2.5 TEORIA DAS PRÁTICAS SOCIAIS (SPT)
2.5.2 Comunidades, Feixes e Constelações de Práticas
uma forma de tradição deve-se observar dois aspectos: 1) Nível individual: a noção
de que a prática implica elementos de hábitos e aprendizagem, sustentando
maneiras de fazer e ser; 2) Nível histórico: a noção de que a prática vai além do
individual e persiste no tempo.
Silveira (2016) discorre que a organização de uma prática pode ser retratada
como uma mente objetiva, como uma matriz normativa de estados mentais. Os
praticantes possuem versões dessa matriz, da qual, por meio de formação e de
aprendizagem, podem chegar a ter versões aproximadas, mas nem individualmente,
nem em sua totalidade, as versões particulares alcançam a diretriz normativa dessa
matriz ou da mente objetiva da prática (SCHATZKI, 2005).
Já Shove e Pantzar (2005a) entendem as práticas como constituídas por
imagens relacionadas a seus significados e símbolos, por competências ligadas ao
saber fazer e por materiais referentes aos artefatos e tecnologias que estão
constantemente integrados ao desempenho. Eles defendem ainda que as práticas
são assimiladas ou alteradas em consequência de ações repetidas pelos praticantes.
2.5.2 Comunidades, Feixes e Constelações de Práticas
Antes de entender a proposta dos teóricos quanto a comunidades, sistemas,
feixes e constelações de práticas, é pertinente entender mais profundamente o que
se entende por prática.
A prática, para Schatzki (2002, 2003, 2010, 2011), pode ser entendida como
conjuntos abertos espacialmente, temporalmente dispersos, de atos e ditados
organizados por entendimentos comuns, estruturas teleoafetivas (emoções, tarefas e
regras), artefatos e coisas. oOrganizados por entendimentos comuns e por um
composto articulado de “fazeres e dizeres” incorporados e entrelaçados a arranjos
materiais, que governam os contextos do caminho no qual ocorrem, e as atividades
que compõem feixes e fenômenos sociais.
Silveira (2008), a partir de um recorte epistemológico, defende a prática como
significado, afirmando que ela tenta compreender a vida a partir de um processo, e
tem como compromisso algo significativo, haja vista que viver é um processo
constante de negociação de significado. Nesse sentido, são produzidos significados
que ampliam, desviam, ignoram, reinterpretam, modificam ou confirmam as
experiências já vividas. A negociação de significados acontece o tempo todo, é
dinâmica e histórica. Nesse sentido, entra a coisificação ou reificação, que está
voltada para transformar algo em material e concreto, que possa ser quantificado
e/ou materializado.
Gherardi e Strati (2014) apresentam a definição de prática como um “fazer
coletivo conhecível” e de uma atividade de teorização como uma prática situada
dentro de uma coletividade que a sustenta socialmente. Os autores chamam
atenção também para o entendimento sobre as práticas sociais, laborais e
organizacionais, aquelas que vão além do conhecimento do objeto para conhecer as
atividades, algo que as pessoas “fazem” juntas, coletiva e socialmente.
Aliado a esse pensamento, busca-se entender as comunidades de práticas,
fazendo-se necessário refletir que elas têm compartilhamento mútuo e objetivo
comum. Nesse sentido, toda comunidade de prática precisa ter três dimensões, que
são: um compromisso mútuo, um empreendimento comum e um repertório
compartilhado (SILVEIRA, 2008). O compromisso mútuo está voltado para as
relações, para o fazer algo em conjunto, para a manutenção da comunidade e
complexidade social. O empreendimento comum refere-se aos ritmos, interpretações,
responsabilidade mútua e resposta local, enquanto o repertório consiste em estilos,
artefatos, relatos, instrumentos, eventos históricos, conceitos, ações e discursos.
Em um contexto sistêmico, toda comunidade de prática tem o objetivo de
por uma vontade súbita, mas costumam desenvolver-se informalmente, acumulando,
através do tempo, uma história de aprendizagem” (NICOLINI, 2013, p. 16). E, a partir
disso, é importante destacar que, nessas comunidades, há “um senso comum de
empreendimento e uma percepção do valor que vai sendo agregado” (NICOLINI,
2013, p. 16).
Uma comunidade de prática é, portanto, um lugar de compromisso, em que a
prática existe como limite, integrada com o humano e o não humano, tendo a
sinergia e o aprendizado como elementos norteadores.
Além da comunidade de prática, segundo Schatzki (2010), ao se trabalhar
com a ontologia da teoria da prática social, é importante olhar para as constelações
de práticas que se desenham pela conexão de diferentes feixes de práticas, ligadas
no tempo através da relação entre arranjos e práticas, entre práticas e entre arranjos.
Schatzki (2011) argumenta que as atividades, entidades, regras,
entendimentos e teleologias que estão em movimento, gerando uma ação qualquer
e uma situação local, podem ser elementos de fenômenos entendidos como práticas,
arranjos e feixes. Portanto, um processo de práticas que envolve situações e fazeres
específicos de determinados grupos pode ser entendido com feixes de práticas. O
autor defende ainda que o surgimento de um feixe é o estabelecimento de um ou
mais coletores de atividade que transcendem um arranjo particular. Esse processo
pode envolver, entre outras coisas, a construção de vínculos entre práticas ou
arranjos anteriormente desconectados, a apropriação ou produção e a introdução de
entidades e arranjos materiais. Chama-se atenção para a disseminação de um feixe
existente em feixes descendentes que se desenvolvem separadamente, a
hibridização de feixes existentes em um novo feixe, o acúmulo de pequenas
mudanças ao longo do tempo e a cristalização de feixes em torno de pessoas ou
coisas. O surgimento de um feixe é o surgimento de uma nova combinação de
ações, ditados, regras, teleologias, entendimentos, arranjos materiais e relações
entre práticas e arranjos.
Silveira (2016) argumenta que as práticas se unem em feixes, estes em
constelações e as constelações em plenário de práticas, que representa a totalidade
das práticas.
Em um paralelo com o objeto de estudo, a construtora é uma malha de feixes
de práticas, com inúmeros arranjos dentro de um grande plenário de práticas, da
constelação do setor da construção civil.
2.5.3 Perspectiva da Teoria da Prática Social e sua Utilização para
No documento
PRÁTICAS DE ECOINOVAÇÃO E A TRANSIÇÃO SOCIOTÉCNICA NA CONSTRUÇÃO CIVIL: UM ESTUDO DE CASO
(páginas 55-58)