A Comunidade Quilombola Dona Juscelina (Muricilândia-TO), se autorreconhece como quilombolas e recebeu a certificação de autodefinição como remanescentes de quilombo pela FCP através da Portaria nº 51 de 24 de março de 2010.
Em vinte e cinco de março, às oito e meia da noite, do ano de dois mil e oito foi realizada a reunião que oficializou a criação da Associação da Comunidade Quilombola Dona Juscelina. Em 14 de outubro de 2009 a comunidade quilombola recebeu a Certificação de Auto definição, em que a comunidade se auto define como remanescente de quilombo, esse documento foi expedito pelo Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro- Brasileiro, órgão da Fundação Palmares e em 23 de outubro de 2010 constituiu-se juridicamente a entidade [...]. (BORGES, 2015, p. 14).
De acordo com informações coletadas na Associação da Comunidade Quilombola Dona Juscelina, há 235 famílias cadastradas, com 830 membros. Onde, boa parte dos membros encontram-se segregados na área urbana de Muricilândia (TO), em razão de processos de expropriação territorial que compõe a maior luta do grupo étnico que trataremos na próxima seção, além de discutirmos historicamente como se deu esse processo de ocupação de terras através da Romaria Negra Popular que culminou com a construção de um território quilombola, e ainda falaremos um pouco da vida de Dona Juscelina, a matriarca quilombola.
3 TERRITORIALIDADE E MATRIARCADO NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DONA JUSCELINA.
O estudo de um grupo social de característica tradicional nos leva a ater-nos as suas tradições para entender sua dinâmica. Mas para se compreender as tradições é preciso entender como elas surgiram e se estabeleceram e como acontecem suas exposições.
É nessa dinâmica que as tradições permanecem por gerações, repetindo suas práticas simbólicas e seus rituais com referências ao passado, mantendo os valores de um povo. Sempre que acontecem transformações sociais na sociedade podem surgir novas tradições, pois também é uma continuidade de um passado histórico mantido pela memória social de um determinado grupo, mesmo que haja elementos artificiais.
Sobre memória, entendemos que é uma faculdade que todo indivíduo já nasce dotado, quando transmitida é decisiva para a afirmação do processo identitário, caso haja rupturas “[...] é a sociedade como um todo que se transforma e que conhece uma mudança social sob a forma de desorganização ou mutação.” (CANDAU, 2016, p. 120).
Sendo assim, a memória constrói a identidade, que é um estado individual de cada pessoa, e isso significa que nem todos os membros de um grupo social compartilhem do mesmo estado identitário.
De qualquer forma, os membros do grupo social que possuem o sentimento de pertença de uma dada cultura como defende Saquet (2007), constroem suas espacialidades e/ou territorialidades.
Deste modo, a Festa 13 de Maio, mobiliza uma parte dos membros quilombolas, porém, não toda a comunidade. Pode ser que nem todos os quase mil membros compartilham de um mesmo nível do sentimento de afetividade, confiança e reconhecimento como mantém Saquet (2007), porém, neste trabalho não investigamos as razões pelas quais o rito não consegue mobilizar todo o grupo.
Joel Candau (2016) pondera que as tradições, também se tornam peças da identidade, pois, remete-se a um passado atualizado no presente e legitima aspectos culturais tradicionais que são repassados oralmente de geração em
geração. Caso contrário o autor entende que serve apenas como objeto nostálgico e sem sentido até desaparecer da vida do grupo.
As tradições da CQDJ mantém a identidade, carregando pedaços do passado, ressignificados no presente. Deste modo, discutiremos a diante, as territorialidades da comunidade quilombola, o processo de territorialização, bem como entender um pouco da trajetória territorial de Dona Juscelina, a portadora da tradição que mais nos importa neste trabalho, a Festa 13 de Maio, um elemento identitário tão caro para os quilombolas do grupo.
3.1 Um povo de cultura afrodescendente funda o município de Muricilândia-TO.
Para entendermos a formação da Comunidade Quilombola Dona Juscelina, é preciso nos remeter a “Romaria Negra Popular” como é conhecida pelo grupo, a qual deu origem ao município de Muricilândia (TO), haja vista que é fundado por um grupo de pessoas que carregam traços da cultura afrodescendente e que nesta localidade produzem um território quilombola.
