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Comunidades alternativas e o surgimento do “comum”

Capítulo II: PROPOSTA DE FILIAÇÃO: de onde vem o fenômeno?

2.4. Comunidades alternativas e o surgimento do “comum”

Comunidades alternativas são agrupamentos diversos que propõem modelos outros de convivência e quanto ao modo de produzir e consumir, e surgem para realizar algum propósito que um grupo de pessoas tenha em comum. Elas podem surgir empurradas por alguma necessidade e/ou tentando atingir um objetivo, como comunidades quilombolas; inspiradas em movimentos contraculturais e a favor da liberdade, como comunidades hippies e assemelhadas; adquirir feições religiosas, geralmente com influência de lideranças; ser mais rurais e buscar a autosustentabilidade; ou urbanas, guiadas por discussões contemporâneas. São muito diversas, geralmente

44 Nesse período foram assessoras do MinC, no segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, quando esta resolveu se aproximar mais das mídias digitais, após avaliações sobre Junho de 2013 e já enfrentando as dificuldades que levaram ao impeachment. O Ministro da Cultura era Juca Ferreira, que tinha como assessora Ivana Bentes, professora de Comunicação da UFRJ, estudiosa de mídias alternativas digitais e colunista da Mídia NINJA. As ninjas permaneceram no MinC até o afastamento de Dilma, quando Michel Temer assumiu a presidência e promoveu alterações nos ministérios.

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amparadas em conceitos de cooperativismo, estabelecendo novas sociabilidades e uma cultura interna própria seguida pelos participantes.

Para Olson (2015), os agrupamentos coletivos agem por meio de alguma coerção ou estimulados por algum incentivo, tentando satisfazer interesses comuns e frequentemente servindo também a interesses individuais, sem perder sua função e característica básica que é a sua faculdade de promover interesses grupais. Esse estudioso se dedicou especialmente a ação coletiva de grupos organizados, como sindicatos e associações de trabalhadores, centrando grande parte de suas análises em benefícios econômicos. Mesmo assim, reconheceu que os incentivos econômicos não são os únicos possíveis para manter um grupo coeso e em ação. “As pessoas algumas vezes sentem-se motivadas também por um desejo de prestígio, respeito, amizade e outros objetivos de fundo social e psicológico” (OLSON, 2015, p.72). O autor argumenta que há ainda outros incentivos, como eróticos e morais.

Um outro estudo chegou mais próximo dos atores alternativos que buscamos alcançar aqui. Falamos do cientista social norte-americanos Howard S. Becker (2008) e seu estudo seminal sobre os outsiders, nos anos 1960, investigando indivíduos que não seguem as regras e posições consideradas “normais” na sociedade e constituem grupos que têm suas próprias regras e conceitos de normalidade. Seu estudo, com subtítulo “estudos de sociologia do desvio”, representou uma guinada nas investigações sobre a transgressão ao propor que os definidos como desviantes seriam resultantes de um processo de rotulação que envolve aqueles que formulam as regras sociais e suas sanções. Essa perspectiva identifica que a rotulação é um processo discriminatório e funcional (pretende distinguir os “disfuncionais”). Para Becker (2008, p. 28), as perspectivas das pessoas que se envolvem num comportamento rotulado de desviante “são provavelmente muito diferentes das visões daquelas que o condenam” (BECKER, 2008, p. 28).

As pesquisas de Becker (2008) verificaram que membros de grupos desviantes organizados possuem um sentimento de destino comum, de estar no mesmo barco, de enfrentar os mesmos problemas. A partir disso as pessoas desenvolvem uma cultura própria, definida pelo autor como um “conjunto de perspectivas e entendimentos sobre o que é o mundo e como se deve lidar com ele” (BECKER, 2008, p. 48). O pertencimento a um grupo desse tipo solidifica a identidade desviante.

Becker (2008) ainda observou que a maior parte dos grupos desviantes tem uma fundamentação autojustificadora (ou ideologia) – responsável por fornecer ao indivíduo razões que lhe parecem sólidas para levar adiante a atividade iniciada. Tentando

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compreender porque as pessoas permanecem em atividades consideradas desviantes, esse autor identificou um sentimento de prazer na experiência, que leva a definir seus efeitos como agradáveis, desejados, procurados.

Estudando atores como músicos de casas noturnas, a pesquisa chegou a relatos em que estes personagens se dizem livres de interferência em seu trabalho, criando um tipo de prestígio profissional que entra em conflito com uma noção de prestígio de um emprego mais convencional. Verificou-se no grupo pesquisado que o ethos daquela atividade fomenta admiração pelo comportamento espontâneo e confere recompensas não oficiais.

Becker (2008) ainda chama a atenção para uma característica importante dos comportamentos ou ações consideradas desviantes: eles violam a hierarquia da sociedade, geralmente preservada pelos que ocupam posições de poder e autoridade. Por isso “precisamos descobrir por nós mesmos a verdade sobre fenômenos supostamente desviantes, em vez de confiar em relatos oficiais” (BECKER, 2008, p. 207). O desviante, assevera o autor, é uma categoria sempre em negociação.

