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3 COMUNITARISMO: A RESSIGNIFICAÇÃO DE COMUNIDADES PARA COMUNIDADES CÍVICAS

2 FUNDAMENTOS DO DIREITO DAS SUCESSÕES

3 COMUNITARISMO: A RESSIGNIFICAÇÃO DE COMUNIDADES PARA COMUNIDADES CÍVICAS

As relações sociais hodiernas são marcadas pela fragilidade e pela instabilidade dos vínculos que ligam os indivíduos entre si, de modo que os sujeitos raramente pertencem inteiramente a algum grupo de que participam. A esse propósito, a passagem do autoritarismo para a democracia política em meados dos anos 80 foi marcada pela falta de cultura cívica na sustentação da sociedade, pela mitigação da vida associativa, pelo escasso número de partidos de massa e pela ausência de regras e instituições confiáveis para assegurar a concretização de um sistema democrático. Nessa perspectiva, Wanderley Guilherme dos Santos aduz que “a erosão das normas favorece a desconfiança que em breve se faz acompanhar do temor da convivência social. Os laços de solidariedade se diluem, e os indivíduos se voltam para si próprios, recusando-se ao convívio social. O privado se sobrepõe ao público”. Logo, a transição do regime militar para a democracia coincide com a urgente necessidade de formação de cidadãos.11

É justamente nesse ímpeto que aparece o movimento comunitarista, ao reforçar o aspecto humanitarista, solidário e intersubjetivo das relações sociais, propondo uma ressignificação do conceito de sociedade e comunidade, que passam a ser concebidas a partir da ótica do bem comum. Para Semeraro, a corrente comunitarista volta-se à sociedade civil com um discurso que busca resgatar as relações humanas e estimular a integração social, superando qualquer manifestação liberal, abstrata e universalista.12

O principal fundamento apresentado pelo comunitarismo é a valorização dos vínculos sociais que, através da sensação de pertença à determinada comunidade, molda a identidade dos indivíduos. A formação cívica torna o cidadão prédisposto a contribuir para a garantia de uma vida digna para todos os membros da comunidade, de modo que é impossível pensar na realização plena do indivíduo fora do contexto comunitário. Bauman afirma que “ter a consciência de que não estamos sozinhos e de que as nossas aspirações pessoais são compartilhadas por outros pode trazer um sentimento de segurança”.13

A ideia de pertencimento a uma comunidade, conforme Taylor, é anterior ao processo que confere direitos aos indivíduos. A aquisição da identidade de sujeitos autônomos, detentores de direitos, não pode ser obtida de forma espontânea, uma vez que é resultado de práticas comuns, de modos de reconhecimento em uma vida análoga, de deliberações conjuntas, visto que o ator moral autônomo não alcança a sua identidade senão quando inserido em algum tipo de cultura. Taylor recorre ao que designa de “identificação patriótica”, para designar o sentimento de pertencimento a uma comunidade de valores compartilhados. Para o autor, o

11 VIANNA, Luiz Werneck et al. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 1999, p. 150-153.

12 SEMERARO, Giovanni. Gramsci e a sociedade civil. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 259.

13 BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 60.

patriotismo republicano permanece sendo uma força na sociedade contemporânea.

Esse patriotismo republicano, ao expressar os valores comuns compartilhados, conjetura uma cidadania que resgata, atualiza, participa e garante a aplicabilidade dos direitos fundamentais, exercendo influência no processo de deliberação pública.

Por conseguinte, de acordo com a concepção de Taylor, o patriotismo republicano pode ser traduzido na noção de cidadania ativa.14

Milton Santos refere a importância de ultrapassar a reconstrução solitária do indivíduo para transformá-la em uma ação social solidária, pois a individualidade se viabiliza no grupo, na coletividade. Outrossim, o egoísmo não contribui para a purificação da vida social, e somente em uma sociedade verdadeiramente humana é que as individualidades desenvolvem-se satisfatoriamente. Platão já afirmava na República e Marxm no Manifesto, que “somente na Pólis, em comunidade com outros, o homem é capaz de cultivar em todas as direções todos os seus dotes, afirmando a sua liberdade, pois não há liberdade solitária”.15

Pode-se ser livre estando sozinho, mas não se pode exercer a liberdade na solidão. É na interação com o grupo, em comunidade, que se encontram as ferramentas para multiplicar as forças individuais, a partir da organização. Dessa forma, expande-se o campo de luta e um contingente cada vez maior de pessoas toma consciência do sentido e do valor de uma iniciativa, rompendo com a alienação em que estavam imersos.16

