Mapa 06 – Percurso da Alvorada e do Cortejo do Rebolado
2 IDENTIDADE E TERRITÓRIO TRADICIONAL: ESCRAVISMO, ABOLIÇÃO E
2.1 Interfaces entre culturas e territórios tradicionais
O termo cultura vem do latim, e traz uma ideia de erudição e refinamento, advindos da aquisição de conhecimentos de várias áreas científicas somando isso a uma postura social que responda as etiquetas impostas pelas classes sociais dominantes, isso seria ter cultura como discorre Gomes:
Primeiramente, cultura é vista como se fora sinônimo de erudição. Cultura seria a substantividade de ser culto, e isso quer dizer possuir conhecimento e demonstrar refinamento social. Tal conhecimento estaria nas áreas de Literatura, Filosofia, História, etc.; e o refinamento seriam os modos de comportamento, a etiqueta social como atributo de classe social superior. Esta é, na verdade, a acepção original da palavra cultura tal como concebida pelos romanos (cultura é palavra latina que vem do verbo colere, cultivar). Era muito usada, tempos atrás, quando as classes alta e média brasileiras sobrevalorizavam o conhecimento humanístico, a retórica e o comportamento dito refinado como símbolos de status social. (GOMES, 2016, p. 33, grifos do autor).
Porém, consequentemente essa definição de cultura provoca diferenças entre pessoas e povos e despreza os conhecimentos, saberes e modos de vida populares. Mércio Gomes (2016) aponta as principais categorias que definem cultura e identifica entre essas correntes os pontos que são reconhecidos pela antropologia como: (i) as diversas manifestações e produções artísticas; (ii) hábitos e costumes que representam e identificam um modo de ser de um povo; (iii) sistemas de coisas inconscientes que determina o modo como as pessoas se comportam. Portanto, em concordância com a ampla definição estabelecida pelo o autor, visto que os diversos sistemas culturais compõem-se em níveis complexos. Neste sentido, Gomes conceitua o termo cultura como:
Cultura é o modo próprio de ser do homem em coletividade, que se realiza em parte consciente, em parte inconscientemente, constituindo um sistema mais ou menos coerente de pensar, agir, fazer, relacionar-se, posicionar-se perante o Absoluto, e, enfim, reproduzir-se. (Op. cit., p. 36).
O autor defende três aspectos culturais antropológicos: (i) para o ser humano a cultura parte de uma autonomia e a existência de uma descontinuidade de sua natureza animal, e que as linguagens como sistemas de símbolos e significados são pensadas a partir de uma compreensão de mundo, a língua é o veículo do pensar de uma determinada cultura e de comunicar, compartilhada mesmo que
inconscientemente por uma comunidade; (ii) há a existência do absoluto que é algo incognicível, é a presença do sagrado em toda cultura e seus opostos é o profano; (iii) a reprodução cultural ocorre de duas formas - biologicamente através dos sujeitos da coletividade que dada cultura está assentada e através da transmissão dos significados culturais para as novas gerações.
Quanto a definição do termo cultura, vejamos também as análises de Williams (1992) que discute desde a antiguidade quando apenas caracterizava-se como processos de cultivo de vegetais ou criação de animais, estendendo-se no século XVI para o cultivo da mente humana, que se tornou no século XVIII o que denomina o autor de um modo de vida global para determinado povo.
Raymond Williams analisa o termo a partir da forma contemporânea de convergência de interesses culturais, que carrega os elementos: as práticas culturais constitutivas e ênfase numa ordem social global. Portanto, ampliando os sentidos de culturas para a antropologia além da sociologia e para a construção de significações.
Assim, há certa convergência prática entre (i) os sentidos antropológico e sociológico de cultura como „modo de vida global‟ distinto, dentro do qual percebe-se, hoje, um „sistema de significações‟ bem definido não só como essencial, mas como essencialmente envolvido em todas as formas de atividade social, e (ii) o sentido mais especializado, ainda que também mais comum, de cultura como „atividades artísticas e intelectuais‟, embora estas, devido à ênfase em um sistema de significações geral, sejam agora definidas de maneira muito mais ampla, de modo a incluir não apenas as artes e as formas de produção intelectual tradicionais, mas também todas as „práticas significativas‟ – desde a linguagem, passando pelas artes e filosofia, até o jornalismo, moda e publicidade – que agora constituem esse campo complexo e necessariamente extenso. (WILLIAMS, 1992. p. 13, grifos do autor).
Nesta perspectiva, Williams nos leva a compreensão de que as culturas dos diferentes povos e sociedades possuem o seu próprio modo de vida global, e devem ser entendidas como práticas sem juízos de valor ou hierarquias. Entretanto, o termo culturas deve ser empregado assim no plural, para quebrar qualquer possibilidade de singularidade, pois, existe uma grande diversidade.
Clifford Geertz (1989) também nos orienta a interpretarmos os sistemas simbólicos a partir das significações de determinada cultura, que em nosso caso de estudo agrupa os modos de vida global, tradições e representações artísticas. Nesta direção, para se entender os aspectos territoriais é necessário projetar as análises nos elementos culturais, como direciona o autor:
[...] Quando vista como um conjunto de mecanismos simbólicos para controle do comportamento, fontes de informação extra-somáticas, a cultura fornece o vínculo entre o que os homens são intrinsecamente capazes de se tornar e o que eles realmente se tornam, um por um. Tornar-se humano é tornar-se individual, e nós nos tornamos individuais sob a direção dos padrões culturais, sistemas de significados criados historicamente em termos dos quais damos formas, ordem, objetivo e direção às nossas vidas [...]. (GEERTZ, 1989, p. 37).
Assim, o autor define o impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem/mulher, ou seja, vale a máxima – o ser humano é um ser cultural. Desta maneira, os sistemas culturais ou a cultura de um dado grupo e o que os diferencia de outros grupos é a identidade cultural que carrega, que em nosso estudo trata-se de uma identidade etnicorracial.
O reconhecimento da cultura para o Estado nacional brasileiro é defendida na Constituição Federal (CF) no artigo 215: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” (BRASIL, 1988, p. 126).
No artigo 216 da CF (BRASIL, 1988), aponta os bens materiais e imateriais que são portadores de referências à identidade, à ação e à memória como patrimônio cultural brasileiro. Dentre os elementos que se incluem de cultura tradicional são: formas de expressão, modos de criar, fazer e viver, criações artísticas, objetos, edificações e espaços de manifestações artísticos-culturais.
O Estado também defende no corpo do texto da CF (BRASIL, 1988) a cultura que especificamente estamos falando que é a afro-brasileira, porém no “[...] limite da folclorização da cultura [...]” (ARRUTI, 2006, p. 71).
Para definir povos e comunidades tradicionais, o Decreto n° 6.040 (BRASIL, 2007)4
estabeleceu no terceiro artigo que são:
Grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição. (BRASIL, 2007, S/P).
4 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007- 2010/2007/decreto/d6040.htm>. Acesso em: mai. 2017.
Nesta direção, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR)5
do Ministério da Justiça e Cidadania define quem são os povos tradicionais do Brasil:
Quilombolas, ciganos, matriz africana, seringueiros, castanheiros,
quebradeiras de coco-de-babaçu, comunidades de fundo de pasto, faxinalenses, pescadores artesanais, marisqueiras, ribeirinhos, varjeiros, caiçaras, praieiros, sertanejos, jangadeiros, ciganos, açorianos, campeiros, varzanteiros, pantaneiros, caatingueiros, entre outros. (SEPPIR, 2017, S/P, grifo nosso).
Estas comunidades tradicionais são culturalmente diferenciadas, pois são possuidoras de identidades que as fazem gerarem fronteiras culturais que as separam das que não a são, e há também as fronteiras físicas que delimitam seus territórios. Portanto, suas expressões culturais a partir de seus modos de vida, com seus hábitos, costumes, tradições, transmissões de saberes e fazeres, mantém e fazem perdurar seus sistemas culturais e “[...] não é somente uma questão de herança do passado nem é feita da experiência presente; ela corresponde, talvez, antes de tudo, a uma projeção no futuro [...]” (BERDOULAY, 2012, p. 122). Sobre culturas, o autor traz a definição francesa.