Na cena contemporânea, as comunidades alternativas urbanas têm influência de conceitos como solidariedade, cooperação, colaboração e também apresentam novidades, reacendendo o tema do direito à cidade (LEFEBVRE, 2001), seus espaços e formas de apropriações coletivas. Nas pesquisas, algumas discussões ganham corpo com temas que investigam comunidades alternativas, ferramentas participativas, direito ao espaço público, moedas e financiamento do comum (SILVEIRA; SAVAZONI, 2018).

Dardot e Laval (2017) se dedicam ao estudo das comunidades alternativas no século XXI, nomeando-as de “comuns”, que definem como o grupo unido por uma racionalidade alternativa, inversa a concorrencial do neoliberalismo, onde o interesse reside não só na eficiência produtiva, mas também no desenvolvimento de comportamentos diferentes e de novas subjetividades. Os comuns, assim como as comunidades alternativas anteriores, além de encarnarem uma proposta alternativa, se constituem em um significado crítico.

No livro Comum, ensaio sobre a revolução no século XXI, eles apontam o princípio político do comum emergindo de lutas democráticas e dos movimentos sociais e culturais, se apresentando em grupos organizados em co-atividades, opondo ao velho modelo moral de uma comunidade de bens, o modelo de uma comunidade de indivíduos - fonte de energia e forças que conferem poder próprio a seus membros.

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Fazendo uma busca etimológica do termo “comum”, Dardot e Laval (2017)

compreendem que decifrar uma palavra, mais do que um artifício de explicação do

termo, é importante na compreensão da prática. Assim, os autores apresentam a raiz

“com” relacionada a tudo aquilo que é feito junto com os outros; e o termo de origem latina “munus”, que faz referência a doação, mas também a obrigação, estabelecendo uma lógica de reciprocidade. “Munus” está na palavra município, municipalidade, munícipe, numa alusão ao conjunto de moradores que, segundo a origem do termo, devem estabelecer relações de obrigações recíprocas ao viverem juntos.

Embora entusiastas do comum, esses estudiosos reconhecem que a formação de comuns é difícil e tateante e que essas comunidades ainda estão sendo inventadas, baseadas em princípios de cooperação e coobrigação. Eles falam em um novo tipo de instituição, instituinte, e como tal, questionadora das instituições estabelecidas. Nesses comuns, a ideia de direito de propriedade é substituída pela ideia de direito de uso.

Alguns estudos têm apontado o crescimento de comunidades com racionalidades alternativas não vistas apenas como algo restrito a grupos tradicionais (como indígenas) ou a grupos de um passado recente (como comunidades hippies), mas sendo reelaboradas em grupos e práticas sociais urbanos (MARTINS, 2002; DARDOT; LAVAL, 2017; VIVEIROS DE CASTRO, 2018).

Além das demais filiações apontadas, a Mídia NINJA também pode ser vista como herdeira das comunidades alternativas. Ao adotar práticas “desviantes”, não seguindo regras consideradas “normais”, ela pode ser considerada um outsider (BECKER, 2008). E ao viver uma experiência autojustificadora, valorizando sentimentos de prazer e efeitos agradáveis, adotando princípios de co-atividades e co-responsabilidades, onde a lógica do valor de uso se sobrepõe ao direito de propriedade individual, pode ser vistas como um “comum” (DARDOT; LAVAL, 2017).

Considerações sobre este capítulo

Neste capítulo propomos uma filiação para a Mídia NINJA, perseguindo suas fontes originárias, na busca de fornecer embasamento para uma compreensão mais ampla sobre o fenômeno dos coletivos de comunicação.

Uma atenção inicial é dada a fonte “novos movimentos sociais”. No livro Os novos bárbaros (SAVAZONI, 2014), Pablo Capilé, um dos co-fundadores da Mídia NINJA, afirma que o FdE se visualiza, desde o início, como movimento social. Para Savazoni (2014, p.17-18), “há múltiplas abordagens possíveis e, de alguma maneira, elas

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coexistem justamente pela novidade que a organização representa. Tudo isso e nada disso”.

Enxergamos que as origens da Mídia NINJA são plurais, com raízes políticas e culturais, vindas de diferentes mundos que se entrecruzam. Assim, além dos novos movimentos sociais, discutimos os papeis que desempenharam as mídias alternativas e o surgimento do midiativismo, a cultura hacker e as comunidades alternativas. Essas quatro filiações coexistem e todas elas são sustentadas em ação política e têm um fundo emocional. Junto ao capítulo anterior, de contextualização, apresentamos até aqui as ferramentas de base para a compreensão do fenômeno coletivo de comunicação.

No próximo capítulo, vamos aprofundar o referencial teórico das emoções, como abordagem que propomos nesta pesquisa para analisar o engajamento das pessoas nos coletivos.

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CAPÍTULO III. ABORDAGEM TEÓRICA: