança na providência de Deus, tornando possível a Sociedade das Escolas Cristãs. Hoje, os Irmãos, pessoas de esperança, se comprometem nesse mesmo itinerário, para adquirir um coração de pobre e converter-se a Deus, sua verdadeira riqueza. Tornam, assim, possíveis a associação entre eles, a disponibilidade a seus colaboradores e aos apelos da Igreja, a solidariedade e a proximidade com os pobres a quem desejam servir (R 40).
É a pobreza pessoal que tornará crível meu trabalho (R2). Coerência real com nossa opção. Pois a pobreza vos deve ser amável, a vós que estais encarregados de educar aos po-bres (MF 96,3). Ao falar de nosso voto de pobreza a Regra nos diz: Em seu estilo de vida pes-soal e comunitário, os Irmãos procuram ser simples, para se tornarem próximos aos pobres.
Trabalhando com eles e partilhando sua condição, aceitam, com alegria, o risco de se verem privados de seu prestígio pessoal (R 40,1).
Os pobres são prioridade. Em nossos critérios práticos, tem prioridade as necessida-des dos pobres, dos menos dotados? (R 40). Quais são nossos critérios de admissão? Todos os dias deveis instruir os meninos pobres. Amai-os ternamente, como São Cipriano, que nisto seguiu o exemplo de Jesus Cristo. Deveis preferi-los aos que não são pobres, pois Jesus Cris-to não nos diz: “O Evangelho é anunciado aos ricos, mas, aos pobres”. Encarregados dos pobres por Deus, é a eles que deveis ensinar as verdades do Santo Evangelho (MF 166,2).
Neste mesmo espírito do Fundador a Regra nos diz: No espírito das bem-aventuranças, os Irmãos consideram tudo o que são e o que possuem como dons a partilhar. Em seu trabalho, conservam espírito de gratuidade. Dedicam atenção especial aos mais pobres, destinatários privilegiados da Boa-Nova. Buscam sempre os melhores meios para responder às suas neces-sidades (R 40,1).
2 A fonte exata dessa citação não foi localizada.
Ser solicitados pelos pobres e a perseguição: a grande evolução de nosso atuar. É bom sinal se os pobres nos acolhem e se sentem bem conosco. Somos pobres Irmãos, ignora-dos e desconsideraignora-dos pelas pessoas do mundo. Somente os pobres nos procuram. Eles nada tem para nos dar, a não ser seus corações, dispostos a receber nossos ensinamentos (MF 86,2). É bom sinal que os inimigos da justiça nos persigam. Toda gratidão que se deve espe-rar em paga da educação das crianças, principalmente dos pobres, são injúrias, ultrajes, calúnias, perseguição e mesmo a morte... Não espereis qualquer outra recompensa no em-prego que Deus vos confiou, se só trabalhais por Deus.(MF 155,3)
Um critério importante e indispensável de nossa formação permanente deve ser o do serviço educativo dos pobres, tal como o afirma a Regra: Seguindo a Jesus Cristo e a exemplo de seu Fundador, os Irmãos consideram seu crescimento pessoal e comunitário, intelectual e espiritual, à luz da progressiva conversão ao Deus dos pobres. (R 79)
Além do trabalho mencionado é preciso, ainda, ser criativos para trabalhar com o mundo dos necessitados. Evangelicamente sempre é melhor e mais seguro contar com uma instância que vincule a esse mundo (Cf. Mt 25; Lc 4,17-20; Mt 11,2-7). Para nós, Irmãos, é uma forma concreta de viver nosso voto de associação para o serviço educativo dos pobres, quando temos a sorte, melhor, a graça, de trabalhar diretamente com eles. Tendes a felicidade de trabalhar na instrução dos pobres e ligados a um trabalho que não é estimado nem honra-do, a não ser pelos que tem o espírito cristão. Agradecei a Deus por vos ter chamado a uma vocação tão santificante… (MF 113,1).