A palavra comunidade alcançou grande evidência nos dias atuais, sendo utilizada para descrever unidades sociais que variam de aldeias, conjuntos habitacionais e vizinhanças até grupos étnicos, nações e organizações internacionais. Indicam um grupo de atores sociais que integram uma área geográfica limitada e que interagem em conformidade com princípios peculiares, possuindo um senso comum de interdependência e integração.17

A comunidade deve ser concebida como o lugar de formação e de fortalecimento dos vínculos entre os seus membros, pelo fato de compartilharem da mesma história e dos mesmos interesses, articulando-se por meio do sentimento de pertença ao grupo, de confiança mútua e de cooperação. Nesse ínterim, a comunidade é uma unidade que possibilita a construção constante de consensos a partir de deliberações racionais e pacíficas, pelo fato de considerarem os conflitos como fenômenos que dizem respeito a toda a coletividade e não apenas à determinada classe.

No entanto, o conceito de comunidade, atualmente, transformou-se em algo quimérico, distante do alcance dos indivíduos de carne e osso. Contudo, deseja-se resgatá-lo e (re)conquistá-lo, tendo em vista que ele remete a tudo o que se sente falta e de que se busca para viver com segurança, tranquilidade e confiança, pois o mundo

14 CITTADINO, Gisele. Pluralismo, direito e justiça distributiva: elementos da filosofia constitucional contemporânea. 4. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 162-163.

15 SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 4. ed. São Paulo: Nobel, 1998, p. 78.

16 Ibid., p. 79.

17 BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento Marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, p. 115.

atual parece apresentar cada vez menos condições de fornecer os mecanismos para desfrutar uma vida feliz. Por isso, afirma-se que “comunidade é nos dias de hoje outro nome do paraíso perdido, mas a que esperamos ansiosamente retornar, e assim buscamos febrilmente os caminhos que podem levar-nos até lá”.18

Nesse viés, desponta o modelo de “comunidade cívica” idealizada por Putnam, que tem por fundamento a valorização da corresponsabilidade, da colaboração e do altruísmo, enquanto valores necessários e aptos para estabelecer redes integrativas entre os cidadãos.19 Na comunidade cívica, a solidariedade, a reciprocidade e os laços comunitários imperam sobre o capitalismo, o corporativismo e os jogos de interesses políticos. Para Putnam, uma comunidade cívica se caracteriza, em primeiro plano, pela participação dos indivíduos nos negócios públicos, tendo em vista que

“os cidadãos buscam o que Tocqueville chamava de ‘interesse próprio corretamente entendido’, isto é, o interesse próprio definido no contexto das necessidades públicas gerais, o interesse próprio que é sensível aos interesses dos outros”.20

A comunidade cívica parte do pressuposto da cidadania, enquanto exercício igualitário de direitos e deveres pelos indivíduos. O associativismo que move as comunidades cívicas torna as relações horizontais edificadas na reciprocidade e na cooperação, em detrimento de relações verticais consubstanciadas em autoritarismo e dependência. Uma comunidade será mais cívica e mais política no momento em que se aproximar do ideal de igualdade política e propiciar aos indivíduos a participação no governo através de regras de reciprocidade. Logo, as lideranças comunitárias devem ser responsáveis pelos seus concidadãos.21

Para ser possível a viabilização de verdadeiras comunidades cívicas é preciso que, além de capital humano, esteja presente também o capital social, ao pressupor relações mais estreitas entre os cidadãos, voltadas à solidariedade e a objetivos comuns. Ao se instituir vínculos recíprocos com a família, com os amigos e com os membros da comunidade, atribui-se vida ao capital social e ao princípio básico da boa sociedade, o que pode ser refletido através do amor, da lealdade e do cuidado com os demais. O dever e a prioridade de tratar as pessoas como fim requer muito mais do que a mera igualdade de oportunidades, pois se pretende alcançar um mínimo básico satisfatório para todos.22

Com efeito, é preciso ter em mente que uma comunidade cívica não deve ser concebida como um lugar de compreensão mútua, livre de problemas, em que as discussões são amigáveis e pacíficas e os interesses sempre voltados em

18 BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 9.

19 PUTNAM, Robert D. Comunidade e Democracia: a experiência da Itália moderna. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2002, p. 100.

20 Ibid., p. 101-102.

21 Ibid., p. 102.

22 ETZIONI, Amitai. La tercera via. Traducción de José Antonio Ruiz San Román. Madrid: Trotta, 2001, p. 15-16.

prol da coletividade.23 Embora a essência do comunitarismo evoque todos esses pressupostos e suponha a concretização de um ambiente seguro, harmônico, em que haja confiança recíproca entre os cidadãos membros, sabe-se que a marca do ser humano é a imperfeição, e, portanto, o dissenso é inerente a todas as comunidades.

