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O termo quilombo aparece pela primeira vez na historiografia em 1740, quando o rei de Portugal, em resposta ao Conselho Ultramarino de 2 de dezembro do referido ano, definiu-o como “[...] toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões neles” (MOURA, 1993, p. 11).

Esse conceito resistiu durante muito tempo na definição de quilombo chegando a influenciar estudiosos do assunto até por volta da década de 1970, no Brasil. A educação foi uma via usada para divulgar esse conceito que permanece cristalizado no imaginário social de muitos até hoje.

Essas comunidades, definidas como agrupamentos de dois a três fugitivos, que poderiam chegar a milhares, não eram isoladas; elas possuíam organização social e atividade econômica camponesa voltada para a produção agrícola. Muitos habitantes dos quilombos cultivavam suas próprias terras e colocavam os produtos excedentes nos mercados locais, faziam trocas e tinham bons relacionamentos comerciais, porém:

A imagem do quilombo como comunidade isolada permaneceu com força nas interpretações historiográficas até os anos 1980. Estudos mais recentes têm destacado a mobilidade e principalmente a articulação de mocambos e quilombos com vários setores da sociedade envolvente. Era justamente tal capacidade de interação com outros setores sociais que mais atemorizava autoridades e fazendeiros (GOMES, 2006, p.124).

No Brasil, o termo quilombo vem sendo usado desde o período da colônia, passando por diferentes conceituações e, até os dias de hoje, o seu conceito e interpretação é um tanto

conflituoso, visto que “[...] falar dos quilombos e dos quilombolas no cenário político atual é, portanto, falar de uma luta política e, consequentemente, uma reflexão científica em processo de construção” (LEITE, 2000, p. 333).

Entre os séculos XVI e XIX, no Brasil, surgiram por toda parte inúmeros mocambos/quilombos. O principal e mais conhecido foi Palmares, localizado em Alagoas, na Capitania de Pernambuco. Segundo Gomes (2006), assim como nascia Palmares, renasciam aqueles primeiros palmarinos, recriando um novo mundo e, formados por africanos de identidades étnicas diversas e de línguas diferentes, engendravam-se por práticas culturais variadas:

[...] a cultura africana dos palmarinos constituía-se em algo novo. As práticas religiosas forjadas nos quilombos tinham traços de práticas mágicas e rituais de várias partes da África como trações dos indígenas e do catolicismo popular, aprendido nas senzalas. Aliás, parte dos africanos já tinha entrado em contato com o cristianismo na própria África, no início da ocupação européia. Esse sincretismo religioso dos palmarinos, demonstra bem como reelaboraram uma cultura própria e original naqueles quilombos. O passado africano era recriado. Quilombolas, não só africanos, mas também crioulos e os nascidos na floresta, reinventaram uma África no Brasil. Assim, forjaram um mundo próprio para viverem sua liberdade. Recriaram ali culturas e organizaram-se militarmente para combater os invasores. Estabeleceram-se igualmente práticas econômicas para garantir sua sobrevivência (GOMES, 2006, p.126).

Como organização comunitária, Palmares foi um lugar de resistência, de recriação e de reinvenção da vida, dos valores e das crenças, buscando marcar, com características culturais específicas, a territorialidade que trouxeram em seus corpos e em suas mentes, um novo território de sobrevivência e existência na construção da história brasileira do povo brasileiro.

Segundo Leite (2000, p. 340), os militantes procuram ver o conceito de quilombo como “[...] um elemento aglutinador, capaz de expressar, de nortear aquelas pautas consideradas cruciais as mudanças, de dar sustentação à afirmação da identidade negra ainda fragmentada pelo modelo de desenvolvimento do Brasil após a abolição da escravatura”.

De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), as comunidades quilombolas são grupos étnicos, predominantemente constituídos pela população negra rural ou urbana, que se autodefinem a partir das relações com a terra, o parentesco, o território (geográfico), a ancestralidade, as tradições e práticas culturais próprias.

Na Constituição Brasileira de 1988, o quilombo adquiriu uma significação atualizada, em que quilombo ou comunidades remanescentes de quilombos são termos usados para conferir direitos territoriais aos descendentes de escravos que estejam ocupando suas terras (BRASIL, 1988).

Leite (2000) nos diz que a expressão “remanescente das comunidades de quilombos”, que emerge na Assembleia Constituinte de 1988, é tributária não somente dos pleitos por títulos fundiários, mas de uma discussão mais ampla travada nos movimentos negros e entre parlamentares envolvidos nas lutas antirracistas. O quilombo é trazido novamente ao debate para fazer frente a um tipo de reivindicação que, à época, alude a uma “dívida” que a nação brasileira teria com os afro-brasileiros em conseqüência da escravidão, não exclusivamente para falar em propriedade fundiária.

Nascimento (1991), militante pioneiro do Movimento Negro, chama a atenção para a necessidade de medidas efetivas para a regulamentação do art. 68 do ADCT, da Constituição Federal de 1988, e enfatiza o aspecto coletivo do processo de reconhecimento da terra. O autor nos diz:

[...] a leitura que faz do artigo não deixa dúvida quanto ao fato de que é o grupo, e não o indivíduo que norteia a identificação destes sujeitos do referido direito. O que viria a ser contemplado nas ações seria então o modo de vida coletivo, a participação de cada um no dia-a-dia da vida da comunidade. Não é a terra, portanto, o elemento exclusivo que identificaria os sujeitos do direito, mas sim sua condição de membro do grupo (NASCIMENTO, 1991, p. 21-22).

Porém, isso não descarta a importância da terra, espaço geográfico, uma vez que ela está posta como condição de fixação, de permanência e, principalmente, como condição de sobrevivência. Mas a discussão precisa ir além da titulação da terra, visto que ganha a dimensão das relações sociais, da memória, dos modos de vida específicos, da história desse coletivo.

Diante dessas reflexões, entendemos, a partir dos estudos de Moura (1993), Leite (2000) e Oliveira (2005), que os quilombos são, desde sua origem, formas de organização social e de resistência, e não lugar de “escravizados fugidos”, como aprendemos por longo tempo na História do Brasil. Essa organização social se diferencia de outras por seu modo de viver, de fazer, de saber e de pensar específicos, de acordo com o contexto e a situação social em que está inserida.

3.4 TERRA, TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADE: CRIANDO E RECRIANDO