escravos fugidos que ficava na Tabatinga, que já tinha sido destruída algumas vezes, mas que sempre voltava para o mesmo lugar. (Osmar - Tabatinga)
Ambos os relatos subvertem a história oficial da cidade, pondo abaixo uma versão que, claramente, foi a dos vencedores. De acordo com a narrativa frequentemente reproduzida pelos moradores do bairro, a história que aborda a fundação de Bom Despacho tem como enredo a vinda de três portugueses que fizeram uma promessa à chamada Nossa Senhora do Bom Despacho ou Nossa Senhora do Sol, ao chegarem a uma das três colinas que constituem, ainda hoje, o núcleo da cidade.
Os dados estatísticos mais antigos sobre a população negra de Bom Despacho datam de 1813, no qual registrou-se ali um total de 1.532 habitantes, dos quais 973 eram pretos e mulatos, perfazendo um percentual de 63,51%, ou seja, mais da metade da população78.
Além da negação de direitos sociais, o atentado contra os direitos civis também expõe o esvaziamento da condição humana da população negra nas d cadas subsequentes à formalização da Abolição. No que se refere ao agrupamento quilombola de Bom Sucesso, as fontes orais produzidas por Moreira79 reiteram as investidas de extermínio comandadas pelos fazendeiros e outros poderosos locais.
Segundo Dona Sebastiana80, esses fazendeiros promoveram um grande massacre do qual Dona Sebastiana sobreviveu porque seu tio-avô jogou (literalmente) a família dentro de um buraco na terra, que serviu de esconderijo. Esses fazendeiros julgaram que o aniquilamento da população estava completo, mas a família de Dona Sebastiana sobreviveu, e quando os fazendeiros saíram das terras, a família de Dona Tiana ainda continuava escondida e sobreviveu a base de batatas e pequenos animais caçados na mata.
Em relação ao nome da comunidade, a palavra ‗Carrapatos‘, pesquisadores do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), realizaram uma entrevista com Dona Sebastiana, e perguntaram de onde vinha esse nome, Carrapatos, e ao que ela respondeu:
―É..eh eh... Meu neto fez essa pergunta pra mim... eh...por que Carrapato?
[...] Meus antepassado [furaram o buraco] deles no chão...fizeram o subterrâneo e entrou pra lá. E [plantou] até em cima, né... então tinha um tampo que era só mato mas era tampo e eles ficou ali até passar a época da...
judiação, da matação, né... de medo... entendeu? Aí quando passou a época eles colocou pra fora aí...pois é...o apelido de quilombo dos Carrapatos é porque matou matou, mas ainda ficou um carrapatinho ainda agarrado...que foi a minha família da minha vó‖81.
De acordo com Sandra Andrade82, filha de Dona Sebastiana, sua mãe dizia que dias após os massacres, as pessoas de sua família saíra, destes buracos e repovoavam o território, fato que surpreendeu os fazendeiros, que se assustaram ao verem aqueles quilombolas
―brotarem da terra como carrapatos‖.
Dona Tiana foi a primeira de sua família nuclear a deixar o quilombo, indo para a casa de uma tia, no Rio de Janeiro. Algum tempo depois, um tio conseguiu um emprego para o pai dela, na Estrada de Ferro Paracatu, com o intuito de retirá-lo da exploração dos
79 MOREIRA, A., op. cit..
80 Entrevista realizada em 22 de outubro de 2018, na casa de Dona Sebastiana, na cidade de Bom Despacho, Minas Gerais.
81 IPHAN-USP. Disponível em: http://www.fflch.usp.br/dl/indl/transcricao_detalhe.php?id=55&idc=163. Acesso em: 16 jun. 2021
82 Entrevista realizada em 22 de outubro de 2018, na casa de Dona Sebastiana, na cidade de Bom Despacho, Minas Gerais.
fazendeiros de Bom Sucesso. Sobre a saída da terra do Quilombos dos Carrapatos, Dona Tiana contava que
Passados certos anos, meu tio arrumou emprego na ferrovia. Aí foi lá na tal de fazenda, buscar meu pai. O senhor não deixou... Ele saiu só com a roupa do corpo. O senhor ainda falou com meu pai: ―Cê pode ir, desgraçado, mas daqui uns dias você volta‖. Mas meu pai era muito devoto de Nossa Senhora de Nazar , ele tirou o chap u e disse: ―Eu tenho f em Deus e em Nossa Senhora de Nazaré que eu nunca mais volto aqui‖. E Deus ajudou que ele pegou na rede (ferroviária)83.
Depois que seus pais saíram dos Carrapatos, Dona Sebastiana ficou muito tempo sem ir a Bom Sucesso, mas alguns de seus parentes continuaram na cidade, abandonando o território dos Carrapatos, enquanto outros migraram para diferentes cidades. Dentre seus familiares destaca-se Ana Cândido de Jesus, chamada carinhosamente por Dona Tiana de Tia Dinha que, após sair do território dos Carrapatos, mudou para o centro da cidade Bom Sucesso, mas possuía o desejo de voltar para o quilombo.
Dona Sebastiana mudou-se de volta para Bom Despacho no ano de 1966 e foi residir no bairro da Tabatinga que, neste momento, ainda era considerado um bairro rural de Bom Despacho com pouca infraestrutura84 cujas ruas eram de terra e cujas casas eram construídas com palhas e barro branco da Tabatinga. A paisagem era formada por ruas estreitas, abertas no mato entre os morros e as casas, as quais eram construídas afastadas uma das outras. Na época de sua mudança, a Tabatinga era habitada, majoritariamente, por indivíduos negros.
Nesse contexto, ela abriu em sua casa o Centro Espírita Mártir São Sebastião, dado que ela já era reconhecida por seus poderes de cura no Centro-Oeste Mineiro. O Centro era frequentado por pessoas de Bom Despacho e região que ouviam falar sobre a Mãe Sebastiana.
Ela era filha de São Sebastião, santo do qual ela carregava o nome, e do orixá Oxóssi. Por meio do Centro, Dona Sebastiana conhecia muitas pessoas importantes da cidade e, com isso, sua influência crescia mais e mais a cada dia. Foi a partir desse prestígio que ela iniciou sua luta pelos direitos do povo negro e quilombola.
Percebemos que as falas de Dona Sebastiana, que eram os principais meios de expressão e difusão de seus saberes, comparam-se com a reverência dos Mestres Doma,
83 Entrevista realizada em 30 de agosto de 2018, na casa de Dona Sebastiana, na cidade de Bom Despacho, Minas Gerais.
84 QUEIROZ, S., op. cit..
descritos por Hamp t B 85. Realizamos essa comparação, pois tratam-se de povos que possuem a palavra falada como principal modo de transmissão de conhecimentos. É por meio dessa ligação do sujeito com a palavra que se apresenta a memória para Dona Sebastiana.
Dito isto, pode-se dizer que Dona Sebastiana habitava a memória de seu povo e tinha essa memória como um ponto de partida para quaisquer tomadas de decisões86.