• Nenhum resultado encontrado

Movimentos de influências e Junho de 2013

Capítulo I: CONTEXTOS SOCIO-HISTÓRICOS

1.2. Emergência dos novos alternativos

1.2.1. Movimentos de influências e Junho de 2013

O surgimento das mídias alternativas do século XXI bem como o retorno das mobilizações de rua, têm como marco, protestos ocorridos contra a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), que acontecia em Seattle, nos Estados Unidos, em novembro de 1999. Os protestos reuniram grupos distintos, como ONGs, sindicatos, ecologistas, anarquistas, estudantes e também grupos black blocs com práticas de ação direta. As manifestações foram duramente reprimidas e o movimento passou a

33

ser conhecido como “Batalha de Seattle”, marcando o início de movimentos altermundialistas e contrários à globalização.

Insatisfeitos com a cobertura da mídia convencional sobre os protestos, diferentes mídias alternativas e ativistas independentes criaram o projeto Indymedia (no Brasil,

Centro de Mídia Independente ou CMI), que pôs no ar um site para publicação livre de

relatos alternativos à imprensa, abastecido de forma colaborativa, não apenas por jornalistas independentes, mas também por ativistas. O modelo, que seria temporário, tornou-se permanente e se constitui em uma rede internacional de produtores de

informação que se autodeclara livre e independente, servindo de modelo e inspiração às

experiências de mídias alternativas que se seguiram pelo mundo (CASTELLS, 2013; MALINI, ANTOUN, 2013; SAVAZONI, 2014; CABRAL, 2019).

O sucesso daquela iniciativa inspirou no Brasil a Ciranda Internacional da Informação Independente, cobertura colaborativa posta em prática pela primeira vez em 2001, durante o I Fórum Social Mundial (FSM), em Porto Alegre, Rio Grande do Sul,

evento organizado por movimentos sociais de vários países e realizado ao mesmo tempo

em que ocorria o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suiça. O objetivo era criar um contraponto a este, propondo alternativas para uma transformação social que não

privilegie apenas a economia globalizada. Após essa experiência começam a surgir várias

iniciativas de mídias livres no Brasil, principalmente digitais (ROVAI, 2018).

Tornada discussão relevante desde aquele I Fórum Social Mundial, o tema do direito à comunicação e a necessidade da construção de narrativas alternativas à mídia hegemônica tem acompanhado todas as edições do FSM. Em junho de 2008 essas discussões ganharam também espaço próprio no Fórum de Mídia Livre (FML), que reuniu, no Rio de Janeiro (RJ), comunicadores alternativos, ativistas da mídia, representantes de movimentos sociais, professores e estudantes. No ano seguinte (2009), em Belém (PA), esses mesmos grupos reunidos realizam o I Fórum Mundial de Mídia

Livre (FMML).12

Paralelamente, desde 2003, com a posse do Governo Lula (2003-2006 e 2007- 2010) e o já crescente movimento de mídias livres no Brasil, o tema do midialivrismo entrou em pauta como política pública de Estado via Ministério da Cultura (MinC -

12 Todos esses eventos (FSM, FML e FMML) continuam a ocorrer, reunindo organizações e pessoas em diferentes cidades do mundo a cada edição, tendo o Brasil como lócus importante. O FSM, depois das primeiras edições, deixou de acompanhar o calendário do Fórum Econômico Mundial de Davos, mas continua se propondo a ser um contraponto a este.

34

primeiro com o Ministro Gilberto Gil e depois com o Ministro Juca Ferreira). Foram feitos investimentos em Pontos de Cultura pelo Brasil, que se constituía em financiar projetos implementados por entidades diversas, instalados em casas ou centro culturais, agregando outros agentes como escolas, igrejas, grupos de bairros. Cada Ponto de Cultura recebia uma verba do MinC para investir sendo que, parte do investimento, necessariamente deveria ser utilizado para aquisição de equipamento multimídia (com uso de software livre oferecido pela projeto), composto por computador, miniestúdio de gravação, câmera digital e ilha de edição. A medida visava permitir a produção e divulgação de iniciativas culturais locais que não tinham acesso à grande mídia. Ajudou a possibilitar o florescimento de ações em pontos mais periféricos do país, enquanto contribuía com a proliferação de coletivos de comunicação, que nasciam ligados a iniciativas dos grupos culturais (SAVAZONI, 2014).13

Em março de 2013 o FSM aconteceu em Túnis, Tunísia, no norte da África, cidade que deu início à chamada Primavera Árabe, dois anos após esses movimentos. Estiveram em pauta, os desdobramentos destes eventos e dos “ocupas” (Europa e Estados Unidos). À época, Orrico (2013), da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip), participante do FSM, em artigo publicado, avaliou que aqueles movimentos insurgentes tiveram importância como construção coletiva anti-sistêmica e representavam, de certa forma, uma reemergência do anarquismo, mas criticou o fato de se manterem muito restrito às classes médias que têm acesso às TICs e o fato de serem pouco abertos a reconhecer a história de lutas dos movimentos sociais organizados que os precederam e que continuavam sendo plataformas de lutas.