[...] Encontramos, então, o significado da palavra culture como ela prevaleceu em francês: é relacionada ao esforço que o indivíduo faz sobre si mesmo para melhor compreender o mundo e interagir com ele, para se enriquecer pessoalmente e para agir com sabedoria. A cultura é uma questão de sentido, de trabalho sobre si, de tensão entre si e o mundo, enfim, de afirmação do sujeito. (Op. cit., p. 120, grifo do autor).
Neste sentido, em sua obra Berdoulay aponta eixos culturais: (i) as culturas como noção de totalidade imposta aos indivíduos do grupo ao qual pertencem; (ii) e a cultura como noção de fenômeno individual e que significado há para os indivíduos as práticas culturais do grupo a que pertencem. Em nosso caso de estudo, sendo um grupo social de cultura étnica quilombola, buscaremos compreendê-la a partir do segundo eixo apontado pelo o autor, onde nos orienta entender essa cultura a partir das individualidades de seus sujeitos. Sendo possível analisarmos as atitudes dos quilombolas nas dinâmicas das práticas identitárias da comunidade, para o fortalecimento das relações simbólicas territorializantes.
5 Disponível em: <http://www.seppir.gov.br/comunidades-tradicionais/o-que-sao-comunidades- tradicionais>. Acesso em: jan. 2017.
Nesta direção, Hall (2006) discute que uma das concepções de identidade trata-se do sujeito sociológico, onde a cultura é entendida pelo autor como – valores, sentidos e símbolos, influenciando os sujeitos por sua interação com a identidade que está inserido.
[...] O fato de que projetamos a „nós próprios‟ nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando- os „parte de nós‟ contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. (HALL, 2006, p. 11-12, grifos do autor).
Stuart Hall reforça que a identidade unifica o sujeito à estrutura cultural a que pertence e que não é definida biologicamente e sim historicamente. De forma, que são as relações sociais que moldam os traços identitários. Entretanto, atualmente as identidades estão passando por processos de fragmentação que fazem com que o sujeito venha se compor de “[...] várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas [...]” (Op. cit., p. 12). O autor sustenta que são as mudanças estruturais, institucionais além do próprio processo de identificação que são questões problemáticas que impactam as identidades tornando-as mais variáveis.
Entendemos que as identidades são capazes de produzirem suas territorialidades, assim, esta pesquisa trata de um elemento territorializante da CQDJ, que é a Festa 13 de Maio, onde abordamos suas nuances entre cultura e território. Neste sentido, para entender o território que é resultante das relações espaço-temporais, seguimos a orientação de Saquet (2007) em favor da trilogia tempo-espaço-território. O autor defende que as mudanças no tempo também proporcionam mudanças no espaço e por isso essa é uma relação una.
É nesta direção que os estudos podem destacar traços do tempo histórico e do coexistente evidenciando os períodos e as relações sociais. Nesta perspectiva, fica evidente que “[...] não é a geografia que faz a história, mas, ao contrário, é a história que faz a geografia revelando, através do tempo, as potencialidades de um rio, de uma planície ou de uma montanha [...]” (RAFFESTIN, 2015, p. 22).
Desta forma, é plenamente possível associar duas áreas do conhecimento, a história e a geografia, realizando uma “[...] abordagem múltipla do território [...] considerando as dimensões sociais e a incorporação da natureza na territorialização.” (SAQUET, 2015, p. 71).
Rogerio Haesbaert (2007) nota que a geografia propõe sempre manter a ênfase na dimensão material do território, que tem como primeira dimensão, a cultural, e só depois é que vêm às dimensões política e econômica, embora isso não seja determinante e até questionável como alerta o autor, em razão desses apontamentos defende.
