e mudanças nos processos e na cadeia de valor, visando entregar um
produto/serviço ambientalmente correto.
· Dimensão da governança: criação de soluções institucionais e
organizacionais, no setor público e privado, visando resolver impasses e
problemas quanto aos recursos ambientais.
A construção civil é um setor de grande impacto ambiental, gerador de muitos
resíduos. Nesse sentido, a ecoinovação, conforme apresentado até aqui, é um
modelo significativo e relevante quanto às práticas utilizadas para a construção de
edificações. Dessa forma, essa pesquisa será norteada pela abordagem da
ecoinovação a partir das dimensões de Carrilo-Hermosila, Gonzales e Könnölä
(2009), e analisada com base nas teorias apresentadas a seguir.
2.4 TEORIA SOCIOTÉCNICA E A PERSPECTIVA MULTINÍVEL (MLP)
Kemp e Rotmans (2010) argumentam que o problema ambiental quanto ao
acúmulo de poluentes aumenta em larga escala, cenário que necessita de respostas
mais abrangentes, envolvendo uma mudança nas cadeias de produção, em
sistemas de produto/serviço e nas maneiras de se consumir e viver. Nessa linha, os
autores defendem que é necessária uma inovação do sistema que vá além de
melhorias do sistema. Para isso acontecer, é preciso que ocorram mudanças nos
sistemas sociotécnicos, e não apenas nos componentes técnicos. Portanto, a
inovação do sistema está associada a novas conexões, novos conhecimentos,
regras e papéis diferentes, a uma nova “lógica de adequação”, e até a novas
Nessa linha de pensamento, analisar a transição para a sustentabilidade
requer uma visão ampliada, na qual se deve analisar além do técnico, da tecnologia,
olhando também para o social, para as regras em um contexto maior.
Por outro lado, Kemp e Rotmans (2010) justificam que é necessário um
processo de gestão para haver a transição e, nesse caso, vale usar o conceito de
uma transição em vez de inovação de sistema, pois a transição analisa:
1. O estado final (novo equilíbrio);
2. O caminho para o estado final, composto por diferentes fases;
3. Os problemas de transição gerados pelo processo de transição;
4. A ampla gama de desenvolvimentos internos e externos para um sistema
particular que molda os resultados.
O grande desafio entre os pesquisadores quando se fala em analisar um
sistema de transição para inovações sustentáveis, segundo Smith et al. (2010), é
encontrar uma perspectiva analítica sobre a inovação que busque entender os
processos de inovação que levam a transformações em sistemas sociotécnicos. Os
autores defendem duas vertentes: uma teoria para mudanças em larga escala na
tecnologia e sociedade, e outra que considera o pensamento orientado a problemas
de transições sustentáveis.
Nesse sentido, a teoria sociotécnica se encaixa em estudos que focam as
transições para inovações sustentáveis, como é o caso desta pesquisa, pois analisa,
além das mudanças tecnológicas, as transformações “sociais e técnicas” em
diversos níveis. Geels e Kemp (2005) afirmam que a perspectiva multinível decorre
da análise em diversos níveis que interagem no processo de mudança: a) Sistemas
Sociotécnicos: elementos tangíveis necessários para cumprir funções sociais; b)
Grupos Sociais: refinamento dos elementos sociotécnicos; c) Regras (regimes):
guiam e orientam as atividades de grupos.
Conforme a figura a seguir, pode-se perceber a integração das dimensões:
FIGURA 3 – TRÊS DIMENSÕES ANALÍTICAS INTER-RELACIONADAS: TEORIA SOCIOTÉCNICA
FONTE: Geels (2004, p. 903), tradução da autora
De acordo com Carstens (2016), a transição sociotécnica tem sua inspiração
em duas teorias principais. A primeira é a teoria institucional, ancorada em três
pilares institucionais: 1) Aspectos Regulativos (coercitivo e legalmente sancionado),
2) Aspectos Normativos (moralmente governado) e 3) Aspectos Cognitivos (mimético
e culturalmente sustentado). A segunda é a teoria da economia evolucionária,
segundo a qual o processo de inovação é um processo socialmente incorporado que
precisa ser compreendido no âmbito de suas relações de coevolução dentro do
sistema, em todos os níveis.
