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CAPÍTULO 1 - DO QUILOMBO AO QUILOMBOLA

1.3 Comunidades Remanescentes de Quilombos: significados e

Por anos invisibilizadas em todo o território nacional, as comunidades quilombolas até pouco tempo ainda percorriam o imaginário social como grupos compostos por ex-escravos e ex-escravizados, mestiços e foragidos da justiça, que se refugiaram em regiões de difícil acesso para se libertarem das condições de exploração e opressão impostas pelo regime escravocrata, vivendo de modo comunal, sendo extintas com o pós-abolição. A partir da Constituição Federal de 1988 por meio do artigo 216 - § 5º e do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, essas comunidades passaram a ser notadas e revistas em todo meio acadêmico e político do Estado Brasileiro. O artigo 216 determina que:

Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais [...] § 5º Ficam tombados todos os

40 O‘DWYER, Eliane Cantarino. Quilombos – Identidade Étnica e Territorialidade. Editora FGV, 2002.

41 NASCIMENTO, Abdias. O Quilombismo. Petrópolis: Vozes, 1980.

documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos42.

E o artigo 68 determina que ―aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos‖.

Visando ao mapeamento desses grupos para fins de reconhecimento de direitos civis e preservação de sua história e memória, vários estudiosos, entre eles antropólogos, arqueólogos e historiadores, passaram a produzir estudos acadêmicos e pareceres técnicos sobre os referidos grupos. Esse novo arranjo classificatório trouxe muitas implicações e questionamentos ao processo de categorização e identificação desses grupos, sobretudo, a partir dos conceitos de quilombos e remanescentes. Pois, ora essas comunidades têm suas características atribuídas ao passado histórico, prevalecendo os traços da etnicidade ora têm suas atribuições relacionadas à questão fundiária de uso comum das terras. Arruti43 relata que a constituição de 1988 tratou da certificação dos direitos das comunidades remanescentes por meio de duas concepções bem distintas: uma de modo primordialista e a outra de maneira ressemantizadora. O referido autor destaca que essas oposições para classificação acarretaram de modo contundente o atraso para o reconhecimento dos grupos tanto no campo jurídico quanto no meio político, ou seja, consequentemente, originaram a demora pela oferta da garantia dos direitos territoriais os quais lhes foram destinados. Esse adendo pode ser confirmado a partir de uma tabela emitida no ano de 2021 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária44, que tratava do andamento das titulações das terras quilombolas. Essa tabela mostrava que o primeiro título expedido a uma comunidade remanescente de quilombo somente ocorreu em 1995, sete anos após a aprovação da Constituição. Além disso, outro impasse que se apresentou e apresenta para a salvaguarda dos direitos legais e políticos foi a ressemantização incorporada ao conceito. A incorporação do termo intensificou o estereótipo de que essas comunidades ainda vivem das sobras residuais do passado. Logo, não passam de uma lembrança de algo que não existe mais, já que o regime escravocrata acabou.

42 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, 5 1988.

Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 18 fev. 2021.

43 ARRUTI, J. M., op. cit.

44 BRASIL. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Títulos Expedidos às comunidades quilombolas. Disponível em: https://www.gov.br/incra/pt-br/assuntos/governanca-fundiaria/titulos_quilombolas_nov_2021.pdf. Acesso em: 18 jan. 2022.

A associação do quilombo com a fuga, o elemento da quantidade de escravos reunidos em um determinado local para se definir como um quilombo e a localização geográfica a partir da expressão ―em parte despovoada‖, levam a um entendimento de isolamento das comunidades e finalmente a uma relação de precariedade e transitoriedade.

Essa noção de quilombo foi utilizada até o início dos anos 90, quando um pesquisador da Fundação Cultural Palmares informou, através da grande imprensa, que o órgão teria uma definição para quilombo que serviria como base para os estudos futuros, especificando que, os quilombos seriam ―sítios historicamente ocupados por negros‖ em que fossem encontrados

―resíduos arqueológicos‖ e com ―conteúdos etnográficos e culturais‖. Entretanto, esse conceito perdeu seu sentido com as primeiras visitas técnicas realizadas por arqueólogos e arquitetos às comunidades, percebendo um claro confronto entre o ―aspecto de patrimônio histórico e as demandas apresentadas pelos grupos atuais‖45.

Ademais, a ressemantização do termo ―quilombo‖ foi aplicada pelo Poder Executivo Federal, através do Decreto nº. 4.887, de 20 de novembro de 2003, que regulamentou, após 15 anos, o artigo 68 do ADCT/88. O Decreto determinou como competência da Fundação Cultural Palmares (FCP), vinculada ao Ministério da Cultura, a certificação das comunidades quilombolas por meio de um critério de autodefinição, a partir da concepção da ancestralidade, trajetória e relação territorial específica de seus componentes.

Porquanto, sabemos que essas comunidades têm fortes laços culturais ligados ao passado, sendo exemplificadas na manutenção da prática de sua ancestralidade. Porém, eles tiveram que reinventar algumas de suas tradições para se manterem no presente como sujeitos ativos portadores de uma identidade étnica.

As reflexões sobre o fortalecimento da identidade quilombola podem ser mais bem compreendidas por meio dos estudos de Barth46 ao se reportar às fronteiras étnicas que delimitam e constroem o próprio grupo. Assim, quanto mais forte e unificado for o pertencimento étnico de um grupo, mais sólida será a sua identidade a nível político. Além disso, de acordo com Mello:

O termo qualificativo ―remanescentes‖ sugestivo por si só, pois revela a expectativa de encontrar, nas comunidades atuais, formas atualizadas dos antigos quilombos, como se elas fossem estáticas ao tempo. Assim, a categoria remanescente de quilombos não se referiria à sobra do passado,

45 ARRUTI, José Maurício. Relatório técnico científico sobre os remanescentes da comunidade de quilombo de Cangume município de Itaóca-SP. São Paulo: 2003.

46 BARTH, F. Grupos Étnicos e suas fronteiras. In: POUTIGNAT. P. Teorias da etnicidade. São Paulo: UNESP, 1998.

nem a uma cultura congelada no tempo, mas à utilização dessa forma de identificação por coletividades em busca de reconhecimento no presente47.

Visto isso, apesar de tamanha confusão entre o binômio memória e direito, a constituição de 1988 teve um saldo positivo ao promover o redirecionamento e a visibilidade desses indivíduos não mais como pertencentes a grupos extintos e marginalizados, mas como sujeitos ativos e contribuintes da formação nacional do país. Conforme Arruti, o termo Remanescentes das Comunidades dos Quilombos, é ao mesmo tempo um ato de reconhecimento jurídico de criação social, estabelecido por dois conceitos: quilombo e reconhecimento. De acordo com o autor:

A categoria ―remanescentes de quilombos‖ foi criada pelo mesmo ato que a instituiu como sujeito de direitos (fundiários e, de forma mais geral,

―culturais‖) e, nesse ato, o objeto da lei anterior a ela ou, de um outro ângulo, nele o direito cria seu próprio sujeito. O artigo 68 não apenas reconheceu o direito que as comunidades remanescentes de quilombos têm as terras que ocupam, como criou tal categoria política e sociológica por meio da reunião de dois termos aparentemente evidente48.