No FSM da Tunísia, com internet sem fio e livre, os integrantes do Fora do Eixo fizeram coberturas ao vivo da marcha de abertura do Fórum e usaram pela primeira vez a expressão Mídia NINJA.

Com todo esse percurso, quando Junho de 2013 chegou, já encontrou terreno fértil para a emergência dos coletivos de comunicação na dimensão que alcançaram. A grande onda de protestos no Brasil, conhecida como Jornadas de Junho14, partilhou certas

13 No Governo Dilma Rousseff (2011-2014 e 2015-2016 – interrompido pelo impeachment) os investimentos nos Pontos de Cultura sofreram cortes. Quando Michel Temer assume a presidência (2016), chega a anunciar a extinção do Ministério da Cultura para transformá-lo numa Secretaria. A decisão foi revista, mas o Ministério não teria mais o mesmo prestígio ou investimento, chegando a ter quatro ministros em dois anos, um deles interino. Quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência (2019) concretizou a ideia de transformar o Ministério da Cultura em Secretaria, diminuiu ainda mais os recursos e aumentou o controle sobre o que está sendo produzido.

14 Os movimentos de Junho de 2013 recebem algumas denominações (GOHN, 2015). Os manifestantes costumam usar com mais frequência a expressão Jornadas de Junho. O termo faz referência as Jornadas de

35

características com as manifestações no mundo árabe e com os “ocupa”, como já citado (ocupação de espaços públicos, horizontalidade, uso intenso de comunicação via mídias sociais como instrumentos de organização e para narrar o que acontecia). No Brasil, como lá fora, os protestos também são reflexo do desencanto da população com os sistemas representativos e modelos institucionalizados (CASTELLS, 2013; GOHN; BRINGEL, 2014; GOHN, 2015). Não é à toa que um dos lemas das Jornadas de Junho do Brasil era “não me representa”.

A ação dos coletivos de comunicação, empenhados na construção de um relato alternativo dos eventos, diferia tanto das mídias estatais (TUFECKI, WILSON, 2012) como dos veículos da mídia mainstream (CASTELLS, 2013; GOHN; BRINGEL, 2014; GOHN, 2015; FOLETTO, 2017). Organizados a partir de uma lógica mais horizontal e colaborativa e, neste momento produzindo majoritariamente conteúdo audiovisual, os novos atores surpreendem a imprensa hegemônica.

Ao longo dos dias de protestos, acontece uma mudança na abordagem da cobertura jornalística dos veículos mainstream, que a princípio se referiam as Jornadas de Junho como vandalismo e passam a denominá-las manifestações. Dois fatores contribuíram para essa mudança: a) a forte repressão policial aos protestos, e b) as imagens de violência gravadas e transmitidas via mídias sociais, provocando comoção na população que não estava presente nas manifestações e gerando simpatia pelos manifestantes (GOHN; BRINGEL, 2014; TRINDADE, 2017). Os questionamentos à mídia empresarial apresentados pelos novos meios alternativos terminaram encontrando ressonância em parte do público que, ao longo do tempo, já desenvolvia capacidades críticas frente as narrativas jornalísticas.

Junho de 2013 se torna, assim, um momento flagrante de manifestações também contra os meios de comunicação mainstream. Os manifestantes interpretaram as empresas de mídia empresarial como aliadas ao capital e contrárias aos interesses públicos, como estavam sendo percebidos os bancos e grandes empresas globalizadas – que viram o alvo mais comum dos protestos com depredações. Gohn (2015) destaca que alguns protestos desse período tiveram como alvo empresas definidas como representantes do modelo que

Julho, série de manifestações de rua que marcam a Revolução Russa de 1917, levando o partido Bolchevique ao poder, mais tarde denominado Partido Comunista (FITZPATRICK, 2017). Também são chamados de Jornadas de Junho as manifestações da revolta operária ocorrida em Paris em junho de 1848, contra a Segunda República francesa, que se mostrava conservadora e hostil ao socialismo (AGULHON, 1991).

36

se rejeitava. Dois protestos deste período se voltaram especificamente contra empresas de comunicação: em frente à sede da Rede Globo/SP15, no dia 17 de junho de 2013, fase

de auge das manifestações; e contra o grupo da Editora Abril, que publica a revista Veja, no dia 23 de agosto de 201316 (GOHN, 2015).