Numa perspectiva antropológica, pensamos suas condutas territoriais e a definimos como territorialidades: “[...] o esforço coletivo de um grupo social para ocupar, usar, controlar e se identificar com uma parcela específica de seu ambiente biofísico, convertendo-se assim em seu território [...]” (LITTLE, 2002, p. 3).
Para explicar essas territorialidades dos quilombolas, utilizaremos o conceito da cosmografia.
[...] inclui seu regime de propriedade, os vínculos afetivos que mantém com seu território específico, a história da sua ocupação guardada na memória coletiva, o uso social que dá ao território e as formas de defesa dele. (Op. cit., p. 4).
Neste sentido, pensamos que os fatos históricos podem influenciar diretamente nas relações do grupo social com o território, causando fortes mudanças, dentre elas estão os movimentos migratórios, e para cada movimentação é necessário ativar a memória para atender as novas circunstâncias como salienta Little.
A maneira específica como cada grupo constrói sua memória coletiva dependeria em parte da história de migrações que o grupo realizou no
passado. A memória espacial nem sempre se refere a um lugar primordial de origem do grupo, mas pode se modificar para atender a novas circunstâncias e movimentos. (LITTLE, 2002, p.11).
Destarte, é necessário os grupos etnicorraciais estarem constantemente ativando a memória para o estabelecimento da identidade que pode ser construída e reconstruída, o sentimento de pertencimento deve ser constantemente recriado e legitimado.
Neste sentido, a memória territorial pode ser reproduzida gerando novas territorialidades de acordo com cada movimentação. Em nosso caso de estudo, a comunidade quilombola passou por processos migratórios, Borges aponta:
A história de Muricilândia é construída a partir da exegese de dois eventos notadamente protagonizados por negros, a fundação do povoado e configuração histórica da Comunidade Quilombola Dona Juscelina (CQDJ) abrigando negros e negras que se autodefinem como remanescentes quilombolas.(BORGES, 2015, p. 10).
Foi em 1952 que em Muricilândia chegaram os primeiros habitantes, se designando como romeiros e retirantes nordestinos, através de um processo de ajuntamento de pessoas dirigiram-se em rumo desconhecido com a missão de encontrarem as “Bandeiras Verdes”26, que eram terras inexploradas e devolutas, onde o grupo de migrantes as buscavam para estabelecerem-se territorialmente.
Composto prioritariamente por romeiros do “Padim Ciço” ou Padre Cícero Romão Batista de Juazeiro do Norte-CE27, importante líder religioso nordestino
26 Ver Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976). Padre Cícero “[...] dotado de certa cultura e de conhecimentos muito superiores aos daquele meio, seus conselhos, em que sabedoria se aliava a bom senso e finura, e que cobriam todos os aspectos da existência, promoveram a melhoria daqueles que o seguiram [...]” (p. 255). Romeiros de todo o sertão nordestino fluíam para Juazeiro do Norte-CE para buscar uma benção com o Padrinho Ciço ou pedir conselhos. Entre os conselhos de Padre Cícero, se destaca o de encaminhar grupos de pessoas em busca de terras inexploradas (Bandeiras Verdes), mais especificamente em Cariri para a Serra de Araripe e de São Pedro no sertão nordestino. As ocupações coletivas, retalhavam as terras e as transformavam em pequenas propriedades. O termo “bandeiras” explica-se como mutirões para realizar qualquer trabalho; “[...] para corrigir a falta de braços que impedia esta transformação agrícola, reviveu o trabalho em comum [...]” (Op. cit., p. 263).
27 Ver Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976). Líder carismático da Igreja Católica, nascido nos sertões de Cariri no Ceará, viveu entre os anos de 1844-1934. Em 30 de novembro de 1870 foi ordenado padre e se instala em 1972 na cidade que ajudou a fundar, Juazeiro do Norte-CE, onde permanece até 1934 quando veio a falecer. Realizador de milagres nessa cidade, permanece até hoje como um local místico para onde afluem romeiros de outras partes do país.
inspirador do movimento messiânico que cultivava a religião e fé cristã e a busca pela terra, numa alusão bíblica28.