Por isso, é a partir do (re)estabelecimento da comunicação racional voltada ao entendimento e à construção de acordos que se verificam as condições necessárias para a ressignificação de comunidade para comunidade cívica.

No mundo globalizado, os indivíduos ocupam uma posição de interdependência em relação aos demais, de modo que a ninguém é possibilitado ser senhor do seu destino por si mesmo, já que existem tarefas que não podem ser desempenhadas individualmente. Apesar dos limites e barreiras que separam e distanciam os cidadãos, os desafios da vida só poderão ser enfrentados satisfatoriamente quando os esforços forem empregados coletivamente24. Nessa perspectiva, propícias são as palavras de Bauman:

Se vier a existir uma comunidade no mundo dos indivíduos, só poderá ser (e precisará sê-lo) uma comunidade tecida em conjunto a partir do compartilhamento e do cuidado mútuo; uma comunidade de interesse e responsabilidade em relação aos direitos iguais de sermos humanos e igual capacidade de agirmos em defesa desses direitos.25

Do suscitado, percebe-se que há um movimento na base da sociedade que aponta para uma vida compartilhada por princípios e valores comuns, outorgando valor e reconhecimento às diferenças. O que se persegue é oferecer um tratamento para a cidadania, em conformidade com os preceitos da solidariedade, consubstanciado como princípio ético e como mecanismo de fortalecimento das relações comunitárias.

A corrente comunitarista afirma que seria possível resgatar o senso de fidelidade presente nos tempos remotos, desde que se aceitasse uma política do bem comum, estimulando todos os cidadãos a participarem livremente dela e a deliberarem racionalmente acerca de seus interesses.26 Convencer os indivíduos sobre algo no mundo da vida através do uso da razão implica em ajudá-los a atingirem a sua própria autonomia e cidadania.27

Os melhores resultados de bem-estar e inclusão social são aqueles obtidos com o aprofundamento dos laços de confiança, reciprocidade e cooperação entre os membros da comunidade, a fim de que essas se transformem, de meros locais de vivência, em bons e estimáveis espaços de convivência em que as relações e

23 BAUMAN, Zigmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 59.

24 Ibid., p. 133-134.

25 Ibid., p. 134.

26 KYMLICKA, Will. Filosofia política contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 277-298.

27 BAUMAN, Zigmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p 74.

os vínculos sociais são fortalecidos diariamente, visando inspirar novas formas de participação na elaboração de políticas públicas orientadas para a promoção da cidadania de todos os indivíduos. O fortalecimento do capital social evidencia o comunitarismo, por trazer o emponderamento e a emancipação da comunidade, o que conjetura o poder do cidadão em influenciar as decisões que lhe são relevantes, transformando o seu meio social em uma comunidade democrática, participativa do processo político, autodeterminada, autorresponsável, capacitada para a articulação de seus interesses. Quando os cidadãos participam ativamente dos processos decisórios, tornam-se protagonistas de sua própria história, não ficando atrelados às iniciativas que lhe são simplesmente impostas pelo poder dominante.

O exercício do princípio da solidariedade vem sendo fortemente defendido pela doutrina atual, no sentido de que deve haver relações mais estreitas entre os cidadãos, voltadas a interesses comuns de uma coletividade em detrimento de benefícios exclusivamente subjetivos. Waldron é enfático ao aduzir que muitos objetivos somente podem ser efetivados no momento em que exista uma combinação de ações entre vários indivíduos, oportunidade em que a fundamentação racional deve ser utilizada não apenas para os seus propósitos, mas de uma maneira que contribua para a excelência no julgamento do grupo ou da multidão a qual pertence. Nesse diapasão, com a (re)introdução do princípio da solidariedade no contexto atual, é possível se pensar na implementação do comunitarismo.28

No instante em que os atores sociais deixarem-se levar pelo princípio da solidariedade, construindo uma sociedade fundada em novos valores e ideais, sobretudo no que diz respeito à busca pelo interesse geral, deixando para trás os interesses viciados sustentados pelo capitalismo e pelo corporativismo, será possível uma concreta participação popular, que se efetivará a partir de processos comunicativos reflexivos entre os cidadãos, e, assim, concretizar-se-á o ideal da comunidade cívica. A linguagem é a marca da natureza política do homem, ocorrendo onde existam muitos falantes contribuindo para a conversação. No entanto, o homem, em seu estado de natureza ou enquanto movido pelo egoísmo e pelo individualismo, não é capaz de lograr racionalidade e êxito na comunicação e em seu consentimento, encontrando-se muito distante dos pressupostos do comunitarismo que marcam a Constituição Federal de 1988.

4 A PRESENÇA DO IDEÁRIO COMUNITÁRIO NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE

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