Smith et al. (2010) argumenta que a teoria sociotécnica tem suas origens na
literatura sobre as transições, que defende em grande parte modelos de mudança,
seguindo os neoschumpeterianos. Eles defendem que um determinado regime pode
dar lugar a novos, e que os desafios, se bem-sucedidos, podem ser seguidos pela
estabilização de um novo regime de longo alcance. Os períodos de estabilidade
geral alternam com períodos de mudança de regime. Nesse sentido, os autores
chamam atenção para dois processos de mudanças: variação dentro de regimes e
mudanças nos regimes.
Geels e Scot (2010) argumentam que a perspectiva multinível (MLP) entende
transições como resultados de alinhamentos entre desenvolvimentos em vários
níveis. A tipologia é baseada em variações e interações multiníveis, considerando
três níveis: 1) nichos de inovações; 2) regimes sociotécnicos; e 3) paisagem
sociotécnica.
Os principais autores da teoria da transição – Geels (2002, 2004, 2005),
Geels e Kemp (2007), Kemp e Rotmans (2010), Geels e Scoth (2010) – definem os
três níveis da perspectiva multinível (MLP):
1) Nichos de inovações: as inovações incrementais ou radicais são
incubadas e podem romper com o regime e se multiplicar. Aqui,
encontram-se as startups, instituições de ensino, empresas e bureaux de
criação, entre outros atores.
2) Regimes sociotécnicos: o regime pode constituir-se na trajetória da
tecnologia. É o nível de normas e regulações, envolve instituições
governamentais, federações, sindicatos e associações, entre outros.
3) Paisagem sociotécnica: ambiente exógeno que pode influenciar o regime
para desenvolvimentos tecnológicos ou inspirar os nichos. A paisagem é a
realidade e o statusquo da sociedade e dos regimes vigentes.
A figura 04 apresenta o movimento de transição sociotécnica atravessando os
três níveis. São visíveis as relações top down e down up entre os níveis, visando
romper com o regime e se estabilizar na paisagem.
FIGURA 4 – PERSPECTIVA MULTINÍVEL (MLP)
Segundo Markard et al. (2012), estudos sobre transição têm atraído vários
pesquisadores em diversos países, um cenário que tem ampliado esse campo
teórico. Para entender o contexto que envolve a transição para a sustentabilidade, é
necessário compreender a perspectiva sobre “transição”.
Como observa-se na literatura, a evolução sobre essa temática considerou,
entre outros aspectos, o direcionamento da transição unicamente tecnológica para
uma visão sociotécnica.
Essa abordagem vem ao encontro da análise das práticas de ecoinovação na
construção de edificações, à luz da perspectiva multinível, pois desenvolve um olhar
sistêmico para entender como nascem as inovações sustentáveis considerando os
nichos, as regulações existentes no regime, a assimilação pelas construtoras e
usuários e a estabilização e mudança de sistema. A teoria das práticas sociais
complementa, como veremos nesta pesquisa, a abordagem da transição
sociotécnica ao incluir os praticantes e os usuários também como responsáveis pela
ruptura do regime.
Vale lembrar que, segundo Geels (2011, p. 37), “as transições podem ser
estudadas para a análise de como práticas vêm sendo desenvolvidas, como elas
estão se estabilizando e como as práticas estabelecidas desaparecem”.
Nessa linha, desponta um grupo de pesquisadores que inclui Shove (2005),
Hargreaves et al. (2012), Whatsom (2012) e o próprio Geels, que defendem a
complementaridade entre as duas teorias, respeitando a diferença das ontologias. A
teoria sociotécnica na perspectiva multinível e a teoria das práticas sociais são
complementares para analisar transições e estabilizações de sistemas, conforme
será apresentado a seguir.
No documento
PRÁTICAS DE ECOINOVAÇÃO E A TRANSIÇÃO SOCIOTÉCNICA NA CONSTRUÇÃO CIVIL: UM ESTUDO DE CASO
(páginas 46-52)