[...] a realidade contemporânea, dominada pelo mundo das imagens e das representações, acabou incorporando com certa ênfase no próprio âmbito das proposições geográficas uma visão „mais idealista‟ de território. (HAESBAERT, 2007, p. 24, grifo do autor).
Em relação a categoria espaço, as considerações teóricas mais aceitas no Brasil o concebe como espaço geográfico, e os territórios o constitui. Neste sentido, “[...] o espaço geográfico é considerado, em geral, como a grande categoria da geografia, como algo universal, sempre presente na formação de cada lugar, juntamente com o tempo [...]”. (SAQUET, 2015, p. 71-72, grifo do autor).
Claude Raffestin defende que na relação espaço-território há diferenças, mas também há reciprocidade e unidade, porém essas duas categorias não são unas. Espaço e Território não são termos equivalentes e nem sinônimos, “[...] É fundamental entender como o espaço está em posição que antecede ao território, porque este é gerado a partir do espaço [...]”. (2015, p. 22). Nesta perspectiva, o território é pensado como o resultado das tramas dos sujeitos históricos sobre o espaço.
Dessa maneira podemos, finalmente, diferenciar minimamente o território do espaço. Para nós, sucintamente, há pelo menos três processos que, ontologicamente, estão na base desta diferenciação: a) as relações de poder numa compreensão multidimensional, constituindo campos de força econômicos, políticos e culturais ([i-]materiais) com uma miríade de combinações; b) a construção histórica e relacional de identidades; c) o movimento de territorialização, desterritorialização e reterritorialização [...]. (SAQUET, 2015, p. 78, grifos do autor).
Neste sentido, para destacar o conceito de território é necessário que a pesquisa se atenha aos elementos: poder e identidades, além da tríade Territorialização, Desterritorialização e Reterritorialização (TDR). Porém, em nosso estudo damos uma atenção especial à identidade étnica que gera seu campo simbólico de acordo com o desenvolvimento cultural de cada tempo histórico.
Noutras palavras, Saquet destaca que no território há uma variedade de sujeitos com relações que podem ser recíprocas, contraditórias e de unidade, e que podem ocorrer no lugar, com o lugar, com outros lugares e com outros sujeitos. De forma que o que determina as bases do território são: “[...] as redes de circulação e comunicação, as relações de poder, as contradições e a identidade [...]” (2007, p. 158, grifo nosso).
Deste modo, os territórios dos povos tradicionais apesar do atual desenvolvimento tecnológico, carregam técnicas de produção advindas de seus ancestrais e imprimem sobre o território suas especificidades que constituem sua identidade, que “[...] se refere à vida em sociedade, a um campo simbólico e envolve a reciprocidade. Na geografia, significa, simultaneamente, espacialidade e/ou territorialidade” (Op. cit., p. 147, grifo do autor). Sob a perspectiva geográfica, o autor define identidade como:
[...] a identidade é trabalhada a partir da dificuldade de adaptação de um indivíduo em situações novas ou como um modo de ser coletivo [...] Uma pessoa pode se adaptar e se identificar em um novo contexto social ou um grupo social pode construir sua identidade, com relações de afetividade, confiança e reconhecimento [...]. (Op. cit., grifos do autor).
Entretanto, o autor nos traz o alerta de que nem sempre as relações de afetividade e confiança estarão presentes de forma duradoura em determinada comunidade, podendo surgir as contradições, mas na identidade as relações são coletivas e contínuas.
Marcos Saquet também afirma que as identidades são componentes fundamentais para a constituição territorial. Seguindo as concepções do autor consideramos que a conservação e reprodução dos traços identitários dão um sentido de continuidade histórico-cultural e simbólica. Nesta direção, apontamos para a categoria de análise escolhida, sendo o território de uma comunidade tradicional.
A seguir trazemos algumas considerações sobre o sequestro de africanos na África e sua diáspora para o Brasil, a escravização e o processo que culminou com a abolição. Buscamos entender como estes povos imprimiram sua cultura em outra localidade gerando novas realidades espaciais e territórios com valor de uso.