3.1.1 Romaria Negra Popular.
Tempo bom foi o que passou Aqui era mata fria No tempo da romaria Que o Padre Cicero deixou.
Toda noite tinha a reza do terço
De sexta para sábado Penitência a noite inteira
De sábado pra domingo Penitência a noite inteira De domingo pra segunda
Penitência a noite inteira E as vezes dez rosário Pra rezar segunda-feira.
Dia de sábado não se trabalhava
Segunda também não Domingo se rezava Sem falar dos dias santos E quando a chuva não deixava/E todos tinham fartura Porque Deus abençoava29.
A cantiga em epígrafe expressa à cultura religiosa que influenciou fortemente a comunidade negra antes mesmo da fundação do núcleo demográfico que formaram às margens do rio Muricizal. A romaria faz-se presente na Comunidade Quilombola Dona Juscelina até os dias atuais, as penitências já não são tão intensas como dantes, mas acontece sempre.
Os romeiros a definem como “Romaria Negra Popular” por conter traços da cultura afrodescendente, seus sujeitos são negros e seguem o catolicismo sincrético30, pois, com a chegada do africano ao Brasil foi-lhe imposta a prática da religiosidade católica, e a mesclagem entre cultura religiosa cristã dos colonos e a africana resultou nessa profissão de fé.
Desta forma, a romaria possui um marcante elemento cultural antropológico citado por Gomes (2016), que é a presença do incognicível, ou seja, o sagrado, que surge mais forte que seu oposto, o profano.
28 A Bíblia no Antigo Testamento relata o movimento migratório dos povos judeus em busca da terra prometida, eram povos sem-terra que buscavam estabelecer-se territorialmente.
29 Título da música:O começo da história. Autor: Manoel Borges dos Santos (Griô da CQDJ). 30 Ver Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976) e Jaime Pinsky (1989).
O depoente Francisco de Paula Pereira de Sousa é filho de João Francisco de Sousa (o fundador de Muricilândia-TO) que juntou-se ao grupo de romeiros em Araguaína (TO), para manter a história preocupou-se em repassar oralmente para os filhos e para a comunidade detalhes de como ocorreu o processo que culminou com a fundação do município de Muricilândia (TO), além de relatar como era a vida nos primeiros anos quando instalaram-se na localidade.
Nos relatos do quilombola percebemos riquezas de detalhes em tudo que apreendeu oralmente numa transmissão de saberes, o escutamos e percebemos que falava como se tivesse vivido tudo que relatou, embora apenas partes fazem parte da sua memória vivida.
[...] Muricilândia, ela começou de uma romaria, ela começou de uma proposta religiosa. Então, em Araguaína apareceu uma senhora, retirante do nordeste, uma beata do Padre Cícero que se chamava Antonia Parnaguá. E essa beata trazia uma espécie de profecias de Padre Cícero dizendo que tinha incumbido ela de descobrir um morro, hoje é conhecido como o Morro da Velha ali em Aragominas. E ela dizia que Padre Cícero tinha mostrado pra ela numa revelação que em cima do morro tinha um cruzeiro, um crucifixo, que segundo nosso pai ele dava mais ou menos um palmo [...]. (Entrevista: Francisco de Paula Pereira de Sousa, 2018).
O depoente nos relata que a senhora Antonia Parnaguá, beata e líder do grupo de migrantes, mas que seu verdadeiro nome é Antonia Barros de Sousa, sob – inspiração divina – iniciou a romaria no final da década de 1940 que culminou com a fundação de dois municípios, Aragominas e Muricilândia (TO). No Mapa 03 constam os pontos da trajetória espacial da romaria negra.
O Ponto A – registra a partida dos romeiros do Povoado Brejinho distrito do município de Filadélfia (TO). O Ponto B – a parada do grupo às margens do córrego Jacuba na atual cidade de Araguaína (TO), onde montaram acampamento aguardando o período chuvoso cessar. O Ponto C – apresenta o Morro Santo, onde desenvolveram um núcleo populacional e atualmente é o município de Aragominas (TO). O Ponto D – a sedentarização dos romeiros que seguiram adiante dos que ficaram no “Pé do Morro” e que formaram a CQDJ a partir de um núcleo populacional que atualmente é o município de Muricilândia (TO).